A espera do cara

Cruzes, que sol! Pensou o cara, na praia, enquanto esperava. Estava sem dinheiro. Já bebera duas águas de coco na base do fiado. O barraqueiro desconfiava, mas aceitou o pedido. O cara tinha consciência de que as dívidas cresciam na praia, mais do que cogumelos em dias de chuva. Mas ele esperava. Na espera, tinha esperança. Se o mundo fosse absolutamente determinado, a esperança seria um ato de desespero; por isso, tinha esperança de que, no mundo, existisse uma brecha, isto é, antes da pura determinação, houvesse um acaso fundador — a repetição do acaso criaria a necessidade, filosofou, antes de terminar o coco. Sua esperança, naquele momento, era apenas uma manifestação de uma esperança primordial.

O cara ficou noiado com a possibilidade de que a metafísica da esperança fosse uma ilusão. Se fosse uma ilusão, sabia que esperava em vão.

O mundo podia ser aberto, mas o calor fechava tudo. Havia qualquer coisa de demente naquela temperatura. Inclusive, aos poucos, o cara esquecia do que, afinal, esperava.

_Esperar o que ou quem?! Perguntou ao barraqueiro
_Eu só espero meu dinheiro.
_Pelo menos, você sabe o que esperar.
_Pois é…

O cara tomou mais uma água de coco, enquanto esperava. O barraqueiro, intuitivamente,  descobria que caía numa armadilha.

_A espera, no fundo, é uma promessa — disse o cara ao barraqueiro.
_Tenho medo de sua promessa. Você está apenas diminuindo o peso da imprevisibilidade. Você promete pagar o que deve, mas o futuro é totalmente incerto; por isso, tentando corrigir essa incerteza fundamental, você promete.

O cara meneou a cabeça. O barraqueiro sabia do que falava. Em alemão, promessa é versprechen, que também significa lapso…

_Prometer é um ato falho — completou magistralmente o pensamento do narrador, o barraqueiro.

O cara achou muito estranho o narrador entrar assim no meio da estória. Não gostou.

_Você completou o narrador.
_Completei, uma ova! E os cocos?

O cara estava achando esquisito o vocabulário do barraqueiro — ele era um outro. O cara, também, não falava desse jeito. Ele era outro. A conversa era para ser banal, completamente prosaica. Não era pra ser esse lodo filosófico. Toda conversa é um exílio, no fundo, mas toda compreensão implica a responsabilidade…

_Porra, pára com isso, narrador!
_Não sou “narrador”. Sou um barraqueiro, que vende cocos e que, ainda, não foi pago.
_Não falo com você, rapaz.
_Fala com quem, então?! Pode endoidar à vontade, contanto que pague meus cocos.
_Os cocos são da Natureza, da Deusa Gaia, avatar, avatar!

_Porra, tá vendo?! Eu não disse essa idiotice! Foi o narrador.
_Esse tal de narrador vai pagar meus cocos, por acaso?

O cara olhou o barraqueiro. Ali, com narrador ou sem narrador, para o bem ou para o mal, ali houve…

Ops!

_Vá, vá, continue, já tomei mesmo a decisão… — disse o cara, meio desanimado.

… esse fiat lux que é a decisão, esse ato de vontade que mata toda discussão, a pura prática…

O cara olhou pra cima, mandou uma dedada e saiu correndo, pegando o narrador  de surpresa. Sem o cara não tinha estória, não tinha espera, não tinha nada. O que escrever, agora?! O constrangimento literário foi grande. Além do mais, como acabar a estória?

O barraqueiro se arretou, olhou pra cima e disse:

_Ô, meu chapa, você vai pagar meus cocos?!

Ninguém respondeu.

_E meus cocos, carai?!

De repente, o céu inteiro começou a tremer, e o barraqueiro escutou uma voz tonitruante:

_Ah, vá se danar!

O céu tremia e estava vermelho. De toda parte, começou a cair uma chuva de meteoritos radioativos. Não sobrou nada, apenas um buraco fumegante. Não ficou vestígio algum do barraqueiro.

O narrador sabia que não era a melhor forma de acabar a estória. O ato final fora vulgar. Apelara, enfim. E já sentia os efeitos colaterais da resolução. Começara a existir, desde a fuga do cara, um narrador do narrador. Era um efeito de linguagem impossível de se evitar.  O narrador, estando na narrativa, cria um outro narrador. O perigo é uma cadeia infinita de narradores, assustando os personagens. A infinitude do comentário sem fim e do comentário do comentário, esse duplo que, na interpretação do Talmud…

CABROOM!

(…)

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