Os Marcadores
Os gays venceram. Sei, é uma frase retumbante e, admito, um tanto exagerada. Mas venceram — o que posso fazer, senão reconhecer o fato?! Numa linguagem gramsciana, impuseram sua hegemonia. Marcaram posição em todos os campos da masculinidade; aliás, a masculinidade é, agora, uma circunstância indefinível que existe de forma ambígua. O espaço da virilidade é um campo minado por minas cor-de-rosa. Um passo em falso, principalmente para trás, meu chapa, pode ser fatal. Não marque bobeira, pois bobo, você já é, e muito! O perigo de sofrer gozações extremas é alto. A autoestima pode baixar de vez, durante muito tempo.
Reparem no venerável bigode, símbolo máximo de todos os simbolismos homínidas. É gay! Hoje, um ostrogodo, um godo do leste, seria confundido com um visigodo, um godo do oeste – para um bom entendedor, basta. Digo mais: atualmente, é comum confundir o brado de reconhecimento de um chefe corso com um… javali! A confusão é grande, sem dúvida. Por isso, tentei alertar Perrusi Pai sobre a ambiguidade contemporânea do bigode:
_Rapaz, cuidado com o bigode.
_Bigode?! Quem é bigode?!
_Os pêlos que nascem sobre o lábio superior, meu pai.
_Ah, pensei que fosse Bigode, da seleção de 50.
_Não, não…
_E daí, o bigode?
_Sabe como é que é, né?!
_Não, não sei como é que é.
_Freddie Mercury matou o bigode.
_Matou?!
_Não, não é isso. Quero dizer que Freddie Mercury usava um baita de um bigode.
_O que é que tem?
_Nada, só estou dizendo.
_E quem é Freddie Mercury?!
_Deixa pra lá…
Meu pai não sabe do perigo, coitado.
Os gays tomaram conta do corpo masculino. O corpo, deles e ninguém tasca, porque viram por último. A virilidade foi desconstruída, ou melhor, desmilinguiu-se a tal ponto que virou um atributo… gay. A situação ficou paradoxal, pois ser efeminado também é… gay. O que nos restou? Gordura, muita gordura; um gosto pronunciado pela fritura; uma barriga imensa de cerveja; muita vulgaridade e insensibilidade; uma inhaca entranhada; muito peido e muito arroto. Sim, notei que peidar e arrotar muito é o cúmulo da heterossexualidade.
Atualmente, por exemplo, comprar uma roupa tornou-se uma demarcação de território. Depois de um tempão sem comprar roupas, mas preocupado com a minha imagem — o que, convenhamos, é uma preocupação sujeita a questionamentos — pedi a um amigo, que é um entendido da teoria queer, que fizesse uma lista de marcadores. O que é um marcador? Ora, é um sinal qualquer na roupa, esbravejando sua condição gay. É um termo da moda, muito importante, no momento, nas classificações sociais. Sendo uma construção social, o marcador muda o tempo todo.
Daí a noia, tá ligado?! Tem que ficar antenado nas mudanças. Mas, na hora da compra, não se pode relativizar um marcador. Há um marcador na roupa? Decida-se, meu chapa, ou saia do armário de vez ou não leve a roupa.
Assim, muito gentil, meu amigo me deu uma exaustiva lista de 150 marcadores.
_150?! Como, 150?! – gritei, surpreso.
_E olhe que fui comedido – disse meu amigo, dando uma rápida piscadela.
_Mas é impossível encontrar uma roupa que não tenha pelo menos um desses marcadores!
_Quase impossível. Fique sem roupa, queridinho, ande nu – deu mais outra piscadela.
_Veja, pare com essas piscadelas, que você me deixa nervoso. Fiz um pedido de amigo. Não me complique.
_Tá certo. Mas roupa agora é assim. Aliás, roupa boa é assim. Se quiser sem marcador, vá na Renner, na Riachuelo ou C&A.
_Eu sempre compro lá mesmo. Só que, agora, queria uma roupa um pouco mais cara e boa. Que tal a Seaway?
_Nossa, totalmente gay!
_Roupa cara ou a Seaway?!
_As duas…
_Certo, certo, não quero mais roupa cara, só uma um pouco melhor. Mas a Seaway não é uma loja de surfista?
_Surf agora é moda gay. Aquela prancha, aqueles corpos… – e, sem querer, deu uma piscadela.
_Cacetada! Antigamente, surfista, no máximo, era maconheiro.
_Maconha é bi!
_Aaah…
Fiquei pensando. Onde comprar roupas, afinal?! Roupas sem um dos 150 marcadores. De repente, encontrei o lugar, a loja onde compraria minhas camisas:
_E a Hering?
Ele pensou, pensou, fez beicinho, e disse:
_Huum, e aqueles dois peixinhos? Peixinho é tão gay…
_Os peixinhos são HTs. Um casal HT. E não têm marcadores, naquelas camisas básicas.
_Tem baby-look.
_Não compro baby-look.
_Ah, então, pode. Compre aquelas camisas “polo”, horrorosas e sem graça.
_Isso, camisa polo. Adoro camisa polo.
_Cuidado com a cor.
_Quais são as cores que não são marcadores?
_Preto ou cinza. Ou bege.
_Adoro essas cores.
_Gostar de cor é gay, e bege, queria te enganar, é HSH – e deu uma risadinha.
_Detesto cores.
No fundo, ele parecia desapontado. A hegemonia parava ali na Hering e seus peixinhos HTs. Ele sabia que tinha perdido uma batalha. Eu esperava que ele esquecesse da guerra.
Antes de ir embora, soltei um pum barulhento e fedegoso.
Ele detesta quando faço isso…

12 de março de 2010, às 14:26h
Ha!
Eu sabia que aquele post com arrobas politicamente corretas em abundância era pressão demais e que a coisa acabaria explodindo pelo outro lado! Só foi mais rápido do que eu pensei.
Teu amigo esqueceu de te avisar: preto também é super gay. Você por acaso já viu algum gay estiloso que não usasse um pretinho minimalista?
Não tem jeito, Arture, o melhor é relaxar.
12 de março de 2010, às 14:40h
Fujo de um pretinho minimalista. Resta o cinza. Se alguém colocar que o cinza tem problema, eu mato.
Procuro uma roupa sem cor. Meu reino por uma roupa sem cor!
Mas, Cynthiazoca, temos que enfrentar os apoderamentos excessivos.
12 de março de 2010, às 14:59h
Por falar em marcadores doe aquela sua camisa estampada. Ela é um grito de todos os marcadores ¬¬’
Use branco, branco não é gay.
12 de março de 2010, às 17:06h
Ana Paula,
branco é a síntese de todas as cores do arco-íris, o símbolo gay por excelência. Quase tão complicado quanto a camisa estampada.
Rapaz, não sei não. Acho que ele vai ter que ficar entre o marrom e o bege.
E cuidado com os degradês! Degradê também não é coisa de macho.
12 de março de 2010, às 18:46h
Jamais usei uma camisa estampada! Isso é intriga da oposição. Invenção do Instituto Millenium.
E detesto branco!
Eu uso povilho granado como desodorante, entenderam?! Não há coisa mais HT do que povilho granado — a última fronteira!
12 de março de 2010, às 23:51h
Cynthia eu havia me esquecido desse grande detalhe do branco. Realmente é a junção de todas as cores do arco-íris. O jeito é Artur se exilar numa daquelas comunidades naturistas. E você tem sim uma camisa estampada daquelas bem gay. haha
13 de março de 2010, às 10:17h
Foi o photoshop! Foi o photoshop que fez a camisa ficar estampada! Em suma, intriga da oposição!