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Marina e Avatar
Marina queria ser assim
Marina Silva, candidata à Presidência da República, gostou de Avatar (aqui). Ela gostou mesmo. Faço algumas citações:
A guerreira na’vi bebendo água na folha como a gente bebia.
Bonito essa identificação aquática.
Me tocou muito ver a guerreira na’vi ensinando os segredos da mata. Veio à mente minhas andanças pela floresta com meu pai e minhas irmãs.
Não consegui aprender nenhum segredo da floresta com a guerreira Na’vi. Fui na floresta, aquela que está dentro da UFPB, e não consegui fazer nenhuma relação entre a sua vegetação e a da floresta de Pandora. São planetas diferentes, penso eu. Além do mais, o ar de Pandora é venenoso. Acho essa informação importante, politicamente: Pandora é venenoso para os humanos.
É incrível revisitar, misturada à grandiosidade tecnológica e plástica de Avatar, a nossa própria vida, também grandiosa na sua simplicidade.
Minha vida é menos simples do que complicada. É uma pena, pois queria ser simples, sem complicação. Para o bem ou para o mal, não consegui fazer relação alguma entre a babaqu… ops! o filme Avatar e a minha vida.
Chorei diversas vezes e um dos momentos mais fortes foi quando derrubam a grande árvore. Era a derrubada de um mundo, com tudo o que nele fazia sentido
Não chorei e, agora, estou com uma baita consciência de culpa. Posso ainda chorar?
E, em seguida, a grande beleza da cena em que, para ser novamente aceito no grupo, tem a coragem de fazer algo fora do comum, montando o pássaro que só o ancestral da tribo tinha montado, num ato simbólico de assunção plena de sua nova identidade.
Tive acesso ao roteiro original. O herói foi morto pelo bicho monstruoso. Ele arrancou seu coração e o comeu. Foi um final mais dramático e mais realista.
Impossível não fazer as conexões entre o mundo de Pandora, em Avatar, e nossa história no Acre.
Rapaz, não consegui perceber relação alguma entre Avatar e a história do Acre. Sou um insensível, e a ignorância nutre minha alma.
A ficção dialoga muito profundamente com a realidade.
Sei… o planeta é vivo. Na verdade, a ficção dialoga com o realismo mágico da ecologia profunda.
Encontrei na tela, em 3D e muita beleza plástica e criatividade, um laço profundo e emocionante com a nossa saga no Acre, com Chico Mendes. E percebi que, assim como no filme, éramos considerados praticamente alienígenas, não humanos, não portadores de direitos e interesses diante dos que chegavam para ocupar nosso espaço.
Marina apelou. Não se deve invocar, em vão, o nome de Chico Mendes .
No Acre nos deparamos com muitos que viam nossos argumentos como sinônimo de crendices, superstição. Coisa de gente preguiçosa que seria “curada” pelo suposto progresso de que eles se achavam portadores.
Se os argumentos eram do naipe da profundidade política de um representante do povo Na’vi… sei não. No Acre, gritava-se “Eywa, Eywa, Eywa”?! O fanatismo telúrico como política ecológica, eis a questão.
A força está em, de certa maneira, nos levar a sermos avatares também e a tomar partido, não só ao estilo do Bem contra o Mal, mas em favor da beleza, da inventividade, da sobrevivência de lógicas de vida que saiam da corrente hegemônica e proclamem valores para além do cálculo material que justifica e considera normais a escravidão e a destruição dos semelhantes e da natureza.
Achei meu “povo”
E, se nada mais tenho a dizer sobre Avatar, quero confessar que aquele povo na’vi tão magrinho e tão bonito foi para mim um alento. Quando fiquei muito magra, na adolescência, depois de várias malárias e hepatite, me considerava estranha diante do padrão de beleza que era o das meninas de pernas mais grossas, mais encorpadas. Sofria por ser magrinha demais, sem muitos atributos. Agora tenho a divertida sensação de que, finalmente, achei o meu “povo”, ainda que um pouco tarde. Houvesse os navi na minha adolescência e, finalmente, eu teria encontrado o meio onde minhas medidas seriam consideradas perfeitamente normais.
No roteiro original, os Na’vi eram obesos e comedores de carne crua. Em tese, não tenho nada contra os gordos — será que são ecologicamente incorretos? Tudo bem, queria ser bonito como um Na’vi, embora os ache altos demais.
Marina é uma Na’vi, uma extraterrestre. Além de ser ambígua com o criacionismo, curte a deusa Gaia. Identifico-me com outra cepa ecológica e faço outro elogio à razão. E, como Prometeu, odeio todos os deuses, em particular, os da moda, especialmente, Gaia.
Pelo menos, decidi que não votarei nela; sim, por puro sectarismo, confesso.
Acho que estou de mau humor…
PS: Avatar é uma mistura malfeita de clichês: os “avatares” de Matrix, as aeronaves de Guerra nas Estrelas, os bichos de Parque Jurássico, tendo como pano de fundo um sincretismo vulgar que combina misticismo ecológico, mito do bom selvagem, tecnofobia e anticapitalismo. Mas as cenas são lindas, de fato.

















Bem, não sou muito indicado pra falar sobre Avatar. Dormi uns 20 minutos e não perdi absolutamente nada, quando acordei estavam todos fazendo exatamente as mesmas coisas de antes… Mas como Marina, tb chorei… de raiva.