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Os filhos dos outros

4 comentários

Algo me incomoda nos filhos dos outros, independentemente da faixa etária. Eles são tirânicos, mas de uma tirania diferente, uma tirania do fraco. Conheci um bebê, por exemplo, que manipulava seus pais do berço. Aquele ser pequenino parecia tão frágil… e era, sem dúvida; no entanto, massacrava os parentes da forma mais cruel possível. Os coitados, de tanto servi-lo, estavam só o bagaço. Não eram gente; eram escravos – pior ainda: personificavam o exemplo mais abjeto da servidão voluntária. Estavam sem dormir, cansadíssimos e paranoicos, desconfiando de todos, principalmente da babá — projetavam na babá sua paranoia e, no fundo, seu preconceito de classe. Seus olhos fundos de cansaço tornavam-se rútilos de raiva quando se tentava, racionalmente, jogar a culpa no bebê. Chamá-lo de cínico, por exemplo, deixaria qualquer um próximo do linchamento.

Preocupado, tentei até falar com o bebê. Não adiantou. Era tão egoísta, que não estava nem aí para minha tentativa de diálogo. Foi aí que o bicho ofereceu-me aquele sorriso amoroso. Quase fui seduzido pelo farsante. Dei-lhe um beliscão e disse baixinho: _comigo, não, violão. Vá manipular os bestas dos teus pais! Saquei, contudo, uma coisa: ele utilizava uma tonalidade de choro que deixa os pais absolutamente malucos. É um choro sacana, um chorar por chorar, uma espécie de som que atrai, irresistivelmente, os pais ao berço, sempre preocupados e paranoicos. O choro não significa nada. Não é fome, não é dor, nem é incômodo, muito menos alguma necessidade fisiológica – é prazer sádico.

Os filhos dos outros não são apenas bebês – há os adolescentes dos outros. Morro de medo de tais criaturas. Posso estrangular um bebê, colocá-lo num micro-ondas, mas, com os adolescentes, a empreitada é bem difícil. São criaturas mil vezes mais ardilosas do que um bebê. E são orgulhosas de seu poder. Os pais dos adolescente dos outros já não são servos voluntários, e sim escravos com intensa consciência crítica. É uma crítica desesperada, sem esperança, que entra num beco sem saída e bate num muro. Desejam uma liberdade impossível. Ruminam a expectativa de que os adolescentes tornar-se-ão um dia, afinal, jovens e adultos, embora esqueçam que tais seres não sairão necessariamente de casa, mesmo já grandes. Ledo engano. Além do mais, atualmente, a adolescência pode durar até os 30 anos de idade – conheço adolescentes de até 40 anos, mas isso é outro papo. Somente tornam-se adultos quando, enfim, já de saco cheio, levam os pais ao merecido descanso no asilo de velhos. É um visível sinal de maturidade a expulsão dos pais de suas casas — das casas dos pais, claro. Não é mais o mercado de trabalho, nem a filiação, o começo da passagem à vida adulta, e sim a ida dos velhos ao asilo.

Os adolescentes dos outros levaram o igualitarismo moderno ao seu paroxismo. Todos são iguais perante a educação. Sua ideologia é o construtivismo pedagógico. Um adolescente é tratado como um indivíduo autônomo, um produto do iluminismo doméstico, mesmo por pais pós-estruturalistas, que negam qualquer tipo de filosofia do sujeito. Tudo é contrato, tudo tem que ser discutido, tudo é construção.

_Teus filhos batem em você, Márcio?
_Batem, e com força.
_E Bruna?
_Apanha, também, mas menos.
_Vai prestar queixa?

Ele choramingou, mas ficou com raiva.

_Aonde, seu maluco?! Não, só quero conversar. Mas sobre outro assunto.
_Futebol?
_Tá certo, futebol.

A relação entre pais e filhos é nivelada pela igualdade. As pessoas desconfiam das hierarquias e das assimetrias abusivas, mas também da autoridade. Nesse mundo pós-pós, depois do fim da autoridade do sagrado, das instituições e, enfim, da escola e dos professores, o último bastião ruiu: a obediência aos pais. Curiosamente, o fim da autoridade trouxe, em geral, menos liberdade do que autoritarismo. Os adolescentes dos outros são igualitários, porém são autoritários. Detestam autonomia, porque exige muito esforço e deveres. Preferem a independência, e uma bem especial que signifique apenas direitos e benesses. São independentes, seguindo as vantagens, e são dependentes, fugindo das obrigações. Veem tal situação como absolutamente natural.

_É verdade que, na tua casa, todas as decisões são votadas e discutidas?
_Hum-hum…
_Danou-se…
_Vivo num regime assembleísta.
__As crianças de hoje são tiranas. Elas contradizem seus pais, cospem suas comidas e maltratam seus professores.
_Bem atual a frase. É tua?
_Não é não. A frase é de Sócrates.
_Aaah…
_Pelo menos, teu problema parece ser antigo.

_O pior é Neco…
_Mas ele só tem cinco anos!
_É o pior de todos.
_O curioso é que todos os teus filhos são conservadores.
_E sou de esquerda, e já fui comunista.
_Talvez, por isso: pais de esquerda, filhos reaças, eis a ironia.
_É preciso estimular a formação de pais conservadores para termos novamente filhos de esquerda.

Seus olhos brilhavam com a ideia.

_Então, há esperança: teus netos serão de extrema-esquerda.
_Pois é…

Os filhos dos outros assumem as vantagens da igualdade, mas não aguentam o peso da liberdade. Impõe um tipo de opressão que não se parece com nada antes visto no mundo. Qual o nome dessa nova dominação? As velhas palavras despotismo e tirania não são adequadas. O fenômeno é novo. É o futuro.

O celular toca.

_Eita, é Mano. Preciso pegá-lo numa festa.
_Ele não pega táxi?
_Não. Temos medo da violência.
_Por isso que ele não anda de ônibus?
_Ônibus é um perigo.
_Tudo bem. Mas bora ficar mais um pouco; ainda uma cervejinha, rapaz!
_Ele ficará com raiva.
_Diga que foi minha culpa. Ele tem medo do tio.
_Tá certo… só mais uma.

Ele colocou a mão no rosto e suspirou.

_Acho melhor sonhar a vida do que vivê-la.
_Mas viver ainda é sonhar, meu caro Proust.

Ele olhou de lado, bebeu dois copos seguidos e disse:

_Encontrei esse poema no bolso da calça de Sandra.
_Você vasculha as calças de Sandrinha? De tua própria filha?
_Eu me garanto.
_Qual é o poema?
_Leia, olha aqui:

Teu pai e mãe fodem contigo.
Que não o queiram, tanto faz.
Legam-te cada podre antigo,
além de uns novos, especiais.

Mas de cartola e fraque outrora
os sacaneou do mesmo modo,
gente ora austero-piegas, ora
se engalfinhando cega de ódio.

Passa-se a dor adiante: fossas
num mar que só fica mais fundo.
Dá o fora, pois, tão logo possas
sem pôr nenhum filho no mundo.

_Cacetada… É Philip Larkin. Sandrinha tá ligada!
_Ligada, uma ova. Isso é assustador!
_Não exagere…
_Eita, o celular, de novo.
_Tudo bem, eu te acompanho. Depois, a gente bebe mais uma na tua casa. Futebol é resultado, o resto é crônica esportiva.
_O quê?!
_Nada não. Você paga a conta, viu?!

Sementeiras
  1. Também conheço adolescentes quarentões…

  2. No fundo, são os mais felizes, principalmente quando têm emprego… :)

    Diz doido, faz tempo que o senhor não aparece por aqui.

  3. Confesso que sou babão com crianças até os dois ou três anos de idade. Tendo 23 sobrinhos, não haveria outro jeito.

    Depois dessa idade, dependendo de quem as educa, a maioria fica um saco; cheia de vontades, perguntadeira e metida demais pro meu gosto.

    Adolescentes são de lascar. ô idadezinha….
    Só suportei meus sobrinhos e meu filho postiço por dever do ofício, embora seja o tio bacana até hoje ( todo mundo começou a beber comigo, brincar carnaval, ouvir rock….).

    Adolescentes quarentões? Conheço alguns….

  4. Estava até janeiro na correria pra entregar o livro, agora aguardar.

    Aliás não deixa de ser emprego…

    Tenho lido sim. Até fiquei preocupado quando li O JULGAMENTO DO GIL.

    Achei que tinha descoberto as coisas que… bem, enfim, fiquei preocupado.

    ABS!

    Libertadores quae sera tamen!

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