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XXXIX – Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé
Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.
Fotografia de Joel-Peter Witkin
(In nomine Pater et Filli et Spiritum Sanctum)
39º CAPÍTULO
Não sei se deveria publicar este Capítulo e o próximo, cheios de tão más recordações. Às vezes, penso que o mal se resolve por si mesmo, preso na rede do tempo e da memória. Contudo, fiel à verdade, espero não chocar ninguém pelos momentos indescritíveis por que passei. A verdade! Meu único compromisso com a vida e para com o próximo.
A viagem até à fazenda do Cardeal deveria durar apenas duas horas. Porém, a limusine americana emperrou no meio do caminho. Nada grave! O chofer foi até o posto de gasolina mais próximo, e um mecânico desentupiu e limpou o carburador do carro. Assim, chegamos à mansão cardinalícia à noite, depois de umas três horas encalhados na estrada.
Tomei um banho, jantei e, cansado, fui dormir bem cedo. Pela manhã, cheguei atrasado ao café, servido pela Irmã Genoveva, auxiliar e dona da casa de Ferrughi. Avisou-me de que o Cardeal saíra bem cedo para inspecionar suas vacas holandesas. De tanta comida, fiquei empanzinado. Aproveitei para completar o sono e deitei-me numa rede, à la brasileira, na varanda toda fechada com vidro fumê.
Não tardei a dormir de barriga pra cima como fazem os índios, os sertanejos e os habitantes de nossa Comunidade.
Em doces sonhos, fui de repente acordado por dois homens encapuçados que taparam meu nariz com um lenço embebido de alguma substância desmaiante. Não sei o que aconteceu e quanto tempo durou meu desmaio até acordar dentro de um furgão que balançava por cima de uma rua ou estrada de paralelepípedos. Estava amarrado nos tornozelos e nos punhos. Minha boca fora fechada com um esparadrapo e um lenço tapava meus olhos. Imobilidade e escuridão totais.
De repente, o furgão parou e ouvi o ranger de um velho portão de ferro. A viatura avançou mais um pouco e, com os tornozelos desamarrados, fui arrastado por um longo corredor até uma escada descendente. Contei 45 degraus e entramos numa ampla sala fria e soturna. Certamente, um dos famosos Subterrâneos do Vaticano. Tiraram a venda dos meus olhos e pude perceber a vastidão do ambiente. Despiram-me de meu traje civil, ficando totalmente nu. Fui forçado a sentar numa incômoda cadeira e amarraram meus braços nela. Depois, arrancaram o esparadrapo de minha boca de uma só vez, o que doeu bastante. Em seguida, passaram um arame farpado pelo meu tronco fixando-me à cadeira. Logo percebi a função do arame; qualquer movimento brusco, como me virar para os lados, gritar ou respirar mais fundo, faziam com que as farpas se enterrassem no meu corpo, logo acima do meu estômago. Pra meu alívio, cobriram minhas vergonhas com um pano imundo. Não sei! Talvez alguém ficasse impressionado com minhas belíssimas e desejáveis ferramentas de baixo.
Mesmo assim, percebi um padre sentado num birô em frente de minha cadeira, olhando para elas com um sorriso meio lúbrico. Louro, de olhos verdes, um rosto meio gordinho, usando uns óculos de aros finos e lentes redondas. Ao seu lado, outro padre estava com uma máquina de escrever.
─ Heil! Declaro aberta a sessão do Interrogatório Formal e Preliminar do Padre Ambrósio Von Tsé-Tsé, acusado, por testemunhas idôneas, de heresias e de ter assassinado o Padre Francisco Javier e ocultado o seu cadáver. O penitente chegou até nós de livre e espontânea vontade e declara que está disposto a dizer a verdade e toda a verdade sobre o processo de investigação.
Esperou que o datilógrafo terminasse e continuou:
─ Padre Von Tsé-Tsé Não Sei Das Quantas! Eu sou o Cônego Von Hartz, Vigário Geral do Santo Ofício, encarregado de interrogá-lo sobre o lamentável homicídio e de outras heresias apontadas pelas testemunhas.
─ Estamos num país democrático e exijo a presença de um advogado. ─ Limitei-me a dizer ainda espantado com tudo aquilo.
─ Tem razão! Mas lembre-se de que o Vaticano não é uma democracia. Nada de liberdades comigo, portanto. ─ Disse o Vigário, com uma voz mansa, baixa e suave, embora esganiçada. E perigosa! Chamou o frade Bhormanide que estava junto a uma parede soprando as brasas de uma churrasqueira. Não o vira quando cheguei. Tratava-se de um monge corpulento que se aproximou da mesa, dizendo:
─ Ham, hem, him, hom, hum! ─ Coitado! Notei de pronto que haviam cortado sua língua. Punição de pecados horríveis, decerto. Mas, para que me servia um advogado que não podia falar? Respirei fundo, o que não deveria ter feito, e senti as farpas do arame se enterrarem na minha pele. Gritei e foi pior. Filetes de sangue escorriam pela minha barriga.
─ Mas, sem delongas, vamos aos fatos. Confesse Padre Tsé-Tsé! ─ Gritou o Vigário do Santo Ofício.
─ Sou inocente! Fui raptado e não sei o que se passa nessa porcaria de sala. ─ Afirmei sem hesitação.
O Vigário Von Hartz levantou-se e, portando uma espécie de chicote, feriu-me no braço, deixando uma profunda marca vermelha.
─ Isso é para começar, Von Tsé. ─ Disse meu agressor.
Já percebera, pela primeira saudação e pelo sotaque germânico, de que se tratava do temido padre alemão de que me falara Javier. E, com toda a razão, comecei a acreditar no mexicano.
─ Examine sua consciência, Tsé! Separe o bem do mal e só nos conte sobre o último. O corpo não nos interessa. Ele morre e volta ao pó de onde veio, segundo as Sagradas Escrituras. Queremos apenas salvar sua alma dos seus crimes e heresias que somente serão redimidos com sua confissão completa e um arrependimento eterno. O corpo e a alma de Javier já se foram. Que Deus o tenha! O que nos importa é o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo pela sua alma, Von Tsé. Você sabe que Nosso Salvador entregou de mão beijada seu corpo aos judeus. Mas, sua alma, pura e imaculada, juntou-se ao Pai Eterno. Não me julgue pela chicotada, mas pelo amor cristão que lhe devoto. À salvação de sua alma, é claro. Você tem cinco minutos para decidir. Ou confessa ou será entregue ao Sagrado Tribunal da Inquisição.
O Padre alemão era reconhecidamente um exibicionista em matéria de Teologia Cristã. Corria o boato no Vaticano de que ele iria longe na carreira eclesiástica. Aproveitei os momentos de sua vaidade para refletir um pouco sobre minha situação.
Desde criança, o Monsenhor Braguinha, meu pai, o venerável Dr. Quim e a doce Vó Dé haviam me ensinado a não transigir com a agressão gratuita. Deveria sempre responder à altura. Numa agressão física, se fossem mais fortes, corresse, pois não haveria nenhuma vergonha nisso. Mas, como correr, amarrado numa cadeira e cercado por brutamontes? A solução teria de ser mais flexível. Falar, falar e falar. E nisso, eu era bom até demais. Aproveitaria, pois, a vaidade teológica do padre alemão. A fogueira estava perto, mas, certamente, não me matariam ali. Ameaças, algumas pauladas, uns ferimentos, tortura física e mental. Tentaria aguentar.
Depois de um longo silêncio, Hartz voltou à carga.
─ Então, Von Tsé-Tsé! Comecemos pelo mais leve, suas heresias.
Resolvi, então, testar meu torturador pra ver até aonde ele iria.
─ Não sou herético. Apenas penso diferente dos negócios teológicos dos quais o Vigário é, notoriamente e com justiça, um dos mais bem informados do Vaticano. ─ Respondi com uma sutil bajulação.
─ Sou! E por isso afirmo que você é um heresiarca dos piores. E heresia, desde os primórdios do Cristianismo, se combate com porrada. De minha parte, sigo os passos de Nosso Senhor e da Virgem Maria, conforme os ensinamentos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. E você, Von Tsé, acredita em Deus, o Todo-Poderoso, criador dos céus e da terra? Acredita que Jesus Cristo é o Filho de Deus e que é o nosso Salvador? Que o Espírito Santo nos ilumina e guia? Que a Virgem Maria é a Mãe de Deus e a Rainha dos céus? Que nossa alma é eterna?
O Vigário do Santo Ofício falava diante de mim com o chicote em riste pronto para desferir algum dos seus golpes.
─ Acredito em quase tudo o que o senhor disse, mas de uma maneira diferente que acho ser a verdade verdadeira ─ Respondi.
─ Padre Bhormanide! Prepare uma brasa bem assanhada e venha esquentar o olho direito do penitente. Se quiser, ponha tudo olho a dentro.
─ Não! Não! No olho direito, não! ─ Gritei, morrendo de dor com as farpas do arame na minha barriga.
─ E por que não no olho direito?
─ Ora, senhor Vigário, porque é com ele que leio o Breviário que vai salvar minha alma. ─ Respondi cinicamente.
─ Tudo bem! Bhormanide! Enterre uma brasa no olho esquerdo desse padre vagabundo.
─ Não! Não! O olho esquerdo serve para ajudar o direito na leitura do Breviário.
─ Senhor Vigário! ─ Falou o datilógrafo ─ Por que não enfiar um espeto quente no terceiro olho do herege?
─ Não pode! Não pode! É pecado! O terceiro foi feito por Deus, Nosso Senhor, somente como saída. ─ Disse com a maior pressa do mundo.
─ E que tal assar suas duas lindas ferramentas arredondadas? Bhonamide! Traga uma brasa bem quentinha para fazer uma omelete.
─ Não pode! São a fonte da vida criada pelo Todo-poderoso. Pecado maior ainda! ─ Exclamei aflito.
─ E esse espeto lindo que você tem, Von Tsé? Estou com fome e podemos transformá-lo numa gostosa salchicha. Afinal de contas, você já fez seu voto de castidade, não é mesmo?
─ Não, não e não! ─ Gritei, levando mais uma ferroada do arame farpado.
─ Brincadeirrrrinha! ─ Falou Hartz dando-me uma tapa forte e eficiente no meu rosto. Um filete de sangue escorreu dos meus lábios. Anotei o fato. Quando, e se pudesse, daria o troco àquele covarde, como são todos os torturadores. Em praça pública, na frente de todo o mundo.
─ Mas, Von Tsé, o senhor não respondeu às minhas perguntas. Estou muito curioso de saber em pormenores suas fantasias eróticas, digo, heréticas. Sou doido por heresias! Para combatê-las, é claro.
O interrogatório já durava umas duas horas e eu me sentia fraco, combalido e desanimado. Mas, pela minha cabeça, soaram as palavras de Vó Dé:
“Resista, meu filho, resista até o fim. Um dia, os arquivos serão abertos e a Comissão da Verdade publicará tudo nos jornais”.
Mas, estimados leitores, a cada frase que escrevo, vomito duas vezes. Vou parar. Quem sabe se poderei continuar no próximo Capítulo?
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI
Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII
Capítulo XXXIX


















Inquisição em pleno século XX?
Essas memórias estão cada vez mais supreendentes.
Fiquei curioso pra saber como o Reverendo conseguiu fugir do churrasco de partes pudendas e queimação de rosca.