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Ataque abominável
O Blog dos Perrusi sofreu um ataque impedioso de hackers. Na minha opinião, tal fato revela a infiltração de espiões em redes vitais à segurança da família Perrusi. Os alarmes acenderam-se lá no Galo da Madrugada. Aliás, serei sincero: já sabia que sofreria um ataque. Os espiões são espertos, pois sabem que, durante o carnaval, fica completamente vulnerável o sistema de segurança dos Perrusi. Foi um vírus troiano — mais um. No entanto, esse era diferentes de todos os outros. O bicho alojou-se no BDP durante dias, trabalhando silenciosamente e incansavelmente (claro, os vírus não se cansam). E foi fundo na coleta de informações, indo até ao processo helicoidal que nutre a imaginação dos Perrusi. Sem o helicóide básico, não há imaginação, não há nada na vida virtual dos Perrusi.
Do Galo mesmo, aos berros, telefonei a um engenheiro chinês lá de Pequim. Os engenheiros chineses são os únicos capazes de acabar com os vírus troianos — não sei por que, mas é um fato e não o discutirei aqui. Quando passou a Frevioca, o chinês ligou e me disse que o troiano era o Hydraq. O bicho enganou Perrusi Pai, o bestinha cibernético, escondendo-se num link anexado a um e-mail. O link tinha a foto de Meg Ryan, o ponto fraco do velho. Foi inevitável clicá-lo. Os hackers sabiam exatamente como nos atacar e roubar secretamente as valiosas informações. E a foto de Meg era verdadeira! Tudo é verossímil nesse mundo virtual. É difícil não ser enganado.
Através de uma falha do Internet Explorer, os hackers causaram uma profunda brecha no BDP. O troiano dominou o blog e, logo, a consciência dos Perrusi. Controlando o processo helicoidal, podia acessar nossa vida, nossos desejos, nossas entranhas — pior, pois poderiam vender as imagens de nossas vísceras para quem quisesse. Há um mercado asiático florescente de entranhas. Só de pensar que alguém poderia olhá-las, assim sem mais, nem menos, tenho náuseas. Por isso, queria saber para onde o Hydraq enviara as informações capturadas no BDP. Meu amigo chinês rastreou seis endereços, com nomes como yahooo.8866.org ou ftp2.homeunix.com. Todos estão localizados em Taiwan; todos, propriedade da empresa local Era Digital Media. Mas, até aí tudo bem, o terrível foi descobrir que tal empresa tinha como proprietário um Reverendo, lá de Bel-O-Kan. Pior ainda: o BDP não foi o único atacado; na verdade, 33 companhias sofreram ataques do troiano. Exemplo: a empresa química Dow Chemical e a produtora dos caças B-2 Spirit, Northrop Grumman, contratada pelo Pentágono.
Diante da gravidade da situação, pensei, ponderei e deduzi que o Reverendo estava aliado ao governo chinês; afinal, os endereços IP, encontrados na investigação, foram usados, no passado, por hackers associados ao governo da China. Falei isso claramente ao meu amigo chinês, agora suspeito de ser um agente duplo de Bel-O-Kan. Enviei, assim, como representante do BDP, um protesto diplomático ao governo chinês e ao Reverendo. Inclusive, relacionei tais ataques a outros que aconteceram em abril do ano passado, procedentes da Rússia e do Irã. Aparentemente, o BDP estava imerso numa guerra virtual perigosíssima. Preocupado, telefonei a Rob Knake, analista de ciber-segurança no Conselho de Relações Internacionais de Washington, que me disse, de forma sigilosa:
_A espionagem do futuro será assim; aliás, o futuro já é o presente.
_E Bel-O-Kan nisso tudo?
_Bel-O-Kan tem todas as capacidades necessárias para armar uma operação dessa escala, disso não há dúvida, embora por enquanto tudo sejam suposições. E tem os recursos humanos e a disciplina necessária para executá-lo, algo que uma organização privada não poderia fazer. Isso demonstra como se pode estar efetuando a espionagem, qualquer tipo de espionagem. Trata-se de operações realizadas através da rede, com muito pouco custo para os que as fazem, e, se derem certo, elevados benefícios.
_ Mas… por que o BDP?
_Por causa do processo helicoidal e das suas entranhas.
_Aaah…
_Lembre-se que, na China e na Rússia — talvez, no Irã — existe uma população abundante de jovens que são muito dedicados à causa de Bel-O-Kan. São jovens com conhecimentos de informática e com sentimentos indubitavelmente belokanistas. E para alguns deles
uma operação assim seria um triunfo, uma medalha, um reconhecimento…
_Mas não entendi ainda o interesse pelas nossas entranhas.
_As vísceras dos Perrusi não têm qualquer valor monetário, como números de cartões de créditos ou informações sobre contas bancárias…
_Sim, sim, isso eu sei…
_Deixe-me completar: suas vísceras, após passarem pelo liquificador, podem trazer informações técnicas de engenharia de defesa, informação relativa aos exércitos americanos…
_Minhas vísceras?!
_Sim, claro, por que não?! Não as subestime! Teu intestino grosso, por exemplo, é um excelente material de análise política. Qual Estado-Nação não gostaria de tais informações?
_Certo… Mas vou lhe dizer uma coisa: meu intestino grosso tem uma segurança fortíssima. Não tem só uma rede. Ele trabalha com diversas redes que não estão conectadas entre si, para salvaguardar a informação.
_Se você diz… só estou lhe avisando do perigo. Não superestime a segurança de tuas entranhas. É só isso. Fique atento.
_Ficarei.
E ficarei mesmo. Se o Reverendo está, de fato, envolvido no ataque, ele se verá comigo. Esperarei o final do carnaval, porque ninguém é de ferro. Além do mais, no carnaval, só tem cerveja nas minhas entranhas.


















Se não tivesse conhecimento sobre o fato, juraria que foi chá de trombeta.
Aviso ao pseudo-amigo Artur que o Carnaval já terminou e , com ele, a chatice de tanto pula-pula desa juventude que não tem nada para fazer. Mas, o jejum da Quaresma já começou e deve ter sido a fome que que levou Artur a tal paranoia de me ver na China. Meia paranoia, é certo, pois acabei de volta daquele belo país a convite de Mao e de Lin Piao. Eles queriam meus conselhos sobre o que fazer com uma camponesa que havia dado à luz a trigêmeos, quando a lei chinesa só permite um filho por casal. Deviam ou não deviam fuzilar a camponesa? Bobagem, aconselhei, é melhor fuzilar os trigêmeos pois ninguém aguenta mais tanto chinês no mundo. Depois, claro, fui à Russia visitar a múmia de Lenin. Seus cabelos estão cada vez mais brancos e aconselhei o Governo de lá a passar um gel tonificante para melhorar a imagem dos russos. O tal engenheiro chinês, suposto amigo de Artur, confessou-me que há uma intriga internacional contra nossa gloriosa República Telemista, fruto de nossa vitoriosa revolução contra os holandeses que insistem em dizer que o Nordeste é deles. Talvez seja mesmo. Não sei. Na minha humilde opinião, porém, o Nordeste não é de ninguém, como atesta o habitante do Palácio Buriti. Nome nordestino com habitante salafrário. Por isso mesmo, um alagoano o colocou na cadeia. Não sei o que o nosso Gilmar vai fazer com o elemento. Soltar, claro, a única coisa que ele sabe fazer. Não entendo nada sobre “pensamentos helicoidais”. Os meus são retos e puros e totalmente dedicados ao bem da humanidade, com lucro ou sem lucro. E a Marocas, essa desgraçada que jamais se decide se fica com o padeiro da esquina ou comigo. Pra descargo de consciência, no entanto, perguntei ao ilustre Dr. Quim sobre esse negócio de hacker. Disse-me apenas que era o apelido do seu siri de estimação.