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A Carnificina

11 comentários

Andava pela praia de Intermares. Se existe uma terapia, estava diante dela. A praia é o desemprego dos psicoterapeutas, pensei, principalmente dos lacanianos – por quê? Não sei, o pensamento veio assim, sem motivo específico e sem lógica. Aliás, nada contra os lacanianos; mas, associação livre acontece e devemos respeitá-la. De todo modo, a beleza ali era sideral. Vi passarinhos com cantos complexos e faisões com cores soberbas, beija-flores iridescentes, pousando em flores inimagináveis; insetos com carapaças douradas, cor de safira e de rubi; orquídeas enigmáticas; papagaios estridentes; borboletas que parecem duas mãos azuis batendo palmas; macacos com caras vermelhas, pretas e castanhas.

Lembro-me de um dia no qual recolhi ali, nada mais, nada menos, do que 68 espécies de besouros para a coleção de Tsé-Tsé. O cabra é fascinado por besouros. Defende uma tese teológica de que Deus é um besouro.

_Um besouro onipotente, onisciente e onipresente? – perguntei, uma vez.
_Sim, isso mesmo.

Não discuto com Tsé-Tsé, só pergunto. É uma atitude que preserva a minha razão. Discutir produz efeitos colaterais na alma. É uma plataforma para um surto psicótico, com delírios místicos e persecutórios.

Bem, como dizia, passeava na praia paradisíaca de Intermares. Meus pés afundavam naquele areia cor de açafrão, única no planeta. O vento levantava a areia, e eu sentia, no ar, o cheiro aromático da praia. Olhei o céu, depois olhei o chão, pensei num frevo qualquer, mas desisti, porque não tinha nada a ver, imagine, fazer um frevo agora, quando reparei algo diferente na areia. Aparentemente, era uma criatura que jamais vira em Intermares. Tinha uma forma fantástica; na verdade, medonha. Ajoelhei-me para examiná-la melhor e a toquei com relutância. Com o toque, retirei minha mão imediatamente. Tinha a consistência de uma cobra. Olhei bem e percebi que era um animal mutilado: uma tartaruga. A coitada sofrera algum acidente. Estava sem casco, e suas costas estavam rasgadas numa espécie de incisão em forma de V, cujo vértice estava logo abaixo da cabeça. A barriga estava meio aberta e o couro fora puxado com tanta força que as patas traseiras, praticamente, foram arrancadas. Senti que o animal, de alguma forma, respirava. Era um movimento quase imperceptível, mas, prestando atenção, dava para notar. O monstro que fizera tal atrocidade tivera o cuidado de deixar a tartaruga viva e em agonia.

Intermares é um lugar pacífico. Se não fosse, talvez não ficasse tão chocado com a cena. Foi uma tapa na cara. Não, não, não fora uma tapa — pior do que isso. Parecia aquela dor na região do fígado, que desengana qualquer um, apesar de o médico dizer que não sabe o que é, que fará exames, etc. e tal, mas já intuímos a condenação. Parecia a primeira mentira de sua amada, vinda de uma boca, que até então, fora incapaz de imposturas…

O vento morno como leite que soprava do mar dourado, com todas aquelas tonalidades exuberantes, os azuis, os prateados e os verdes da mata atlântica, o próprio céu… nada disso impedia o pequeno horror que jazia aos meus pés. Encontrava-me, naquele momento, num estado de emoção raro na minha vida. Uma pena cavalar – estava com dó. Torci para que tartarugas não sentissem dor. Porém, não era uma suposta dor que me deixava naquele estado. A cena toda era intolerável, era obscena.

Resolvi acabar com o sofrimento do bicho – ou o sofrimento que gerava meu sofrimento, pensei, tentando culpabilizar-me de alguma maneira, o que é muito comum, diante do sofrimento alheio, mesmo de uma tartaruga. Mas como matá-la? Estava apenas com minhas sandálias japonesas e não encontrei nenhuma pedra ao redor. Assim, foi na base da chinelada que comecei a empreitada mortal. E a criatura mostrou-se notavelmente difícil de matar. Bati, bati, bati muito – cansei de tanto bater. O corpo do bicho virou uma papa vermelha, mas, mesmo assim, parecia vivo. E continuei a bater. Eu era um tolo, já que estava causando mais dores na coitada do que, provavelmente, ela sentira antes – se é que tartaruga sente dor. Passei quase uma hora para fazer o serviço. Terminei exausto e fui me lavar no mar.

Retomei a caminhada. De repente, tive um sobressalto. Olhei o chão e parei. Apressei o passo, parei novamente e fiquei imóvel feito uma estátua. Cobri meu rosto com as mãos, olhei o céu e pedi para parar aquele pesadelo. O que acontecia? Havia um rastro de tartarugas mutiladas que se estendia bem longe na praia de Intermares, até a Curva do Ticão. Nauseado, segui o rastro até o fim. Contei uns trinta corpos de tartaruga. Ainda bem que não gritam. Não aguentaria seus gritos.

Depois da Curva do Ticão, tinha um mangue e, dentro dele, uma pequena clareira. O rastro terminava ali. Estaquei e arregalei os olhos. Tsé-Tsé, vestido de monge, estava a cerca de trinta metros de onde eu estava. Fiquei obervando. Ele estraçalhava, naquele momento, uma tartaruga. Colocava o dedo indicador junto do pescoço e arrancava o casco; depois, com a unha (jamais notara que o Reverendo tinha unhas tão notáveis), fazia a incisão em forma de V; enfim, virava a tartaruga e arrancava, com a mão em forma de cunha, a barriga do animal. Fazia o serviço de uma maneira cirúrgica. Havia um silêncio opressor na clareira.

Não conseguia falar. Olhava, apenas. Tsé-Tsé não parecia doente, se deduzirmos sua saúde do uso poderoso que acabara de fazer dos dedos. Via um homem que era certamente Tsé-Tsé: altura, constituição, cor, feições — era reconhecível. Contudo, o supremo horror vinha também do fato de estar irreconhecível. Não parecia um homem doente, e sim um homem imensamente morto. Seu rosto tinha aquele terrível poder que tem, por vezes, a face de um cadáver, aquele poder de simplesmente repelir toda atitude humana concebível, como se qualquer atitude fosse tarde demais — a boca sem expressão, a fixidez sem tremor dos olhos, qualquer coisa de pesado e inorgânico nas dobras da face…

Tsé-Tsé, enfim, notou minha presença e sorriu. Pensei que imaginava o que fosse um sorriso diabólico. Já lera várias descrições na literatura e pensava que sabia. Mas me enganara: eu não sabia. O sorriso de Tsé-Tsé não era amargo, nem de fúria, nem mesmo sinistro, nem sequer era trocista. Parecia me convidar a participar da carnificina como se fosse o gesto mais natural do mundo. _Venha comer um guaiamum, parecia dizer. O sorriso não era furtivo, não era envergonhado, nem um pouco conspiratório. Não desafiava a bondade, ignorava-a simplesmente até o ponto da aniquilação. Tsé-Tsé era o mal. Eu, até então, só vira tentativas infrutíferas e desleixadas de praticar o mal. Estava diante de um mal de cor. Mostrava uma horrível semelhança com a inocência. Estava além do vício – não era humano. E dava medo. Comecei a feder de medo. Um suor oleoso saía dos meus poros.

(houve uma pequena pausa no terror quando pensei em limão e em povilho Granado, como formas eficazes de combater a minha inhaca. No fundo, sempre fedi. O fedor fazia parte da minha previsibilidade. O devaneio foi rápido e voltei à cena dantesca)

Foi aí que gritei:

_Por quê?!

Tsé-Tsé não respondeu. Não sorria mais. Jogou a tartaruga mutilada no chão.

De repende, à minha esquerda, apareceu Maroca com uma enorme rede de pescar. Fiquei aliviado com sua presença. Quase que choro. Diante do mal, chegara o bem.

Perguntei:

_O que aconteceu?!
_Tsé-Tsé assistiu a “Lula, o filho do Brasil” e, depois disso, perdeu a cabeça.
_Ele ficou assim por causa de um filme?
_Você viu o filme?
_Não, não…
_Pois é…
_E agora, o que fazemos?
_Siga minhas instruções!

Maroca me deu um lado da rede. Esticamo-la por inteiro. Ela jogou um pedaço de tartaruga a Tsé-Tsé, que o pegou com avidez. Aproveitamos o momento de distração, demos uma volta pela clareira e, quando ficamos atrás de Tsé-Tsé, Maroca gritou um “já!” e jogamos a rede no Reverendo. Ele se debateu como se fosse um animal. Dava urros de possesso. Cometi o erro de tentar segurá-lo e levei um chute que me deixou no chão, completamente atordoado. Maroca me chamou de burro e me mostrou uma injeção. Sorrindo, disse: _não tem demônio que aguente uma injeção como essa aqui! E a aplicou na bunda de Tsé-Tsé. Cinco minutos depois, o doido dormia o sono dos justos.

Arrastamos Tsé-Tsé até a praia. Já nos esperava uma jangada. Maroca trouxera também alguns ajudantes, que recolhiam as tartarugas mutiladas, matavam-nas rapidamente e as jogavam numa fogueira. Tudo era feito de forma limpa e organizada. No final, não sobrara nada da carnificina.

Na jangada, olhava o mar calmo e pensava sobre os últimos acontecimentos. Olhei Maroca, o corpo de Tsé-Tsé, que roncava horrores, e fiz uma pergunta retórica:

_Tudo isso por causa de um filme?
_Pra você ver…

Olhei o mar e senti o vento. Intermares voltara à sua tranquilidade habitual. Era só uma questão de esquecer. Queria esquecer. Há estórias que precisam ser esquecidas, pois não cabem na memória das pessoas. Comecei a pensar noutro assunto. O silêncio ajudava. Tudo levava a isso. Paz, enfim.

Junto da jangada, vi uma tainha pulando e achei bonito.

(esqueci-me de colocar: a crônica acima tem, literalmente, passagens do romance de ficção científica de C.S Lewis, “Perelandra: viagem a Vênus”. Faz parte de uma trilogia. Num dos livros, li o mais assombroso diálogo com o diabo de que tenho notícia; inclusive, já utilizei várias vezes tal diálogo para ilustrar algumas crônicas)

InscritosEmPedra
  1. O primeiro parágrafo me lembrou Little Wing, do Hendrix. Estaria o psiquiatra de Intermares executando experiências psicodélicas? O reverendo parece ter tido uma do tipo “cinarcodélica”.

  2. Rapaz!

    A julgar pelos efeitos sobre o Reverendo, esse filme seria um sucesso em woodstock.
    Foi só o filme mesmo?
    Ou ele leu a biografia não autorizada do Zé Dirceu?

  3. Vanvan colaborou com a carnificina?

  4. Boa questão. Será que VanVan, o cientista cearense, não tem alguma culpa? Afinal, ele não morre de amores pelas tartarugas.

  5. Gente, li isso e fiquei pasmo. Por que toda canificinazinha têm que ser associada a minha pessoa? Isso cansa, sabe? A pessoa se sente assim… doi, viu… doi… sou um cientista! Tenho um coração… de cientista, mas tenho.

  6. Edmar, touché! O Psi de Intermares fazia experiências com o famoso chá de trombeta. Parece que a praia de Intermares ficou bem colorida e com uma fauna bem particular.

    Pra mim, vc confessou, agora, VanVan.

  7. Utilidade pública (eheheheh):

    http://avisospsicodelicos.blogspot.com/2007/10/brugmansia-trombeta.html

    Nesse blog tem coisas do arco da velha.

    Vale uma passada.

  8. Achava que essa história de “chá de trombeta’ era meio folclore…

  9. O link abaixo está na lista do tal blog.
    Tem até texto de L. Boff(!!!!)

    http://mundocogumelo.wordpress.com/

  10. O problema do chá de trombeta é que causa esquecimento. Vc toma e, depois, esquece. Por isso que jamais consegui publicar as experiências na “Nature”, já que esquecia do que acontecera…

    Escreverei a L. Boff pedindo conselhos…

  11. Ora bolas! Por que eu, por que eu e somente eu? Afinal de contas, esse tal de Artur toma umas cervejas e fica imaginando suas maldades atribuindo-as a outro personagem. Deve ser alguma fixação pela ICR, pelos santos magrelos e santas desnutridas e cheias do E.S., doidas para parir novos messias, Amém. Afinal de contas, passei o carnaval assistindo aos últimos momentos da vida do Padre Bornhausen, em Tamandaré, na companhia do Padre Bento do Ó. É certo que as últimas palavras do velho padre sacripanta e nazista foram uma prece à morte total das tartarugas que o perseguem desde criancinha quando assistia às paradas militares das SS. Mas, o que tem a ver preces com tartarugas? Logo ao saber dessa historinha, desloquei-me a Intermares e examinei as tartaruguinhas, ainda suspirando de vida. Percebi logo, o que Artur jamais poderia fazer, que elas não passavam de clones lacanianos. Ora, como sabemos, Artur sempre foi aliado do imundo e cruel PsInt. Donde se conclui que foi ele mesmo que eventrou as pobres tartaruguinhas, a mando do seu amigo inseparável, o PsInt. Parece contraditório, mas não é. O PsInt adora clonar. Doentes ricos, principalmente, para poder encher os bolsos do vil metal. De vez em quando, de tantos doentes clonados, ele os dizima e seu instrumento predileto é o seu amigo Artur, falso como sempre. Fazendo tudo o que de mal e se escondendo em personagens inventadas. Aliás, reinventadas para não dizer copiadas. Clonadas, como faz seu mestre e Guia. E esse negócio de inventar Marocas me pescando por causa de um filmezinho idiota só pode ser intriga do padeiro da esquina. Marocas, para minha própria infelicidade, ainda não se decidiu. Fica zanzando entre a padaria e o meu clã e, nesse passeio, nem um nem outro, isto é, nem o padeiro nem este humilde sacerdote. Contei duas mil e trezentas tartaruguinhas estripadas por Artur. Como a quaresma começou, e apesar do meu jejum sagrado, comi algumas pensando na companha da Fraternidade que prega uma economia para o bem da humanidade. Voltei para Bel-O-Kan achando até que o PsInt tinha um pouco de razão. Economia sem lucro, prega a insidiosa e hipócrita ICR. Melhor, é claro, estripar tartarugas em Intermares.
    De qualquer maneira, pelo sim e pelo não, vou perguntar a Marocas se ela já se decidiu. Afinal de contas, a praia de Tamandaré estava tão suja que peguei umas perebas, talvez fatais.Não há tempo a perder.

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