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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXVIII

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Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Quod erant demonstrandum)

38º CAPÍTULO

Depois de toda aquela estória, de todo aquele blablablá, da decisão de deserção, bem, depois de tudo isso, o padre Javier me pareceu em pleno surto psicótico paranoico. Por isso mesmo, resolvi atender a todos os seus pedidos, inclusive segui-lo disfarçado até o aeroporto, como uma espécie de proteção para ele e a irmã Consuelo. Segundo Javier, a Companhia de Jesus não tolerava deserções e a formação militar dos jesuítas implicava em perseguições para toda a vida. Nem sempre torturas físicas para os desertores capturados, é verdade. Mas a destruição moral, psicológica e social era inevitável.

Claro! Vendo o peixe como o comprei!

Javier botou um traje civil com uma gravata escandalosamente colorida, cheia de animais e flores, à maneira mexicana. Colou um bigodão artificial e acrescentou um sombreiro à cabeça. Dramalhão dos piores, de fato.

Meu disfarce era mais simples. Como em Roma costumam circular milhares de urubus vestidos de preto, andando pelas calçadas, praças e bosques pra lá e pra cá em busca não sei do quê ─ da carniça das almas, talvez! ─ vesti-me mesmo de padre secular. Na verdade, o melhor disfarce para uma cidade totalmente dominada pelos negros agentes 666, segundo o Pastor da Assembleia lá da esquina.

Em silêncio, segui o casal a uns quarenta metros de distância até o aeroporto. Vi-os entrarem no avião e somente voltei para o Albergue quando o bicho voador perdeu-se nas nuvens bem distantes em direção a Ciudad de Mexico.

No outro dia, um Sábado, Roma amanheceu friorenta e chuvosa. Aproveitei para ler o último romance de Pitigrilli, então em moda, sobre os amores de uma condessa e seu copeiro, em plena barba do marido. Divertido! Ainda mais, sabendo-se que os dois não eram de nada.

O Domingo foi a mesma coisa; frio e chuva fina. Outro Pitigrilli e inúmeras fantasias eróticas, fazendo-me subir pelas paredes. Que horror! À tarde, recebi um telegrama cifrado de Javier, avisando-me de que chegara ao México e já estava a caminho da Sierra Madre com uma caravana de tropeiros, protegida por cinquenta guerreiros de sua tribo asteca. No dia seguinte, haveria o seu casamento e sua entronização como xamã, nomeado pelo próprio pai que se tornara o chefe da aldeia. Relembrou meu juramento de ficar calado até ao meio-dia da Segunda-feira. Nada mais!

Cheguei preguiçoso e atrasado na Biblioteca, lá para as onze da manhã. Fiquei na minha mesa, um pouco escondida no canto da imensa sala, junto a uma estante de livros antigos. Com o tédio do trabalho, abri um livro de fotografias eróticas, presente do padre Javier. Oitenta posições para se fazer uma criança! A maioria dedicada a atletas olímpicos. Eu, pelo menos, sabia fazer a mesma coisa de uma maneira mais simples. Mas, enfim!

De repente, uma sombra gigantesca cobriu a minha mesa. Era o padre chinês, Ching Ling Ling.

─ Padre Tsé! Monsenhor chama irmão conversa gabinete. ─ Disse o coitado. Guardei apressadamente o livro de fotografias na gaveta de documentos sagrados e tranquei-a com a chave.

Não dispensei o toc-toc cerimonial e entrei. Pra minha surpresa, numa poltrona bem grande, estava refestelado o gorducho Cardeal Ferrughi.

─ Sente-se, Padre Tsé. ─ Ordenou-me o Monsenhor Lippi, numa voz seca e desagradável, antes mesmo que os pudesse cumprimentar.

─ Já viu a tese do padre Javier? ─ Perguntou-me de chofre o Cardeal.

─ Claro! Assisti à defesa. ─ Respondi, surpreso.

─ E por que não nos disse que se tratava de uma porcaria? ─ Continuou Ferrughi.

─ Nem tanto! Acho-a um belo romance histórico religioso baseado num manuscrito copta antigo. Aliás, irmão Cardeal, por que tanto interesse em Javier? ─ Contra-ataquei, já sentindo o clima pesado da reunião. Desconfiei, por instinto, de que a fuga mexicano-rocambolesca de Javier já se tornara um fato notório no Vaticano.

─ Você viu o tal manuscrito? ─ Rosnou meu irado Orientador.

─ Não! Apenas a tradução em espanhol, feita pelo próprio Javier. E se tivesse visto, de nada adiantaria. Não entendo bulufas de copta. ─ Respondi.

─ Acontece que esse manuscrito não existe. ─ Disse com bastante seriedade o burocrata Lippi.

─ Como assim? ─ Exclamei.

─ Tudo inventado! Uma fraude acadêmica das piores. ─ Afirmou Lippi.

─ E os outros numerosos manuscritos antigos? E a copiosa bibliografia? ─ Ainda tentei argumentar.

─ Salvo alguns poucos teólogos conhecidos, as citações são falsas porque tais livros tampouco existem. ─ Concluiu o Monsenhor.

─ E você, padre Tsé, colaborou com essa fraude. ─ Rosnou o Cardeal.

─ Mentira de quem disse. Apenas, fiz alguns reparos de gramática latina. Nada mais! Além disso, não fui professor, orientador nem examinador de ninguém. ─ Respondi cada vez mais espantado com o interrogatório.

─ Por favor, Padre Tsé! Confesse! Estão cochichando que você e Javier formavam um parzinho romântico. ─ Concluiu Ferrughi ironicamente.

─ Protesto! Protesto! ─ Levantei-me vermelho de raiva. ─ Vou processá-lo, Cardeal! Vou processá-lo por infâmia, calúnia e difamação. ─ Gritei.

─ Calma, Tsé! Calma! Sente-se, por favor. ─ Ouvi a voz de Lippi mais suave e afetiva como nos tempos de outrora. E continuou:

─ Estamos aqui apenas para defendê-lo.

─ Recuso ser defendido por traidores. É isso ai! De tanto ficarem nessa porcaria de ICR, vocês terminaram pegando o vírus fedorento romano. Traidores e delatores! ─ Berrei com toda a força de meus pulmões.

Fiquei atordoado com o imenso barulho do Cardeal que segurava sua enorme pança de tanto rir.

─ Ora, Tsé! É que o padre Javier desapareceu e você é o principal suspeito. ─ Disse Lippi, num tom sério, embora cordial.

Olhei para meu relógio. Faltavam quinze minutos para o meio-dia.

─ E onde escondeu o cadáver, Tsé? ─ Falou o cardeal entre as lágrimas de tanto rizo.

─ Porra, Cardeal! Que cadáver? ─ Olhei novamente para o relógio. Faltavam ainda dez minutos para o meio-dia.

Tenso, quase como se tivesse adquirido um súbito tique nervoso, pregara o olho no relógio, cujos ponteiros teimavam em não andar.

─ E pare de ficar olhando pra esse maldito relógio. ─ Rosnou novamente o Cardeal.

─ Rolex legítmo! ─ Exclamei para ganhar tempo.

─ E comprado no Camelódromo de Roma! ─ Acrescentou Lippi, rindo de minha ingenuidade.

─ Mas, vamos falar sério, Tsé. ─ Continuou o Monsenhor. ─ Ocorre que o Superior dos Jesuítas, o Papa Negro, quer convocá-lo para um Interrogatório Oficial. E tememos pela sua integridade física.

─ Não pode! Sou padre secular e ele não tem jurisdição sobre mim. ─ Respondi.

─ Ele sabe disso, Tsé. Por isso, formulou uma queixa ao Santo Ofício e você pode parar na Santa Inquisição. ─ Explicou o Cardeal.

─ E na Santa Fogueira! Não! Não posso cair nas garras do Assistente da Inquisição. Ele é um padre alemão que foi da Juventude Nazista. ─ Disse, morrendo de medo.

Faltavam cinco minutos para o meio-dia. Pedi, então, um copo-d’água a Lippi que se apressou em buscá-lo na copa. Bebi o sagrado líquido, gota a gota. Mas, ainda faltavam dois minutos para o término do meu juramento a Javier. Pedi para ir ao banheiro.

─ É na porta à esquerda, como você bem sabe, Tsé. ─ Disse Lippi.

Entrei no WC, dei duas ou três descargas e ouvi a primeira badalada do sino da Igreja de Santa Madalena, defronte da Biblioteca. Quando soou a décima segunda, sai do banheiro, sentei-me inteiramente calmo e comecei a contar tudo o que ocorrera na Sexta-feira anterior.

─ Já sabíamos de tudo, Tsé. Apenas, queríamos fazer uma prévia do tal Interrogatório Canônico para ver como você iria reagir. ─ Disse amavelmente Ferrughi. ─ E acrescentou:

─ Como o ofício só chega amanhã, eu e você vamos, agora mesmo, pegar minha limusine oficial, em direção da fazenda. O pretexto é que, como já estava previsto, precisávamos discutir o Curso de Doutorado que começa na próxima semana. Assim, teremos tempo de neutralizar o padre alemão.

─ Mas não trouxe roupa nem nada e estou morrendo de fome. ─ Ainda tentei argumentar.

─ A gente se arranja na fazenda, Tsé. No caminho, come-se uma pizza num restaurante de beira de estrada. ─ Disse o Cardeal, conduzindo-me para os fundos da Biblioteca, onde embarcamos para uma viagem de umas duas horas de carro.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII

Torcedor
  1. Fazer a ICR deglutir uma tese falsa(?), dar um banho nos jesuítas e virar Xamã no México? Esse Irmão Javier era da pá virada.

    Reverendo, o senhor caiu na pegadinha inquisitorial de Lippi e Ferrughi? Sempre achei que ninguém conseguiria lhe passar a perna…

    Aguardarei o embate contra o “padre alemão”. Ele dará as caras no próximo capítulo, ou não?

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