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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXVII

11 comentários

Abandonei o blog. Sim, abandonei. Foi um caso de Filho abandonando o Pai, o que é, convenhamos, um absurdo. Filho que abandona o Pai, mesmo num blog, vira porco, diz a cultura popular. Não quero virar porco, mas que merecia, ah, como merecia. Sim, porque Filho não abandona Pai, embora este já o tenha abandonado, um dia, lá na cruz.

(talvez, tenha sido o maior Abandono de todos os tempos. Inclusive, foi matéria de artigos de Tsé-Tsé)

E não abandonei apenas este blog. Na verdade, foi um abandono geral e radical, pois deixei o Torcedor Coral (lá, inclusive, já voltei) e o Que Cazzo (aqui, só nas férias) ao léu! Tenho vergonha e admito. Entretanto, tenho desculpa pronta na língua: a universidade virou uma fábrica fordista. Não paro mais de trabalhar, e o tempo deixou de existir, virando uma utopia qualquer.

Mas, na passagem do ano, fiz aquelas promessas que nunca são cumpridas, embora funcionem como uma espécie de meta inatingível durante o ano. Uma delas foi a seguinte: voltarei aos blogs. Além disso, é ano de 2010 da Graça de Nosso Senhor. Ano no qual a direita faz-se reação e está agitada, inventando crise em cima de crises. Uma direita que tem uma visão hondurenha da democracia. Quero acompanhar, no blog, um ano tão delicado.

Por enquanto, continuamos com as memórias (?) do Reverendo…

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Bona et felicitatis in novum annum)

37º CAPÍTULO

Ufa! A defesa de tese do padre Javier terminou às seis horas da noite, depois de um dia de intensas discussões acadêmicas, entremeadas de lanches, orações, novenas e terços rezados. Um ritual litúrgico dos mais pesados para examinar uma simples tese de Doutorado; mas, a ICR é assim mesmo. Mera imitação das cerimônias do extinto Império Romano, no qual, até para se dar um peido, eram invocados os deuses do Olimpo.

No caso, predominavam os louvores à Santa Virgem.

A Banca era composta pelo Orientador de Javier, um cardeal mexicano de uns 85 anos que, praticamente, dormiu o tempo inteiro. Mais dois cardeais carcomidos pela idade que babavam enquanto rezavam as Ave-Marias. E dois jesuítas mais jovens que, como urubus, caíram de pau e pedra em cima da carniça do coitado do Javier.

No final, para minha surpresa, a tese foi aprovada com a nota máxima, com pedido de publicação como sempre se faz numa Universidade pertinho de nossa Comunidade.

Na porta de saída, feita de mogno extraído ilegalmente da Amazônia pela ICR, o irmão Javier me deu um caloroso abraço, dizendo-me que fora aprovado graças à minha ajuda. Neguei, claro, respondendo-lhe que o brilhantismo literário do seu trabalho valia muito mais do que a nota máxima.

Contudo, bem baixinho no meu ouvido, Javier pediu-me, pelo amor de todos os santos da ICR, que o esperasse no Albergue, enquanto ele iria receber a medalha de honra da inefável Companhia de Jesus, ADMDG (ou nefanda? Não sei mais. Tô ficando velho! Vou olhar no Dicionário.). Tinha revelações secretas a me comunicar e sua aflição era grande.

Demais até!

Fiquei impressionado com a agitação emocional do irmão mexicano e me dirigi ao albergue da Gregoriana. A cama de Javier estava toda revirada, as gavetas do seu armário abertas e vazias e, em cima da mesa de trabalho, havia uma mala de viagem enorme e cheia de roupas bem arrumadas. Possivelmente, um rito sagrado jesuítico, pensei.

Com uma leve dor de cabeça, por causa da xaropada da defesa de Tese, deitei-me e refleti um pouco à espera de Javier. Afinal de contas, a maioria das teses vaticanas não passavam de lana caprina, sem um objeto científico determinado. Bastava citar dois ou três teólogos conhecidos, contar uma boa história, repetir algumas lendas cristãs primitivas e medievais como se fossem verdades eternas e pronto. Mais uma tese que ninguém iria ler.

Contudo, achara o “Evangelho da Infância e Adolescência de Nosso Senhor”, título da tese de Javier, muito interessante como peça literária. De fato, um verdadeiro romance histórico religioso recheado de acurada e sincera piedade. Claro! A matança das criancinhas e a viagem e estadia da Sagrada Família no Egito, apesar de improváveis, comovem qualquer coração empedernido, como o deste escriba, por exemplo. Invenções piedosas? Não sei, embora baseadas num manuscrito copta de legítima antiguidade.

O irmão Javier chegou mais calmo e com uma medalha de ouro plantada no peito.

Ajoelhou-se e pediu-me que o ouvisse em confissão. Depois dos parrapapás litúrgicos, botou pra falar, contando-me uma história do arco da velha.

Começou dizendo que eu, padre Tsé-Tsé, havia salvo sua vida, o que não passava de um grande e descabido exagero. Deixara de se masturbar em nome da Virgem Sagrada e seguira meus conselhos de paquerar as irmãs do Convento de Santa Maria Maggiore. Num dos passeios, junto às grades do Convento, teve a maior surpresa quando encontrou a irmã Consuelo Popocatepetl, sua prima e conterrânea da aldeia indígena, onde nasceram, em plena Sierra Madre.

Na verdade, depois de um terremoto, todas as crianças sadias da aldeia, com a idade de doze anos, haviam sido raptadas por homens de preto com uma enorme cruz pendurada no pescoço. Quando deu fé, Javier acordou num Convento jesuíta onde ficara interno até se consagrar como padre. De tanto rezar Ave Marias, acabou esquecendo suas antigas tradições astecas, tornando-se devoto fanático da Virgem.

Daí, aliás, suas incursões noturnas ao banheiro do Albergue.

Mas as grades do Santa Maria Maggiore separavam irremediavelmente os primos reencontrados em Roma. De conversa em conversa, terminaram se apaixonando. Mal podiam tocar nos dedos um do outro. Daí em diante, sua vida mudara.

O fogo se espalhara e Javier sugeriu à irmã que pedisse para sair do Convento, de quinze em quinze dias, para visitar uma senhora mexicana que supostamente sofria de um câncer.

Sagrada mentira!

Dessa forma, clandestinamente, dirigiam-se à Villa Borghesi e se entregavam aos prazeres da carne na Mansão da ICR. Não aguentavam mais os rigores eclesiásticos e resolveram fugir de volta ao México. Mas, antes, tinha que defender sua tese para que os jesuítas não o perseguissem com as chamas da Inquisição. Segundo Javier, havia um bispo alemão, que pertencera à Juventude Nazista, e que se tornaria o próximo Chefe do Santo Ofício. Javier não queria ser queimado em nenhuma fogueira!

─ Mas, Javier! Os nazistas foram derrotados e não há mais fogueiras. ─ Interrompi o atormentado jesuíta.

─ Irmão Tsé! Isso é que o senhor pensa. Mês passado, passei no prédio da Companha e senti um cheiro esquisito de churrasco. ─ Respondeu-me.

─ Tudo bem! Mas em que posso lhe ajudar, logo agora que o irmão se tornou Doutor? ─ Perguntei.

─ Doutor que nada, Padre Tsé! Foi tudo combinado. Nosso Superior enviou-me por escrito as críticas e tive tempo para estudá-las.

─ Mas, Javier! Isso não passa de sacanagem acadêmica! ─ Exclamei.

─ Bobagem, irmão Tsé! Todas as teses, aqui na Gregoriana, são assim. Ninguém as lê. Por isso mesmo, resolvi escrever um romance sacro sobre a vida de Nosso Senhor.

─ E de inegável valor literário! Aliás, dei boas rizadas com os híbridos criados por Nosso Senhor. Geniais, sem dúvida! ─ Acrescentei.

─ Ora Tsé! Inspirei-me nos políticos mexicanos e no alto clero romano. Nada mais! Já havia publicado dois livros de contos piedosos no México. Pra mim, foi fácil. Mas tudo isso é passado. O problema é outro. Preciso de sua ajuda e quero que o irmão jure que, até pelo menos ao meio dia da próxima segunda-feira, não dirá nada a ninguém. Nem mesmo à Inquisição.

Achei a história de Javier tão babaca que jurei que guardaria segredo eterno. Aliás, terrível equívoco de minha parte. Mal sabia o que me esperava na semana seguinte.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV
Capítulo XXXVI

Torcedor
  1. Reverendo que saudades de você. Bom ver que retomou o blog. Adorei as passagens do texto em latim *-*
    Minha benção saudosa…

  2. Concordo com a colega acima, que bom que o senhor está de volta reverendo! Já estavamos com saudade, de fato.
    Devo confessar que até dos escritos de Perrusi Filho eu estava sentindo falta. Espero que ele cumpra com a promessa de não sumir daqui por tanto tempo.

    Abs.

  3. Irmãzinhas Ana Paula e Flor de Liz: A saudade é muito mais de minha parte que não saberia viver mais sem a presença de vocês duas, embora, como já disseram, nem se conheçam. Cuidado, no entanto, com os dois próximos Capítulos que relatarão o maior sofrimento que um ser humano já teve na vida. Infelizmente, caí numa armadilha da ICR e, ainda hoje, as lembranças são muito dolorosas. Não sei qual a idade de vocês. Mas, se forem menores de 18 anos, leiam com óculos escuros para as lágrimas ficarem mais brandas. Com minha bênção cheia de saudades.

  4. Reverendo não sei quanto a Flor, mas, eu estou completando 21 anos hoje, então posso continuar a ler as memórias.

  5. Irmãzinha Ana Paula: PARABÉNS! PARABÉNS! Que bom completar vinte e um aninhos de vida. Quisera eu, velho sacerdote ateu e perebento, que já competou num sei quantos! Minha bênção natalícia.

  6. Só volta para o Cazzo depois das férias, é Arture? Você que pensa… Apelei para a violência e sequestrei um texto seu.

  7. Tenha pena de mim. A UFPB é fordismo. Vocês já estão no toyotismo. Além de trabalhar feito um doido, sou sequestrado…

    Nas férias, voltarei retumbante ao Cazzo!

  8. Eita! Ainda bem que o Sr. Voltou.

    Não entendi por que o irmão Javier ficou tão preocupado em evitar a divulgação de um segredo tão chinfrim.

    Mas, como o sr. fez um ressalva no final do capítulo…. aguardemos por mais revelações.

  9. Ah reverendo, já passei dos 18 há um tempinho…então nem se preocupe, viu?
    Estou à espera dos próximos capítulos!

    Beijos

  10. Cadê os posts de Artur? A UFPB ainda não o liberou para as férias?

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