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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXVI
Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Natura mutantis)
36º CAPÍTULO
E nada de Herodes morrer. O assassino de criancinhas continuava com uma saúde invejável, realizando suas bacanais em pleno Templo, inclusive com a cumplicidade de alguns sacerdotes.
Assim, o primeiro Natal da História foi celebrado no Egito com apenas uma novidade: eis que Maria estava grávida de Thiago, um dos irmãos de Nosso Senhor e que seria, mais tarde, bispo de Cafarnaum. Enquanto isso, os egípcios e romanos trocavam presentes entre si, pois também se comemorava, na mesma data, o Dia do Deus Sol, Amon-Ra, para os nativos.
Ao lado do texto copta, havia uma anotação, seguramente interpolada ao original e com todos os sinais de falsidade. O padre Javier, no entanto, com toda a sua honestidade acadêmica, não deixou de transcrevê-la, embora deixando claro de que se tratava de uma blasfêmia.
Na verdade, eu concordava com o jesuíta mexicano por razões de civilidade e não dogmáticas:
“Cumpridos os tempos da primeira gravidez de Maria ─ isto é, depois do nascimento de Josué, o primogênito ─ eis que São José, temendo nova visita em sonhos do Anjo, abriu sua caixa de ferramentas e veio a conhecer sua esposa”.
No caso, Maria teria deixado de ser Virgem, derrubando o dogma sagrado da ICR que, depois de sua assunção, decretada pelo Papa Paulo VI, em 1950, deveria ficar eternamente virgem, embora ninguém saiba por quê.
Mas não é bem isso que me preocupava na discussão da Tese do irmão Javier. Ocorre que, como dizem os Evangelhos, o Menino crescia em “inteligência e sabedoria” e já era conhecido nas redondezas pela sua mania de pregar o fim do mundo. No entanto, sendo criança, gostava também de brincar e suas brincadeiras não eram nada ortodoxas.
A primeira delas, tida como milagre, ocorreu no canteiro de obras das pirâmides. O bondoso anfitrião da Sagrada Família convidou, certo dia, os amigos para assistirem a colocação da cúpula piramidal, um colosso de pedra que pesava mais de cem toneladas. O Pretor romano do Egito e o próprio Faraó de plantão estavam presentes ao grande acontecimento. Mas, infelizmente, os operários, em grande parte escravos, não conseguiram erguer tão pesado fardo. Muitos deles, aliás, ficaram aleijados com tanto esforço.
O Sagrado Menino, então, vendo a aflição do povo, piscou o olho esquerdo em direção da imensa rocha e, pouco a pouco, ela foi se erguendo até que se colocou exatamente no lugar projetado pelo Arquiteto Real, sem esquecer, claro, de curar os operários estropiados.
A multidão ajoelhou-se perante o Menino dando glórias a Amon, Ptah, Osiries e a sua esposa Ísis, esquecendo-se, ou não sabendo, que o prodígio deveria ser atribuído a Javé, o Deus da Montanha dos antigos judeus.
Maria sentiu um aperto de júbilo no coração ao lembrar-se das palavras do Arcanjo, quando da Anunciação, dizendo-lhe que seu filho Josué ─ em parceria com Espírito Santo, é bom lembrar ─ seria o Salvador da humanidade, embora as pirâmides não tivessem nada a ver com a história.
Entretanto, havia outras brincadeiras mais perturbadoras. Solitariamente, Josué ─ depois, mais conhecido como Jesus pelos falantes de língua grega ─ enfurnava-se no vasto quintal de sua casa, à beira de um dos canais do Nilo, e ficava esculpindo, em barro e em restos de madeira da oficina de carpintaria de seu pai adotivo, pequenos animais de que gostava, em especial passarinhos. Assoprava-lhes, como fizera seu Pai Jeová, e os bichinhos saiam vivos, ora voando, arrastando-se ou mesmo correndo em direção aos pântanos mais próximos…
Bem, até aí, tudo bem!
Contudo, na véspera de um shabbath, Josué chamou seus dois outros irmãos ─ o Casal Sagrado, na ocasião, já trabalhava a pleno vapor ─ para brincarem de Arca de Noé. É bom que se diga que, apesar de terem sido alfabetizados na língua egípcia, todos os filhos guardavam as tradições judaicas, inclusive, claro, sua língua de origem, o aramáico.
Thiago e Judas, que desconheciam as habilidades do irmão mais velho, ficaram temerosos, pois estavam proibidos de passear de barco pelo perigoso Nilo, cheio de crocodilos. Josué, no entanto, aclamou-os e apenas lhes pediu que amassassem o barro em forma de bichinhos pra que eles vissem o que ocorreria. Mais ainda! Como se tratava da Arca de Noé, pediu-lhes também que fizessem casais de bichinhos, como diziam as Escrituras .
De repente, entretanto, o fogo divino encheu seu espírito e, cansado de imitar a natureza, resolveu misturar tudo, como faziam os egípcios com seus hieróglifos, isto é, corpo de uma coisa e cabeça de outra e vice-versa. Como, aliás, os gregos também gostavam de fazer.
O resultado foi espantoso! Não posso enumerar, aqui, todos os híbridos nascidos da inspiração divina de Josué, pois nosso Blog tem os seus limites de espaço. Citarei apenas alguns, cujos nomes os três meninos iam enunciando à medida que eles recebiam vida do assopro do Sagrado Menino.
Assim, por exemplo, surgiram casais de:
Rãcaco (cabeça de rã com o corpo de macaco);
Crocopato (corpo de crocodilo com bico e asas de pato);
Cãopótamo (cabeça de cão e corpo de hipopótamo);
Elefanzé (cabeça de elefante com corpo de chimpanzé);
Cangurata (canguru com perninhas de barata);
Baratixa (barata com rabo e cabeça de lagartixa);
Marigato (mariposa com corpo de gato);
Polvardo (polvo com corpo de leopardo);
Guarázana (lobo guará com corpo de ratazana, sobreviventes, aliás, em nosso Planalto Central).
Semanas depois, no entanto, as autoridades tomaram conhecimento, através dos seus espiões, da rápida proliferação dos sagrados híbridos que nada mais faziam do que obedecer a ordem divina do “crescei e multiplicai-vos”. O povo se espantava e se amedrontava com os inocentes frutos da brincadeira dos três irmãos. Ora, ocorre que, segundo o Manuscrito copta, Herodes finalmente batera as botas, e a Sagrada Família estava arrumando suas coisas para a viagem de retorno à Galileia. Antes da partida, todavia, o Pretor romano chamou-os em seu gabinete no Palácio do Faraó e lhes pediu explicações, já sabendo que se tratava das artes do primogênito da família.
São José, inocente em quase tudo, especialmente em matéria de sonhos, ficou estarrecido e pediu desculpas pela “desordem” natural provocada pelos filhos. Foi, então, que Josué, sempre o mais falante dos três, afirmou, com sua autoridade espiritual já comprovada, que o Pretor podia ficar sossegado. Retirou-se para um quarto ao lado e, em segredo, orou a Jeová, pedindo-lhe que anulasse a bizarra e recém-criada forma da natureza. E tudo voltou ao normal, embora a Sagrada Família tivesse que pagar uma pesada multa por ter violado o equilíbrio ecológico da região. Multa, diga-se de passagem, que jamais foi paga como ocorre num certo país, bem longe do Egito.
E, assim, a Sagrada Família finalmente retornou a Nazaré, onde o mundo, quase trinta anos depois,virou de cabeça pra baixo.
(Nota do Dr. Quim, Jr: excepcionalmente, o Reverendo Tsé-Tsé deu-me a honra de ler previamente este artigo. Não entendi patavina, mas aconselho aos visitantes deste Blog a leitura urgente do excelente e maravilhoso livro de Richard DAWKINS: “O Maior Espetáculo da Terra: As Evidências da Evolução”. São Paulo, Companhia das Letras, 2009. Trata-se de um verdadeiro xeque-mate contra o Criacionismo. Como sempre, o estilo do Autor é brilhante e sua erudição é sólida. Um livro gostoso de ser lido, no qual o Reverendo se inspirou para os nomes da fauna citada).
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI
Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV

















Reverendo, suas memórias ainda vão abalar os alicerces da ICR.
Acho que faltaram uns bichos:
– o veadão (veado + leão).
– o timbicha (timbu + “lagarticha”).
Claro que a grafia do segundo nome está incorreta. Mas, o novo acordo ortográfico tudo permite – especialmente para sacanear adversários; e não tive uma idéia melhor.
Reverendo:
Posso garantir que nem tudo voltou ao normal. A desordem natural dos bichos provocada por Josué persiste. Nessas minhas férias de Natal na praia, ví alguns marigatos e muitas baratixas. E olha que não foi sonho nem ensolação. Um pouco de vinho, é verdade, mas nada que tenha me tirado a lucidez. Vossa Reverendíssima sabe como sou piedosa nessas datas da cristandade e não brincaria com coisas sagradas.
Minhas saudações cristães.
Irmã Erínia: Nem duvido de vossa santidade, especialmente no Natal de Josué. Soube pelo padre Bornhausen, da Paróquia de Tamandaré, que a irmã promoveu um belíssimo Natal fazendo churrasco de baratixa para os pobres. E a sujeira da praia? Como está? O aparecimento de baratixas na praia, aliás, é a primeira prova de que não sou nenhum mentiroso. Havia um bom copo (ou garrafa?) de vinho, não é verdade? Mas, isso faz parte do processo de descoberta do EU. Feliz Ano Novo. Com minha bênção híbrida.
Eita, que esse reverendo anda preguiçoso! Dom Arturo, então, já até desisti dele!
É.
Esse blog tá um deserto; parece que foi todo mundo pra Paris…..
Irmãzinha Cynthia e Irmão Ducaldo: Não se trata de preguiça nem desleixo. É que, eu e Perrusi Filho, fomos convidados pela Sobonne para assistir à defesa de Tese da Prioreza Margueritte de Cluny, intitulada “La Sémantique des Palaphites dans l’Oeuvre du Mgr. le Réverendo Ambroise de Tsé-Tsé”. Somos amigos desde os tempos de esbórnia em Roma e não poderia deixar de ir a Paris, mesmo sob os vinte gráus negativos deste inverno. Depois da comemoração no Moulin Rouge, iremos, eu e a Madre Superiora de Cluny, a Roma para uma última tentativa de converter Bento aos ideais democráticos de nossa Repíblica Telemista. Basta de teocracias! Basta de ditaduras, civis ou militares! Viva a Liberdade! Se Bento recusar novamente, a Prioreza, de há muito nossa discípula, já declarou: “guerra é guerra!”. Mas, ainda tenho dois capítulos prontos sobre a Tese do jesuita Javier: “O Evangelho da Infância e Adolescência de Nosso Senhor”. Tenham um pouco de paciência. Não sei por onde anda Perrusi Flho. Provavelmente, fiscalizando o bas fond parisiense. Mas isso não passa de especulação. Minha bênção distante e friorenta.
Reverendo,
Fazia tempo que eu não aparecia por aqui, mas quem é vivo sempre aparece, não é? (Já dizia o ditado)
Quanta saudade de escrever aqui, quanta saudade do senhor. Fiquei sabendo (lendo sua resposta a nobre colega Cynthia) que o senhor esteve em Paris, é mesmo? Depois conte-nos como foi sua estada em solo francês.
A sua bênção saudosa!
Onde anda o Perrusi Filho, Reverendo? Abandonou o blog de vez?
V. Reverendíssima deve saber alguma coisa do paradeiro dele. Não estavam juntos em Paris? E essa tal de Margueritte de Cluny? Tudo muito suspeito. Exijo uma explicação.
Sem saudações até que as explicações sejam dadas.
Irmãzinha Flor: Quê bom, vê-la de volta. Estava tão frio, tão frio, tão frio em Paris que resolvi voltar correndo. Mas, passeando pelo cais do Sena, lembrei-me de você. Minha bênção de retorno.
Irmã Erinia: Com todo o respeito, acho que esse tal de Perrusi Filho não vale um tostão furado. Imagine que o vi sentado num café na beira do Sena tomando um vin chaud com o nefando PsInt. Às gargalhadas! Estavam falando mal deste humilde Reverendo que somente deseja o bem da Humanidade. Mas, acho que ainda tem remédio. Não sei por onde ele anda, mas acho que, em breve, estará de rotorno e vai se explicar perante os leitores deste Bolg. Amém! Minha bênção espançosa.