Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXV

ENFIM!!! :-D

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

Travessia_do_mar_vermelho

(O Mar Vermelho é verde!)

35º CAPÍTULO

O último mês de Outubro foi terrível para mim. Vivia sonhando com N.S. de Fátima, Aparecida e o Frei Galvão. Este, então, convidava-me todas as noites para levitar por sobre o Capibaribe, cheio de soluções malucas para despoluir nosso rio.

Atormentado, contei meus sonhos ao Dr. Quim, Jr. Ele riu e me disse, com a maior cara de pau, que me vira voando com o santo e não achava nada demais. Segundo Quimzinho, eu próprio havia lhe contado que Frei Galvão amava os peixes, pra fazer contraste com São Francisco que tinha uma criação de canários. E deu a maior gargalhada:

▬ É, Tsé! Você está ficando velho!

Tudo isso me fez esquecer dos meus tempos em Roma. Infelizmente, pra meu desagrado, o início do curso de Doutorado fora adiado novamente por causa da morte do Cardeal Francesco Giardini, Professor de Cosmologia da Gregoriana.

Mais um mês de espera, portanto. Já estava de saco cheio de tanto trabalho na Biblioteca. De graça, porque a bolsa que recebia mal dava pra comprar duas ou três bolachas. Já visitara Roma de frente pra trás e vice-versa, e a saudade de minha família palafiteira aumentava, danadamente. Chorava quando recebia cartas de minha terra e respondia chorando mais ainda.

Meu único consolo era conversar com o Monsenhor Lippi e, raras vezes, com o Cardeal Ferrughi, sempre ocupado com seus bois e vacas, além dos anjos medievais.

Desculpem, caros leitores! Havia mais alguma coisa. Assim como ensinara ao padre Javier, eu também paquerava as freiras do Convento de Santa Maria Maggiore. Pelo menos três freirinhas se encantaram comigo. Mas só fazia aquilo com a irmãzinha Giovana do Santo Sepulcro por quem me apaixonara. Frequentávamos, com uma certa regularidade, o Sagrado Bordel da Vila Borghesi, construído especialmente pela ICR para desafogar o alto clero romano. Oficialmente, aliás, era denominado de “Casa de Convivência dos Santos do Senhor”.

Mas, nessas férias forçadas, houve outro tormento. Javier, o jesuíta mexicano, preparava-se para defender sua tese sobre a estadia da Sagrada Família no Egito e me pedira para ler o seu calhamaço de 754 páginas, apontando críticas e erros no manuscrito para não ser surpreendido perante a banca de exame.

O Padre Javier descobrira, perdido em nossos Arquivos, um extenso papiro copta sobre o assunto e dele fizera seu objeto de tese. Ora, de tanto estudá-lo e, por mais estranhos que fossem os episódios contidos no antigo documento, Javier terminou por acreditar em tudo que lia.

De saída, disse-lhe, com toda a franqueza que me é peculiar, que não acreditava em nada daquilo. Segundo as melhores opiniões eruditas, o povo copta não passava de uma das tribos perdidas de Israel que se convertera ao deus Ptah, um dos principais do Antigo Egito. Além disso, era famoso pelo seu espírito gozador, sendo responsável pela palavra “cooptar”, ainda hoje em uso, como a ICR, aliás, aplica com raro brilhantismo.

352 autores citados, além de 87 manuscritos da época, traduzidos para o latim, o grego e o aramaico. Pra nada! No entanto, havia histórias engraçadíssimas e que valem a pena serem contadas.

O jesuíta Javier começa descrevendo a viagem da Sagrada Família, por causa, como todos sabemos, do assassinato das criancinhas atribuído a Herodes.

A Virgem montava um camelo, carregando no colo Nosso Senhor. José ia na frente segurando as rédeas do animal, enquanto um velho manco, apoiado num cajado, seguia atrás. Javier acreditava que se tratava de São Joaquim, o eventual avô de Jesus Cristo.

Para não decepcionar o padre Javier, achei melhor entrar pelo terreno de uma sutil galhofa desde o início, embora fizesse meus comentários com muita seriedade.

▬ Irmão Javier! Encontro, logo na página 54, uma ambiguidade e uma questão teológica das mais sérias. É bom se prevenir.

▬ Pelo amor da Santa Virgem! Diga logo, padre Tsé.

▬ Ora! Veja bem, irmão Javier. O texto não diz com clareza quem mancava; o camelo ou São Joaquim. Além disso, segundo consta nos Evangelhos, o pai de Nosso Senhor foi o Espírito Santo, atestado pela conversa entre o Arcanjo Rafael e Maria, gravada clandestinamente por um dos agentes de Herodes. De onde se conclui, pelo que o irmão escreve, que São Joaquim teria sido o pai da Terceira Pessoa da Trindade, o que não passa de uma grande blasfêmia. Afinal de contas, a eternidade não é pra todo mundo.

camelo1

Abraão Zacuto, o camelo manco da Santíssima Trindade

▬ Ora, Tsé! Essa eu tiro de letra. Realmente, o manuscrito copta não diz com clareza quem mancava. Isso é pura dedução de minha parte. Veja bem! Se o camelo mancasse, ninguém chegaria ao Egito. Logo, o manco era São Joaquim. Quanto à outra questão, é bom dizer que, segundo consta, José era apenas o pai de mentirinha de Nosso Senhor e, portanto, São Joaquim era apenas o avô adotivo.

O padre Javier afirmava que não houve necessidade de levar mantimentos para tão longa viagem. Além de fugirem apressados, não tinham dinheiro para comprar coisa alguma.

O camelo não precisava, claro. A Virgem tampouco desde que fora abençoada desde o início através da Anunciação. Nosso Senhor, acomodado nos seios de sua mãe, mamava o tempo todo. São Joaquim e São José comiam gafanhotos do deserto, como o sobrinho João Batista faria mais tarde, além do mel das abelhas. Como sobremesa, havia sempre o maná que caía do céu. O padre não esclarecia o problema da água, mas um manuscrito egípcio da época afirmava que, naquele tempo, chovia bastante em pleno deserto.

E foi assim que a Sagrada Família chegou ao delta do Nilo, hospedando-se na casa de um trabalhador judeu que, aliás, ajudara a construir uma das enormes pirâmides de Gisé, ficando obscuro no texto de qual das três se tratava.

Desculpem meus caros leitores, mas, de tanto levitar na companhia de Frei Galvão, estou insone e cansado. Contente, no entanto, por saber que o Santinha acaba de ser Campeão de Pernambuco. Assim, deixo para outra vez a continuação dessa história empolgante, contada pelo Padre jesuíta Javier de la Concepción.

PS: pergunta curiosa que apareceu em Bel-O-Kan: com o Flamengo campeão e o Inter, vice, haverá enfim um quadrangular com a Coisa e o Bugre?!

PS2: nova campanha jurídica na palafita: “me processa, Coisa!”

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX
Capítulo XXX
Capítulo XXXI
Capítulo XXXII
Capítulo XXXIII
Capítulo XXXIV

5 Comentários para “Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXV”

  1. Flor de Liz:

    Antes tarde do que nunca, hein reverendo?
    Estava prestes a escrever um manifesto tamanha era a saudade que senti, andava meio órfã de sua presença por aqui mas que bom que voltaste sem que eu precisasse o fazer. rs

    A sua bênção ainda saudosa!

    Abs.

  2. ducaldo:

    Finalmente um novo capítulo!

    Reverendo, não seria mais apropriado dizer que o alto clero “afogava” no sagrado bordel?

    O animal que serviu de montaria não teria sido um jumento?

    Com essa lábia o Frei Javier faria sucesso na política brasileira.

  3. Tsé-Tsé:

    Irmãzinha Flor: Ai que saudade que eu tenho da aurora da minha vida que os tempos não trazem mais. Contudo, tempo, tempo, tempo…E é o presente que sempre privilegio. Minha saudade de tão bela flor é, portanto, mais do que presente. Ela se qualifica no fluir do tempo, isto é, no meu presente. Minha bênção também saudosa.

  4. Tsé-Tsé:

    Irmão Ducaldo: Talvez o irmão tenha razão. No entanto, encontro outro verbo talvez mais apropriado. Em Roma, falava-se muito em “inundar” e, às vezes, em “encharcar”. Claro, tanto no ativo quanto no passivo, tanto nos vasos (termo muito usado pela Inquisição, aliás) femininos quanto nos masculinos. Mas, segundo o Cardeal Ferughi, todos saíam felizes, tanto quem inundava como quem era inundado, independentemente do gênero que se queira considerar.
    Quanto à política brasileira, o animal poderia ter sido um “camelento”, isto é um híbrido de camelo e jumento. Mas, segundo o Dr. Quim Jr., seja qual for o animal, o que sai por trás é absolutamente igual para todos. E, justamente por isso, vivemos na mais perfumosa democracia. Minha bênção receptiva às suas observações. Uma bênção, pois, obsequiosa, Virgem Maria que me perdoe.

  5. Blog dos Perrusi » Blog Archive » Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXVI:

    [...] Blog dos Perrusi Crônica, política, doidice, o escambau! « Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXXV [...]

Deixe uma mensagem