A Coisa no Livro dos Recordes

Duas horas da manhã! Dormia a sono solto quando, sobressaltado, acordei sob intenso tiroteio de fogos de artifÃcio vindo das Palafitas do outro lado do rio. Mandei chamar Zé Medonho, nosso Chefe de Segurança:
─ Zé! Por Nossa Senhora do Arruda, Frei Galvão e Frei Damião, o que está havendo?
─ Reverendo! Trata-se da comemoração dos torcedores da Coisa. ─ Respondeu o neto de Zé Malandro.
─ Ora, ora, Zé! Comemoração de que se eles empataram com o Porco e ainda foram pra Segundona?
─ Como o senhor vê, Reverendo! Comemoração é assim mesmo. CaÃram, mas estão comemorando. Complexo de qualquer coisa, acho eu.
─ De ruindade, só pode ser. Cores malditas que envergonham e poluem a cidade. ─ Respondi.
Ocorre que, naquele momento, chegou o Dr. Quim meio aborrecido com o barulho, embora sabendo do que se tratava.
─ Desculpe, Tsé, mas não sabia que você havia acordado também.
─ E você sabe do que se trata, Quinmzinho? ─ Exclamei, limpando meus olhos ramelentos.
─ Sei! E é o troço mais esquisito do mundo.
─ Bom! Vindo da Coisa, tudo é esquisito. Mas diga logo o que foi, que estou morrendo de sono.
─ Ora, Tsé! Os torcedores da Coisa estão comemorando porque entraram no Livro dos Recordes.
─ E como pode? E que Livro safado é esse que nem o Santinha conseguiu entrar? ─ Interroguei o sábio e bem informado Dr. Quim.
Era uma pergunta muito sábia e, durante um momento, todos meditaram sobre o assunto. Afinal, todos sabiam que o Santinha era o recordista de todas as desgraças possÃveis e impossÃveis que acontecem e não acontecem nesse mundo velho e enfadado. Dr. Quim quebrou o encanto da meditação e perguntou:
─ Não assistiu ao jogo da Coisa contra o Porco?
─ Não! Salvo o Santinha, não assisto a futebol. Só jogo dominó com as meninas do meu clã. Explique-me isso direitinho, Dr. Quim. ─ Respondi mais furioso do que já estava.
─ Pois bem, Tsé! A Coisa é o único time do mundo que levou um gol com dois apitos. ─ Explicou nosso Curandeiro.
─ Ôxente! E quantos apitos tem esse tal de campeonato? ─ Perguntei.
─ Um! Apenas um! ─ Disse Zé Medonho, antecipando-se ao Dr. Quim.
─ Então, não entendi nada. No Dominó, a gente nem precisa de apito. Apenas de uns berros para intimidar o adversário. ─ Respondi.
─ Vou explicar, e você, Zé Medonho, fique calado. O jogador porquento preparava-se para fazer o gol de empate, absolutamente legal, aliás. AÃ, houve o primeiro apito para reforçar a legalidade da posição. O jogador chutou e a bola entrou no gol. O árbitro apitou novamente validando o lance, apontando para o centro do gramado. Um gol e dois apitos! Recorde absoluto, portanto. Não acha, Tsé?
─ Acho até mais! Como houve dois apitos, o tal árbitro devia ter dado dois gols. Não acha Zé Medonho? ─ Observei com muita propriedade.
─ Não pode, Reverendo! Por mais respeito que tenha pelo senhor, se a bola só entrou uma vez, só vale um gol. ─ Respondeu nosso chefe de segurança.
─ Sei não! Dizem que, no futebol, nada é impossÃvel! ─ Filosofei, mandando todo mundo dormir novamente.
Mesmo assim, Dr. Quim ficou pensativo na proposta filosófica: dois apitos, dois gols. Decidiu enviar um memorando à Máfia dos 13 e à CBF, expondo a ideia. Poderia, quem sabe, ganhar até um dinheirinho. O futebol brasileiro é pródigo em casuismo. Enfim, bocejou e resolveu dormir.
Zé Medonho, no entanto, disse que só iria dormir depois de soltar uns traques em homenagem à Coisa. Traques bem fedorentos, daqueles que causam pavor em qualquer coisento. Era assim que mantinha Bel-O-Kan completamente imune aos poderes maléficos da Coisa. Flatos angelicais, como dizia o Reverendo. Zé Medonho não sabia o que era “flatos”, mas gostava muito do nome…
23 de novembro de 2009, Ã s 15:32h
Além de conseguir o único gol com dois apitos, o Brioso Leão da Ilha foi o único time brasileiro classificado para a série B com 4 rodadas de antecipação.
24 de novembro de 2009, Ã s 8:38h
Dois apitos, dois gols – faz sentido.
Fernando, tenho a impressão (investigarei), que Romerito nos concedeu esse galardão em 2006 – e acho que foi com antecipação maior.
Aliás, em matéria de rebaixamento ninguém ganha do Santa – infelizmente.
24 de novembro de 2009, Ã s 9:36h
Desculpe a imprecisão. Eu me referi apenas ao ano de 2009. Mas de fato desconhecia esse grande feito tricolor de 2006. Vale a investigação e vale trazer à luz uma informação dessa magnitude.
2 de dezembro de 2009, Ã s 8:21h
Por onde andam esses Perrusi? Até o reverendo anda sumido!
2 de dezembro de 2009, Ã s 16:53h
Ouvi dizer que o psiquiatra de Intermares havia entrado no banheiro mas, ao sair, deparou-se com uma descomunal lagartixa de 1,1 cm na porta do reservado. Ouvi dizer, mas ainda não tenho confirmação, que o elemento se recusa a deixar o recinto enquanto aquele monstruoso réptil não for retirado do local.
3 de dezembro de 2009, Ã s 12:50h
Edmar,
não é o psiquiatra que, desde criança, tem o hábito de comer lagartixas?
3 de dezembro de 2009, Ã s 15:09h
Saudades do Reverendo…
=’(
3 de dezembro de 2009, Ã s 17:30h
Irmãzinha Cynthia:
Infelizmente, caimos, eu e Perrusi Filho, numa armadilha do PsInt. Quinze dias atrás, ele nos jogou num enorme buraco da Compesa que, segundo consta, fará em 2010 uma licitação para fechar a cratera. Espero que não esqueçam da gente. No segundo dia, a fome nos levou a comer a lagartixa de Edmar, a despeito do horror de Perrusi Filho. E que perninhas gostosas! Quanto à sede, esperamos o próximo inverno que ninguém acredita na Compesa. Felizmente, no entanto, há uma semana, um engenheiro descuidado da dita Cia. estatal trupicou e caiu no mesmo buraco. Coitado! Na queda, quebrou o pescoço e Perrusi Filho constatou sua morte cerebral. A fome era tanta que não hesitamos. Fizemos um churrasquinho de engenheiro da Compesa, aliás excelente, e charqueamos o que sobrou para os dias seguintes. Abrimos a bolsa do indigitado técnico e encontramos um Lap-Top e, com ele, estamos nos comunicando com você. Passamos o tempo, filosofando sobre os dias e as noites cheios de nada. Se, por acaso, a irmãzinha passar por perto da cratera, próxima de uma famosa curva do bairro (não sabemos qual o bairro!), traga uma corda para nos salvar. Ficaremos eternamente agradecidos, pois já apelamos para Frei Galvão, N.S. de Fátima e N.S. Aparecida, além de Frei Damião. E nada! Nadica vezes nada! Continuamos no terrÃvel buraco. Salve-nos! Minha benção encalacrada.
3 de dezembro de 2009, Ã s 17:32h
Irmãzinha Ana Paula:
Eu também!
3 de dezembro de 2009, Ã s 17:32h
Prezada Cynthia,
Como conheci (e apenas virtualmente) o psiquiatra há poucos anos, acho que talvez o Fernando possa esclarecer esse ponto com mais propriedade. Mas pode ser que tenha sido forçado a essa dieta quando criança, e adquirido esse terrÃvel trauma. Mas isso não explica a fobia confessada de outros seres minúsculos.
8 de dezembro de 2009, Ã s 20:19h
Em termos de esquisitices o Santa é mais. A cachorra de peruca quer ganhar esse nosso tÃtulo no grito. Nunca na história desse paÃs se ganhou um prêmio por esquisitice no grito.
Mas não posso deixar de considerar esquisito um ex-presidente da coisa enviando uma carta para Irineu Marinho, o falecido pai de Roberto Marinho. Isso é pra lá de esquisito.
O fato é que há um Ãstimo entre o tÃtulo de 1987 e a verdade dos fatos. Afinal, nunca vi um jogo ir aos pênaltis e não sair vencedor.
Essa coisa é uma coisa mesmo.
Abraços sinceros e a bênção ao reverendo Tsé-Tsé.
Dimas Lins
9 de dezembro de 2009, Ã s 13:18h
Edmar
Esse apreço do psiquiatra por lagartixas não confere. Ele padece de uma aversão congênita e irrecuperável por animaizinhos em geral, especialmente os que voam. Se houver uma lagartixa no teto, ele estará sentado na outra ponta do recinto.
9 de dezembro de 2009, Ã s 13:22h
Irmão Dimas: Com todo o respeito, eu já vi. Foi naquele jogo, apitado por Armando, em que deu empate nos penaltis. O juiz encerrou as cobranças e os dois times foram declarados campeões. Um deles era a Portuguesa. O outro já me esqueci. Quanto à carta do ex-presidente da Coisa, nada mais natural. Ambos já faleceram e o correio celeste funciona melhor do que o nosso.
Com minha bênção de apito.
9 de dezembro de 2009, Ã s 17:25h
Prezado Reverendo, salvo engano o outro time era o Santos.
Abs.