Acompanhe o RSS: Artigos | Comentários | Email

Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXX

2 comentários

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

- Honduras e a seriedade

tratado-vaticano-mussolini

(“Mussolini é o homem enviado pela Providência” – Pio XI (1922 – 1939); “Roma, onde Cristo é romano” – Benito Mussolini (Ditador italiano, aliado de Hitler).

30º CAPÍTULO

Dormi no quarto de hóspedes do Monsenhor Lippi. Às três da manhã, as ruas de Roma, mal iluminadas, tornavam-se muito perigosas, mesmo para um simples padre. Constanza tornara-se uma irmã espiritual. Nada mais! Nunca mais a vi. Minhas atribulações em Roma impediram novo encontro.

Dias depois, voltei a jantar no apartamento de Lippi. Ele queria, antes do começo do meu curso de Doutorado, contar algumas coisas sobre a ICR.

─ Monsenhor! Por que, depois da obra nefasta de Pio XI, o senhor continuou como seu amigo? ─ Perguntei-lhe, logo de saída.

─ Não foi bem assim, Tsé. Enquanto Cardeal, Ratti tomou muitas iniciativas reformistas; modernizou a Biblioteca e os Arquivos do Vaticano dos quais era o chefe, e eu, o subchefe. Além disso, como protetor das ciências, ele fundou o Instituto Cristão de Arqueologia, a Academia de Ciências e o Observatório Vaticano em Castelgandolfo, isso já como Papa. Mas, depois, a coisa embolou.

─ Como assim? ─ Insisti.

─ Veja bem, Tsé! Quinze dias depois de Ratti ter sido eleito Papa, fui chamado ao seu gabinete e tivemos uma conversa histórica. Ele mostrou uma Bula que me nomeava como seu substituto na Biblioteca.

─ Santidade! Não mereço tal distinção. ─ Respondi.

─ Bobagem, Lippi! Além de meu amigo, você é o maior arquivólogo da Europa. E minhas ordens são irrevogáveis. E, por favor, continue a me chamar de Ratti. Detesto esses Pios da vida. Obedeci apenas a uma tradição, nada mais. ─ Disse-me o então Pio XI.

─ Cardeal! Eu posso atrapalhar seu reinado, pois sou casado e tenho uma filha na Inglaterra. Além disso, não acredito nessas bobagens da ICR.

─ Nem eu Lippi, nem eu! Quanto ao seu casamento informal, já sabia de tudo. Segundo São Paulo, é melhor casar do que abrasar. Não conheço um cardeal ou alto dignitário da Igreja que não tenha tido algum caso, em geral com alguma freira. Somente tenho nojo de alguns que vivem seduzindo nossos soldados da Guarda Suiça. Lindos, é verdade, mas não precisava tanto. Um dia, isso vai dar um bode danado. ─ Disse-me o Santo Padre.

Mas, Tsé, o reacionarismo e a paranoia de Pio XI foram nos afastando, especialmente sua aliança com Mussolini. Segundo o Papa, a ICR estava falida financeiramente e ameaçada pelo comunismo, encabeçado pela União Soviética e pelo PCI. Por outro lado, Mussolini, ateu e anticlerical convicto, percebeu que não poderia governar a Itália sem o apoio do Vaticano.

A fome, pois, aliava-se ao prato de comida, como se diz lá na sua Comunidade.

Assim, em 11 de Fevereiro de 1929, foi assinado o Tratado de Latrão entre a ICR e o Governo de Mussolini. A Igreja receberia uma subvenção anual de 90 milhões de dólares, como suposto ressarcimento pela perda dos chamados “Estados Vaticanos” durante a unificação italiana, terminada em 1870, além de outros privilégios como, por exemplo, a isenção de todos os impostos, o ensino obrigatório do catolicismo nas escolas públicas e o banimento de qualquer outro rito religioso na Itália.

Em contrapartida, Pio XI apoiava integralmente o fascismo, extinguindo o Partido Católico, o único partido legal que se opunha a Mussolini, e ordenando aos bispos fazerem propaganda do fascismo nas igrejas.

O PCI nem se fala; clandestino estava, clandestino ficou.

Pio XI aliava-se, pois, a quem ele próprio chamava intramuros de “Filho do Diabo”, embora o chamasse, publicamente, de “enviado da Providência”. O Tratado de Latrão foi chamado por muitos como um verdadeiro “Pacto com o Diabo”. E não passou disso mesmo. A religião, especialmente a romana, sempre foi um grande balcão de negócios. Enfim…

Mas, Tsé, além de rica, especialmente com as contribuições da Máfia Siciliana, a Igreja de Pio XI e Mussolini criaram o “Estado da Cidade do Vaticano” ─ de 44 hectares! ─ verdadeira excrescência política, aceito depois da Guerra pela ONU, tornando o Papa num “Rei Deus” ou vice-versa, se você preferir, desde que o dogma da Infalibilidade ainda estava em vigor.

Já em 1215, o Papa Inocêncio III declarava que

“o Senhor concedeu a Pedro não só o governo da Igreja, mas o governo do mundo. Agora, podeis ver quem é o servidor que é colocado sobre a família do Senhor; verdadeiramente, é o Vigário de Jesus Cristo, o sucessor de Pedro, o Cristo do Senhor; colocado entre Deus e o homem, deste lado de Deus, mais além do homem; menos que Deus, porém mais que o homem; que julga a todos, mas, não é julgado por ninguém”.

Estevam V já dissera que

“os papas, como Jesus, são concebidos por suas mães ao serem engravidadas pelo Espírito Santo. Todos os papas são uma espécie de homens deuses, com o propósito de serem mais capazes de servir de mediadores entre Deus e a humanidade. Todos os poderes do céu e da terra lhes serão concedidos”.

Portanto, meu caro Tsé, Pio XI apenas seguia a tradição da ICR como, aliás, o seu sucessor com seus indecorosos namoros com o Nazismo de Hitler. Pior! O Vaticano é o único estado do mundo que não tem cidadãos natos, desde que os sacerdotes e freiras são proibidos de procriar e jamais nasceu qualquer criança dentro daqueles 44 hectares. Estado teísta, machista e que, segundo os papas, pretende governar o mundo.

─ Quer dizer, Monsenhor, que os Piu-Pius da vida acreditavam nisso mesmo? ─ Interrompi Lippi.

─ Claro, Tsé! Não somente acreditavam. Faziam exatamente, e ainda fazem, o que suas vozes interiores, supostamente inspiradas pelo Espírito Santo, ordenavam-lhes. E pare de chamá-los de “Piu-pius”. Isso é falta de respeito. ─ Respondeu Lippi com um sorriso malicioso.

─ Ora, Monsenhor! É assim que Zé Malandro os chama na Comunidade e ninguém se incomoda.

─ Pois bem! ─ Continuou Lippi. ─ Quando a Guerra se tornou inevitável, a ICR se fez de sonsa, ignorando toda a anterior colaboração com o Fascismo e o Nazismo, embora, diplomaticamente, mantendo relações com eles. Mas estava milionária, com a criação do IOR (Instituto per le Opere di Religione), o maior, mais fechado e mais secreto Banco do mundo, do qual o Papa é o único e exclusivo operador. Na verdade, um grande centro de “lavagem de dinheiro”.

Foi, justamente, durante a Guerra que conheci o então Arcebispo Ferrughi, seu Orientador, Tsé. Ele era nosso contato com os “partigiani” e pudemos salvar muita gente do terror fascista, enquanto o Papa namorava com Mussolini e com Hitler.

Mas, hoje, estou cansado de tanto trabalho. Ainda falta lhe contar as façanhas de Pio XII. Como embaixador do primeiro “piu-piu” na Alemanha; depois, como Secretário de Estado do Vaticano e, finalmente, como Papa, tornou-se uma figura chave tanto no desenrolar da Guerra quanto no seu final. O Cardeal Eugênio Pacelli, aliás, era o candidato preferido de Hitler ao trono papal quando Pio XI morreu em 10-02-1939.

Engraçado, meus caros leitores! Apesar da colaboração com os nazistas, ouvi dizer que Pio XII está na bica para ser “santificado” pela ICR. A comunidade judaica, aliás, já vem protestando há muito tempo contra tal absurdo.

Mas, isso é outra história! O Santinha, enfim, voltou a vencer.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII
Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX

Torcedor
  1. Eita! O reverendo abriu as comportas.
    É assim que eu gosto.

    Pio XII Santo? Então tá.
    Depois a ICR reclama por que está perdendo fieis……

  2. Ora, ora o reverendo deu uma bela caprichada… que venham muitos outros capítulos reveladores como este! rs

    A bênção, reverendo!

Deixe um comentário