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Palidroma

Nonsense de Tsé-Tsé
Estava este sacerdote ateu e irreverente assistindo, numa livraria da cidade vizinha, ao lançamento de um livro, quando ouvi uma voz atrás de mim.
─ Reverendo! Por aqui?
─ Oh! Romeu! Não sabia que gostava de livros. ─ Respondi.
─ Sempre detestei, Reverendo! Vim por causa de Luíza.
─ É! Parece que o livro é bom mesmo. Tanta gente, né?
─ Duvido! Nenhum livro presta, Reverendo.
─ Não diga besteira! Aliás, você anda desaparecido. Tem lido minhas Memórias? ─ Falei para o intruso.
─ Ora, Reverendo! Lia alguns Capítulos mas tive que parar por causa de Luíza. ─ Respondeu a voz que teimava em falar por trás de mim.
─ E o que é que ela fez? A propósito, onde está Luíza? Nunca mais a vi. ─ Perguntei.
─ Olhe à sua esquerda. Ela está na companhia de um rapaz magrelo.
─ Puxa! Como ela está pálida! Precisa de umas vitaminas feitas com nossas flores do mangue. Diga pra ela, por favor. ─ Observei.
─ O senhor não sabia? Ela morreu, três meses atrás.
─ Não diga! Coitadinha! Cheia de vida! E o rapaz está mais pálido do que ela. ─ Observei.
─ É verdade! Morreram juntos numa tragédia familiar.
Voltei-me, então, para meu interlocutor e notei que sua palidez era infinitamente maior do que a do casal mencionado.
─ Bom, caro irmão! Pelo que vejo, sua palidez não fica por menos. ─ Disse-lhe um pouco assustado.
─ Ora, Reverendo! O senhor não sabia? Foram apenas três tiros. Os dois primeiros pegaram na cabeça dos dois. Luíza estava me traindo com o magrelo. O terceiro, deixei para mim mesmo. Morremos juntos, portanto.
─ Interessante! Ainda se mata por causa disso? ─ Observei sem muito interesse.
─ Desculpe, Reverendo! Mas, estou atrasado. Quer me acompanhar?
Fui conversando sobre assuntos diversos com o pálido homem até o portão da Comunidade. Ele se despediu, dizendo-me:
─ Obrigado pela companhia, Reverendo Tsé-Tsé. Sempre admirei sua obra social nas palafitas. Recolho-me, agora, ao meu apartamento celestial.
Atravessou uma das palafitas e sumiu no mangue.
Olhei no meu relógio. Era meia-noite!
Cruz, Credo! E ainda tem gente que acredita em alma penada!

















Quem mandou para de ler as memórias e se preocupar com chifre? Só poderia resultar em castigo, que, dizem, pra todo corno é pouco.