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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXVIII

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Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

DorianGrey

(Sogno o realtà)

28º CAPÍTULO

O expediente da tarde havia terminado, e eu estava exausto. Cinco ou dez minutos antes, Lippi me chamou ao seu gabinete.

─ Tsé! Não sei por que, estou doido pra cozinhar novamente. Tenho um lombo de porco em casa, e você está convidado para saboreá-lo comigo. Amanhã, pretendo tirar uma folga do trabalho e poderemos conversar bastante. Chegue às oito em ponto.

Em Roma, Monsenhor Lippi morava num amplo apartamento de três quartos e sala. Por fora, era pintado de ocre como todos os prédios da cidade, aliás. Roma, cidade amarelada! Por dentro, contudo, tratava-se de uma obra-prima de bom gosto, cheio de obras de arte e tapetes orientais. No seu escritório, uma coleção preciosa de livros e um birô de mogno. Duas poltronas e uma mesa de chá.

Depois do excelente jantar, fomos degustar um licor artesanal produzido na villa de Lippi. Foi quando ele começou a falar, continuando a conversa do almoço na Biblioteca.

─ Sabe, Tsé! Eu e Susan saímos andando da Universidade em direção da estação ferroviária. Não sabia o que dizer. Fazia um frio danado e caminhávamos muito rápido pelas ruas estreitas de Oxford. Foi Susan quem falou primeiro:

─ Doutor, Professor, Monsenhor…sei lá o quê. Desculpe-me, mas quando o vi se dirigindo à mesa de debates, só pensei numa coisa: eis aí um homem, apenas um homem e nada mais do que um homem. Quando os debates terminaram, acrescentei: um homem charmoso, inteligente e erudito. Se você concordar, prefiro que nos tratemos pelos nossos prenomes, Susan e Giorgio. Sou livre-pensadora, feminista, embora não radical, e detesto essas frescuras acadêmicas.

─ Claro, Susan! Concordo inteiramente. Pra que perdermos tempo com tantas mesuras, não é? ─ Respondi ruborizado.

─ Mas, não entendo uma coisa, Giorgio. Como um intelectual tão inteligente e culto pode acreditar nessas besteiras da ICR?

─ Ora, Susan! Quem disse que eu acredito. Sou tão livre-pensador quanto você. Talvez até mais do que você possa imaginar. ─ Respondi.

─ Como assim? ─ Exclamou Susan.

Mas, o barulho do trem nos deixou calados. Descemos na pequena estação de Pen Gold e tomamos o Bentley de Susan que ficara, como de hábito, estacionado no pátio. Daí em diante, foi um imenso pavor. Susan dirigia como uma louca, serpenteando e cantando os pneus nas inúmeras curvas da pequena estrada.

─ Susan! Não está dirigindo muito veloz? ─ Disse assustado.

─ Que nada, Giorgio. Adoro a velocidade. Sinto-me como se estivesse nas nuvens, voando em plena liberdade.

Felizmente, entramos na porteira da herdade e paramos defronte de uma bela mansão estilo georgiano, arrodeada de árvores cinza e desfolhadas, como se fossem magros e esguios soldados guardando a casa. À porta, esperava-nos Helga, ex-babá de Susan. Guardei meu sobretudo e o chapéu no cabide perto da porta de entrada e Susan disse para Helga:

─ Almoço daqui a meia hora, minha querida.

Fomos para perto da lareira acesa da grande sala de jantar e Susan me ofereceu um Porto como aperitivo. Logo depois, almoçamos com bastante frugalidade. Uma salada de folhas, bem temperada e, depois, fatias de carne de ovelha ao molho de champignon com arroz branco. Um bom vinho tinto, embora encorpado. Uma sobremesa de morangos com chantilly.

Embora o frio apertasse, Susan convidou-me para um passeio na propriedade.

─ Sabe, Giorgio! Eu e minha irmã, médica em Londres, herdamos alguma coisa de nossos pais. Meg preferiu alguns imóveis urbanos. Eu sempre fui apegada ao campo e preferi ficar por aqui mesmo. Adoro as paisagens campestres inglesas, talvez as mais belas da Europa. Mas, você falou alguma coisa sobre ser um livre-pensador. Fale-me sobre isso. Se desejar, claro.

─ Susan! Meu pai era um capo menor da máfia siciliana e foi assassinado quando eu tinha doze anos. Filho único e órfão. Não tinha muita escolha. Ou entrava na máfia ou na ICR, o que, de fato, não fazia muita diferença. Os métodos são quase os mesmos. Detestava a violência e já era um furioso leitor. Preferi o Colégio dos Beneditinos, perto de Palermo. Lá aprendi a me defender da corrupção dos padres, especialmente no terreno sexual. Logo depois, entrei no Seminário. A coisa era pior do que no Colégio, salvo pela maioridade dos litigantes. O resto fazia parte da marginália. Eu era um dos poucos marginais, é bom dizer logo pra você. Desde a adolescência, no entanto, não acreditava mais em nada. O sobrenatural que se danasse, se é que ele existe. Como vê, Susan, já era ateu desde os doze anos e continuei assim até hoje. Mas, a ICR era um bom emprego e me protegia da máfia, sua irmã. Além disso, com meu Doutorado e a amizade do Cardeal Ratti, meu Orientador, fui trabalhar na Biblioteca e no Arquivo do Vaticano. Jamais oficiei uma missa, salvo nos ensaios no seminário, no meio da maior gaiatice. Tampouco usei batina, mesmo na Gregoriana. Minha vocação era a pesquisa e nada mais. E, agora, conheci você, a primeira mulher com quem converso mais longamente. É isso aí!

─ Verdade, Monsenhor! Alegristas e gemistas! É por isso que a Igreja se diz universal ou católica. As sacanagens continuam as mesmas. ─ Interrompi Lippi.

Sem ligar para minha observação, o Monsenhor continuou.

─ Pois é, Tsé! Foi quando Susan me fez uma pergunta embaraçosa

─ Estranho, Giorgio! E você nunca se relacionou com uma mulher? ─ Perguntou ousadamente Susan.

Ora, Tsé, se o vento frio já avermelhava meu rosto, imagine como fiquei naquele momento.

─ Bobagem, Monsenhor! Uma labareda, embora não apenas no rosto. ─ Respondi.

─ Mais respeito, Tsé! Por favor! É a primeira vez que falo dessas coisas. Respondi a Susan vaga e suavemente. Disse-lhe que não tivera tempo. Era um fanático pelo trabalho. Salvo numa das vezes em que fui ajudar as freiras do Convento de Santa Madalena do Calvário a organizar o arquivo local. Uma das freirinhas, com um rosto muito suave, me auxiliava e me olhava de um modo insistente e inusitado. Num certo dia, convidou-me para uma quermesse em prol das obras piedosas. Poderíamos, segundo ela, passear no bosque que arrodeava o convento. Não fui! Não pretendia desencaminhar ninguém. Preferi ficar no meu escritório trabalhando. Somente isso! ─ Respondeu o Monsenhor à minha insinuação. E continuou o seu relato.

Flocos de neve começaram a cair e, logo, transformavam-se pouco a pouco numa verdadeira nevasca. Voltamos correndo para dentro de casa e ficamos bebericando um vinho ao pé da lareira. Olhei para fora preocupado. A neve aumentava de volume, cobrindo tudo com seu manto branco e frio. Meu trem de volta saía às sete da noite. Às cinco em ponto, Helga nos serviu o tradicional chá inglês. Susan ligou o rádio e as notícias não eram boas. A nevasca cobria toda a região e a linha férrea havia sido interditada. Aflito, perguntava-me como voltar para meu hotel.

─ Noto um pouco de angústia no seu rosto, Giorgio. ─ Disse-me, maliciosamente, Susan.

─ Pode ser! Pode ser! Mas não imagino como voltarei a Oxford. ─ Respondi-lhe ofegante.

Susan levantou-se com o copo em uma de suas mãos e ficou de frente para o grande espelho sobre a lareira. Por trás, percebia o lindo perfil do seu corpo. Seu rosto, refletido no espelho, sorria misteriosamente. Voltou-se e me disse:

─ Giorgio! Gostaria de brindar nosso encontro. Não é todo dia que isso me acontece. ─ Aproximou-se e, praticamente, com os rostos colados, Susan tomou a iniciativa que já considerava inevitável. Abraçou-me e nos beijamos longamente na boca.

─ Ora, Giorgio! Você pode dormir aqui em casa. Temos três quartos de hóspedes. Helga vai preparar um deles pra você.

Depois do jantar, continuamos a tomar vinho junto à lareira. Nunca havia conversado tanto com uma mulher e já estava tonto por causa do vinho. Olhei o relógio e disse a Susan:

─ Minha querida! Precisamos nos recolher.

Subimos a escadaria e Susan levou-me ao quarto, mostrando-me os detalhes. Desejou-me um bom sono. Por gentileza, acompanhei-a ao seu próprio quarto. Ela abriu a porta e voltou-se para mim. Abraçamo-nos e nos beijamos novamente.

Não sei o que realmente aconteceu, Tsé. Surpreso, acordei na cama de Susan com sua linda cabecinha aninhada no meu peito. Sentia-me emocionado e uma névoa mágica parecia me envolver. Tratava-se de um sonho, certamente. Lá fora, o sol começava a derreter a neve.

─ Mas, eu sei o que aconteceu, Monsenhor! ─ Intrometi-me novamente na história de Lippi.

─ Se sabe, Tsé, fique calado. Há coisas que somente o silêncio pode e deve guardar. ─ Terminou Lippi.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI
Capítulo XXVII

Sementeiras
  1. Tsé,
    Peço-te desculpas por minha ausência, estive viajando e não tive tempo de comentar os novos posts que por sinal estão excelentes. Parece-me que Perrusi Filho também voltou a escrever durante o tempo que estive longe. Bom saber que ele desistiu da idéia de encerrar o blog. Bem, volto depois para comentar com mais calma e para contar detalhes de minha viagem.

    A sua bênção, reverendo!

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