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A prova da paixão
Psss… silêncio, pessoal… estou aqui, na surdina, lendo alguns manuscritos do baú secreto de Tsé-Tsé. O dito-cujo caiu, pela miléssima vez, no conto do chá de aruaxi.
_Tome, Tsé-Tsé, esse chá lhe fará bem!
_Você é muito escorregadio, Psi de Intermares.
_Só lhe quero o bem.
Apesar da desconfiança, ele tomou o chá. Dorme agora, profundamente. Aproveitei o ensejo e fui vasculhar seu baú. Há boatos de mapas de tesouro, fórmulas mágicas, remédios milagrosos. Quem encontrá-los ficará podre de rico. Eu quero ficar podre de rico. É o tipo de podridão que procuro na vida. Aliás, que eu caia de podre, mas rico!
Bem, vasculho, vasculho e, até agora, não encontrei nada de importante, exceto…
Exceto partes de um diário do Monsenhor Lippi. Partes explosivas, eu diria. Belas, até. Parece que houve um romance tórrido entre Susan Bates e Lippi. Inclusive, há sugestões de que planejaram viver juntos, imaginem só. Não sei como realizariam esse plano louco, mas as anotações do diário levam a essa conclusão. O plano era detalhado a ponto de nele aparecer a primeira compra da casa. Não era uma cama, nem uma geladeira, nem mesmo um sofá. Era um ficheiro! Sim, um móvel onde se guardam fichas, devidamente classificadas. Sendo dois intelectuais, amantes do conhecimento, a primeira coisa que pensaram, para o futuro lar, fora um ficheiro.
Confesso que fiquei, inicialmente, encafifado com isso. Que casal estranho, pensei! Mas, quando li a ficha No 1 do ficheiro, mudei imediatamente de idéia. Na verdade, o ficheiro era a prova de uma paixão tão imensa, que o tempo parou para ler.



Ficha No 1
Feliz aniversário. Agora, nós podemos, realmente catalogar o que pensamos, ou melhor, o que somos. Antes de sermos qualquer coisa, precisamos ser o que somos. Isto somente poderemos conseguir pensando; e pensando organizadamente. Isto que agora é seu, constitui-se o princípio de nossa casa. Meus cincos sentidos estão abertos para você. Através disso vivamos, e entendamos bem o que o homem é, pois com tal entendimento teremos pago nossa dívida para com a humanidade.
Susan, minha vida, FELIZ ANIVERSÁRIO!
A primeira ficha coincidia com o aniversário de Susan. Não havia data. Procurei outras fichas, mas não as encontrei. Só tinha aquela. Lippi fazia uma interessante conexão entre ser e pensar. Catalogar o que se pensa é catalogar o que se é. O ser do nosso ser é anterior a outros modos de ser. Para sê-lo, é preciso pensar. Pensando, somos — em suma. A dívida com a humanidade revela uma forma de iluminismo cristão? Lippi era um cartesiano?
Ops!, chegou gente, preciso fechar o baú e me esconder…
















