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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXVII
Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

Dra. Susan Bates, usando vestimenta de freira
(Prologo a una storia d’amore)
27º CAPÍTULO
Recebi a medalha das mãos do Monsenhor Lippi e guardei-a até hoje, em memória de Constanza. O crucificado parecia com certo padre de um país longínquo e sem importância. Apenas, perguntei:
─ Como assim? Ela não era uma freira romena exilada?
─ Não, Tsé! Isso é uma história muito longa. Constanza é uma pesquisadora de Oxford. Quando vem à Itália, gosta de se vestir de freira, apenas por gozação. ─ Respondeu Lippi, acrescentando:
─ Puxa! Que longa conversa! Quer almoçar comigo, Tsé? Preparei uma receita especial de pizza e estou doido para experimentar.
Enquanto preparava seu novo prato, Lippi continuou a falar.
─ Sabe, Tsé! Há muita coisa desconhecida para um jovem como você. Monsenhor Braguinha, seu pai, pediu-me que lhe instruísse o máximo possível. Como se estivesse completando sua educação emocional. Intelectualmente, você já está maduro e não me compete fazer nada. Deixo tal tarefa pra Ferrughi, seu Orientador. Mas, do ponto de vista do coração, talvez eu possa lhe ajudar.
─ E começou muito bem, Monsenhor, mandando Constanza de volta para a Inglaterra sem nem sequer se despedir de mim. ─ Respondi cheio de amargura, mastigando, aliás, um pedaço da excelente pizza que acabara de sair do forno.
─ Pois é, Tsé! Conversei bastante com ela e lhe disse que o momento não era favorável para vocês passarem uma semana juntos na minha villa. Quem sabe, depois, em suas próximas férias? ─ Disse Lippi com muita seriedade.
─ Mas, afinal de contas, quem é Constanza? ─ Insisti.
─ Tenha paciência, Tsé. Vou lhe contar.
Em seu Doutorado, Monsenhor Lippi fora estudante do Cardeal Ratti, futuro Pio XI. Eram ligados pelo interesse pela Arquivologia e sempre que Ratti era acometido por uma crise epiléptica, Lippi era o primeiro e único a socorrê-lo. Naquela época, não havia medicamentos nem se entendia muito bem a doença. O principal era proteger a cabeça do paciente para que os espasmos não a deixassem bater em qualquer coisa mais dura. O preconceito era generalizado e Lippi, com seu habitual sentido de generosidade, acompanhava Ratti até o fim da crise. Por isso mesmo, o Cardeal nutria uma infinita gratidão por seu orientando.
Ratti era um intelectual de peso com renomada reputação nos meios científicos europeus. Assinaram diversos ensaios juntos para algumas revistas especializadas e, pouco a pouco, a parceria estreitava ainda mais os laços de amizade recíproca.
Após uma de suas crises, o enfraquecido Ratti indicou Lippi para substituí-lo num Congresso em Oxford, onde se discutiria uma descoberta da Dra. Suzan Bates sobre os cálculos de probabilidade aplicados em pesquisas agrícolas em mosteiros e conventos medievais. Tratava-se, na verdade, do uso de um novo logaritmo de controle que revolucionava o assim chamado “mundo dos papéis antigos”.
O Monsenhor Lippi acabara de defender sua tese e estudara com Ratti a chamada “equação Bates”. E, por acaso, descobrira uma derivação que, por assim dizer, era “o avesso do avesso” dos cálculos da pesquisadora de Oxford. Não que a superasse, claro, mas fornecia uma função de generalização, ausente na equação original. Modesto, como sempre, Lippi teria preferido publicar antes seu “achado” do que confrontá-lo na presença da autora inglesa. Mas, Ratti, autoritário e imperativo, como sempre, obrigara-o a ir ao Colóquio oxfordiano.
Havia cerca de quinhentas pessoas no grande anfiteatro de Oxford, todos especialistas ou estudantes de doutorado. Na mesa, estavam a Dra. Susan Bates e o matemático francês Jean Berbère, da Sorbonne.
Lippi, um pouco atrasado, dirigiu-se para a mesa e, pouco a pouco, seu coração ia disparando ao olhar para Susan. Seguramente não se tratava de uma mulher, mas, sim, de um raio de sol em começo de primavera, pensou. Gaguejou uma desculpa quase inaudível pelo atraso.
Susan Bates apresentou em cinco minutos a mais nova versão do seu trabalho. Praticamente não abandonou o quadro negro atrás da mesa. Depois, sentou-se debaixo de um grande aplauso da platéia.
Berbère, então, levantou-se e também em silêncio colocou um sinal de menos na equação que Susan havia esquecido. Sentou-se novamente e disse apenas:
─ Parfait!
Lippi, totalmente intimidado, começou hesitante sua comunicação. Citou e elogiou todos os trabalhos de Susan e concentrou-se em sua mais nova equação. Com o rosto avermelhado e embaraçado, disse:
─ Mas…─ O que provocou um grande burburinho no auditório, talvez de reprovação.
No quadro negro, Lippi sugeriu a introdução da função f(pe), que, segundo ele, alargaria o quadro de generalização a todos os arquivos europeus até então pesquisados. Acrescentou que o “pe” significava “dias de penitência”, mais comum no continente do que na Inglaterra, onde foram esquecidos desde o século XV.
Susan cochichava com Berbère que acenou a cabeça como aprovação. Ela, então, levantou-se novamente e foi ao quadro negro. Por cerca de dez minutos, examinou sua equação e, depois, a derivação formulada por Lippi. Voltou a sentar-se e olhou para Lippi como se estivesse vendo um verdadeiro fantasma. Mas, não era medo e, sim, admiração, que seus belos e grandes olhos verdes exprimiam. Disse, laconicamente, debaixo do maior silêncio que Lippi já presenciara:
─ Proponho que, a partir de agora, minha equação seja denominada de “equação Bates-Lippi”. Não vejo como deixar de me curvar à tão pertinente descoberta do ilustre enviado do Vaticano.
Enquanto os aplausos se demoravam, Susan ergueu-se e apertou a mão de Lippi. O rápido contato físico provocou no italiano um grande aperto no coração e um sorriso de agradecimento.
A sessão estava terminada e Lippi não sabia bem o que deveria fazer, quando Susan, uma mulher de seus trinta anos, disse-lhe:
─ Dr. Lippi! Não há nada de importante hoje à tarde no Congresso. Gostaria de convidá-lo para almoçar comigo. Temos muito que conversar. Moro a cerca de vinte minutos de Oxford, por trem, e podemos passar a tarde na minha herdade, numa cidadezinha chamada de Pen Gold. E não admito nenhuma recusa de sua parte. ─ Terminou sorrindo com um certo charme.
─ Ora, Tsé! Não havia como recusar um convite de uma cientista do quilate de Bates nem tampouco de uma das mulheres mais lindas que já conhecera. ─ Terminou Lippi, abocanhando o último pedaço de pizza.
Terminaram o almoço e se prepararam para o segundo expediente. Lippi nada mais disse.
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI
Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV
Capítulo XXVI

















Reverendo, quero te pedir sua benção. E anseio desde já pelo próximo post de suas memórias (falsas?!). Abraços de mais uma de suas seguidoras, Ana Paula