Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXVI

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(Béé, béé! - Nhoc, nhoc!)

26º CAPÍTULO

Acordei na maior confusão dentro da Comunidade. Há quinze dias estava acamado, em coma, por causa da gripe suína e o Dr. Quim não deixava nem me levantar nem botar a cara na porta. Lá fora, gritos das crianças e ruídos que pareciam de um bode e de um porco.

Chamei Tininha, minha bisneta predileta, e perguntei:

─ Minha filha! Que diabo está acontecendo?

─ É o bode, correndo pra lá e pra cá, querendo dar marradas em todo o mundo.

─ E o tal de nhoc, nhoc, nhoc?

─ É o porco que os rapazes florzinha compraram. O bode está querendo namorar com ele e a gente não deixa. ─ Respondeu Tininha.

Mandei chamar o Dr. Quim para esclarecer o caso. Nunca vi bode em cima de porco, salvo no jogo do bicho.

─ Pois é, Tsé! Compramos o bode pra uma buchada no fim de semana. Aí, os meninos daquele clã estranho, que não admite mulheres, compraram um leitão dizendo que não gostam de bode. Uma confusão danada.

─ Ora, Quinzinho! Por que não amarraram os dois?

─ Já mandei amarrar o porco, mas com o bode não dá porque ele é cobaia de uma experiência do Laboratório, dirigida por Totonho da Goiaba, meu auxiliar e namorado de Tininha. O bode toma pela manhã uma caneca do novo chá experimental e tem que ficar solto. Esse é que é o problema. Quer namorar com todo mundo. Melhor que seja com o leitão. Mas, amanhã, a gente começa a desintoxicar o bicho, já que a experiência foi um sucesso. ─ Explicou-me o Dr. Quim.

─ Quer namorar ou fazer aquilo? Aquilo, aquilo, você sabe melhor do que eu.

─ Aquilo e muito mais, Tsé. O chá é afrodisíaco e o bode endoidou de vez. Pior! No churrasco de carne de bode azeitado, a Comunidade vai endoidar. E vai ser noite de lua cheia, ainda mais.

─ Puxa! Nunca vi um bode querer transar com um porco. E o coitado do leitão? ─ Perguntei.

─ Feliz da vida, Tsé! Feliz da vida! Ah! A natureza! Misteriosa, como sempre, Tsé. Sei disso desde os tempos em que era auxiliar de meu pai.

─ E você, Quinzinho, com essa idade, permitiu essa sem-vergonhice? ─ Respondi de cara feia.

─ Foi o jeito, Tsé. E tudo em nome da ciência. Melhor testar no bode do que numa das meninas. Tininha até que se ofereceu. Mas, isso é contra nossa ética. Mas, liberdade é liberdade. E foi você mesmo quem aprovou o clã dos florzinha. Saudaram o leitão como verdadeiro herói. ─ Falou o Dr. Quim na maior risada.

─ Liberdade! Liberdade! É bom, mas dá um trabalho danado. Só queria ver! E esse tal de Coma? Já é pela quinta vez que tenho isso.

─ Micróbio resistente, Tsé. Estamos providenciando uma vacina no Laboratório. Daqui a cinco ou dez anos, estará pronta. ─ Disse o Dr. Quim muito confiante.

─ Por favor! Mande chamar a menina.

Tininha era primeira de classe na escola e a tradutora dos meus garranchos. Precisava continuar as Memórias e não me lembrava mais de nada. Nem sabia como terminara o último Capítulo, tal a confusão vivida nos últimos quinze dias, além da gripe que chegara pelos correios, diretamente da Arquidiocese.

─ Tininha, minha filha! Leia os últimos capítulos das Memórias que me esqueci de tudo. Quero pegar o fio da meada e terminar logo com esse troço.

─ Vô! Só tem história de rato. É rato pra todo lado e nunca vi disso em nenhum livro da escola.

─ Ratos! Ratos! Ora, Tininha! Deixe de brincadeira que eu detesto ratos. ─ Respondi.

─ É verdade, Vô!

E a menina leu novamente boa parte de minhas Memórias. Fiquei horrorizado! Depois, pouco a pouco, comecei a me lembrar de que havia algo de verdade naquilo tudo. Mas, certamente, minha memória havia trocado as bolas. Houve ratos, sim! Mas, muito antes de minha chegada a Roma. Não vi nada e tudo me foi contado por Ferrughi, meu Orientador, o Cardeal mais brincalhão do Colégio Cardinalício, muito tempo depois quando eu já estava redigindo minha tese.

─ E como termina o último Capítulo, Tininha?

─ Aqui, diz que o Vô estava conversando com o Monsenhor Lippi, (com dois pês), e ele estendia a mão fechada pedindo ao Vô que adivinhasse o que estava lá dentro.

─ Ah! Já sei. Agora me lembro de tudo. Tratava-se de uma moeda comemorativa do aniversário de Nero, aquele Imperador meio maluquinho. Na cara, o rosto de Nero; na coroa, São Paulo morrendo na cruz. A ICR mandara cunhar uma imitação banhada a ouro pra comemorar a morte de São Paulo, por ordem de Nero. Além disso, durante a guerra, existia também o medo do Apocalipse de João, que inventara o número 666, para simbolizar a Besta, inimiga de Jesus e identificada com o próprio Imperador ou, segundo os Protestantes, com a própria ICR. Não me pergunte o porquê. Masoquismo da ICR, quem sabe! Afinal de contas, todo mundo sabe que São Paulo foi o verdadeiro fundador do Cristianismo.

─ Putsgrila! Vô! Prefiro a brincadeira do bode com o leitão. Esse negócio de religião é muito complicado mesmo. ─ Disse Tininha.

─ É, minha filha! Mas, foi Constanza que me mandou de presente, antes de viajar para a Inglaterra. A moeda ainda tá guardada ali na cômoda. É só pegar e conferir ─ Respondi.

─ Vô! O senhor me desculpe, mas tá tudo errado. Sua memória tá mesmo ruim. A tal de Constanza era uma freira que o senhor queria namorar e ela vivia com o tal Monsenhor numa granja, perto de Roma. ─ Explicou-me Tininha.

─ Verdade, mentira! Mentira, verdade! Prefiro dizer, minha neta, que se trata de um artifício criativo-literário. A história, segundo me lembro agora, foi muito diferente. Claro! Estava mesmo amalucado por Constanza e ela por mim. Mas, o destino não quis. Vou contar a história direitinho pra não dizerem que sou mentiroso, mais do que já sou. Mas, estou sem muita força para escrever. O Dr. Quim já me liberou, estou sem febre, minha carcaça e os músculos não doem mais, não tenho mais dor na cabeça nem na garganta. Daqui a dois dias, fico de pé e lhe chamo novamente.

─ É melhor, Vô! Porque já estou atrasada senão perco o filme com Toninho Goiaba. ─ Disse-me Tininha.

─ Cuidado, minha filha! Filme é filme, goiabada é outra coisa.

─ Ah, Vô! Goiabada é a melhor coisa do mundo e eu sei me cuidar. ─ Respondeu minha bisneta saindo apressada do meu quarto.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV
Capítulo XXV

4 Comentários para “Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXVI”

  1. Flor de Liz:

    Reverendo, a sua bênção!
    Bem que eu andava sentindo vossa falta, porém pensava que o senhor tivesse embarcado na falsa história inventada pela tal de Flor de Azeviche (que não passa de uma flor invejosa e recalcada) e que tivesse me esquecido. Espero que o senhor esteja melhor da maledita gripe suína, caso não, estimo melhoras.

    Beijos saudosos!

  2. Tsé-Tsé:

    Irmãzinha Flor: Já estou bom da gripe suína. O problema, agora, é a gripe tricolor. Foi bom você ter escrito pois ameniza o luto fechado que envolveu toda a Comunidade com a desclassificação do Santinha. Não sei o que será das três sagradas cores daqui por diante. Minha memória não está legal mas farei tudo, com a ajuda dos chás do Dr. Quim, para voltar à ativa. Minha bênção agradecida.

  3. Flor de Liz:

    Reverendo, fique tranquilo como tudo passa essa má fase do Santinha também há de passar… em breve ele estará ressurgindo das cinzas mais glorioso do que nunca.
    Mas ainda assim, é bom saber que minhas aparições lhe dão um novo ânimo!

    A sua bênção.

  4. Edmar:

    Minha solidariedade ao Santa. Que maré… parece que mandaram trocentas bolas nas traves nesses jogos.

    Bola pra frente, moçada.

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