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Bárbaras Paisagens

5 comentários

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Viajando e reminiscências…

29/04/2007

O ar-condicionado quebrou novamente e fui lá no sótão procurar o ventilador. Acho que era uma desculpa para ficar remexendo no misterioso baú, aquele que ninguém sabe de quem é o dono. Mexi, remexi, mexi e encontrei um antigo manuscrito. Era uma carta endereçada a Freud. Uma carta de um paciente. Descrevia um sonho. O paciente era… Tsé-Tsé. Incrível, o Reverendo fora paciente freudiano! É a prova de que é mesmo doido de pedra. Se foi paciente de Freud, o fato de tê-lo internado fica completamente justificado! Quero ver agora o que vai dizer. Vai ficar com raiva, certamente.

Olhei outro manuscrito. Era de J.B Barnes, relatando a piração de Freud quando tentou decifrar o sonho de Tsé-Tsé. Foi parar num spa em Viena, tendo alucinações com animais. Via jibóia em tudo que é canto. Lendo o sonho, sinceramente, fiquei com medo também de ter pesadelos com animais.

Fico na minha e apresento o sonho aos leitores, mas tomem cuidado!

“Estava num deserto pavoroso, parecido com os de Marte. Só havia pedregulhos, montanhas e crateras enormes e muita, muita poeira. Um comboio de caminhões novinhos em folha passou por mim em alta velocidade, provocando uma tempestade de areia. Atrás, vinha uma carroça de circo puxada por dez cavalos e na mesma velocidade.

Ao longe, estava uma cidade toda esburacada. No deserto, animais selvagens se moviam quase aleatoriamente. Contei cinco leões, dois pumas, dez onças pintadas e duas suçuaranas, além de uma dezena de cachorros que vagueavam entre as feras. Os gigantescos felinos possuíam ancas enormes, semelhantes a touros de raça num Parque de Exposição animal. Contudo, eram leves e graciosos quando corriam pela planície ou se deslocavam de um rochedo a outro.

Resolvi, então, ir até à cidade. No caminho, encontrei dois leões disputando uma fêmea em pleno cio. Deixaram-me passar sem problemas. Na cidade, reinava a maior confusão. Pessoas ensandecidas movimentavam-se de um lado a outro sem nenhum motivo aparente. Uma velhinha desdentada pediu-me para carregar um enorme baú até o hotel. Recusei, porque minha vacina contra a gripe doía demais. O sorriso de escracho da velha fez-me mudar de rota. Não havia lugar para mais ninguém, muito menos para mim.

Dentro do sonho, acordei, dormi e voltei a sonhar a mesma coisa, como uma continuação da cena anterior.

Voltei ao deserto. A leoa havia decidido com quem ficar e um dos leões estava em cima dela na maior safadeza, enquanto o outro se afastava lentamente do local. Mais adiante, um lince pardo olhou-me e não fez nada. Enfim, no meio da poeira, encontrei uma casa desabitada.

Cansado, resolvi dormir. No terraço, três gatinhos rajados aproximaram-se e ficaram roçando as minhas pernas. Entrei no quarto, e um tigre de dentes de sabre rosnou. Corri e peguei, na cozinha, um desentupidor de pia gigante e o enfrentei, sabendo da inutilidade do meu gesto.

Ele riu e disse aos donos da casa que acendessem o fogão, porque havia carne nova para o jantar. Defendi-me com meu desentupidor de pia, do qual saiu inesperadamente uma lâmina parecida com uma espada. O tigre recuou e voltou ao seu esconderijo. Super cansado, resolvi ir novamente à cidade empoeirada.

No caminho, contudo, uma onça quase me pegou. Um cachorro, que me acompanhava, lançou-se no meio e a onça o abocanhou. Pôs-se de pé, como uma pessoa normal, e saiu mordendo o cão ensangüentado. Na cidade, tudo continuava na mesma confusão. No sonho, considerava-me uma pessoa saudável, culta e inteligente e que não merecia passar por tanta angústia. Comecei a gritar contra as injustiças do mundo. Acordei suando em bicas, sob o ar condicionado em pleno funcionamento.

Fui à cozinha e tomei um copo de leite. Fiquei com medo de dormir novamente, e o sonho continuar. Sentei-me na cadeira de balanço e achei que havia inventado toda aquela história. Não era possível que uma pessoa razoável sonhasse daquele jeito, mais ainda um reverendo respeitável.

Voltei à cama pensando que o sonho não se repetiria. Que nada! Voltou tudo de novo e quase um lince me pegava. Acordei de novo às quatro da manhã e resolvi não dormir mais.

Não resisti, porém, e dormi na cadeira de balanço da sala. Estava perto de um lindo bosque, na varanda de uma casa moderna de dois andares, construída de madeira de lei. Bem defronte, entre as árvores, havia um lago de águas verdes. Fui até lá. Um crocodilo gigante quase arranca minhas pernas. Voltei à casa e ela se desmanchou todinha na minha frente, soltando uma fumaça esbranquiçada. Dos destroços, saiu uma multidão de cupins. Formando uma fila em semicírculo, avançaram em minha direção.

Recuei até a beira do lago e o crocodilo anda estava lá. Peguei, então, uma vara de bambu abandonada perto da água, corri e pulei por cima dos cupins num verdadeiro salto de vara olímpico. No chão, ainda ajoelhado, olhei para trás e os cupins estavam devorando o crocodilo. Acordei todo suado novamente. Dessa vez, fiquei acordado até o raiar do sol com medo de novos sonhos de terror…”

A narrativa acaba aqui. Comecei a ter medo. Sabem aquele medo irracional de que algo monstruoso está atrás da gente? A Presença!? Minha nuca arrepiou-se e fiquei com uma vontade danada de olhar para atrás. Queria olhar, mas tinha medo de encontrar a Presença, olhando-me com seus olhos rútilos, pronta para me abocanhar.

— Seja racional, Artur; seja racional! — Repeti como um mantra. Foi então que não agüentei a tensão, larguei tudo no baú e saí correndo do sótão.

Juro que escutei um rosnado de um dente-de-sabre!

Não volto lá nem tão cedo.

DimasLins
  1. Que bizarro! Esse sonho é um daqueles que a pessoa acorda depois dele e tem a sensação de que ainda continua dormindo…

    Eu hein… rs

  2. Tive um sonho profético essa noite… nesse sonho o Santinha dava uma lapada no Central!!! Vamo torcer pra que minha profecia se concretizado…

  3. Errata:
    Onde lê-se: Vamo torcer pra que minha profecia se concretizado… é na verdade: Vamo torcer pra que minha profecia se concretize.

  4. Há rumores de que o sonho de Freud teria sido na mesma noite de um encontro com Orravan. Assim contou Barnes ao dono do bar onde eles iam beber Leite de Gironda. Orravan teria narrado a Freud um singelo passeio no jardim zoológico, mas de uma maneira tão sensacionalista e tão mentirosa que deixou o Pai da Psicanálise abalado e com o subconsciente repleto de feras selvagens e imagens bizarras.

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