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Sou testemunha!

Pelo Psiquiatra de Intermares, vulgo PsInt,
Geralmente, dia de domingo, estou em Tambaba, psiquiatrizando nudistas neófitos que surtam diante de sua própria nudez. O tratamento é simples e eficaz: seria simplesmente vesti-los abundantemente; inclusive, burcas nas mulheres. Os clientes são pseudonudistas que, por vergonha em resistir à pressão, tiveram que tirar a roupa e ficar, horribile dictu, mais pelados do que Adão e Eva. Mas, nas últimas semanas, tenho me deslocado a Bel-O-Kan, pois chamaram-me para psiquiatrizar possessões demoníacas. Com as constantes gripes de Tsé-Tsé e, conseqüentemente, o descuido com o seu rebanho, houve uma praga de possessões na comunidade. Sem a presença profilática da ira atéia do Reverendo, vêm aparecendo, de forma soturna, missionários de todos os tipos. Tudo indica que evangelização e demonismo são dois extremos que se tocam e se estimulam mutuamente. Portanto, não é mera coincidência a existência de uma correlação positiva entre a presença de pregadores e a de capetas.
Porém, psiquiatrizar o povo de Bel-O-Kan dia de domingo não é fácil. Domingo, é dia de bebida. Todo mundo está bebum, inclusive o psiquiatra que vos fala. A psiquiatrização não funciona direito, como parece óbvio, se o psiquiatra tomou umas carraspanas. Essa situação lembra-me dos dias de militância quando vinha oferecer cursos de “marxismo rápido” aos líderes comunitários de algum bairro popular recifense. Todos compareciam, já que havia mobilização e conscientização, mas bêbados. Quando começava a falar da dialética, escutava roncos idealistas e sonhadores. Confesso que não ficava tão a abalado assim, já que acreditava piamente que a esperança de redenção estava na plebe; dessa forma, diante do sono dos futuros faróis da Revolução, eu apelava brabo: mostrava as fotos de Helena, a governanta de Marx.
_Vejam o caso de Marx! Ela teve um filho dele. Engels teve que assumir a patifaria do tratante! Eu dizia galunfante.
O efeito era imediato. Até o mais bebum de todos abria, pelo menos, um dos olhos para olhar a pulada de cerca do pai do comunismo. E, com isso, eu dava sequencia ao meu proselitismo político, com uma platéia bêbada, é certo, mas atenta e cooptada pela mais básica das persuasões.
Mas, convenhamos, evangelização ideológica é bem mais fácil do que psiquiatrização, um processo complexo que precisa de procedimentos sofisticados, como choques elétricos, por exemplo. E ministrar choques assim, embriagado, é muito, mas muito mesmo, difícil. Nessa situação, tentava comumente uma psiquiatrização selvagem, isto é, chegando um caso de possessão, utilizava uma terapia um tanto primitiva: a tapaterapia. Aparecendo na minha frente um possuído pelas trevas, metia-lhe a mão e, caso não funcionasse logo, dava-lhe chutes no corpo, até o suposto demônio sumir. Algumas vezes, eram horas de chutes; mas, apesar dos hematomas, invariavelmente o tratamento funcionava a contento.
Foi, justamente, num desses momentos de exorcismo alopático, que apareceu uma menina estranha, pálida como a Lua. Ela me chamou de lado e disse:
_Tsé-Tsé morreu.
_Como?!
_Tsé-Tsé se escafedeu – repetiu a menina.
_Como assim?!
_O senhor está surdo?! Eu disse que Tsé-Tsé aboletou-se de vez.
E me explicou toda a história da lambreta e da volta do jogo do Santinha. Que tragédia! Tudo bem que sempre quisera internar Tse-Tsé, de uma forma ou de outra. Mas, como interná-lo, agora, se tinha batido as botas? Por mais onipotente que seja um psiquiatra, não se interna um morto, pensei, dando um soluço e um arroto.
_Poxa, que bafo de cana, hein?! Disse, de uma forma um tanto desrespeitosa, a menina.
_Me respeite, senão eu te interno, menina esquisita! Mas aonde está o corpo do Reverendo?
_Na verdade, não tem propriamente um corpo, e sim um Tsé-Tsé empalhado.
_Você está me dizendo que empalharam o Reverendo?
_Sim, parece que foi a torcida da Coisa.
Cacetada, Tse-Tsé se lascou e ainda foi empalhado pela Coisa. Que triste fim! A menina afastou-se e me pediu para segui-la. Fui meio cambaleante atrás da dita-cuja. Curioso, pensei, estou mais bêbado do que nunca. E só bebera umas três lapadas de Pitu, nada demais. Segui a menina até uma palafita meio sombria que estava na extremidade leste de Bel-O-Kan. Ela apontou um casebre e disse:
_Tsé-Tsé, o empalhado, está ali. Pode entrar. Eu fico por aqui.
_Mas… por que você não quer entrar?
Antes que terminasse a pergunta, a menina já desaparecera, misteriosamente. Fiquei ali parado na frente do casebre. Começou a chover e o dia a escurecer. Decidi entrar, até para me abrigar do temporal. Entrei e achei tudo muito estranho. O casebre parecia muito maior por dentro do que por fora. Não consegui olhar direito o ambiente, pois uma espécie de fog obscurecia a visão. Lá longe, vi uma parede que tinha algo encostado. Aproximei-me e estaquei, perplexo. Encostado na parede, estava Tsé-Tsé ou, pelo menos, algo que parecia o Reverendo. Bem, estava bêbado e me sentia bastante tonto, e só posso supor que aquele troço empalhado era o dito-cujo.
Tsé-Tsé, o empalhado, estava sentado sobre longos quadris cuneiformes. Uma pessoa que se pusesse naquela posição poderia apoiar o queixo nos joelhos, mas as pernas de Tsé-Tsé estavam demasiadamente compridas para isso. Os joelhos erguiam-se acima de sua cabeça, ultrapassando os ombros – inclusive, dando a impressão grotesca de se tratarem de duas orelhas monstruosas. A cabeça, situada mais abaixo, assentava o queixo num tórax protuberante. O Reverendo era uma criatura de filme de terror, pensei. A luz, dentro do casebre, estava tênue, mas percebi, mesmo assim, que seu corpo parecia todo revestido, até os quadris, de uma substância macia que refletia um pouco a parca luminosidade. A parte inferior das pernas, que se encontrava mais próxima de mim, pareceu-me coberta por uma espécie de revestimento natural – pareciam penas! O rosto empalhado era de tal modo bizarro que era preciso algum tempo para que uma pessoa se habituasse. Era demasiado comprido, circunspecto e pálido, e seus olhos eram de grandes proporções – pareceu-me grandes olhos de cavalo. No fundo, achei que empalharam muito mal o coitado de Tsé-Tsé. Coisas da Coisa, pensei.
De repente, escutei um “oi”. Fiquei assustado, pois parecia vir de Tsé-Tsé. Eu estava paralisado. Escutei, novamente, um “oi” e tive a certeza de que era o troço empalhado que falava comigo. Ele disse:
_PsInt?
_Que é?
_Nada!
Olhei-o assustado. Senti um cheiro de enxofre. Seus olhos estavam esquisitos, avermelhados.
_PsInt?
_Sim?
_Nada!
Uma brincadeira infantil e, portanto, profundamente má. Decidi não entrar no jogo.
_PsInt?
_…
_PsInt?
Silêncio.
Eu estava ganhando!
_PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt?PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt?PsInt? PsInt?PsInt?PsInt? PsInt?PsInt? PsInt?PsInt? PsInt? PsInt? PsInt?PsInt? PsInt?PsInt? PsInt? PsInt? PsInt?PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt? PsInt?
_O que é, porra!?
_Nada!
Fiquei nervoso. Não estava ganhando, e sim perdendo. Além do mais, eu estava bêbado e não tinha muita certeza da realidade da situação. Ele era incansável na brincadeira enervante, e eu não tinha como competir com esse Reverendo empalhado. Decidi, então, perguntar ao invés de ser indagado.
_Por que tudo isso?
_Por quê? Ora, por nada. Pelo prazer de te chatear. Suprema ambrosia, o poder de te chatear, psiquiatrazinho de merda.
Estava me ofendendo, o sacana. Tentei contra-atacar.
_Você é monstruoso! Não tem culpa alguma?
_A culpa é um lobo que come o presente depois de ter devorado o passado.
_Meu Deus! — disse desesperado.
_Deus não é a questão, nem a resposta, pequeno verme. A verdadeira questão é saber por que Eva foi tirada exatamente da costela de Adão, já que Deus podia usar um pedaço de madeira, uma pedra ou qualquer outra matéria? Aquela costela estava sobrando? Se não estava, então Adão estaria sendo privado, por Deus, de parte essencial de seu corpo, dado não ser concebível que, desde o início, estivesse presente no corpo humano algo supérfluo. Ou Adão tinha treze costelas de um lado e doze do outro? Era uma espécie de monstro, como os homens que têm três mãos e três pés?
Cacetada, Tsé-Tsé já era louco, empalhado então, ficara pior!
_Onde é a saída desse casebre? Não agüento mais! A saída, por favor… — disse quase soluçando.
_A saída é ali naquela entrada.
A pequena entrada dava num banheiro. Fui lá e vi uma latrina.
_A saída é a latrina. Mergulhe e sairá daqui!
Olhei-o sem entender. Fitei a latrina fétida e pensei: não é possível, não é possível! Ele olhou-me de forma feroz. Caiu a ficha e compreendi imediatamente que, se não mergulhasse, seria morto. Mas, antes de me decidir a qualquer ação, perguntou-me:
_PsInt?
_Sim?
_NADA!!!
Mergulhei, tinha que mergulhar — estava apavorado. Não sei como entrei no buraco da latrina, mas entrei. A gargalhada infernal ainda me acompanhava, enquanto nadava e nadava. E, quando estava já quase inconsciente, saí num esgoto do Recife, na beira do rio Capibaribe. Estava imundo. Tinha, de fato, saído de uma latrina. Sentia-me vomitado. Mas estava sóbrio. Tudo aquilo me deixara de cara, careta feito uma porta.
E tinha certeza de um fato: Tsé-Tsé virara um ser empalhado e monstruoso. Eu tinha visto. Eu vi. Certo, meio pra lá de Bagdá, mas não estava delirando. Afinal, sou um psiquiatra. Somos sádicos, paranóicos, etc e tal, nunca delirantes!
Cheguei em casa, tomei banho e abri uma garrafa de cana. Queria continuar a beber e esquecer a história.
Eu quero esquecer… Pelos deuses, preciso esquecer.

















… meduum!
Nossa, isso é uma mistura bizarra de Lovecraft com Trainspotting. O pior é que disse pra ele não comer tantos ovos de tartaruga… pelo menos que o fizesse sem as cascas…
Eu sabia! Não apenas o Reverendo não morreu, como aderiu ao hassidismo, passando a estudar a origem de Eva nos Midrashim. Bob pai e Bob filho vão ter que rebolar para explicar isso.
Agora, “sentado sobre longos quadris cuneiformes”??? Juro que essa eu não entendi…
O psi de Intermares é louco, cara toda-poderosa do PPGS. Somente um louco escreveria um “sentado sobre longos quadris cuneiformes”!
Parece mais um timbu. Olhando bem parece um timbu esfolado, talvez depois do passeio em Barueri. Eles costumam ser inclementes com timbus.
Gente!!!!! Que cachaça!!!!!!! Que imaginação!!!!!! Fiquei tão besta que compartilhei este texto com todos meus amigos que ficaram tão besta quanto.
Desculpe-me por ter distribuído sem sua permissão, mas dei os créditos com o endereço do blog e tudo. Sempre faço isso com o Samarone também.
Já distribuí também a Epístola Universal do Reverendo Tsé-Tsé.
Grata pelos textos.
beijo
demais!