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In Memoriam: Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXV
OBITUÁRIO

Cumprimos o doloroso dever de comunicar aos leitores deste Blog o falecimento do Ilustre Reverendo Tsé-Tsé. Por uma fatalidade do destino, o Líder da Comunidade Telemista do bairro da Torre sofreu um letal acidente quando voltava de um evento esportivo no qual o Santa Cruz não conseguiu vencer o fraco Central de Caruaru.
Ao voltar do jogo em sua velha Lambretta (modelo 1960), o Reverendo, que já sofria de muitos lapsos de memória, esqueceu-se de que pilotava o veículo. Lembrando-se da horrenda peleja, ergueu suas mãos para o céu, maldizendo a sorte de torcedor de um time pessimamente dirigido.
O resultado, como seria de se esperar, foi a Lambretta cair num buraco. O pneu dianteiro, totalmente careca, estourou e o veículo desgovernado lançou o Reverendo contra uma jamanta que vinha em sentido contrário.
O corpo do insigne prelado foi empalhado e se encontra à visitação do público na entrada da Comunidade, como exemplo de honestidade e de fidelidade aos seus princípios éticos e filosóficos.
A Comunidade chora, mas se reconforta com o exemplo do seu Líder, convidando todos os habitantes de Bel-O-Kan para prestar sua última homenagem ao ilustre desaparecido.
O Reverendo Tsé-Tsé deixa cinco filhos, vinte netos e doze bisnetos, além de uma substantiva obra escrita em aramáico.
Infelizmente, como parece óbvio, deixamos de publicar suas Falsas Memórias, salvo o 25º e último Capítulo que nos havia sido enviado, antes do infausto acontecimento.
Enviamos nossas condolências à família enlutada, sabendo que este Blog perdeu um dos seus melhores e assíduos colaboradores.
aa) Perrusi Pai e Filho.
Snif, snif, tristeza sem fim… Aí vai o derradeiro capítulo das Falsas Memórias:

(Non sequitor)
25º CAPÍTULO
Antes de chegar à Biblioteca, virei numa esquina e me deparei com um ceguinho sentado na calçada e com uma cuia diante de si. Algumas moedas e nada mais. Tirei do bolso o troco do meu café da manhã e joguei tudo lá dentro. Dez passos adiante, porém, parei atônito. Aquele ceguinho era o mesmo tesoureiro do Vaticano que estava na Praça da Biblioteca.
Voltei e parei diante dele.
─ Meu filho! Por que tamanha desgraça? ─ Perguntei ao falso cego.
─ Meu bom Padre! Foi uma bala perdida durante a Guerra. ─ Respondeu o sem vergonha.
Levantei a batina da Gregoriana, botei minhas ferramentas pra fora e me preparei para dar-lhe um banho matutino. O safado levantou-se e saiu correndo aos berros, esquecendo a cuia de moedas.
─ Virgem Santa! Já tomei meu banho na semana passada. ─ Gritava correndo, em plena rua.
A que ponto chegou a ICR, pensei. Recolhi as moedas da cuia abandonada e as escondi no bolso da batina. Afinal de contas, eu também fazia parte da Cúria e as moedas, mais cedo ou mais tarde, iriam financiar fins escusos da Igreja. Como as moedas da Máfia e da CIA, por exemplo. Pelo menos aquelas poucas seriam destinadas ao fundo para a restauração de documentos antigos, mantido por Lippi.
Apressado, entrei sem bater no Gabinete do Monsenhor Lippi. Ele estava examinando a célebre Pasta Verde com as Atas do Julgamento do Papa Formoso. Levantou sua vista pra mim com uma cara de poucos amigos. Cuidadosamente, colocou na Pasta os antigos documentos e os guardou num cofre atrás do seu birô.
─ Engraçado, né Tsé! Bem que Braguinha me falou que, na sua Comunidade, as palafitas não têm portas. E que moedas são essas? ─ Disse Lippi.
Dei-me conta, então, da grosseria e lhe pedi mil desculpas. Expliquei o caso das moedas e Lippi comentou secamente:
─ Muito bem! São poucas, obtidas ilicitamente, mas os papéis antigos merecem. ─ E guardou no cofre as moedas mixurucas que me dera tanto trabalho.
─ É que estou muito angustiado pelo mistério do hamster de Irenia. Mas, isso, não justifica entrar no seu Gabinete sem o toc-toc tradicional.
─ Tudo bem, Tsé! Mas, lembre-se de que eu recebo personalidades ilustres na Biblioteca e, até mesmo, o Santo Padre que me fez uma visita. Imagine eu estar conversando com um Cardeal ou um cientista qualquer e, de repente, entrar um padreco sem eira nem beira sem se anunciar.
─ Desculpe novamente, Monsenhor! Mas é que o padre chinês me disse que o senhor quer falar comigo com urgência. ─ Acrescentei para amenizar a situação.
─ Mas, não com tanta urgência assim. Tenho uma novidade desde que você também está envolvido nesse negócio dos ratos. ─ Disse Lippi.
─ Pelo amor de Nossa Senhora dos Ratos, Monsenhor! Hoje mesmo, tive um pesadelo com eles. Mas, há um mistério que quero lhe contar. ─ Respondi pensando que o Monsenhor voltara ao seu bom humor habitual.
─ Tudo bem, Tsé! Mas sou eu que quero lhe falar. Por favor, deixe o tal pesadelo pra depois que os meus são cotidianos e nem por isso vivo chateando ninguém. ─ Respondeu Lippi carrancudo.
─ Desculpe, novamente, Monsenhor. ─ Respondi com mais cuidado. Parece que o homem não estava pra brincadeiras.
─ Padre Tsé! O Laudo da Gregoriana é falso. ─ Disparou o Chefe da Biblioteca.
─ Como assim? E como o senhor descobriu? ─ Exclamei assustado.
O Cardeal Ferrughi havia deixado o Laudo sobre a mesa e Lippi, como bom arquivista, preparava-se para guardá-lo quando teve curiosidade de rever o documento. Embora não entendesse nada do ponto de vista técnico, essas coisas de mecânica quântica, ondas sonoras etc, fixou-se na assinatura do redator do Laudo. E de assinaturas, ele entendia muito bem. Achou-a estranha, como se já tivesse visto alguma coisa parecida. Levantou-se, tomou um café bem quente e voltou a examinar o documento.
─ Tirei a pasta de documentos de minha villa e lá estava. ─ Terminou Lippi.
─ Lá estava o quê, Monsenhor? ─ Perguntei, já esperando novo carão.
─ A mesma assinatura estava numa receita de vermífugos para uma de minhas vacas holandesas. ─ Respondeu Lippi.
─ Bem, Monsenhor! Pra dizer a verdade, eu mesmo já desconfiava daquele Laudo. Mas o senhor tem certeza?
─ Claro, Padre Tsé! Ferrugi me fizera a gentileza de mandar seu veterinário examinar minha vaca e foi ele, sim, que assinou a receita. A mesma que consta no Laudo. Lembra-se de que o Cardeal passou quase uma hora ao telefone, depois de suas informações sobre o arco e o violino? Pois bem! Foi naquela hora que ele ditou o Laudo para o seu veterinário. ─ Concluiu Lippi.
─ E agora, Monsenhor? Em vez de um, temos dois mistérios, contando com o meu pesadelo. ─ Comentei doido pra contar o que se passara comigo.
─ Por telefone, dei o maior esporro em Ferrughi. Como sempre, ele deu a maior gargalhada. De qualquer maneira, ponderou que o Laudo era só pra limpar nossa cara. Tanto assim que os jornais engoliram direitinho a história. Mas sugeriu uma coisa interessante. Vamos reunir o Conselho Curador de nossa Sociedade para estudar o caso. Afinal de contas, são vinte e um membros especialistas em várias disciplinas. Dois terços são de religiosos, entre os quais três Madres. Um terço é de leigos, que nos ajudam, entre os quais há quatro detentores do Prêmio Nobel.
─ E eu posso assistir à reunião, Monsenhor? ─ Perguntei desastradamente.
─ Ora, Tsé! Cresça e apareça. Todos são Doutores em suas disciplinas e você não passa de um pré-estudante. Mas, agora que você já sabe da falsidade do Laudo, qual é o tal mistério que você está ansioso pra me contar.
Falei, então, sobre o mistério do hamster de Irenia e do pesadelo que tivera. Desejava apenas discutir com Lippi a solução que eu mesmo encontrara.
─ Lamento, Tsé! Mas não há nenhum mistério com a mascote da menina. Não sabia que você era tão impressionável assim.
Lippi levantou-se e foi até a mesinha de sua cama. Lá, vestiu uma luva cirúrgica, e pegou qualquer coisa. Voltou com uma das mãos fechadas e me disse:
─ Está aqui o mistério que lhe atormenta, Tsé. Adivinhe o que está dentro de minha mão direita.
Foi quando ouvimos um toc-toc na porta de entrada e Lippi mandou entrar. Era o padre chinês com um telegrama pra mim. Resposta do Dr. Quim às minhas questões sobre os ratos. Estendi o telegrama para o Monsenhor na esperança de que ele abrisse a mão e deixasse à mostra os troços que ele pegara na mesinha de cabeceira.
─ Ora, Tsé! Um dos defeitos da juventude é pensar que sabe tudo e pode enganar todo mundo. O telegrama não é pra mim. Leia-o você mesmo que eu estou morto de curiosidade. ─ Disse o Monsenhor na sua primeira risada daquela manhã, recusando-se, é claro, a abrir sua mão.
Eis o texto do telegrama do Dr. Quim que ainda guardo até hoje:
“Dudulaidadá encontra-se muito longe e quase não ouvi sua voz. Está tentando evitar choque entre gigantesca galáxia Andrômeda com nossa mixuruca Via Láctea, por causa de erro matemático de seu filhote Jeová, nascido numa montanha do Oriente Médio. A menina do violino e sua mascote são abençoadas e, portanto, imunes a qualquer malefício. Quanto aos ratos, favor perguntar ao Vice-Rei do Maranhão e Amapá que entende do assunto melhor do que ele. Por favor, mande uma dúzia de hamsters que eu adoro coxinha assada na brasa. a) Dr. Quim.”
Dessa vez, a gargalhada de Lippi foi maior ainda.
─ É, Tsé! Na minha visita à Paróquia da Torre, conheci também o Dr. Quim. Um dos homens mais sábios e amáveis que já encontrei na minha vida. E dos mais irônicos, também.
(…)
Infelizmente, não dá pra continuar. O meu choro é grande e minha piedade é do tamanho da Galáxia Andrômeda. A Coisa perdeu novamente. Se continuar assim, vou terminar virando cronista de futebol.
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI
Capítulo XXII
Capítulo XXIII
Capítulo XXIV

















Oh, não… não posso acreditar! O que será dessa pobre florzinha agora que o reverendo se foi?!?
É com imenso pesar que me despeço dos comentários aqui nesse blog. Sem memórias, não há razão para a Flor de Liz continuar existindo. Sua existência virtual dependia total e exclusivamente da sabedoria do nosso ilustre e saudoso Tsé-Tsé.
Adeus!!!
Meu epitáfio no blog dos perrusi – Aqui jaz Flor de Liz – quem usou intensamente os caracteres que estiveram a minha disposição.
FIM!
Que notícia bombástica! Sequer consegui ler o último capítulo, de tão desolada que fiquei. Não estava preparada para tanto…alías, nunca estarei preparada para tanto! O que dizer? Seria o finado Reverendo um suicida? Sim, porque se conduzir uma lambreta daquela época já era um sinal de imensa imprudência, erguer os braços daquele jeito seria praticamente pedir a antecipação de sua partida para o além. Impaciência com a vida?! Logo ele?! O blog, de fato, não será o mesmo. Torço para que o Reverendo belisque os pés de todos aqui e continue nos contando suas histórias intermináveis, renascendo assim, de algum modo, das cinzas! Beijos chorosos.
Pra mim, o Reverendo está aprontando mais uma. Ele viu o frenesi mundial em torno da morte do morto-não-tão-vivo Michael Jackson e quis provar ao finado ex-mega-astro quem é astro de verdade.
A verdade é que:
1 – se Elvis não morreu;
2 – se Michael não se enterrou;
3 – Logo, por que somente o Reverendo, o mega-big-extra-GG-astro da Torre morreria e viraria bicho empalhado?
Ou é peraltice dele ou é intriga da oposição Coisuda. Ou tá medindo força com a indústria da música americana.
E tem mais: o insano que crê na morte do Revendo sabe que ele cumpriria até o fim o ditado shrekiano “do pó viestes, ao pó voltarás”. Mas como o Reverendo não cheirava e veio da lama, na obtusa possibilidade dele vir a morrer, viraria comida de caranguejo.
Ana Cláudia está certa.
Se são falsas as memórias, a morte do autor, também.
Contem outra.
Concordo com Ducaldo: esse negócio de morte do autor, morte da história e morte da metafísica é coisa de pós-moderno.
Boatos dão conta que o Reverendo teria sido visto em Tambaba, participando de uma dança coletiva para a lua. Mas não há confirmação.
Não sei não, hein? Não boto muita fé nessa morte não. Mas se de fato ela aconteceu bem que o reverendo poderia psicografar suas memórias póstumas, né?
Mesmo quase estando à poucos passos de, de fato acreditar que o reverendo morreu, ainda resta-me um sopro de esperança de que ele possa vir a ressugir das cinzas. Bem, esperança é a última que morre… e a minha ainda não morreu.
Aguardando cenas dos próximos capítulos…
Abs.
Estranho, muito estranho! Um verdadeiro maculelê!
Aparentemente, os Perrusis Pai e Filho estariam, sim, envolvidos nessa morte do Reverendo. Afinal, foram vistos na cena do crime ou do acidente. Mas qual a razão desse envolvimento? Os Perrusis se dizem ateus e deveriam até gostar das irreverências do Reverendo contra a IC e a possível revelação dos segredos do Vaticano. Por que iriam, então, querer a morte do Reverendo? Ou eles mudaram de casaca? Religiosa, evidentemente, porque quanto ao time de futebol, não importa a série que ele esteja, eles não vão mudar de opinião.
Tem que haver uma motivação para tudo isso.
Há outras coisas no ar: Quem fez o reconhecimento do corpo, se é que foi feito? Qual a causa da morte? Teria sido a jamanta mesmo? Ou um ataque do coração porcausa do fraquíssimo desempenho do Santa, segundo ouvi falar.
Por outro lado, não é a primeira vez que o Reverendo sofre acidentes na sua velha lambreta e não se pode, diante de tantas dúvidas, afirmar com precisão, que o Reverendo morreu mesmo.
E o psiquiatra de Intermares, em quem confio bastante, pois o conheço há longo tempo, por que razão está tão calado?
Diante dessas dúvidas, não posso enviar minhas condolências à Comunidade do Reverendo. Aguardo esclarecimentos. Erínia.