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Irã 2.0: os verdes e Neda

(Tem gente que acha que isso é a torcida do Palmeiras manipulada pelos ianques)
Texto de Fernando
A cor é verde, o slogan é “Where is my vote?”, e a mídia deles é a internet, especialmente o Twitter (tipo de rede de relacionamento semelhante a um blog, mas com posts limitados a 140 toques, e por isso mesmo também chamada de “rede de microblogging”). Agora eles têm um símbolo: Neda, uma estudante de filosofia de 26 anos morta diante de uma câmera de celular (recolocamos o vídeo, mas se abrir saiba antes que é bem chocante).
Os ingredientes de uma campanha publicitária estão presentes com força no movimento rebelde que eclodiu no Irã contra as eleições de 3 de junho. A linguagem é publicitária, mas o fato é que uma parte significativa do país se mobilizou contra o estado teocrático iraniano. Impossível quantificar esse movimento, os apoios e as contestações numa ditadura em que os jornalistas estrangeiros estão proibidos de circular. Mas os indícios são de um movimento que saiu fora do controle tanto de seus líderes quanto – principalmente – do governo iraniano. Se será abafado com a repressão, se vai se revelar como um movimento por alguma liberalização do regime ou se pode virar uma revolução para derrubar o regime dos aiatolás, ainda ninguém consegue dizer.


(Há boatos que são torcedores da Coisa querendo mudar de cor)
Curiosamente começou no Twitter. Após a divulgação do resultado da eleição presidencial, com a vitória do atual presidente Ahmadinejad contra o opositor Moussavi, surgiram contestações à legitimidade do pleito, dentro e fora do Irã. Imediatamente o governo restringiu o acesso de correspondentes estrangeiros e passou a cortar as comunicações de sua população com o resto do mundo. Foi nesse tempo que endereços do Twitter (parece que “hashtags” é o termo) como #Iran Elections e #Where is my vote começaram a chamar a atenção do mundo. Esse foi o pontapé inicial. Rapidamente outras comunidades da internet como Facebook, YouTube e Linkedin tornaram-se canais de comunicação tanto internos, – entre os revoltosos -, quanto do movimento com o resto do mundo. A tal ponto que a empresa gerenciadora do Twitter adiou uma manutenção previamente agendada que faria do serviço, a pedido do Presidente Obama, de modo a não interromper o fluxo de informações. E foi esse fluxo de informações que viabilizou as ondas de protesto, suas motivações, seus slogans e a cor verde generalizada nas roupas, faixas, enfeites, etc. Pela primeira vez, o governo dos aiatolás se viu em xeque e pôs-se a interferir na Web, cortando ou limitando vários serviços e bloqueando os acessos aos sites, utilizados pelo movimento. Os usuários partiram na busca de sites alternativos que os permitem acessar essas comunidades. Neste exato momento, a informação principal do Twitter #Iran Elections é a seguinte”:
“…SMS voltou a funcionar em algumas partes do país. Acesso a FB e Twitter muito difíceis. Serviços de e-mail lentos.”
Mas, certamente, o fato de maior impacto foi a postagem do vídeo com o momento da morte de Neda, baleada, deitada no meio da rua, algumas pessoas tentando socorrê-la, a sensação da impotência tomando conta dessas pessoas e, principalmente, o olhar da moça que morre voltado para a câmera. Um celular que alguém ligou quando viu a cena. Os olhos de Neda se detêm, segundos antes dela agonizar, no olho da câmera. Um olhar expressivo, forte, não dá para saber se querendo dizer alguma coisa, ou apenas mostrando a perplexidade de alguém que sente que vai morrer. É assustador. Mas serve para mostrar a face real do que significa uma história dessas. Muito mais que publicidade, mídias, internet, o escambau, é assim que isso chega na vida dessas pessoas.
E nesse momento, o governo avisou que vai endurecer pra valer com os opositores. Como não ficar contra esses caras?
PS (Artur): tem gente, sim, que é a favor desses caras. Tem gente que acha o Irã uma democracia. Acha que democracia resume-se a eleição. Gente de esquerda (aqui). Vá lá saber o que esse pessoal acha que é… democracia. A democracia iraniana é uma teocracia doce. O velho Lev Davidovitch Bronstein dizia que, contra o fascismo, aliava-se até com o diabo. Se o diabo é Mousavi, que seja; se o antisemita é Ahmadinejad, que se dane.
PS2: Saiu a seguinte notícia no Blog de Pedro Dória: “o embaixador iraniano no México, Mohammed Ghadiri, declarou ontem à CNN que desconfia que a CIA está por trás da morte da jovem Neda Agha-Soltan. Nenhum iraniano, afinal, faria algo do tipo“. Tal notícia corrobora as insinuações do pecedobê: a CIA é onipresente, onipotente e onisciente. A CIA é Stalin!
PS3: cenas da democracia iraniana (pesquei tudo, como sempre, no PD) — vejam aqui, no Huffington Post: Irã
PS4: Uma análise árabe da democracia iraniana — a indefectível Al Jazeera:

















Parabéns aos dois, pelo post e pelo PS.
O mais interessante é que os mesmos caras que defendem a internet, os blogs e o twitter como uma verdadeira revolução frente à “mídia golpista” dizem que não dá para acreditar em manifestação no Irã puxada pelo…twitter !!! Vai entender esse pessoal…
Abraços.
Democracia no Irã?
hahahahahahaha’ ( desculpe, mas toda vez que penso, falo ou escrevo a palavra Democracia me dá uma vontade irritante e incontrolável de rir. Tão incontrolável que mesmo séria, eu rio por dentro, ainda mais quando aplicam a noção de democracia a um país como o Irã).
Sinceramente, não sei o que pensar quem dirá o que escrever…
A única coisa que digo é que diante disso e das ocorrências abomináveis em nosso ‘Senado sem Vergonha’; estou VERDE pelo Irã e VERMELHA de vergonha pelo Brasil.
Parabéns pelo artigo.
A democracia dos iatolás, com perdão do trocadilho infame, vai atolar o Irã de sangue. A imagem do vídeo é chocante. Chocante também é o cinismo do governo do país.
Fácil é provocar a dor com a mão pesada do Estado. Difícil mesmo é ir às ruas com essa mesma mão pesada apertando o seu pescoço.
Dimas