Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXIII
Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Scientia potere sed nec plus ultra)
22º CAPÍTULO
─ Trá-lá-lá, tré-lé-lé, tró-ló-ló… ─ Começou o Cardeal a leitura do Laudo Técnico da Universidade Gregoriana.
─ Ferrughi! Vamos deixar de brincadeira que o assunto é sério. ─ Interrompeu Monsenhor Lippi, bastante irritado.
─ Ora, Lippi! Você sabe muito bem que esses Laudos têm uma Introdução bajulatória ao Santo Padre e duas ou três orações ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo e à Virgem Maria. ─ Respondeu o Cardeal. ─ Mas, vamos lá:
“Laudo técnico e verdadeiro, inspirado pelo Espírito Santo e chancelado pelo Divino Santo Padre.
O material enviado para análise técnica consta do som de um gravador de última geração, fabricado pelos americanos, tipo XYZ, marca GE. Como todos sabem, inclusive o Santo Padre, que é Infalível pela Graça do Santo Espírito, o som se propaga por ondas semelhantes à própria luz, podendo ser, portanto, examinado tanto como onda como partícula, segundo os ensinamentos irrefutáveis da novíssima Mecânica Quântica.
Como onda, não há problema. Trata-se de um som emitido por instrumento de corda artesanal, parecido com uma rabeca, além de ser produzido pelo atrito de duas substâncias orgânicas, isto é, “tripa de bode” e “pêlos de rato silvestre” (segundo informações pelo telefone de Sua Eminência, o Cardeal Ferrugghi, membro da Academia de História da Cidade de Bari). Que viva para sempre sob a inspiração da Imaculada Virgem Maria!
Ora, as ondas se espalham em diversas freqüências, algumas delas, mas não todas, sensíveis ao ouvido humano e dos mamíferos, em geral.
Notamos pequenas distorções na freqüência das ondas sonoras examinadas e tivemos que submetê-las a um filtro, recém-inventado e produzido pela nossa egrégia Universidade, embora não fosse possível identificar sua essência, no sentido aristotélico-tomista do termo, segundo os ensinamentos do nosso sagrado Código Canônico.
Por isso, foi necessário analisar o referido objeto de investigação sob a ótica de partículas, como ensina a famosa Escola de Koppenhagen, liderada pelo festejado Prêmio Nobel Niels Bohr, ex-beque direito da gloriosa seleção de futebol da Dinamarca
Ora, segundo a mesma Escola, a Mecânica Quântica é muito divertida por que as coisas podem ser e não ser, ao mesmo tempo”.
─ Puxa! Da mesma maneira, aliás, que as doutrinas de nossa Santa Madre Igreja. Cacetada, Jesus era quântico! ─ Interrompi a leitura do Cardeal intempestivamente. E, por isso, fui presenteado com um olhar reprovador que deixou meu rosto todo avermelhado.
Ferrughi retomou então, a leitura do Laudo sem dizer uma palavra:
“Utilizamos, então, o moderno filtro quântico que nos foi presenteado pelos americanos e constatou-se que:
01 – 80% do som instrumental (embora horripilante) estavam perfeitamente de acordo com os parâmetros auditivos dos mamíferos;
02 – 15% provinham de uma algazarra típica de preces religiosas, em que se destacavam orações moderadas ao Santo Padre e algumas de caráter histérico à Virgem Imaculada;
03 – 5%, contudo, tanto das ondas quanto das partículas sonoras, são conjuntos chamados de quanta, extremamente complexos e exóticos, que se situam muito além da capacidade auditiva dos mamíferos, salvo das espécies que evoluíram em túneis no subsolo, desde os tempos dos dinossauros, no Período do Cretáceo;
04 – Para nosso júbilo, um cientista-visitante, de origem americana, identificou os 5% como emissões de ultra-som, produto do que ele chamou de “efeito quântico” e que teria servido para explodir a bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki.
05 – Como este Laudo é secreto, tivemos que chamar o Chefe do Departamento de Biologia da Universidade para saber quais os mamíferos sensíveis ao tal “efeito quântico”. Ele nos explicou com detalhes e gráficos (em anexo) que, na altura do Cretáceo, houve um “desvio evolutivo” na audição dos mamíferos, isto é, na sincronização do martelo e da bigorna que, como todos sabem, são os órgãos responsáveis ─ o primeiro batendo no segundo ─ pelo envio ao cérebro de qualquer perturbação no meio ambiente, inclusive o som.
Em conclusão, fato já sabido pelos zoólogos, somente a família rattus muridae silvestrium permaneceu e evoluiu com tal “desvio”, sensível ao citado “efeito quântico” que, quando produzido, atrai a espécie, levando-a à morte.
Aliás, daquele ponto da encruzilhada evolutiva, segundo nosso Biólogo Chefe, evoluíram os morcegos que não passam, segundo ele, de ratos geneticamente adaptados ao ultra-som, além de terem adquirido a capacidade de voar, ninguém sabe ainda como.
06 – Ora, apesar do fato já ter sido comprovado experimentalmente, e para dirimir qualquer dúvida por ventura ainda existente, fomos ao Laboratório do Departamento de Biologia e submetemos o indigitado som aos ouvidos de nossos ratos cobaias. O resultado foi terrível. Quando acionávamos o gravador, os coitados dos ratinhos endoidavam, batiam suas cabecinhas nas paredes de suas gaiolas, furavam seus olhinhos e se flagelavam de todas as maneiras possíveis, como os verdadeiros santos de nossa Igreja. Contudo, assim que parávamos o som, eles, os ratos, se acalmavam, voltavam a se alimentar, a copular (os santos sempre se recusaram a praticar tais atos imorais) e alguns até caíam em profundo sono. Mas, quando repetíamos o som, o fenômeno anterior se manifestava, havendo, inclusive, doze suicídios bem documentados.
CONCLUSÃO: Para além de qualquer dúvida, como gostam de dizer os historiadores do Vaticano, não constatamos qualquer indício de fatos sobrenaturais ou miraculosos no episódio narrado (por telefone) por Sua Eminência, o Cardeal Pietro Ferrughi, Digníssimo Arcebispo de Bari.
Ao contrário, o assim chamado, impropriamente, de “suicídio dos ratos” revela-se mais um dos inúmeros fatos maravilhosos, naturais e corriqueiros, criados pelo Todo Poderoso, bastando para isso que se produza perto dos ouvidos do mencionado mamífero o conhecido “efeito quântico”, analisado e comprovado experimentalmente por nossos sagrados Laboratórios.
Infelizmente, e como gostaríamos, teríamos preferido incluir o episódio como uma das provas da recente ciência, fundada pelo Santo Padre, e que vem sendo estudada com grande empenho pela nossa Universidade. Trata-se, evidentemente, da sagrada ciência da Marialogia. Mas, a verdade é sempre a verdade e nossa Igreja sempre esteve comprometida com as duas coisas indissociáveis, isto é, Veritas et Virtus.
Roma, tanto de tanto de quanto,
a) Reverendíssimo Professor Doutor (assinatura ilegível), S.J.
P.S. – Em virtude do profano sacrifício de cerca de vinte cobaias, solicitamos à Sua Eminência, o Cardeal Ferrughi, a urgente reposição das mesmas, em virtude da falta de verba que assola nossa sagrada Instituição”.
─ Pronto! Eis aí o tal Laudo, que resolve tudo. De fato, trata-se de uma brilhante e atualizada explicação científica do ocorrido. Ou do não ocorrido, ao que parece, segundo os princípios da tal Mecânica Quântica. ─ Terminou Ferrughi sem muita euforia como se não estivesse acreditando no Laudo.
─ Quero ver de onde o Cardeal Ferrughi vai tirar o dinheiro pra comprar as cobaias. ─ Zombou Lippi. ─ Mas, com isso, não vejo por que manter a tal entrevista coletiva à Imprensa. Basta mandar para os jornais a cópia do Laudo e, amanhã, eles publicarão apenas que houve um pequeno tumulto na Praça com o aparecimento de uma ou duas dúzias de ratos mortos. Afinal de contas, você mesmo disse ao Santo Padre que estávamos experimentando um novo raticida na Biblioteca. ─ Disse Lippi.
─ Não sei não, irmão Cardeal! Pensava que a Santa Madre fosse contra a Teoria da Evolução. E a sagrada narração do Gênesis? No entanto, concordo com o cancelamento da entrevista. Assim, não teremos nenhum trabalho de explicar essa tal de Mecânica Quântica, que é e não é. Coisa estranha, Virgem Santíssima! Nem tampouco o misterioso “efeito quântico” que atrai os ratos. ─ Acrescentei, intrometendo-me num assunto de tal importância.
─ Acho que vocês têm razão! Quanto às cobaias, eles que se lasquem! Besteira pura! Basta colocar um casal de ratos numa gaiola e, depois de um mês, nasce uma ninhada. Eles que esperem pela minha grana! Contudo, gostaria muito de dar a entrevista, porque pretendia divulgar meu novo livro sobre os anjos medievais. Mas, concordo que será mais prudente fechar a boca e deixar o imbróglio para os técnicos da Gregoriana. E, com isso, Lippi, você fica livre dos seus amados ratos e Tsé pode, enfim, descansar na sua villa, antes de começar sua maratona de Doutorado sob a minha mais do que sagrada orientação. ─ Arrematou Ferrughi na maior gozação.
Mas, porém, contudo, todavia…Pelos olhares de Constanza, eu duvidava bastante do tal período extraordinário de repouso. Segundo meu coração dizia, havia tanta coisa pra fazer numa paisagem campestre, tantos mistérios romenos a desvendar, sei não!
A vida é mesmo muito complicada!
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI
Capítulo XXII