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Irã

3 comentários

A extrema-esquerda brasileira diz que a convulsão social no Irã é produto de uma conspiração elaborada pela CIA — vide o blog absolutamente estalisnista: Vermelho. No blog, publica-se um artigo de Paul Craig Roberts, que foi secretário-assistente do Tesouro durante o governo Reagan. Curiosamente, o governo do Irã tira a mesma conclusão: tudo é uma conspiração americana (aqui). Como nos ensina a dialética vulgar: os extremos tocam-se no caminho de algum futuro totalitário.

Pesquei no blog de Pedro Dória algumas informações (quem quiser uma boa análise do conflito, visite o blog):

– as manifestações estão sendo duramente reprimidas. Fala-se de greve, repetindo a experiência da Revolução Islâmica contra o Xá;

– “Oficialmente, informa a polícia do Irã, 457 pessoas foram presas no sábado e 13 morreram. Também oficialmente, o número de mortos desde as eleições é de 17 (incluindo os 13)” — são números oficiais, provavelmente são maiores do que o divulgado. Segundo uma fonte de Pedro Dória, já haveria de 1500 a 2000 presos na prisão de Evin.

– uma análise interessante de PD:

Outra informação que recebi fala de 50 mortos na província Sistan-Baluchistan. É onde vive a minoria étnica balúchi, que tem um longo histórico de rejeição ao governo central. Lá, foi batalha aberta, com AK-47s. Uma terceira informação é que na província de Shiraz – de onde, diz a lenda, veio a uva que faz o melhor vinho – o exército regular anda demonstrando insatisfação em ter ordens para virar-se contra o povo.

Não tenho como atestar pelas informações no parágrafo acima: listo porque parecem coerentes. Tem muito analista de primeira viagem que não entende o Irã falando do ‘interior conservador’ que teria votado em peso em Mahmoud Ahmadinejad. O Irã não é como os EUA ou como o Brasil onde pode-se falar de uma grande população mais ou menos homogênea que divide a mesma língua e a mesma cultura, com variações regionais. Não existe um ‘interior conservador’ que funcione e pense de uma maneira igual.

O interior iraniano de verdade é composto por azeris como Mousavi (24% da população), gilanis (8%), mazandaranis (8%, Reza Pahlavi era), curdos (7%), árabes (3%), balúchis (2%), lurs (2%), turcomenos (2%), além de outras minorias como judeus, georgianos, assírios, ciganos, hazaras, cazaques, cada qual lá com seu 1%. O povo persa compõe apenas metade da população do país e cada minoria tem sua pauta política, não raramente em oposição ao governo central. E, como muitos já falaram, é improvável e certamente inédito que, por exemplo, os azeris tenham oficialmente votado em peso contra seu candidato.

– acho sua posição coerente:

Não, não acho que Mir Hossein Mousavi seja o melhor para o Irã. Quando foi premiê, muita gente foi fuzilada no país. Mas acredito que o grupo político que ele representa, dos reformistas, é melhor para os iranianos do que os conservadores, representados por Ahmadinejad. Sim, o ideal é que não exista ditadura. Só que entre uma ditadura que permite alguma liberdade individual no modelo chinês e outra que proíbe mulheres de entrarem num estádio de futebol ou apedreja quem faz sexo antes do casamento, fico com Mousavi contra Ahmadinejad.

– aqui, publico um vídeo horripilante. A moça chama-se Neda — “em persa, ‘Neda’ quer dizer voz, chamado“. Era uma agente de viagens. Bem jovem, pelo retrato (suponho que seja verídico, claro):

neda

O vídeo, repito, é horripilante. Trágico, muito trágico:

Imagem de Amostra do You Tube

Foi assassinada por quem? Os estalinistas acham que foram os americanos?

Enfim… toda luta contra uma ditadura é difícil, mais ainda quando a mesma é comandada por trânsfugas do regime. Essa ambiguidade da oposição pode levar a um banho de sangue: a massa pode ficar sozinha, caso um arranjo no bloco de poder faça um acordão, salvando o regime e os neo-opositores. Mas concordo com Pedro Dória: politicamente, a melhor posição é o apoio à oposição.

Em tempo:

Uma avaliação que corrobora as discussões acima (aqui e aqui):

Não esperem um vencedor e um perdedor claros num período curto de tempo. A Revolução Iraniana teve início em janeiro de 1978 e o xá só deixou o país em janeiro de 1979. E esta é considerada uma das mais rápidas derrubadas de um regime com estrutura estável da história. Ao longo daquele ano, houve longas pausas e períodos de calma que, muitos imaginaram, indicava que a revolta popular havia morrido. Isto não é 100 metros rasos. É uma maratona. Resistência é no mínimo tão importante quanto velocidade.

Provavelmente não haverá vencedor ou perdedor claros. Os políticos iranianos são espertos. Preferem xadrez a futebol e uma ‘vitória’ pode ser, na verdade, uma solução negociada na qual todos saiam aparentemente bem. A atual liderança provavelmente cometeu um erro ao partir para a demonstração de força, mas se ela concluir que não há como vencer, vai partir para uma saída negociada. Que acordo seria esse, neste momento, é impossível dizer. Mas provavelmente significará concessões disfarçadas por uma aparência pública de que o regime está unido.

Torcedor
  1. Os amotinados contra a ditadura estão usando bastante a internet para as mobilizações, especialmente o Twitter. Já existe um movimento que ganhou repercussão internacional chamado “Where is my vote”. Dando uma busca nesse nome mais “Twitter ” conseguimos acessar esses debates, as denúncias e as convocações.

  2. E fazendo contato mostramos aos caras que tem gente no mundo inteiro acompanhando, e do lado deles. Apoio moral não tem o peso de um fuzil mas também ajuda.

  3. Realmente lamentável. Muitas vezes na ânsia de apoiar inimigos dos EUA, tipo “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, acaba-se apoiando tiranos e ditadores da pior espécie. Estou fora dessa.

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