Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXII

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

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(Veritas et virtus)

22º CAPÍTULO

Como havia escrito, saí na maior correria em direção da Ponte Milvia para proteger a menina do violino. Foi muita porrada, pontapés, empurrões, palavrões e vai por aí. Enfim, cheguei aos pés de Irenia e, usando minha autoridade de padre romano, afastei aos berros os fiéis mais ousados que queriam pegar na santa criança.

Irenia estava em pleno transe, com os olhos virados para dentro como se estivesse contemplando seu próprio interior. Os músculos rígidos, o rosto impassível. Passei as mãos diante dos seus olhos e percebi que ela estava inconsciente, num mundo muito distante dali. Em plena possessão tântrica!

No dedo anular esquerdo, notei um estigma de um pequeno leitão cujas orelhas se agitavam sem parar. Fiz o sinal da cruz invertido e rezei a Nossa Senhora das Cinzas do Vesúvio. O leitão desapareceu. Felizmente!

Ajoelhado, tirei do bolso da batina a garrafinha, que sempre levava comigo, cheia de chá de folhas de mangue, que o Dr. Quim me fizera trazer na viagem a Roma. Ensopei um lenço e passei na sua fronte, nas faces, no pescoço e nos braços. Depois, umedeci bem seus lábios ressequidos e senti uma leve resposta ao bálsamo sagrado de minha Comunidade.

A menina endireitou os olhos, abriu os lábios e gritou:

Elöi, Elöi, Lama sabactani?

A menina bradava: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”. Muito cônscio de minhas responsabilidades, retruquei:

– Menina, não seria “Eli, Eli, lamá sabactâni”?

A menina olhou-me estupefata. Numa possessão, deixe o demônio confuso. Utilize o nonsense o tempo todo. Desarma qualquer ser maligno.

Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido?

A menina queria uma guerra de salmos. Estava na cara. Mas estava em terreno movediço; afinal, estava recitando um salmo de Jesus, logo antes de entregar seu espírito ao Pai. Não podia cair nessa armadilha. Decidi acabar com o diálogo, pois perdia um tempo precioso:

– “E DAVI, juntamente com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, e de Hemã, e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos, e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério” – disse, de forma firme e compassada. Diante de outro nonsense, a menina recobrou a razão e me perguntou:

─ Padre! Onde estou? Quero mama e papa! Quem são essas pessoas gritando perto de mim?

─ Calma, minha filha! Você está bem e seus pais estão lhe esperando na Biblioteca. Você está muito cansada e vou levar você pra lá. ─ Respondi com a voz mais suave que podia.

Logo depois, chegou o Monsenhor Lippi resfolegando e quase sem poder falar. Disse-lhe com firmeza que apanhasse o violino e o arco e os levasse à Biblioteca. Precisava examiná-los com mais cuidado. Carregaria a menina pra que ela pudesse descansar no seu gabinete.

Levantei cuidadosamente Irenia da calçada. Levinha, levinha! Parecia feita de ossos de passarinho. A multidão ajoelhava-se e abria alas, deixando um corredor livre por onde eu passava. Pareciam as ondas do Mar Vermelho abrindo-se para dar passagem a Moisés e ao povo judeu que fugia dos exércitos do Faraó. A imagem me veio à cabeça e logo sumiu. Era urgente minha caminhada até o prédio da Biblioteca, antes que a multidão de idiotas se arrependesse e me barrasse a passagem. Irenia se aconchegou nos meus braços e posou sua cabecinha no meu ombro, já quase dormindo como se fosse um bebê de colo.

Depositei suavemente Irenia na cama do Monsenhor.

─ Pronto, minha filha! Você está em segurança e, daqui a pouco, seus pais e a irmã Constanza tomarão conta de você. ─ Disse-lhe, acalmando-a mais ainda.

Tirei uma xícara da copa e derramei o que restava do meu chá de folhas de mangue. Dei-lhe pra beber em pequenos goles.

─ Engraçado, Padre! Parece com o chá que mama prepara com as folhas de uma floresta que fica num lamaçal de nosso riacho bem à beira do Vesúvio. ─ Disse Irenia, coisa que ficou gravada na minha cabeça não sabia bem o porquê.

─ Tudo bem! Agora, você vai dormir porque está muito cansada.

─ Padre! Não sei dormir sem minha mascote. Está dentro da bolsa de mama bem ali naquela mesa. ─ Exclamou Irenia.

Trouxe a bolsa que ela mesma abriu. Tirou lá de dentro um troço branquinho e vivo que se contorcia, guinchando baixinho. Tratava-se de um ratinho hamster, desses de experiências de laboratório. Que nojo! Colocou o bichinho no ombro, assumiu uma posição fetal e caiu em profundo sono.

Chamei Constanza e os pais da menina e lhes disse:

─ Irenia vai dormir por umas duas ou três horas. Está totalmente estressada e não façam nenhum barulho, por favor. Deixem que ela acorde normalmente. Mandei o Padre chinês trazer poltronas confortáveis e, também, um bom lanche para vocês.

Voltei à Biblioteca e me juntei a Lippi e Ferrugghi na imensa mesa de trabalho. Disse-lhes que a menina estava bem e adormecera.

O Santo Padre, informado pelos seus dois tesoureiros de rua, telefonara pra saber o que acontecia. Ferrugghi atendeu e lhe disse:

─ Não aconteceu nada, Paché! Apenas uma alucinação coletiva, depois de uma serenata que a Biblioteca promoveu na Praça.

─ E os ratti? E os ratti? ─ Gritou histericamente o Cardeal Pacelli, cujo nome de guerra era Pio XII.

─ Uma dúzia de ratos mortos na praça, nada mais, Santo Padre. Foi uma experiência com um novo e poderoso raticida, inventado pelos americanos. Nada mais! Aliás, já marquei uma entrevista coletiva pra hoje à tarde e tudo será explicado. Nada de milagres! Tudo normal. Gostaria, até, de sua autorização para falar em nome da Cúria. ─ Respondeu Ferrugghi.

─ Claro, Fefé! Afinal de contas, você também é um Príncipe da Igreja. Razão, razão e razão! Já estou cheio de tanto milagre, logo agora que o Grande Líder perdeu a Guerra. Fale claramente em meu nome e pronto. A propósito, mande Lippi registrar a patente desse raticida em nome da Cúria. Precisamos de dinheiro para as obras na África e a luta contra o PC italiano. Ciau!

─ Bem! Agora é com a gente, Lippi. Ou encontramos uma explicação racional para o acontecido ou estamos lascados. Queimei o filme pra que esses idiotas medievais não encham o saco da gente. Não há imagens e ninguém viu nada. Mas o som nos interessa bastante. Já mandei o gravador para análise e o laudo técnico chega numa ou duas horas. Acho até que o mistério está escondido nesse miserável som. Violino dos infernos, aliás! Mande a família de volta pra Nápoles, acompanhada da Irmã Constanza, no trem do meio dia. A menina não pode ser entrevistada de modo algum.

─ Se não foi um milagre, eu cegue? ─ Exclamou Lippi.

─ E depois se joga no Vesúvio, né? ─ Ironizou o Cardeal. ─ E você Tsé? O que acha de tudo isso?

─ Milagre não é nem foi porque não acredito em superstição barata dos católicos romanos. Quero ver Monsenhor Lippi de óculos escuros que nem o ceguinho do Papa. Concordo com o irmão Cardeal que o mistério está no som do violino. E a ciência serve pra isso: desvendar mistérios. Aliás, notei algumas coisas estranhas no violino e no arco.

─ Diga logo, Tsé! Diga logo que ainda dá tempo de informar os técnicos de eletrônica da Universidade. ─ Interrompeu-me Ferrugghi.

─ Em primeiro lugar, as cordas do violino são de tripas de bode. ─ Comecei.

─ Não pode, não pode! E não fale nesse animal. No Vaticano, ele é sinônimo do Demo. E como você sabe disso, Tsé? ─ Esbravejou Lippi.

─ Pelo cheiro, Monsenhor! E que se lasque o Vaticano! Na Comunidade, todas as sextas feiras, a gente toma uma cervejinha com tira-gosto de tripa de bode assada na brasa. Não há a menor dúvida, portanto. O mistério está no arco.

─ Ora, ora! Não há mistério nenhum. Trata-se de um milagre e pronto! ─ Insistiu Lippi, interrompendo minha explicação.

─ Monsenhor, faça o favor de ficar calado e pare de choramingar. O talão do arco é feito de ripa de mangue e…

─ Não pode, não pode! Na Itália, não existe mangue. Isso é coisa de país subdesenvolvido. ─ Novamente fui interrompido pelo histérico Lippi.

─ Agora, sou eu quem fala. Cale-se Lippi! Lembre-se de que sou seu superior. ─ Engrossou o Cardeal. ─ Continue Tsé.

─ Pois bem! A menina me falou, e Constanza confirmou, que há uma floresta no riacho da propriedade dos pais. Quando ele passa nas encostas do Vesúvio, existe um lamaçal formado pelas lavas ainda quentes e, nele, cresce um matagal exatamente igual ao nosso mangue subdesenvolvido, como diz o preconceituoso Monsenhor. Pena que a Geografia italiana esteja tão atrasada. Culpa do Vaticano, certamente. Além disso, quando ela bebia o chá de folhas de mangue do Dr. Quim, disse que era igualzinho ao que sua mãe faz todos os dias. Não há dúvida, portanto. O problema maior está na crina do arco do violino.

─ Que problema, que problema? Fale rápido, Tsé, per favore. ─ Interrompeu-me o Cardeal.

─ Pasmem! A crina é feita de pêlos entrançados de ratos do campo. Daí aquele som ultra-esquisito. É só!

Ferrugghi saiu correndo e ficou mais de meia hora falando ao telefone.

─ Passei todas as informações. Daqui a uma hora, o laudo técnico estará chegando. E seja o que Nossa Senhora Não Sei Das Quantas quiser.

De fato, uma hora depois, o padre Giácommo chegava correndo e entregou ao Cardeal duas páginas datilografadas com o carimbo oficial da Universidade.

Era o laudo técnico!

(…)

Desculpem! Sou obrigado a interromper este relato. Está chovendo e minha palafita está cheia de goteiras. Além disso, não agüento mais! A Coisa perdeu novamente e a cachaça está rolando na praça da Comunidade. Vou aproveitar para me defender de tanta umidade, mesmo debaixo de chuva.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX
Capítulo XXI

11 Comentários para “Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXII”

  1. Flor de Liz:

    Boa tarde, reverendo.Cá estou mais uma vez tendo a honra de ser a primeira comentadora de mais um capítulo de suas brilhantes memórias… Por ora, estou apenas comentando para não correr o risco de não ser a “Primeira” (meu lado egoísta está aflorado hoje). rs
    Volto depois para comentar com mais calma!

    A sua bênção!

  2. ducaldo:

    Tripa de bode com pelo de “ratti”….Essa mistura indigesta só poderia produzir um som que induz ao suicídio (eheheh).

    Bem pragmática a postura de Pio XII.. Primeiro a preocupação com as legiões de ratti destruidores de livros; depois, constatada a destruição dos roedores pelo raticida ianque e a derrocada do grande líder, requer o registro da patente em nome da incúria…..

    Luta contra o PCI? aquilo lá virou PPS antes do PCB, né não? Só não lembro quem foi o Roberto Freire de lá….

    Reverendo, estou com uma gripe danada (a cervejinha ontem no bar da piscina, na sede do mais querido, das 10:00 da manhã até as 07:00 da noite, não caiu bem). Será que um chá de folhas do mangue ajudaria na cura?

    A sua benção.

  3. Perrusi, Pai:

    Irmãzinha Flor: Que bom ter sido a primeira! Mas, não se esqueça dos seus comentários. Estou em plena crise literária, achando que minhas memórias estão descambando para o nada. Minha bênção vespertina.

  4. Tsé-Tsé:

    Desculpe Irmãzinha, mas Perrusi Pai resolveu se intrometer na história e, impropriamente, lhe abençoou. Perseguição dessa tal família Perrusi. Agora, sim, segue minha bênção verdadeira.

  5. Tsé-Tsé:

    Irmão Ducaldo: Nosso chá é poderoso. Mais poderoso do que o sangue de Josué de Nazaré. No entanto, parece que você pegou uma gripe danada de forte e é preciso acrescentar um pouco de farinha de siri mole. Passe na Comunidade e peque um garrafão. Tome uma colher de sopa por dia durante trinta dias. Se não ficar bom, eu cegue. Minha bênção de chuva molhada.

  6. Flor de Liz:

    Tsé, tá desculpado. Sem problemas, essa tal família não se conforma com seu sucesso aqui no blog, né? rs
    Pois bem, cá estou mais uma vez… vamos ao que interessa… Trate de se recompor dessa crise literária sem motivo!Que foi que disse que suas memórias estão descambando para o nada? Pelo contrário, estão a cada capítulo mais interessantes e conquistando um número cada vez maior de leitores, muitos deles ainda não se tornaram comentadores assíduos e “pentelhos” (como a pessoa que vos escreve), eu disse ainda….mas isso é um mero detalhe.

    Quanto ao chá de folhas do mangue, o “trem” é milagroso mesmo, hein? Acho que tô precisando dele pra curar-me de uma dor lombar que tem me incomodado.

    A sua bênção!

  7. Tsé-Tsé:

    Irmãzinha Flor: Vou tentar sair da crise, vou tentar! Quanto ao seu lumbago, basta uma colher de chá de folha de mangue e uma boa massagem do seu eleito. Minha bênção.

  8. Tsé-Tsé:

    Irmão Ducaldo: Espero que tenha melhorado de sua gripe, seguindo a receita de nossa Comunidade. Minha bênção ainda espirrada.

  9. Flor de Liz:

    A sua bênção reverendo. E não é que o tal do chá de folhas do mangue é tiro e queda? Sinto-me bem melhor, creio que com mais algumas colheradas desse santo remédio estarei novinha em folha. Outra coisa, acho que essa bênção indevida de Perrusi Pai trouxe-me um bocado de azar…mas deixe pra lá, em outra oportunidade explico-lhe tudo em detalhes, talvez eu aproveite os festejos juninos para fazer um visitinha a Bel-O-Kan e quem sabe aproveite e fique de vez por aí.

    Beijos.

  10. ducaldo:

    Reverendo,

    Infelizmente segui a farmacopéia tradicional e fiquei mal a semana inteira.
    Melhorei hoje, depois de me arretar, jogar tudo fora e conseguir – finalmente – uma consulta com meu médico para amanhã.

    Volt em breve, com mais disposição.

  11. Tsé-Tsé:

    Irmão Ducaldo: Quem manda, quem manda! Enraçado é que o médico vai passar a amesma farmacopéia tradicional. O jeito, irmão, é seguir meus conselhos e passar lá pela Comunidade e pegar um garrafão com mel. Minha bênção medicinal.

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