Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXI

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

ratos10

(Morituri te salutem)

21º CAPÍTULO

Se não me falha a memória, mal acabara de falar quando Irenia ergueu o arco do violino e feriu suas cordas. Delas, saiu um som estrondoso, como se fosse um trovão anunciando uma chuva de granizo — grave, de uma garganta rasgada de barítono em fim de carreira. As janelas da Biblioteca tremeram. Alguns vidros se quebraram. Muitos livros caíram de suas estantes.

Dudulaidadá, o totem africano que o velho, querido e já falecido Dr. Quim inventara, baixou de vez na menina. Assustador! Foi o que pensei na hora.

Lá em baixo, as pessoas escondiam seus rostos e tapavam seus ouvidos. O falso ceguinho deixou cair seu saco de moedas, jogou os óculos escuros longe e começou a catá-las uma a uma, indiferente ao pavor da multidão nas calçadas. O velhinho de muletas, ao contrário, saiu correndo pelas ruas estreitas que desembocavam na praça com o saco de dinheiro apertado no peito. Tesoureiros eficientes da Cúria, é certo; mas, covardes perante uma situação de aparente risco. Não é por acaso, aliás, que os agentes de Roma sempre se cercavam de soldados em suas ações espoliativas; no passado e no presente.

Dó bemol maior! Estranho, mas reconhecível para meu ouvido bem treinado. ─ Exclamou o Cardeal sem tirar os olhos do binóculo e os ouvidos do rádio.

─ De minha parte, acho que é o fim do mundo, como gritava o aleijado lá em baixo. ─ Respondeu Lippi.

─ Que nada! Isso me parece o grito daqueles anjos rebeldes que Jeová mandou para os confins dos infernos. ─ Acrescentei.

─ Deixem de ser frouxos! Um som é um som, é um som. E nada mais. ─ Terminou o Cardeal com firmeza.

Um Dó bemol maior que, aliás, já durava uns dez minutos. Foi, então, que Lippi gritou:

─ Vejam! Vejam! Olhem para as portas e janelas do prédio! E as escadarias! Minha Nossa Senhora das Perebas!

De fato, ratos, ratos e ratos saiam por todos os lados, alguns despencando dos andares superiores, outros topando em nossas pernas, todos correndo em direção da praça, formando um semicírculo em volta da menina. Negra massa amontoando-se e formando um mar de ratos de todas as cores, guinchando, guinchando como se pedissem o fim do tormentoso som. Quando o último rato chegou, a menina parou de tocar.

Em seguida, ergueu o violino e emitiu um novo som. Mais suave, embora mais agudo do que o primeiro.

Ré sustenido menor! ─ Exclamou Ferrugghi. ─ Ora, Lippi, você falou que havia apenas dez mil ratos na Biblioteca. Pelos meus cálculos, aqui de cima, há mais de cinqüenta mil. ─ Resmungou o Cardeal.

Disciplinadamente, ao som do monótono do violino, os ratos foram formando fileiras de vinte unidades com cerca de meio metro entre elas. A coluna perdia-se até os últimos recantos da enorme praça. Todos os ratos em perfeita ordem e harmonia.

─ Engraçado! Parecem as tropas fascistas de Mussolini, aquele desgraçado. ─ Disse o Monsenhor Lippi, já recomposto do susto inicial.

Quando estava tudo em ordem, a menina trocou de nota. Levantou o violino e começou a andar em direção da Ponte Milvia sobre o Tibre. O som era em stacatto grazioso, estimulando os ratos a marcharem atrás dela.

Mi sustenido mezzo ma non troppo! ─ Ensinou o Cardeal.

As colunas marchavam em ordem unida até chegarem a um cruzamento, cem metros adiante, já na saída da praça. O sinal estava fechado, vermelho, e os carros passavam velozmente. Imediatamente, a menina passou para um Fá maior, segundo Ferrugghi. Os ratos pararam ansiosos e guinchando. O sinal ficou verde e, novamente, o violino soou o aconchegante Mi. A coluna prosseguiu atrás da menina.

Na subida da ponte Milvia, Irenia hesitou e os ratos se agitaram. Poucos instantes depois, no entanto, ela subiu a ponte e parou no meio dela, tocando um Fá sustenido menor. Novamente, os ratos pararam perplexos, embora mantivessem a ordem intacta das fileiras.

Atrás dos ratos, formara-se uma multidão de padres, freiras, noviços e noviças, populares, papa-óstias de todos os tipos. E alguns jornalistas atraídos pela novidade. O falso ceguinho já se recompusera e continuava recolhendo os óbulos dos fiéis. O não menos falso paralítico retomara as muletas e gritava mais alto ainda sobre o fim do mundo, enchendo de moedas uma bolsa nova que levava a tiracolo.

Miracolo! Miracolo! ─ Gritava a multidão. E a reza aumentava: Ave-Maria, Padre-Nosso, Glória a Deus, Aleluias e Viva o Papa, com velas acesas e o indefectível sinal da cruz.

A menina sentou-se na calçada da ponte e ficou imóvel. Os ratos esperavam silenciosos prontos a obedecer ao novo som.

Pelo rádio, o Cardeal ouviu um Lá sustenido maior. Manhoso, hipnótico e, no entanto, imperativo. Pouco a pouco, enfileirados, os ratos começaram a subir na balaustrada da Ponte Milvia e se precipitaram em direção do rio, cem metros abaixo. O suicídio coletivo dos ratos durou quase meia hora. A multidão, ajoelhada e com velas acesas, formou um círculo em volta da menina e as rezas aumentaram de tom.

Quando o último rato pulou no rio Tibre, a menina tocou um Si bemol menor, como se estivesse se sentindo solitária e triste. Foi o som mais langoroso, intimista e tristonho que eu jamais ouvira. Como se o infinito tivesse se infiltrado em seu inocente coração.

Quando terminou, Irenia deixou o violino e o arco na calçada, estendeu seus braços paralelamente sobre as pernas, baixou a cabeça e um silêncio apavorante se fez ouvir no meio da ponte. Parecia que nada mais iria acontecer. Um vento gelado e fétido, vindo do Gabinete do Papa, soprou na ponte e apagou todas as velas ao mesmo tempo.

Enfim, a Biblioteca do Vaticano estava salva dos incômodos e vorazes ratos.

E a menina?

Foi quando gritei na maior aflição, sentindo que a multidão se aproximava de Irenia e os fiéis se preparavam para tocar em seu corpo como se tratasse de uma santa. Iriam esmagá-la, certamente. Às vezes, ou quase sempre, a Fé de fanáticos, excitados emocionalmente, provoca tragédias pra lá de sangrentas. A História do Cristianismo e da ICR é pródiga em tais exemplos.

Gritei com todas as forças da minha pobre garganta:

─ Monsenhor Lippi! Monsenhor Lippi! Vão matar a pobre menina. Corra, corra! Precisamos proteger a coitada da criança.

Desci a escadaria com todo o vigor dos meus vinte e cinco anos e corri como um louco em direção da Ponte Milvia, rezando a Nossa Senhora das Palafitas para que chegasse em tempo de salvar nossa violinista.

(…)

Mas, como já falei, estou com suspeita de gripe suína. Domingo passado, para comemorar a derrota da Coisa, comi um leitão assado que os meninos pegaram no mangue. Além disso, já não suporto falar mais de ratos. Os da Comunidade, a gente pega pelo rabo e joga na comunidade vizinha e eles que se virem. Quem sabe, quando a febre amainar, eu volte a escrever?

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX
Capítulo XX

7 Comentários para “Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXI”

  1. ducaldo:

    Nunca pensei que a ICR e suas mazelas me rendessem tantas risadas – bem que estou necessitando.

    Ratos destruidores de livros marchando em ordem unida = legiões fascistas. Faz sentido.

    Bem que essa menina poderia dar uma canja lá em Brasília ou em algumas reuniões partidárias pelo Brasil afora…..

    Melhoras, Reverendo.

  2. Artur:

    Bem-visto, Ducaldo, muito bem-visto. Ratos devoradores de livro em ordem unida — imagem sombria do fascismo. O humor do Reverendo está curioso…

  3. Tsé-Tsé:

    Irmão Ducaldo: Acho que você captou o espírito da coisa. Ratos em ordem unida e fascismo. A menina, hoje ilustre professora da Universidade de Nápoles, estaria disposta a ir até Brasília. Tem medo apenas que a quantidade de ratos de nossa capital supere os do Vaticano. Você ainda verá alguma coisa do chamado “Pacto com o Diabo”, celebrado entre Pio XI e Mussolini. O primeiro apoiando o fascismo e o segundo dando dinheiro grosso para a Cúria, inclusive, decretando o famigerado Estado do Vaticano, em Fevereiro de 1929, através do Tratado de Latrão. É só esperar. Minha bênção bem humorada.

  4. Flor de Liz:

    Ora, ora. Belíssima metáfora, reverendo! Faz todo o sentido comparar os tais ratos com legiões fascistas.

    Estimo-lhe melhoras!

    A sua bênção.

    Abs.

  5. GOMES TRICOLOR:

    ENQUANTO VIAJAVA NO ROTEIRO DA MENINA E DO SEU VIOLINO, FIQUEI IMAGINANDO A POSSIBILIDADE DA CONDUÇÃO DOS RATOS AO SUICÍDIO.
    E NÃO É QUE ERA ESSA A IDÉIA, MESMO?

    SÓ QUE VOCÊ FEZ ISSO COM UMA QUALIDADE LITERÁRIA QUE ME ENCHEU DE INVEJA. O ARREMATE COM O SI BEMOL MENOR E A SOLIDÃO BUSSCADA DA MENINA FOI UM TOQUE DE MESTRE.

    MUITO BOM.

    gomes_adv@uol.com.br

  6. Jessica:

    Ahh tempos não acompanho mais as Memórias do Reverendo. Pois bem estou voltando agora e com uma enorme saudade, espero acompanha-las melhor..

    Abraços

  7. Blog dos Perrusi » Blog Archive » Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XXIV:

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