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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XX
Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Nonnunquae sed nunc)
20º CAPÍTULO
Terminado o expediente, deixei Lippi estudando suas Atas, esfarrapadas e apodrecidas pelo tempo, e fui ao Albergue da Gregoriana. Precisava rever o currículo do Doutorado, antes de minha semana de férias na Villa do Monsenhor. Além disso, meu coração batucava em Dó maior na esperança de rever Constanza na tarde seguinte. Com uma semana de paisagem campestre, certamente converteria a Irmã romena à Filosofia da minha Comunidade.
(Uma filosofia do amor que defende a liberdade sexual absoluta, baseada nos versículos tântricos de Ula-Ula, monge tantra que morreu imolado a mando de Gengis Khan. O motivo de sua morte ainda é fonte de altercações entre os historiadores: a versão oficial diz que a imolação deveu-se a um fato prosaico: Gengis flagrou Ula-Ula ensinando a Mamadeira Tártara à líder de seu harém, Genghisabel. Simplesmente, o conquistador mongol não entendeu a pertinência metafísica dessa posição tântrica tão singela, menos ainda da obrigatoriedade ritualística dos gritinhos sincopados proferidos pela formosa e inocente Genghisabel. A coitada foi queimada viva, embora não parasse, mesmo na fogueira ardente, com seus gritinhos sincopados, para a suprema irritação de Gengis )
Encontrei uma carta do Monsenhor Braguinha, meu pai, estranhando que meus cursos ainda não tivessem começado. Respondi-lhe contando todas as peripécias por que havia passado em Roma. Por causa do frio, os cursos haviam sido adiados em um mês e eu trabalhava na Biblioteca para aproveitar o tempo. Num bilhete, em anexo, Socorrinho e Madalena mandavam-me beijos de saudade.
De tão cansado, dormi como uma santa e imaculada pedra que nem a Virgem Maria, embora sem roncos santos, infelizmente, pois meus ensinamentos não foram além da dormição. No dia seguinte, cheguei bem cedo ao trabalho e ouvi a maior gritaria vinda do gabinete do Monsenhor Lippi. Ele discutia em altos brados com o Cardeal Ferrugghi sobre a autoria da descoberta das Atas do Julgamento de Formoso I.
─ Porra, Lippi! Bentinho tem direito à autoria, sim! ─ Dizia meu Orientador.
─ Tsé! Chegue aqui! ─ Disse-me Lippi, abrindo a porta do gabinete. ─ Veja só a loucura de Ferrugghi! Ele quer botar o nome do gattopardo como um dos autores da minha monografia.
─ E com toda a razão, não é Tsé? Você mesmo confessou que foi meu Bentinho que descobriu essas amaldiçoadas Atas. ─ Respondeu o Cardeal com um ar irônico e, ao mesmo tempo, piedoso. Puro fingimento, na verdade.
─ Tem toda a razão, Eminência! Aliás, acho que são três autores: 1º) O sábio Bentinho, gattopardo do Cardeal Ferrugghi, vencedor da Batalha dos Gatos; 2º) O eminente Arquivólogo-chefe da Biblioteca do Vaticano, Monsenhor Giorgio Lippi; e 3º) O ilustre Sirilama, vulgo Padre Tsé-Tsé, da Comunidade Telemista de Bel-O-Kan.
─ Que negócio é esse de Sirilama, Tsé? ─ Rugiu o Cardeal.
─ Ora, meu ilustre Orientador! Se é pra esculhambar, por que não irmos até as últimas conseqüências lógicas? ─ Respondi, sabendo que o Cardeal estava apenas zombando com Lippi, em mais uma de suas brincadeiras habituais com o amigo de longa data. ─ E terminei:
─ Ótimo, Cardeal! O irmão já pensou na desmoralização de nossa Sociedade Secreta (a SBV) quando souberem que o senhor tem um leopardo na sua fazenda que sabe ler, escrever e descobrir documentos famosos? E Bentinho usa óculos, irmão Cardeal? E o que haveria de dizer o Santo Padre quando der o Imprimatur para a publicação? Será que esse tal de Formoso merece tanto assim?
─ Tem razão, Tsé! Estou apenas brincando com Lippi que perdeu totalmente o senso de humor depois dessa história dos ratos. E o tal Sirilama, de onde vem mesmo esse nome esquisito?
─ Nada não! Era meu apelido de criança. ─ Respondi, com mais ironia ainda.
Saímos abraçados para almoçar, ainda rindo de tudo. Menos Lippi que ainda estava vermelho de raiva. Almoço rápido, porque às duas da tarde, em ponto, deveríamos estar na estação ferroviária Sul, setor N, plataforma 5, à espera da menina do violino. O trem chegou, como sempre, com uma hora de atraso. Estendi a mão pra amparar Constanza na descida do vagão e notei um leve tremor em seus lábios quando me agradecia a gentileza. Levamos os pais, a menina e a irmã para o hotel reservado por Ferrugghi. Excelente hotel, quartos ainda melhores. Marcamos a hora da serenata da menina para as nove horas da manhã do dia seguinte.
─ Nove horas em ponto! ─ Acrescentou Lippi, sempre preciso e burocrático no que dizia.
─ Nem tão avarento, esse Cardeal, né mesmo, Monsenhor? ─ Exclamei durante a viagem de bonde até a Biblioteca.
─ Avarento e cruel! Exigiu em troca uma cria de minha cadela pastor alemão. Uma raça puríssima vinda da Inglaterra e que me foi presenteada pelos herdeiros de Darwin. Além disso, já estava prometida ao Santo Padre. Pura ostentação desse Cardeal bufão, isso sim!
Às nove em ponto, como exigira Lippi, estávamos na janela do segundo andar da Biblioteca. A menina Irenia, de uns quinze anos mais ou menos, era magrinha, loura e com uns olhos de extrema melancolia. Estava lá em baixo, no centro da imensa praça, frente ao prédio da Biblioteca, encostada num obelisco renascentista. Empunhava o violino de uma maneira desajeitada, como se hesitando sobre o que fazer. Seus pais ficaram a uma certa distância na companhia de Constanza. Os sinos de Roma tocaram as nove horas e a menina nem ligou. Estática, esperava alguma coisa.
─ Acho que deveríamos ter providenciado um gravador e uma câmera de filmar. ─ Disse aos meus companheiros de observação. O Cardeal, munido de um binóculo, resmungou:
─ Já providenciei tudo. De um lado, está o padre Giácommo, meu secretário, com um gravador de última geração, que expropriamos de um soldado nazista. Do outro lado, está o Bispo, meu auxiliar, com uma câmera de filmar que eu troquei por uma cabra com um soldado americano. Depois de tudo, a gente vai mandar ao Laboratório eletrônico da Gregoriana para um laudo técnico. Se ocorrer alguma coisa, é claro. A menina parece estar em êxtase e, se continuar desse jeito, trago novamente Bentinho pra resolver a situação.
Sem motivo aparente, a menina riu. Era um riso divino, até mais inacessível do que as lágrimas. Se o Psiquiatra de Cabedelo (o avô do Psi de Intermares) estivesse por aqui, teria internado a impúbere imediatamente. Lá de baixo, ela me olhou fixamente. Tremi da cabeça aos pés. Havia naquela cena um sentimento vertiginoso de desmedida. De repente, ainda me olhando, ela disse:
_A solidão é DEUS!
Todos ficaram calados. Decidi falar alguma coisa, até para ter tempo e entender o que estava acontecendo. No fundo, estava também querendo salvar a face. Peguei um megafone e exclamei:
_DEUS é comunhão, menina.
_DEUS é o terror ao infinito. ELE reconduz o ser ao começo. E o começo é a tumba da minha VÓ!
Lippi disse-me baixinho:
_a Vó morreu no parto da mãe.
_Foi?! Não foi sua mãe que morreu no seu parto?
_A minha mãe?!
_Não, não, a mãe da menina.
-Ah, sim. Na verdade, confundiram tudo; foi mesmo a sua avó.
_A minha?!
_Não, seu idiota, a da menina!
_Aaah…
Peguei o megafone, novamente, e tentei contemporizar: _da morte à vida, menina. Você nasceu. Viva além do cemitério.
_O começo, que à beira da tumba entrevejo, é o porco que em mim nem a morte nem o insulto podem matar.
_Porco?! Olhei estupefacto para Lippi.
_Encontraram na tumba, no lugar da avó, um esqueleto de um porco gigante.
_Meu Deus, isso parece um filme de terror!
_O terror à beira da tumba é divino, e mergulho no terror do qual nasci! DEUS é o horror do que foi, do que é e do que será; mas, tão horrível, que deveria negar e gritar com toda força, e negaria o que aquilo foi, que é ou o que será, mas eu mentiria…
Numa cena impossível, seus olhos reviraram numa dança louca e seu pescoço torceu para trás.
_Cruzes, estamos diante de Dudulaidadá, o deus do velho Dr. Quim…
Nem bem terminei de pronunciar a última palavra, a cabeça da menina deu outro giro e ficou numa posição normal; ao mesmo tempo, começou a tocar seu violino. Respirei aliviado, pois a situação ficara insustentável. Mais um pouco, não sendo exorcista, teria de utilizar os procedimentos do Psi de Cabedelo para possesões histéricas: a tapaterapia! Um tipo de espancamento terapêutico que curava essa doença freudiana, a Frescura. Lippi e Ferrugghi estavam calados, talvez petrificados diante daquela cena abominável. Preferi não comentar nada. A melhor memória é o esquecimento — relfeti.
Contudo, a multidão não parecia nem notar o que acontecera. Acotovelava-se nas calçadas da praça, atônita sem saber de nada. Quem sabe, tudo aquilo fosse mais uma das possessões ou um dos milagres que aconteciam todas as manhãs na cidade eterna. Afinal de contas, é disso que a ICR vive desde sempre: de anjos e demônios. Mas não só disso: havia até um ceguinho, com uma cuia na mão, arrecadando moedas dos fiéis. Possivelmente, um tesoureiro disfarçado da Cúria. Mais adiante, um velhinho de muletas trombeteava o fim do mundo e pedia dinheiro para a grande viagem que se aproximava. Quem sabe, mais um dos tesoureiros do Santo Padre?
(…)
Mas, porém, contudo, todavia…
Desculpe, pacientes, temerários e parcos leitores destas Memórias! Tenho de parar de escrever. Estou velho e cansado. Além disso, ainda estou comemorando a vitória dos porcos de Gadara, digo de São Paulo, digo do Parque Antártica sobre a Coisa. Mais ainda! Ontem mesmo, uns bichos baianos derrubaram novamente a marvada. Como adotavam as mesmas cores, é provável que os jogadores da Coisa tenham se confundido sem saber pra onde jogar a bola, hehehehehe…
Tomei tanto vinho de missa que preciso dormir uns cinco dias. Depois, eu conto, se me lembrar direito, o que a menina do violino fez naquela manhã friorenta de Roma.
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XIX

















A sua bênção, reverendo. Mais uma vez aqui, mais uma vez tenho a honra de ser a primeira a comentar… Poxa, tomaste o vinho sozinho? Nem lembrou de me chamar, né?Hoje quando o Atlético-MG der uma lapada na “Coisa” teremos motivo de sobra para uma comemoração regada a muito vinho de missa.
Danou-se! E a menina aprontou mais ainda?
E a conversão da irmã Constanza ao telemismo tântrico? Saberemos os detalhes?
Vixe! A violinista de hamlin jamais usaria essa roupitcha kitsch que vocês escolheram. Quanto ao porco, eu sei de onde ele veio: do jogo de futebol de Artur.
Povo doido.
Irmã Flor de Liz, que boquinha Santa!
Galo 3×2 coisa.
Irmãzinha Flor: Você não sabe do que escapou. Zé Malandro, cada vez mais míope, entrou numa igreja e não percebeu que se tratava da celebração de uma Santa Missa Negra. Roubou a a brrica de vinho, assim mesmo. Bebemos e bebemos. Mas, depois, sob a supervisão do Dr. Quim, tivemos que ficar sentados três dias, você imagine onde. Foi horripilante! Com minha bênção.
Irmão Ducaldo: Você não perde por esperar. Quando o diabo entorta, a coisa não tem jeito. Felizmente, assisti tudo e pude salvar a menina. A Coisa continua perdendo, é? Castigo dos infernos, só pode ser. Minha bênção tricolor.
Irmãzinha Cynthia: Pois usou! Trata-se de um bibelô de porcelana renascentista, da coleção de Einstein, que o Editor do Blog encontrou num brechó da Rua da Conceição. Claro! Não aconselho ninguém se vestir daquele jeito senão o povo vai jogar pedra em cima. Quanto ao porco, está na cara que a irmão não acompanha o nosso futebol, pois Artur é fanático de uma certa cobrinha venenosa. O porco é uma tradição romana que os italianos adotaram quando souberam que o Papa se tornara infalível. Minha bênção kitch-renascentista.
Irmão Ducaldo: Começo a suspeitar de que tenho o dom da profecia. Será?!? Que seja sempre assim…rs
Abs.
O representante alvinegro manda saudações aos que esperavam umas chicotadas na tal “coisa”.
Missão Cumprida.
Abs.
Espero que sim, Flor de Liz. Aguardemos a próxima rodada.
Chicotadas muito bem dadas, Edmar.
Abs.
Chicotadas galiformes — é tudo que merece a Coisa, Edmar.