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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XIX

8 comentários

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

papa

(Mirabilia docummenta)

19º  CAPÍTULO

A Biblioteca e os Arquivos estavam um verdadeiro brinco. Tudo arrumado, limpo, escovado e nos lugares certos. Os ratos, é claro, ainda passeavam pelo local. Mas eu estava preocupado pela prolongada ausência do Monsenhor Lippi. Não podia decidir nada e apenas atendia ao público consulente, mantendo a ordem entre os funcionários. A pasta verde, bem vigiada por mim, continuava sobre a mesa do chefe. Levava um título longo em latim medieval. Traduzo, aqui, apenas o essencial:

“Atas do Inquérito, Julgamento e Condenação do Herege, Simoníaco, Sodomita e Traidor Formoso I, Bispo do Porto, na longínqua Luzitânia, e que se sentou ilicitamente na Cátedra de São Pedro”.

Tratava-se, é claro, das famosas Atas perdidas do Julgamento de Formoso, mandado efetuar e presidido pelo próprio Papa Estevam, seu sucessor. Era meu presente para o Monsenhor Lippi e, ansiosamente, aguardava-o. Nem tanto pelos ratos, mas pela surpresa e pelo magnífico achado arquivístico que, diga-se de passagem, fora obra exclusiva do gattopardo do Cardeal Ferrugghi.

Também, devo confessar, pela volta da irmã Constanza.

Na segunda feira seguinte, cheguei bem cedinho à Biblioteca e fiquei aguardando alguma novidade, quando Lippi entrou sem avisar e se dirigiu à minha mesa. Nem me cumprimentou e percebi logo que estava contrariado com alguma coisa.

─ Monsenhor! Que cara amarrada é essa? Nem Bom Dia, o senhor falou. ─ Disse-lhe com certo receio.

─ Nem precisa! Pelo que vejo, está tudo certo por aqui. ─ Respondeu, dando uma olhada minuciosa nas estantes e nas gavetas.

─ E a menina do violino? Ela veio com o senhor? ─ Atrevi-me a perguntar.

─ Não! Deu um trabalho desgraçado pra convencer os pais, mas o avarento do seu Orientador só vai mandar o dinheiro amanhã. Voltei porque não poderia mais esperar, mas a irmã Constanza ficou e vem de trem pela tarde. Parabéns, Tsé! Parece que você pelo menos é um bom arrumador de livros. ─ E entrou no seu gabinete sem mais nenhuma palavra.

Dez minutos depois, ouvi o maior berro de toda a minha vida:

─ Tséééééééé!!!!!!!

Já sabia do que se tratava, mas não precisava gritar tão alto ao ponto de acordar o Santo Padre que passava férias em Castel Gandolfo, a cinqüenta quilômetros de Roma. Entrei no gabinete de Lippi, e ele sorria e quase lambia a infecta e bolorenta pasta verde das Atas de Formoso I.

─ O Santo Graal! O Santo Graal! Como foi? Como foi que você descobriu? ─ Dizia Lippi chorando.

─ Calma, Monsenhor! Foi o gattopardo do Cardeal quem descobriu. Só fiz apanhar do chão e botar em cima da sua mesa. O senhor merece! ─ Respondi, contando-lhe o episódio do miraculoso achado.

─ Não, Tsé! Assim que passar essa crise de ratazanas por aqui, vou escrever uma monografia para o próximo Congresso de Aquivística Cristã, no mês que vem, em Londres e você será o co-autor. Esse documento é precioso demais para ficar escondido. O mundo inteiro precisa saber. ─ E terminou dando-me o maior abraço que já recebera, maior inclusive do que o de Socorrinho e o de Madalena… juntos!

─ Recuso a co-autoria, Monsenhor. Além disso, não sou arquivista. No máximo, o senhor pode colocar uma nota de pé-de-página, contando brevemente que um auxiliar anônimo encontrou as Atas por mero acaso. Afinal de contas, há séculos, elas estavam perdidas e o senhor mesmo era um dos mais interessados na pesquisa. ─ Respondi, sem nenhuma falsa modéstia, pois estava convencido de que a descoberta tão importante fora resultado da “Guerra dos Gatos”. Não ficaria bem, claro, contar o episódio do leopardo do Cardeal, mas seria mentir afirmar que fora eu o responsável. Além disso, uma descoberta é sempre fruto de uma procura e eu não estava pesquisando nada. Nem mesmo acreditava que as tais Atas existissem. Poderia, aliás, tê-las deixado em cima do monturo de papéis velhos e carcomidos para que o próprio Lippi as “descobrisse”.

Lippi não queria, mas terminou concordando diante dos meus fortes argumentos. Se a menina do violino conseguisse mesmo exterminar a rataria, ele me daria uma semana de graça em sua villa, pra descansar antes do começo do curso de Doutorado. Mas me pediu que não dissesse nada ao Cardeal. Queria fazer-lhe uma surpresa, pois Ferrugghi jamais acreditara nas histórias medievais sobre Formoso I.

─ Monsenhor! Esse Formoso era tão ruim assim, como diz a inscrição da capa? ─ Perguntei.

─ Que nada, Tsé. Era parecido com você. Não entendia nada de política italiana e brigou com os Capulettos. Foi somente por isso. Quanto à sodomia, isso era comum entre os eclesiásticos daquele tempo. Não havia um bispo que não tivesse um amante ou uma amante. Daí, talvez, esse sotaque meio bichal dos padres. Herança medieval, acredito. ─ Respondeu Lippi.

─ Menos eu, menos eu, Monsenhor! O senhor e o Cardeal, talvez, quem sabe…

─ Mais respeito, Tsé! Nós, da Sociedade, não temos sotaque, nem tampouco somos homofóbicos. Em matéria de sexo, cada um se vira como pode, especialmente na SBV. Somos contra apenas a pedofilia. O restante é permitido. E me deixe em paz que estou doido pra examinar as Atas.

Em seguida, pediu para não ser interrompido mesmo que o chamado viesse do Santo Padre. Deixei-o, pois, no seu orgasmo arquivístico.

Meu coração se acelerou por efeito de um orgasmo diferente. A emoção de saber que a irmã Constanza chegaria no dia seguinte.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XVIII

Torcedor
  1. A sua bênção, reverendo. Que honra ser a primeira a comentar mais um capítulo de suas deliciosas memórias! Devo-lhe informar que se aproxima o dia de minha chegada em Bel-O-Kan. E dessa vez é pra valer, sem males estranhos ou imprevistos de quaisquer naturezas. Portanto, aguarde-me e prepare seu coração, a emoção de minha chegada pode ser maior do que a provocada pela irmã Constanza.

    Ah, estou no aguardo de sua posição sobre o acordo que Marília e eu firmamos. Creio que o sr. não vá se opôr, porém em todo caso vide comentários do capítulo anterior das memórias.

    Sem mais.

    Abs.

  2. Irmãzinha Flor: Fiquei ciente do seu acordo com Marilia. Aprovo-o inteiramente. Digo mais: cada metade partilha de minha totalidade. Portanto, ambas sairam ganhando. Sempre fico contente quando vejo seu comentário, especialmente quando chega em primeiro lugar. Minha bênção.

  3. Tsé, eu tinha certeza de que não haveria nenhuma objecção de sua parte.Com certeza saimos ganhando, não tenho dúvidas disso. E que bom saber que meus comentários alegram-te…
    Proponho que tão logo eu me recupere, e antes que me dirija a comunidade, marquemos a nossa famigerada sangria. O que achas? O tempo passou, mas não a esqueci.

  4. A pergunta que não quer calar: Cadê o reverendo?
    Eu volto à ativa e ele some? Assim não dá! rs

    Abs.

  5. Essa história do papa Formoso I daria um filme de Buñuel. Surrealismo puro.
    Ou seria realismo fantástico?

    E os subterrâneos começaram a feder. Não só na portentosa memorialística tse-tseriana, mas, no noticiário mesmo.
    O Reverendo viu o que aconteceu na Irlanda?

  6. Calma Irmãzinha Flor: Estou muito gripado e ainda não tomei a vacina. Já protestei contra a violência dos assassinatos em série em plena luz do dia no Recife. Agora, apesar dos meus pedidos, protesto novamente contra o Governo que não mandou nenhum agente de saúde pra me vacinar. Por isso, não me arrisco a sair da Comunidade e visitar uma Lan pra responder aos seus comentários. Minha bênção encatarrada.

  7. Irmão Ducaldo: Se não fosse o covarde medo dos Governos pela ICR (V. a censura de um Celso Furtado, no Governo Sarney, ao filme de Goddard sobre a Virgem Maria), essas histórias do tipo Formoso I já estariam nas telas de nossos cinemas, inclusive em versões infantis de desenho animado. Já sabia do caso da Irlanda, abafado pela ínclita Inglaterra anglicana, cujo clero, apesar de poder se casar, tampouco é flor que se cheire. Mantenho minha opinião: a ICR é a maior incentivadora da pedofilia no Ocidente. Os papas são diretamente responsáveis pela disseminação da Aids nos países católicos da África, ao proibirem o uso da camisinha. Se você tiver tempo, leia o livro de Maurice Lachatre, “Os Crimes dos Papas – Mistérios e Iniquidades da Corte de Roma”. É difícil encontrar um deles que tivesse vergonha na cara. Só pensavam em suas guerrinhas contra os heréticos e contra o conhecimento científico. Cercados, aliás, por belas mulheres da alta sociedade romana, o que não seria nada de mais se não as incentivassem a evenenar seus opositores. Mas, gostaria de lhe perguntar, Irmão Ducaldo: considera mesmo o Brasil um Estado laico cuja Constituição, pelo menos em tese, afirma a separação entre Religião e Estado? Minha bênção sempre renovada.

  8. Nem de longe, Reverendo. Essa separação é para inglês ver.
    Brasília, mesmo projetada por um comunista de carteirinha, segue o catecismo direitinho.

    Obrigado pela sugetão de leitura. Procurarei já.

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