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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XVIII
Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Angelicus Intermezzo!)
18º CAPÍTULO
Aproveito a viagem de Monsenhor Lippi a Nápoles, em busca da menina do violino mágico, para tecer algumas considerações sobre o Cristianismo e, em especial, sobre a ICR. Nas curtas conversas com o Monsenhor e com Ferrugghi, ouvi algumas coisas que, nós, brasileiros e os católicos em geral, jamais sonhamos em saber.
Na verdade, desde o início, o Cristianismo como, aliás, todos os outros monoteísmos, construíram uma história sangrenta em defesa de suas crenças e tradições. O Velho Testamento é repleto de guerras em nome de Jeová, o Senhor dos Exércitos, contra as tribos vizinhas dos antigos judeus que acreditavam em outros deuses, tão sangrentos, aliás, quanto o próprio habitante do Monte Sinai.
A rigor, e como já havia assinalado no meu livro, escrito em aramáico, o Cristianismo não passa de uma religião politeísta. A Jeová, o Deus Pai, foram acrescentados pelos cristãos o Deus Filho e o Deus Espírito Santo, este, aliás, de nome feminino em aramáico, a língua falada por Jesus e seus discípulos.
E, com isso, as mulheres já teriam o seu feminismo assegurado no moderno panteon das divindades.
E a briga entre os “trinitaristas” e os “unitaristas” rendeu, aliás, muito sangue entre os próprios cristãos. Por outro lado, foi novamente por decreto (V. o Concílio de Nicéia, em 325) que a disputa amainou criando-se o famoso “mistério” da Santíssima Trindade. A meu ver, no entanto, não existe mistério algum; são três deuses independentes e com funções específicas, segundo os evangelistas, além dos auxiliares e subalternos como os anjos, os santos e, em especial, a Virgem Maria, os últimos inventados pela ICR.
De minha parte, sempre achei o politeísmo mais charmoso como, por exemplo, o greco-latino que inspirou e nos legou inúmeras obras primas nas artes plásticas e literárias até hoje vistas, lidas e apreciadas. Mesmo assim, não vejo nenhuma razão plausível para se preferir um ao outro, embora ache que ambos são falsos.
No entanto, o Cristianismo foi crescendo, pois tinha uma vantagem em relação às outras religiões do Império Romano, isto é, prometia a vida eterna após a morte num suposto paraíso celestial. Além disso, sua ética de submissão, como pregava Paulo, adequava-se cada vez mais aos propósitos do velho Império em decadência. Não é por acaso, portanto, que Constantino, o velho assassino, tenha estabelecido por Decreto que a Igreja de Roma seria a guardiã soberana e fiel das doutrinas cristãs, embora elas se contradissessem umas às outras à medida que o tempo passava e os costumes se transformavam.
Tampouco era por acaso que a ICR assumia os mesmos títulos e as mesmas cerimônias antigas do Império. Nada original, portanto, para uma crença que teria nascido revolucionária entre um grupo de judeus do começo da chamada era cristã e que, pouco a pouco, apenas substituía, com novos símbolos, as antigas crendices e superstições do vasto mundo antigo.
Um exemplo disso, aliás, é a substituição progressiva do culto popular a Isis, deusa egípcia (com várias denominações locais), pelo da Virgem Maria (igualmente com nomes locais diferentes) bem como o título de Sumo Pontífice (Pontifex Maximus), copiado dos Imperadores.
Esse longo processo histórico culminou, em 1870, quando o primeiro mamífero humano macho achou que era infalível e uma reunião de auxiliares concordou com ele. As mulheres, é claro, não precisavam de nenhuma reunião porque elas já nasceram infalíveis e nenhum marido, até hoje, ousa contestá-las.
Contudo, entre os Cardeais presentes ao I Concílio do Vaticano (1869-1870), houve alguns que protestaram, mencionando-se “a aparente contradição entre semelhante doutrina e a reconhecida imoralidade de alguns papas”. Um deles, o bispo José Strossmaier, mencionou como alguns papas haviam se manifestado contrários à doutrina de papas anteriores, citando explicitamente o caso do Papa Estevam V que levara a julgamento o antecessor, Formoso I (891-896), talvez o único papa português.
O Papa Pio IX, no entanto, saiu vitorioso e, daí em diante, todos os papas se tornaram infalíveis, o que não deixa de se constituir numa das maiores glórias para nossa combalida espécie. Pelo menos, entre os católicos romanos!
No entanto, e para mencionar apenas um dos maiores escândalos romanos (outros virão depois), a menção ao suposto julgamento de Formoso I colocou um importante problema arquivístico desde que, apesar de muitos cronistas medievais citarem o caso, jamais o dossiê, contendo as Atas do Processo, foi encontrado. Muitos historiadores sempre consideraram, aliás, tal julgamento como uma lenda, produto da imaginação infantil da Idade Média, quando os papas, muitas vezes, eram eleitos, depostos, reempossados e, muitas vezes, assassinados pela turba da cidade eterna.
Outros, no entanto, acreditavam em sua veracidade e começou, então, uma intensa busca pelo Santo Graal da arquivologia romana sem que, infelizmente, os resultados concretos aparecessem.
Segundo afirmavam os cronistas medievais, Formoso I já havia morrido oito meses antes do julgamento. Estevam V, no entanto, movido pelo seu ódio ao antecessor, mandou exumar o corpo, colocando-o em um trono com uma coroa sobre sua cabeça e o cetro nos dedos cadavéricos de sua mão. O mau cheiro, claro, tomava conta da sala do julgamento, mas Estevam V, assim mesmo, interrogou o portuga que, coitado, não conseguiu responder às acusações, sendo, por isso, condenado.
Despojado de suas vestes sacerdotais, de sua coroa e do seu anel, ainda lhe cortaram os três dedos com os quais costumava dar sua bênção papal. Arrastaram o cadáver profanado pelas ruas de Roma e o jogaram no rio Tibre.
Entretanto, Estevam II, papa seguinte ao inquisidor de cadáveres, reabilitou imediatamente a memória de Formoso I, embora tivesse, felizmente, o bom gosto, e lhe faltassem a loucura e a morbidez, de não repetir a cena com o primeiro Estevam.
Conto essa história para exemplificar o rio de sangue que encobre a história do papado romano, além das falsificações de documentos importantes, hoje reconhecidas pela própria ICR, embora jamais ela tenha renunciado às ilícitas vantagens obtidas. Como ainda hoje, continua a roer os ossos do passado. E do presente, também!
Exemplos disso são os famosos “Decretos de Isidoro”, aparecidos em 845 e atribuídos aos primeiros papas, e que teriam concedido aos bispos de Roma poderes herdados pelo suposto primeiro Papa, isto é, o próprio Pedro, humilde pescador da Galiléia que, na verdade, não tinha nada a fazer em Roma, nicho de proselitismo já ocupado por Paulo. Tudo, claro, em nome de Jesus! Pura invenção católico-romana!
No século IX, aparece a famosa “Doação de Constantino”, através da qual era concedido ao bispo de Roma o governo das províncias ocidentais do Império Romano, o que somente terminou com a unificação italiana (século XIX), a que se opunha, com toda a razão, o Papa Pio IX.
Os ortodoxos gregos jamais aceitaram tal “documento” e chamavam Roma de “a casa das falsificações”.
Entretanto, apesar de todas as falcatruas da ICR, algumas reconhecidas por ela própria, continuava o mistério do julgamento de Formoso I.
O Monsenhor Lippi, antes de viajar, foi obrigado a me nomear Chefe Interino da Biblioteca, desde que o Primeiro Secretário estava doente e o Segundo viajara em busca de novos documentos na Turíngia.
Meus poderes, no entanto, eram bastante limitados. Teria apenas que colocar ordem na Biblioteca e nos Arquivos dada a confusão que resultara da “Batalha dos Gatos”, recém travada e vencida, como já vimos, pelos ratos. O estrago fora imenso. Convoquei os vinte funcionários, dividindo-os em duas turmas, para que o trabalho fosse realizado sem parar, de dia e de noite.
O padre chinês fungou e resmungou, mas eu ameacei de repatriá-lo para Pequim, onde ele seria, certamente, assado e comido como espetinho pelos seguidores de Mao, por causa da fome que grassava na China. Pra meu deleite, aliás, o padre Chin Xion Chao foi o mais dedicado dos funcionários e, graças ao seu esforço, a ordem se restabelecia na Biblioteca.
Trabalhei como um cão danado, para me reabilitar perante o Monsenhor Lippi, que me cedera seu próprio gabinete, uma sala enorme provida de um banheiro e de uma copa, tendo num dos cantos uma gostosa cama de casal. Fiz do padre chinês o meu mordomo e era ele que me servia as refeições, compradas fiado num boteco perto de nosso prédio.
Monsenhor Lippi me telefonava todos os dias para saber do andamento dos trabalhos e me contava sobre as dificuldades em convencer os pais da violinista para que ela viajasse a Roma. Eles tinham medo dos soldados americanos, e de alguns brasileiros, que construíram trincheiras na propriedade sem deixar as meninas da fazenda em paz. Três delas, envergonhadas pela safadeza dos soldados, fugiram e suas famílias viviam reclamando do pai da menina que tocava violino.
Por isso mesmo, também amedrontados, os pais só consentiriam na viagem da filha se eles a acompanhassem, com todas as despesas pagas. E aí é que residia o problema, pois o Monsenhor não tinha a verba necessária nem tampouco sabia se tudo daria certo, como prometia a irmã Constanza.
Pediu-me, então, que telefonasse para o Cardeal Ferrugghi que, depois de muita lábia e insistência de minha parte, conseguiu uma boa mufunfa que ele guardava para seu próprio funeral. Além de ateu, meu orientador de tese não passava de um grandissíssimo avarento.
Foi no último telefonema do Monsenhor, aliás, que se deu o milagre. Esgotado de tanto trabalho, ouvindo a choraminga de Lippi, virei-me para um dos lados dos Arquivos e, ao longe, vi uma pasta verde clara no meio de um entulho de papéis. Quase escondida, preparei-me para chamar um dos funcionários para guardá-la quando alguma coisa secreta zumbiu na minha cabeça. Bobagem! Eu mesmo pegaria a pasta, envelhecida e gasta, e a colocaria no seu devido lugar. Terminada a lengalenga de Lippi, aproximei-me do entulho e não acreditei no que estava vendo.
Cuidadosamente, apanhei a velha pasta e a depositei, como se fosse um cálice sagrado, na mesa de trabalho do Monsenhor. Era a redenção plena dos meus equívocos lingüísticos e eu tinha a certeza de que, dessa vez, seria reconhecido como um verdadeiro herói pelo meu chefe.
Mas, isso fica para depois. O Monsenhor Lippi ainda não voltou de Nápoles.
Para terminar este Capítulo, gostaria de aconselhar a leitura de dois preciosos livros sobre a História do Cristianismo e do Vaticano:
01 – Fo, Jacopo et alli – O Livro Negro do Cristianismo (Dois mil anos de crimes em nome de Deus) – Rio de Janeiro, Ediouro, 2007;
02 – Santiago Camacho – Biografia Não Autorizada do Vaticano (Nazismo, Finanças Secretas, Máfia, Diplomacia Oculta e Crimes na Santa Sé) – São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2006.
Façam bom proveito!
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII

















Reverendo,
Vc ao menos conseguiu afinar o violino ???
Muito bom! Eis que se inicia a revelação dos subterrâneos do Vaticano.
Reverendo, obrigado pelas sugestões de leitura.
Irmão André Tricolor Virtual: Não! Nem sequer tentei. É muito perigoso afinar o violino alheio. Às vezes, dá cadeia. Mire-se no exemplo do Bispo Lugo, cujo caso de afinação de violinos alheios ainda vei render muita coisa ruim pra ele. Infelizmente! Minha bênção em dó maior.
Irmão Ducaldo: Gostei de sua volta aos comentários sobre minhas modestas memórias. Pensava mesmo em desistir de continuar a escrevê-las, pois achava, numa fase meio depressiva, que ninguém estava ligando pra elas. Outro assunto: o irmão pode me dar notícias da Irmãzinha Flor de Liz? A última vez que ela escreveu foi pra dizer que iria morar em nossa Comunidade Telemista. Mas, não apareceu. Será que desistiu? Ou estaria viajando? Mande qualquer notícia da irmãzinha que ficarei bastante agradecido. Minha bênção subterrânea.
Reverendo, nem pense em parar com as memórias. Onde mais eu ficaria sabendo dos pod…, digo, da história da ICR?
Não sei o que houve com a irmã Flor de Liz. SErá que o seu desaparecimento está ligado à visita de D. Lugo? Nunca se sabe.
A sua bênção reverendo.Fico feliz em saber que sentiste minha falta! Cá estou, realmente a última vez que escrevi estava de malas prontas com destino a comunidade, contudo entre a noite que antecedeu minha ida e minha saída de casa muita coisa aconteceu.Entre elas um estranho mal me acometeu, tão estranho que ainda estou em recuperação, em breve estarei me juntando a vocês. Depois tive problemas com meu pc.Tudo bem que o coitado estava abarrotado de vírus de todos os tipos, só na última verificação foram mais de 350 identificados.Esta é a primeira vez que comento com meu novo amigo.Por conta disso, ainda tenho uma pequena fase de adaptação e rogo para que este me seja tão companheiro como o antigo.Logo os comentários serão normalizados.E assim que estiver recuperada entro em contato para que viabilize novamente minha aceitação na comunidade.
Abs.
Irmãzinha Flor: Quê saudade de você! Espero que o tal mal estranho já tenha passado e você esteja bem. E volte com seus gostosos comentários, sempre benvindos. Minha bênção de retorno.
Xiiiiii…e eu que pensava ser a preferida de Tsé-Tsé. Como viajo na maionese! Bem, o que importa é que se a Irmãnzinha Flor está fazendo bem ao Reverendo, estará consequentemente me fazendo bem também. Saberei ser generosa. Portanto, que ela feche suas malas e que se dirija à comunidade tão logo possa. Seja bem-vinda novamente ao blog! Beijos para vocês dois, em especial, e para todos daqui.
Reverendo: A sua bênção! Estou me recuperando aos poucos, dentro de mais alguns dias estarei completamente recuperada e seguirei rumo a Bel-O-Kan. Aguarde-me!
Marília: Agradeço muitissimo pelas boas vindas. Quanto a predileção do reverendo podemos dividir este posto se assim você desejar, não sou uma pessoa egocentrica, não vejo problema algum em dividirmos a atenção de Tsé- Tsé.
Beijos
Combinado, então, Flor, dividiremos ao meio o Reverendo, assim, todos ficam felizes. A matemática é até simples: eu fico com Tsé e você com…Tsé, rsrs. Beijos.
Assim sendo, estamos combinadas, Marília. Nada mais justo que o dividirmos ao meio, assim não rola ciúmes, né? Resta-nos saber o que o reverendo tem a dizer a cerca do nosso trato. Creio que ele não vá se opôr, mas em todo caso é bom que ele próprio se manifeste, né?
Abs.
Irmãozinhos: que comunidade tão interessante! Eu venho da tensão Texas-Bush/Texas Dallas, bem distantes uma da outra do tempo mas igualmente sinistras. Nos bastidores e no palco. Escuta, Ducaldo, e a pasta/livro verde? Abriste pra dar uma espiada? Às vezes vale a pena, já que nada mais nos assusta. Cumprimentos, Rosa
Rosa, ainda não consegui colocar as mãos na pasta verde. Um dia, quem sabe…..
Afinal, trata-se de algo comprometedor para ICR, que não costuma abrir seus arquivos para qualquer um.