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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XVII

3 comentários

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.


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(Fellinus delenda)

17º CAPÍTULO

Já no fim de nossa primeira conversa, Monsenhor Lippi nomeou-me seu Terceiro Secretário, baseado na minha experiência anterior. Sinecura sem ônus para a Igreja e nada mais, acrescentou. Mas, com isso, eu teria livre acesso à Biblioteca e aos Arquivos Secretos do Vaticano, além de ─ e isso era o mais importante ─ ser agraciado com um Passaporte Diplomático, face às incertezas do fim de guerra.

Quando nos despedíamos, convidou-me para o fim de semana seguinte em sua “villa”, perto de Roma, justamente enquanto os gatos faziam o favor de comer os ratos da Biblioteca. Queria discutir alguns pontos de meu livro sobre a “História do Cristianismo”, o que muito me surpreendeu, desde que todos os exemplares haviam sido perdidos. Mas, segundo ele, Braguinha tinha lhe remetido seu próprio exemplar e, para não me constranger, mentira quando dissera que o teria perdido num bonde. Conhecedor do aramáico antigo, achara alguns “peidinhos” no livro, facilmente consertáveis, aliás, numa próxima edição.

─ Pra mim, será uma honra, Monsenhor! ─ Exclamei.

A granja de Lippi era lindíssima e bem cultivada, apesar da guerra. Lá, o Monsenhor, em geral, passava os fins de semana em companhia da família, sua esposa siciliana ─ clandestina, claro! ─ e seus três filhos. Um riacho cortava o longo pomar e podíamos pescar trutas e alguns salmões que ali vinham desovar. Um luxo!

Na primeira noite, dormi em demasia, acordando bem tarde quando o sol já estava no alto. Desci para o café da manhã e percebi a beleza da noviça que servia à mesa. Tratava-se de uma romena, fugida do regime comunista e que o Monsenhor abrigara por piedade. Senti um frisson na espinha quando me deparei com ela pela primeira vez. No entanto, ouvia a voz de Braguinha, meu pai, que me dissera para não tocar nas freiras italianas. Italianas ou “na Itália”? Não me lembrava mais e com tanta formosura diante de mim nem queria mesmo me lembrar.

Monsenhor Lippi saíra para seu longo passeio matinal, para inspecionar o curral de vacas holandesas e para colher, como sempre gostava, frutas no pé. Enquanto tomava meu café, com queijos diversos, bolinhos gostosíssimos e manteiga caseira, o telefone tocou e ninguém atendeu. Tocou novamente mais duas ou três vezes e eu, impulsivo, como sempre, resolvi atender.

─ Pronto!

─ Qui parla? Monsignore Lippi?

─ Non! Trata-se do Padre Tsé-Tsé, seu Terceiro Secretário. ─ Respondi.

Em bom português, uma voz mais do que jocosa botou pra rir, dizendo-me:

─ Mas, qual o quê? Então já chegou? Aqui quem fala é o Cardeal Ferrugghi, seu orientador. Já está gozando de sua mordomia, né mesmo, seu brasiliano sem-vergonha?

─ Eminência! Desculpe! Mas, o Monsenhor Lippi volta do seu passeio daqui a uma hora mais ou menos. ─ Respondi respeitosamente.

─ Que Eminência porra nenhuma, Tsé. Trate-me apenas de irmão que já é muito. Conheço toda a sua história e nada de cerimônias comigo. Estou lhe esperando há não sei quanto tempo e já tenho uma proposta de tese pra você. Conversaremos na próxima semana na Gregoriana. Mas, me diga uma coisa. Você tem preconceito de cor?

─ Claro que não, irmão! Um bom cristão não pode ter preconceito de cor. ─ Respondi pensando nos anjos do Cardeal.

─ Deixe de ser besta, Tsé! É sobre os gatos que, amanhã, serão soltos na Biblioteca. Tem tudo quanto é cor misturada: azul, vermelho, branco, preto, amarelo e até um pardo. Por acaso, você gosta de gato pardo? ─ Perguntou-me o Cardeal.

─ Claro, grande irmão. Na minha Comunidade, temos uns três gatos entre o amarelo e o pardo. Um deles, inclusive, pertence à minha filha. Justamente, o pardo.

─ Ótimo, Tsé! Esqueci de perguntar ao Monsenhor Lippi. Será que ele também gosta de negros e pardos? ─ Insistiu o Cardeal, meu orientador.

─ Certamente, irmão! Aqui na granja, ele tem um pastor alemão e um garrote totalmente pardos. Não vejo porque ele não gostaria também de gatos pardos. ─ Respondi.

─ Ainda bem, ainda bem! Diga a ele, per favore, que, entre os gatos das Irmãs Paulinas, há um que é pardo. ─ Pediu-me o Cardeal.

Entretanto, meus olhos, ouvidos e atenção estavam totalmente voltados para a Irmã romena, Constanza di Beatti, e me esqueci do recado. Somente no dia seguinte, quando os gatos já deveriam estar comendo os ratos, é que me lembrei e falei para o Monsenhor Lippi sobre o telefonema recebido.

─ Como disse, Tsé? O Cardeal falou que havia um gato pardo? ─ Perguntou-me, de olhos esbugalhados, o Chefe da Biblioteca do Vaticano.

─ Exatamente! ─ Respondi, certo de que havia cumprido minha primeira missão com eficiência.

Dio mio! Dio mio! Esse Cardeal é mesmo doido de pedra. E você, Tsé, com esse italiano de merda que está falando, não percebeu o que significa “gato pardo”? Aliás, “gattopardo“, Tsé, “gattopardo“, imbecil! Trata-se, na sua língua desgraçada, de um leopardo, daqueles bem grandões que o Cardeal mantém no seu zoológico particular.

Atônito, fiquei ouvindo as imprecações do Monsenhor, chamando-me de tudo e arrependido de ter nomeado um idiota como seu Terceiro Secretário. Correu para o telefone e nada. Estava mudo.

Sporca miseria! Esqueci de pagar a conta e o Vaticano cortou minha verba.

Voltamos na carreira para Roma num caminhão velho e rebentado que o Monsenhor comprara como sobra de guerra do Exército americano. Mais de cinco horas de estrada poeirenta e esburacada. Mas, quando chegamos, a “sporca miseria” já havia sido consumada.

─ E os ratti? E os ratti? ─ Perguntava adoidado o Monsenhor Lippi.

─ Bobagem, Monsenhor! Aliaram-se ao leopardo e estraçalharam os gatos. Não sobrou nenhum! ─ Respondeu calmamente o Cardeal Ferrugghi, morrendo de rir em frente à Biblioteca e com seu “gattopardo” preso na coleira. ─ Besteira Lippi! Já mandei limpar o recinto e recolher o que sobrou dos gatos. No fim de semana, haverá um bom ensopado di gatti, lá em Bari. Você e esse frangote brasiliano estão convidados. Ah! Tem mais. Mandei assar umas costeletas dos defuntos para o almoço do Santo Padre. Escrevi num cartão de visitas que se tratava de lebre alpina. Ele adora! ─ Terminou.

─ Seu louco, seu louco! E agora? Deve estar tudo pelos ares na Biblioteca e os ratos continuam roendo meus documentos. ─ Respondeu o Monsenhor.

─ Não se preocupe, Lippi! Antes da guerra, houve, também, uma peste de ratti no Vaticano e o Cardeal Ratti, como você sabe, resolveu tudo direitinho.

─ Desculpem interromper o amável diálogo. Mas quem é o tal Cardeal Ratti? ─ Interrompi a briga dos ilustres prelados.

─ Ora, Tsé! Devia saber que o Cardeal Ratti tinha o nome de guerra de Pio XI. ─ Respondeu meu ilustre orientador.

─ Mas, ele tinha dinheiro pra comprar veneno. E eu não tenho! ─ Exclamou o Monsenhor.

─ É! Lippi! Você está se tornando um burocrata insuportável. Com esse racionamento de carne, que nos foi imposto pelos americanos e pela Democracia Cristã, achei uma belíssima ocasião para engordar meu “Bentinho”. Bicho bom! Coitado! Há um mês que não comia carne de ninguém. Mas, Lippi, como é que você foi acreditar que noventa gatos poderiam comer mais de dez mil ratos? E agora?!! O jeito é conseguir outra maneira de acabar com eles. Os ratos, claro! ─ E saiu rindo com seu imenso, saciado e pardo bichano pelos corredores da Santa Sé, assustando todo mundo.

E conseguiram! A Irmã Contanza conhecia uma menina, tetraneta do flautista de Hamlin, que tocava violino numa aldeia perto do Vesúvio, em Nápoles. Todas as vezes em que ficava tocando, os ratos da aldeia subiam pela montanha e se jogavam na cratera em chamas do vulcão. Ninguém sabia se de horror pelo estranho som do instrumento ou, segundo outros, por um milagre de San Gennaro.

Gentilmente, prontifiquei-me para acompanhar a Irmã Constanza, mas Lippi cortou, de logo, meu entusiasmo:

─ Nada disso, Tsé! Já conheço sua fama de sedutor de freiras. Eu mesmo vou com a menina. Você fica de castigo aqui mesmo na Biblioteca, decorando tudo que é nome de bicho em italiano. Na companhia dos ratti, claro!

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI

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  1. André Tricolor Virtual

    Reverendo Tsé,

    (rsrsrs), vc tirou a ‘barriga da miséria’ hem! Quem estava acostumado com pastel de siri pelas bandas das palafitas brasilis, em Roma vc tirou o pé da lama … Agora os ratos aí assustam não é? Por acaso, o ‘Monsenhor Lippi’ é ‘veterinário’, acho que se ele morasse na França teria um grande apego aos ‘gambás’ de lá …

    Sobre essa ‘gata’ romena, cabe uma observação:

    A mulher brasileira está mais para boazuda do que para bonita, num país onde as nádegas viraram órgão sexual … já as Romenas realmente são FENOMENAIS, a Romênia conta com os tipos grego, húngaro, germânico, turco, cigano, russo etc. – não só “puros”, como também mesclados entre si. Mas o assunto não se esgota nos olhos azuis ou na tez de porcelana aveludada (que existe, sim!). Como dizia um brasileiro férvido entusiasta das mulheres romenas, “até as feias têm uma certa graça”. Isso porque, para além do aspecto, elas conservam o caminhar, o gesto, o comportamento, a magia femininos. São mulheres por fora, por dentro, no avesso, de ponta-cabeça, debaixo d’água – e que sabem ostentar cabelos brancos.

    Ps. Fellinus delenda = gatus lascadus (vide leoa do chié)

    Abraços!

  2. É HAMELIN! H-A-M-E-L-I-N!

    E não tem violino no meio.

  3. Irmãzinha Cynthia: Eu bem que achava que meus textos, destas modestas memórias, que nem sei mesmo se são verdadeiras ou não, estavam sendo distorcidos pelo abominável PsInt e editadas erradamente por Perrusi Filho. A justificativa que o último me forneceu, quando lhe enviei sua reclamação, foi de que, com o Novo Acordo Ortográfico entre o Brasil Portugal, o “e” ficou mudo e, por isso, não adiantava perder tempo com ele. É claro que a responsabilidade é toda do Editor do Blog. Possivelmente, interpretou mal meus garranchos. Lamernto! Mas, não sei se dá mais tempo de consertar porque já enviei todos os capítulos pra ele. Quanto ao violino, a irmã Constanza, que, aliás, juntou-se ao meu clâ, voltou a me garantir que se tratava mesmo de um violino. Afinal de contas, disse-me ela, se um cara toca flauta, por que seus descendentes não podem tocar violino? Infelizmente, o Monsenhor Lippi já faleceu há muito tempo e eu não tenho como esclarecer de que instrumento se tratava. Com minha bênção musical para aliviar seus temores!

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