Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XVI
Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Longa perigrinationibus)
16º CAPÍTULO
Recebi o bilhete da Panair do Brasil para Roma, via Natal, Daccar, Ilhas Canárias, Lisboa, Porto, Madri, Barcelona, Gênova, Florença e, finalmente, Roma. Na época, o Vaticano mantinha uma Concordata secreta com aquela companhia aérea. Todos os sacerdotes romanos viajavam de graça nas asas da Panair. Em troca, os aviões eram lavados com água benta, diretamente produzida em Roma. Além disso, em todos os vôos, um tripulante era encarregado de aspergir os passageiros, especialmente o Comandante, com a sagrada aguinha de sal e polvilho disfarçado. Que eu saiba, nenhum avião jamais caiu, salvo uma pequena pane, quando um avião sobrevoava Salvador; assim mesmo, porque haviam esquecido de benzer o co-piloto.
Monsenhor Braguinha, meu pai, chamou-me para os últimos conselhos. Falar pouco, jamais fazer brincadeiras com a pseudo virgindade de Maria e, principalmente, sempre afirmar que todos os homens podem ressuscitar, seguindo o exemplo de Josué de Nazaré, digo, Jesus Cristo. Meu pai acrescentou, com um solene pedido, que não me metesse com as freiras do Vaticano. Bastavam Socorrinho e Madalena e meu casal de filhos. Além disso, como homem casado, eu deveria me comportar direito na Corte Suprema. Que deixasse as freiras romanas para os Cardeais e os altos funcionários da Cúria, inclusive o Santo Padre.
Entregou-me, finalmente, a carta secreta endereçada ao Monsenhor Lippi, Curador da Sociedade Secreta de Proteção aos Sacerdotes Ateus (SBV – Sociedade da Boa Verdade) e Chefe da Biblioteca e dos Arquivos do Vaticano. Recomendou-me o maior sigilo porque ninguém podia ler a tal carta. Nem eu mesmo!
Somente Dr. Quim, Vó Dé e meu pai foram até o aeroporto. As meninas e o meu casal de filhos ficaram na Comunidade para não dar na vista. Subi no moderno Constellation da Panair morrendo de medo, embora soubesse que o avião estava abençoado. Como o Vaticano passava por um aperto econômico, o avião fora abençoado apenas para 48 horas de viagem, não mais do isso — aliás, mais do isso, só rezando.
O avião fazia um barulho desgraçado e quase não pude dormir. Um padre gorducho boliviano ficou ao meu lado, rezando e lendo seu Breviário, escrito num latim horroroso com as preces habituais, tipo “Pater nostrum etc e tal”. Jamais consegui saber por que os padres romanos não conseguiam decorar aquele livrinho tão mixuruca. Além disso, o barrigudo sacerdote roncava mais alto do que os motores do avião.
Para disfarçar, encadernei os dois livros que levava, emprestados por Braguinha: “O Amante de Lady Chatterley”, de D.H. Lawrence (proibido na própria Inglaterra), e o “Crime do Padre Amaro”, de nosso Eça de Queiroz, este, aliás, obrigatório para os padres romanos — pra não cometerem o mesmo crime do personagem. De minha parte, água com açúcar. Em vez de um, já cometera pelo menos dois crimes iguais.
De vez em quando, minha leitura e o sono agitado do meu barrigudo companheiro eram interrompidos para as refeições, aliás, ótimas. Melhores do que a farinha de mandioca com siri da Comunidade. Vinhos de primeira e não aquela sangria sem gosto do vinho de missa. A cada refeição, tomava uma garrafa e somente por isso conseguia dormir um pouco.
Insone, cansado e machucado com as pernas inchadas e doloridas, desembarquei em Roma, num Domingo de Semana Santa. Peguei um bonde e fui para o albergue da Universidade Gregoriana, como indicavam as instruções da Carta de minha aceitação para o Doutorado. Um pequeno quarto, com uma cama de lona espartana, duas estantes cheias de livros sagrados, um ventilador de teto sem funcionar nem sei pra quê, pois fazia um frio danado. Uma pia com um kit de higiene com um sabão de sebo, uma escova de dente e uma pasta marrom, embora agradável de cheiro. Num cabide, colocaram duas batinas novas, uma branca para as aulas e outra meio roxa e meio vermelha para as visitas aos lugares sagrados, esta última para distinguir os estudantes da Gregoriana, além de servir também para os rituais da Semana Santa.
Faltavam ainda quinze dias para o começo das aulas e, depois de dormir por dois dias seguidos, fui conhecer um pouco a cidade eterna, antes de me apresentar ao Monsenhor Lippi. Roma, “città aberta”! E extremamente miserável por causa da guerra.
Com a batina Gregoriana, apresentei-me na portaria da Biblioteca. Um padre com cara de chinês me barrou logo na entrada. Segundo ele, o Monsenhor Chefe da Biblioteca estava trabalhando e não podia receber padres do Terceiro Mundo; somente nos feriados e olhe lá. Cuspi nas sandálias do porteiro e, com uma voz bem grossa, roguei-lhe uma praga em aramaico. O safado desapareceu e voltou cheio de mesuras dizendo-me que o Monsenhor Lippi estava me esperando.
─ Aceita um cafezinho, Eminência? ─ Perguntou-me, todo subserviente.
─ Não! Depois, vou beber seu sangue todinho em forma de sangria. ─ Respondi em latim.
Monsenhor Lippi era um homem dos seus sessenta anos, de rosto bondoso e sorridente. Segundo constava, talvez fosse o maior erudito em documentos antigos da Igreja e ensinava Paleografia Cristã, na Gregoriana. Recebeu-me com um abraço caloroso e começou a ler a carta secreta do Monsenhor Braguinha, meu pai. Falava um excelente português, pois fizera estágios em Lisboa e visitara por mais de três vezes o Brasil, passando pela Torre quando fizera questão de conhecer Braguinha, representante local da SBV.
─ Ah!, enfim, fico sabendo qual era a tal missão secreta de Braguinha, feita sob juramento. Foi por isso que ele recusou meus insistentes convites para vir trabalhar aqui no Vaticano. Excelente erudito, na verdade. Seja bem-vindo, Tsé! Filho de Braguinha é meu filho também.
Conversamos a tarde inteira e não deixei de admirar a imponência da Biblioteca, embora visse, de vez em quando, pequenas sombras correndo pelos cantos das estantes abarrotadas de livros e documentos.
─ Desculpe, Monsenhor Lippi! Ainda estou mareado da viagem desgraçada de avião, mas o que são aquelas coisas correndo pelos cantos? Desculpe, novamente, mas nunca vi tantas portas numa simples Biblioteca. ─ Atrevi-me a comentar.
─ Bobagem, Tsé! São ratos! Animaizinhos deliciosos e inocentes, mas que destroem tudo o que é papel. Melhor, em todo o caso, do que os verdadeiros ratos de biblioteca que ficam o tempo todo me perguntando onde está tal ou qual livro. Infelizmente, como você já deve ter visto, a Itália ficou arrasada com a guerra. O Vaticano, muito pior, e não temos grana para comprar veneno de rato nem mesmo um tubo de Detefon. Depois lhe explico o problema das portas. Elas guardam alguns segredos da Igreja romana.
─ E os ratos, Monsenhor? Vai ficar assim?
─ Não! Na próxima semana, vamos dar um jeito. Aliás, você já entra nessa história. Já providenciei tudo na Gregoriana pra você, inclusive o seu Orientador de tese. Trata-se do Cardeal Ferrugghi, Arcebispo de Bari, uma das mais belas cidades italianas. Tenha paciência com ele, Tsé. Trata-se de um dos maiores gozadores da Universidade. Especialista em História dos Anjos, cátedra que ele mesmo fundou. Além disso, fala português porque foi Núncio Apostólico no Rio de Janeiro durante quase cinco anos. Mas, insista no italiano que você ainda fala muito mal.
─ É! Já olhei as disciplinas do Doutorado. Muito estranhas e, depois, queria até comentá-las com o senhor.
─ Depois, depois, Tsé! Voltando ao Cardeal, seu Orientador, ele é o decano de nossa SBV. Por isso mesmo o escolhi pra você. ─ Disse o Monsenhor Lippi.
─ Mas, como? ─ Exclamei. ─ Ele acredita em anjos!
─ Que nada, menino! Ele gosta é de pesquisar as histórias de aparição de anjos, especialmente na Idade Média. Já tem mais de mil histórias catalogadas. Aí, fica gozando os colegas Cardeais, chamando-os de anjo disso e anjo daquilo. Pois bem, o problema dos ratos vai ser resolvido por uma idéia que ele teve. Responda rápido, Tsé: quem é que gosta de comer rato?
─ Fácil! Na Comunidade, são os gatos. ─ Respondi.
─ Pois bem! Ferrugghi solicitou às Irmãs Paulinas que recolhessem todos os gatos de Roma, uns noventa. Colocamos os bichanos num de nossos subterrâneos em jejum rigoroso. Na próxima semana, fechamos a Biblioteca e vamos soltar os gatos famintos que, certamente, comerão todos os ratos sem dó nem piedade. Pelo menos é isso que esperamos. E sem gastar um tostão da Cúria.
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Que pena! Acabo de saber pelo meu radinho de pilha que a Coisa foi campeã. Não dá pra continuar a escrever. Minha tristeza é tamanha que as lágrimas encheram meu tinteiro. Mandei colocar a bandeira tricolor a meio pau, em sinal de luto. Quem sabe se Marcelo Ramos continuar no Santinha eu não volte a me lembrar de minha estadia em Roma?
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
23 de abril de 2009, às 23:35h
Reverendo, lamentávelmente o artilheiro preferiu ir jogar por um time de prefeitura lá em Ipatinga. E ainda levou Thiago Mathias junto.
Gostei muito desse capítulo, mas ainda aguardo um mergulho mais profundo nos fétidos subterrâneos do Vaticano.
Uma perguntinha: O bispo-presidente (ex-bispo não existe, pois não?) do Paraguai sofreu alguma influência da vossa doutrina? Filho, pelo menos, ele fez.
24 de abril de 2009, às 1:21h
Hahaha!!! Reitero e insisto na pergunta de Ducaldo: Lugo é discípulo de Tsé-Tsé?
Soube que o Psiquiatra de Intermares guarda, sorrindo, a foto da índia de Lugo, pois acusa — sem provas, claro: é filha de Tsé-Tsé?!
Tsé-Tsé é um siri paraguaio, diz um manifesto apócrifo, lá de Intermares!
O Vaticano esconde segredos piores do que uma bomba atômica!
24 de abril de 2009, às 15:33h
Eita, que os ‘colegas Cardeais’ adoram a Semana Santa, vão todos nos ’subterrâneos’ esconder os ovos … uns brincam de esconder o pau, outros de ‘pega-rato’ … no fim a ‘irmandade’ morre de inveja, reclamam do mau cheiro de suas aranhas!
* Tchau ‘Marcelo’, mas também não precisava falar mal da Diretoria!
24 de abril de 2009, às 17:58h
Irmãos Ducaldo e Artur: Comunico-lhes que a Assembléia Geral de nossa Comunidade, em nome da “Fundação Crescei e Multiplicai-vos”, acaba de outorgar o prêmio de “Bom Reprodutor” ao irmão Lugo. Zé Malandro, nosso enviado especial ao Paraguai, informa que não se trata de dois ou três, porém de mais de uma dúzia de rebentos. Telogicamente correto: apenas obedeceu ao mandamento de Jeová, o Senhor dos Exércitos Cristãos (que jamais falou de castidade e de celibato), dado a Adão e Eva, isto é, “crescei e multiplicai-vos”. Politicamente também: foi eleito pelas suas idéias progressistas e, não, porque era Bispo. Prometeu expropriar Itaipu, obra das ditaduras, de lá e de cá, metade do Pantanal e dominar todo o Rio da Prata que foi tomado pela malfadada Guerra do Paraguai, movida pelos imperialistas brasileiros, argeninos e uruguaios. Pessoalmente correto: segundo Marocas, com toda aquela estampa, não poderia negar os dons que a Natureza lhe deu: trata-se de um mamífero humano macho de excelente qualidade. Além disso, não é pedófilo: todas as beatas que cairam na sua lábia deram porque quiseram e eram maiores de 18 anos. Falta de patriotismo delas, pois com os salários de Bispo -se não for ex-comungado!- e o de Presidente não poderá pagar pensão pra tanta filharada. Esperemos que ele não confunda lugo com lego. O lago de Itaipu, tudo bem. Mas logo, vamos gritar, pois Nosso Líder vai entregá-lo de mão beijada. De minha parte, nem ligo! Temos a Chesf de Getúlio! Se for ex-comungado pela hipócrita Igreja romana, que não o faz para a multidão de padres pedófilos, ofereceremos asilo político. Nossa safra de siri ainda não foi atingida pela tal marolinha. Minha bênção, montada num cavalo paraguaio.
24 de abril de 2009, às 18:09h
Irmão André Tricolor Virtual: Não tem problema com a saída de Marcelo Ramos. Ronaldo Fenômeno, quando ficar magrinho, já prometeu defender o tricolor do Arruda. Ronaldinho Gaúcho, idem. Enquanto eles não chegam, formaremos o maior ataque do mundo com Neca, Guaberinha, Tará, Amauri e Siduca. Além disso, já contamos com Palito para a defesa. Que se cuidem a Coisa e a Barbie. O problema é que não sei se minha memória voltará com tantas deserções. Para contar alguma coisa sobre os fétidos subterrâneos do Vaticano (expressão do irmão Ducaldo!), como, por exemplo, o infame julgamento do Papa Formoso I, meses depois do coitado ter morrido. Ainda assim, com minha bênção mais do nunca tricolor.
24 de abril de 2009, às 19:49h
Em tempo – Irmão Artur: Não tenho discípulos. Apenas lidero uma Comunidade por eleição direta e secreta. Engraçado, né? Só porque um Bispo romano assume que é contra a castidade e o celibato, com frutos evidentes e maduros, logo surgem boatos sobre minha filosofia teológica. Um manifesto apócrifo que surge numa comunidade apócrifa? Intermares não existe. Não vejo nenhuma credibilidade no PsInt. Trata-se de um torturador de sacerdotes ateus, honestos e combativos contra a hipocrisia. Não existe tal índia, segundo noso enviado especial ao Paraguai. A menina, que reivindica a paternidade de Lugo para seu filho, somente porque ele se tornou Presidente dos bravos paraguaios, é loura e de olhos azuis. Iguais a Nosso Líder. Além disso, é bom lembrar que o Paraguai lidera as eliminatórias da Copa e seu legítimo Presidente tem todos os direitos de transar como bem entender e com quem quiser dar pra ele. Pelo menos até as finais da Eliminatórias, hehehehehe…Minha praga para o PsInt.
27 de abril de 2009, às 9:06h
Estranho alguém falar em artilheiro depois de ler mais um texto dessas falsas mas vigorosas memórias.
Estranho ler sobre futebol nesse site. Imaginava a maioria dos escribas e leitores de luto neste final de abril.
Afinal…
O Leão de Recife, santa (o santa É um trocadilho…) monotonia, está firme e forte. O Cruzeiro então, despachou de vez o outro Leão.
Enquanto aqui no sul maravilha reina soberano o senhor dos gramados, “el gorducho”, primeiro e único.
Impecável. Sublime. Capaz de um gol daqueles que se faz em treino pra brincar com os companheiros goleiros.
Que década! Começou com um título mundial, inveredou pelos caminhos de Carlitos Tevez e o quarto título brasileiro, desgovernou-se rumo à segundona de onde voltou (O Coringão voltou!) para trazer de volta ao Brasil seu ídolo pródigo, Ronaldo, aquele.
E aque vem tem centenário.
Ual….
27 de abril de 2009, às 10:28h
ano que vem tem centenário.
Sorry, saiu errado…
27 de abril de 2009, às 13:14h
Caro Gil, a goleada foi uma surpresa para todos, embora a derrota fosse previsível. O meio de campo do timeco do outro lado da Lagoa é muito, mas muito superior mesmo. O nosso meio só tem corredor, com pouca técnica. Isso faz diferença numa decisão em dois jogos.
Aliás, boa parte da goleada pode ser debitada na conta do “outro Leão”, que ontem fez uma m…. daquelas.
E o gorducho mandou bem mesmo, dois belos gols.