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Dia de índio

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vejabarbosa

Apareceu isso na Veja. Claro que a flor do fáscio defende incondicionalmente Gilmar Dantas. E, evidentemente, nesse bate-boca, ficaria contra Joaquim Barbosa. A Veja já fez rasgados elogios ao ministro, já que o mesmo, não custa lembrar, é o responsável pelo julgamento do escândalo do Mensalão. E continua elogiando, chamando-o de corajoso, elegante, etc e tal. Mas o curioso é analisar o título da notícia. Qual seria sua interpretação?

Bem, o negro Joaquim teve um dia de índio. Juntou e incarnou, no mesmo dia, duas condições que, no Brasil, são vítimas de racismo. Foi índio por quê? Pelo texto, deduzo que Barbosa foi índio porque fez uma descompostura e teve um destempero. A Veja parece conectar “índio” a descompostura e a destempero. Índio é assim? Os escravistas diziam que os índios eram preguiçosos e avessos ao trabalho; portanto, incompatíveis com a escravidão. Mas os índios eram também chamados de “selvagens”. A noção de selvagem possui diversas características negativas: inculto, sáfaro, agreste, bravo, bravio, feroz, sem civilização, primitivo, bárbaro, grosseiro, rude, bruto, arisco, intratável, inconversável… Um selvagem é destemperado?  No sentido usual, provavelmente.  Ter um dia de índio parece significar um dia de destempero, logo, no significado atribuído a índio, um dia de selvagem. E a descompostura pode ser um efeito da selvajeria, já que esta descompõe a ordem e os bons costumes da civilização. E, convenhamos, o STF é um ambiente civilizado.

Não há como inferir se a Veja produziu esse título com absoluta consciência de suas implicações. Talvez, tenha sido um ato falho, isto é, um gesto espontâneo de um editor que não tem muita consciência de seus preconceitos. Como tê-la, aliás, sendo um editor da Veja? Seria assim um editor que, num gesto automático, reproduziu o jornalismo de esgoto que existe na maior revista brasileira? A vileza, na Veja, brota espontaneamente como cogumelos em dias de chuva?

Certo, é  fácil explicar tudo apelando ao inconsciente ou à ideologia dos editores. Mas é uma explicação mais sofisticada do que uma conspirativa. Só que, confesso, gosto de conspiração. É fácil, pois economiza esforço e, do ponto de vista retórico, é eficiente. Assim, posso brincar um pouco com o nível de consciência dos editores da Veja. Posso, por exemplo, imaginar que tiveram consciência das implicações da “ironia”. Nesse sentido, imagino uma situação que, no fundo, é um elogio: os editores são conscientes e não inconscientes do seu jornalismo; sabem o que fazem, com vontade e discernimento. Posso pensar que, talvez, fosse difícil dizer que Barbosa cometeu uma descompostura porque era um negro, logo, uma pessoa que guarda um ressentimento atroz contra a sociedade brasileira e, principalmente, seus legítimos representantes, como Gilmar Dantas, por exemplo —  apesar da elegância, da cultura e da inteligência de Barbosa. A meta, no fundo, era dizer uma coisa, dizendo outra.

(o argumento do ressentimento é banal — aqui. Seria um elemento, no nosso país, do sistema amplo de discriminação social. É um argumento moral que desmoraliza qualquer luta ou reivindicação de minorias ou de maiorias subalternas no Brasil:  _faz isso porque é ressentido! Muitas vezes, de fato, há muito ressentimento nas ideologias dominadas — hehe)

_Muito ardiloso, sem dúvida! — digo isso, esfregando as mãos e dando risotas de escárnio.

Ora, como o objetivo era produzir algum dito preconceituoso — aliás, como é usual na Veja –, seria melhor, assim,  jogar o preconceito contra uma outra minoria discriminada: os índios. Ataca-se apenas indiretamente o ministro, dizendo que o mesmo teve um dia de índio, já que foi destemperado.

Claro, toda essa argumentação cabe muito bem numa interpretação conspirativa. Na verdade, acredito que foi tudo… sem querer, embora o “sem querer” esconda um pano de fundo de preconceitos. Mas ninguém tem culpa das nojeiras dos  seus bas-fonds, isto é, do eterno retorno dos recalques de seu inconsciente. Foi culpa do “habitus”, como diria um sociólogo….

Sementeiras

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