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Derradeiro momento

6 comentários

Tenho  uma orientanda de doutorado que estuda as práticas e as representações que envolvem pacientes terminais de câncer. Tais pessoas são arroladas na tétrica rubrica de “Fora de Possibilidades Terapêuticas”, chamadas no jargão médico de “efipetes”. É um trabalho difícil e um desafio para o pesquisador, tanto quanto para o orientador. Mexe com dor e sofrimento, implica muita projeção e contra-transferência, sendo impossível evitar um tipo qualquer de envolvimento.

Lembro-me de quando fiz internato em oncologia. Em média, a cada 15 dias, morria um@ paciente sob meus cuidados. Muit@s chegavam bem e dispostos, com uma grande esperança, e definhavam rapidamente na minha frente. O câncer chupa a pessoa. A carne ia desaparecendo, sobrando um significado na memória, na minha lembrança. No início, não sabia o que fazer; depois, descobri que a companhia e a solidariedade eram a melhor conduta, tanto para @ paciente, quanto para… mim. Sim, pois sabia que estava apavorado com a morte. Tinha medo e vergonha diante d@s pacientes. Eu era a própria personificação da evasiva.

O contato afetivo com @ paciente diminuiu e, depois, eliminou o meu medo. A minha vergonha tornou-se respeito e encontrei dignidade na minha posição.  Fiz algumas amizades de 15-20 dias. Amizades estranhas, já que a intimidade era uma questão de rapidez: havia a necessidade, quando ocorria a empatia, de contarmos a história de nossa vida da maneira mais breve possivel. Pois o tempo da amizade estava absolutamente definido. A intensidade da narrativa era imensa; a transparência, urgente. Entretanto, não caracterizo tal intimidade como um outro modo da confissão; não, não parecia uma confissão, e sim uma pressa de se conhecer. O curioso é que, algumas vezes, era eu que quem mais falava e contava a história de minha vida. Eu me colocava. Não sei, até que ponto, o fato de saber que aquela pessoa morreria dava-me a segurança necessária para narrar minhas verdades. Sabíamos que a morte levaria embora nossos segredos — isso nos dava a força para contar tudo? Não sei. Só sei que aquela intimidade apaziguava meu medo e a dor da chegada da morte — creio que, também,  fazia algum bem à pessoa.  Mesmo assim, depois de tudo, não fiquei com a ilusão de que, nesse mundo, podemos nos familiarizar ou, melhor, reconciliar-nos com a morte, e muito menos “lhe arrancar, pelas lágrimas, sua finalidade”.

“Dans l´immortel ennui du calme sidéral/ Le regret d´un soleil dont nous pleuront la perte…”

Foram amizades que o adeus ratificou o afeto. Talvez, Kierkegaard tenha alguma razão, afinal: no fim, o que importa mesmo é termos a certeza de que amamos e fomos amado.

Depois de tanto tempo, confesso que jamais, em tempo algum, contei a alguém os segredos das minhas amigas e dos meus amigos “efitepês”. Não contei a ninguém. Foi um pacto que considerei como inevitável. Na vida, nossas palavras deram sentido aos seus últimos momentos; na morte, o silêncio tornou-se sagrado e para sempre.

Lendo o esboço da tese de minha orientanda, encontrei um depoimento de uma enfermeira. Sei, enfim, que estava certo.

“Sou estudante de enfermagem e vou morrer. Dirijo estas palavras a vocês que virão a ser enfermeiras, na esperança de que, partilhando o que agora sinto, serão mais capazes de ajudar aos que terão a minha sorte. A enfermagem precisa evoluir: espero que isso aconteça bem rápido. Ensinaram-nos a não ser muito entusiastas e a não esquecer a rotina. Obedecemos e nos encontramos hoje, evaporadas as nossas ilusões, numa espécie de vazio feito de vulnerabilidade e medo. O moribundo não é ainda considerado uma pessoa e não pode, portanto, ser tratado como tal. Ele é o símbolo do que sabemos ser o temor de nosso próprio destino. É preciso muito tempo para descobrir os próprios sentimentos antes de poder ajudar alguém a descobrir os dele. Para mim, o medo está presente e estou a caminho da morte. Vocês entram e saem do meu quarto, trazem-me remédios e tomam a minha pressão. Será por ser Enfermeira, ou apenas um ente humano, que sinto o medo de vocês? Esse medo me invade. Por que estão assustadas? Sou eu quem vai morrer. Sei que se sentem embaraçadas, não sabem o que dizer o que fazer. Mas acreditem que se participassem da minha morte não poderiam enganar-se. Admitam por um instante que ela importa a vocês (é o que procuramos nós, os moribundos): fiquem, não se vão, esperem. A única coisa que quero é ver alguém ali para me segurar a mão quando sentir necessidade. Tenho medo.

Para vocês a morte faz parte da rotina. Para mim ela é nova e única. Para me consolar falam de minha mocidade, mas estou morrendo. Tenho muita coisa a dizer. Não perderiam muito tempo conversando comigo. Ah, se pudéssemos ser francos e confessar nossas angústias, seja qual for o lado em que nos encontremos, se pudéssemos nos tocar… Se quisessem me escutar e partilhar o que me resta de vida, se chorassem comigo perderiam a integridade profissional? As relações de pessoa a pessoa não podem existir num hospital? Seria tão fácil morrer… No hospital… Cercado de amigos. (American Journal of Nursing, Vol CXX, nº12, 1970)

DimasLins
  1. as palavras me emocionaram…

  2. Considerando a aspereza do tema, um dos textos mais tocantes que li nos últimos tempos.

    Gostei muito.

  3. André Tricolor Virtual

    Pura Sensibilidade!

    O sofrimento maior é realmente de quem tá doente, e essa afirmação pode ser falsa, quando vemos que nossa vida, tem tanto valor quanto de quem está deitado numa cama.

    Meu pai sofre dessa doença, não gosto de dizer o nome, e quando ele veio em nossa casa para anunciar que estava sofrendo dessa enfermidade, foi muito triste, pois, a impressão era que ele iria morrer no outro dia !!!! E se falou no que ‘ele’ iria deixar pros filhos, era um abatimento terrível em seu semblante, chorava por dentro, e não era mais uma criança … e meu pai se operou para tirar o tumor de 4 kg no estômago, e ele resistiu, mesmo com a idade avançada … Sabia de sua vontade de viver … Hoje meu pai ainda trata a doença que insiste em se desenvolver em seu organismo!

    Força e Paz para meu PAI, força a todos que lutam pelas doenças da vida !

  4. Excelente, belos textos, os dois.

  5. caríssimo,
    escrevo-lhe de Lisboa, Portugal, onde um seu ex-aluno (de quem não sei o nome) me deu a informação desta sua morada virtual. Escuso-me a comentar o texto, escasseia-me a competência, mais que as palavras. Tiro o chapéu, tão somente. E adiciono aos favoritos, agradecendo a Deus o este tipo de acasos que nos faz crescer e ser gente. Grande.
    Cumprimentos

    Rui Vasco Neto

  6. Valeu Rui pela força — e vinda do além-mar! Aproveitei e visitei teu blog. Recomendo a todos. Mande um abraço a esse meu ex-aluno, provavelmente perdido Trás-os-Montes. Abração.

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