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Derradeiro momento
Tenho uma orientanda de doutorado que estuda as práticas e as representações que envolvem pacientes terminais de câncer. Tais pessoas são arroladas na tétrica rubrica de “Fora de Possibilidades Terapêuticas”, chamadas no jargão médico de “efipetes”. É um trabalho difícil e um desafio para o pesquisador, tanto quanto para o orientador. Mexe com dor e sofrimento, implica muita projeção e contra-transferência, sendo impossível evitar um tipo qualquer de envolvimento.
Lembro-me de quando fiz internato em oncologia. Em média, a cada 15 dias, morria um@ paciente sob meus cuidados. Muit@s chegavam bem e dispostos, com uma grande esperança, e definhavam rapidamente na minha frente. O câncer chupa a pessoa. A carne ia desaparecendo, sobrando um significado na memória, na minha lembrança. No início, não sabia o que fazer; depois, descobri que a companhia e a solidariedade eram a melhor conduta, tanto para @ paciente, quanto para… mim. Sim, pois sabia que estava apavorado com a morte. Tinha medo e vergonha diante d@s pacientes. Eu era a própria personificação da evasiva.
O contato afetivo com @ paciente diminuiu e, depois, eliminou o meu medo. A minha vergonha tornou-se respeito e encontrei dignidade na minha posição. Fiz algumas amizades de 15-20 dias. Amizades estranhas, já que a intimidade era uma questão de rapidez: havia a necessidade, quando ocorria a empatia, de contarmos a história de nossa vida da maneira mais breve possivel. Pois o tempo da amizade estava absolutamente definido. A intensidade da narrativa era imensa; a transparência, urgente. Entretanto, não caracterizo tal intimidade como um outro modo da confissão; não, não parecia uma confissão, e sim uma pressa de se conhecer. O curioso é que, algumas vezes, era eu que quem mais falava e contava a história de minha vida. Eu me colocava. Não sei, até que ponto, o fato de saber que aquela pessoa morreria dava-me a segurança necessária para narrar minhas verdades. Sabíamos que a morte levaria embora nossos segredos — isso nos dava a força para contar tudo? Não sei. Só sei que aquela intimidade apaziguava meu medo e a dor da chegada da morte — creio que, também, fazia algum bem à pessoa. Mesmo assim, depois de tudo, não fiquei com a ilusão de que, nesse mundo, podemos nos familiarizar ou, melhor, reconciliar-nos com a morte, e muito menos “lhe arrancar, pelas lágrimas, sua finalidade”.
“Dans l´immortel ennui du calme sidéral/ Le regret d´un soleil dont nous pleuront la perte…”
Foram amizades que o adeus ratificou o afeto. Talvez, Kierkegaard tenha alguma razão, afinal: no fim, o que importa mesmo é termos a certeza de que amamos e fomos amado.
Depois de tanto tempo, confesso que jamais, em tempo algum, contei a alguém os segredos das minhas amigas e dos meus amigos “efitepês”. Não contei a ninguém. Foi um pacto que considerei como inevitável. Na vida, nossas palavras deram sentido aos seus últimos momentos; na morte, o silêncio tornou-se sagrado e para sempre.
Lendo o esboço da tese de minha orientanda, encontrei um depoimento de uma enfermeira. Sei, enfim, que estava certo.
“Sou estudante de enfermagem e vou morrer. Dirijo estas palavras a vocês que virão a ser enfermeiras, na esperança de que, partilhando o que agora sinto, serão mais capazes de ajudar aos que terão a minha sorte. A enfermagem precisa evoluir: espero que isso aconteça bem rápido. Ensinaram-nos a não ser muito entusiastas e a não esquecer a rotina. Obedecemos e nos encontramos hoje, evaporadas as nossas ilusões, numa espécie de vazio feito de vulnerabilidade e medo. O moribundo não é ainda considerado uma pessoa e não pode, portanto, ser tratado como tal. Ele é o símbolo do que sabemos ser o temor de nosso próprio destino. É preciso muito tempo para descobrir os próprios sentimentos antes de poder ajudar alguém a descobrir os dele. Para mim, o medo está presente e estou a caminho da morte. Vocês entram e saem do meu quarto, trazem-me remédios e tomam a minha pressão. Será por ser Enfermeira, ou apenas um ente humano, que sinto o medo de vocês? Esse medo me invade. Por que estão assustadas? Sou eu quem vai morrer. Sei que se sentem embaraçadas, não sabem o que dizer o que fazer. Mas acreditem que se participassem da minha morte não poderiam enganar-se. Admitam por um instante que ela importa a vocês (é o que procuramos nós, os moribundos): fiquem, não se vão, esperem. A única coisa que quero é ver alguém ali para me segurar a mão quando sentir necessidade. Tenho medo.
Para vocês a morte faz parte da rotina. Para mim ela é nova e única. Para me consolar falam de minha mocidade, mas estou morrendo. Tenho muita coisa a dizer. Não perderiam muito tempo conversando comigo. Ah, se pudéssemos ser francos e confessar nossas angústias, seja qual for o lado em que nos encontremos, se pudéssemos nos tocar… Se quisessem me escutar e partilhar o que me resta de vida, se chorassem comigo perderiam a integridade profissional? As relações de pessoa a pessoa não podem existir num hospital? Seria tão fácil morrer… No hospital… Cercado de amigos. (American Journal of Nursing, Vol CXX, nº12, 1970)

















as palavras me emocionaram…
Considerando a aspereza do tema, um dos textos mais tocantes que li nos últimos tempos.
Gostei muito.
Pura Sensibilidade!
O sofrimento maior é realmente de quem tá doente, e essa afirmação pode ser falsa, quando vemos que nossa vida, tem tanto valor quanto de quem está deitado numa cama.
Meu pai sofre dessa doença, não gosto de dizer o nome, e quando ele veio em nossa casa para anunciar que estava sofrendo dessa enfermidade, foi muito triste, pois, a impressão era que ele iria morrer no outro dia !!!! E se falou no que ‘ele’ iria deixar pros filhos, era um abatimento terrível em seu semblante, chorava por dentro, e não era mais uma criança … e meu pai se operou para tirar o tumor de 4 kg no estômago, e ele resistiu, mesmo com a idade avançada … Sabia de sua vontade de viver … Hoje meu pai ainda trata a doença que insiste em se desenvolver em seu organismo!
Força e Paz para meu PAI, força a todos que lutam pelas doenças da vida !
Excelente, belos textos, os dois.
caríssimo,
escrevo-lhe de Lisboa, Portugal, onde um seu ex-aluno (de quem não sei o nome) me deu a informação desta sua morada virtual. Escuso-me a comentar o texto, escasseia-me a competência, mais que as palavras. Tiro o chapéu, tão somente. E adiciono aos favoritos, agradecendo a Deus o este tipo de acasos que nos faz crescer e ser gente. Grande.
Cumprimentos
Rui Vasco Neto
Valeu Rui pela força — e vinda do além-mar! Aproveitei e visitei teu blog. Recomendo a todos. Mande um abraço a esse meu ex-aluno, provavelmente perdido Trás-os-Montes. Abração.