Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XV

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.


sapo
(Bufonidia sapientis)

15º CAPÍTULO

Emocionalmente recomposto da história de minha filiação natural, preparava-me para viajar a Roma, quando o destino, novamente, bateu à porta, adiando a viagem. Não que não tenha viajado, mas foi para outro lugar.

Ocorre que, desde pequeno, observava com atenção o desempenho dos sapos que vagavam pela Comunidade, especialmente do por do sol até a madrugada. Como se sabe, eles sempre ficam parados, sentados e comendo tudo quanto é inseto que passa ou voa pela frente, estirando a língua pegajosa para a captura. Intrigado por tal comportamento, solicitei ao Dr. Quim que fizesse uma investigação científica no seu laboratório, pois tal atitude anurosa, segundo me parecia, poderia ser útil, quem sabe, à humanidade. A conclusão do Dr. Quim foi muito positiva, o que nos levou, anos depois, a fundar nossa ONG de Proteção aos Sapos (SPS). Nosso Curandeiro-Mor constatou que os sapos ficam parados para economizar energia, o que deveria ser imitado pelos seres humanos estressados e preguiçosos, como o Psiquiatra de Intermares, segundo me consta.

Além disso, dissecando os olhos de um sapo, constatou-se que ele somente podia ver coisas em movimento e, por isso mesmo, do ponto de vista da Evolução, era melhor ficar sentado esperando que alguma coisa passasse na sua frente. Finalmente, Dr Quim verificou que os sapos não distinguem as cores e somente comem insetos cinzentos ou pretos, como muriçocas, maruins, mutucas, etc e tal. E, diga-se de passagem, alguns de nossos políticos, esses seres cinzentos e soturnos, se eles se atrevessem a visitar nossa Comunidade.

Ora, nosso grande problema, na época, eram justamente uns mosquitos meio amarelados, um responsável pela Dengue e outro pela Febre Amarela, das quais sofríamos bastante, com alguns óbitos por ano. Reuni-me com Dr. Quim e Vó Dé e expus minhas idéias para usar as habilidades dos sapos em nosso proveito. Pegaríamos as fêmeas dos mosquitos transmissores daquelas doenças, pintaríamos todas elas de cinzento ou de preto, treinaríamos sapos em gaiolas e veríamos o que sairia da experiência.

Deu um trabalho danado! Nem tanto para atrair os mosquitos, como veremos, mas para pintá-los com as cores exigidas pela experiência. Dr. Quim pediu emprestado todos os lápis da criançada, prometendo devolvê-los depois. Pacientemente, com a ajuda de Quimzinho, raspou a grafite, completando cerca de cinco quilos de pó. Depois, numa panela de barro, esquentou o pó a uns cem graus centígrados provocando a emissão de um gás cinza-preto que ele chamou de grafona (em homenagem à nossa cria da casa que anda fazendo gols na Alemanha) e o canalizou para uma barrica de vinho absolutamente hermética para que nenhuma impureza se misturasse ao gás.

Porém, ainda restava um problema. Como reunir todos os mosquitos num mesmo recinto? Foi quando Quinzinho lembrou-se do seu amigo Zé Malandro, especialista em emitir gás metano, que atrai, como todos sabem, todo o tipo de mosquito pelo saboroso cheiro que lhe é próprio. Obrigamos o coitado a ficar dois dias e duas noites trancado numa sala escura, bebendo leite e somente leite de vaca. Quando sentimos ─ pelo perfume, é claro ─ que a sala estava empestada, canalizamos os mosquitos para o local e tiramos o pobre Zé do seu sofrimento.

Antes, o nosso Carpinteiro havia fabricado uma escada de uns dez metros de altura e, em cada degrau, colocamos dois a três sapos. E mais uns vinte espalhados pelos quatro cantos da sala. Como se sabe, os mosquitos não conseguem voar acima daquele patamar. Mas, pelo cálculo das probabilidades, realizado pelo Dr, Quim, ainda faltavam dois sapos e meio, o que equivalia a seis ou sete pererecas.

E agora? Lembrei-me, então, que o Monsenhor Braguinha colecionava pererecas que ele colocava em baixo das saias das beatas mais piedosas de sua paróquia, ficando rindo o tempo todo no confessionário com o alvoroço provocado.

Não queria me emprestar nenhuma, mas, de tanto pedir, cedeu apenas cinco, já velhinhas e prestes a viajar para o além.

Pouco a pouco, por um furo do recipiente de gás, enchemos a sala de grafona e, no fim, todos os mosquitos estavam pintados de cinza-preto. Os sapos festejaram com longas cantorias, mas precisaram de um rigoroso regime de um mês para retornar ao seu peso ideal.

O sucesso foi tão grande que exterminamos em apenas um ano a Dengue e a Febre Amarela da Comunidade. O Instituto Butantã forneceu-nos um Diploma e iniciou uma campanha nacional de treinamento dos sapos do Brasil. Infelizmente, num período de intensa urbanização, ninguém queria criar sapos nos apartamentos nem se dar ao trabalho de pintar os mosquitos.

No entanto, nossa experiência nos valeu um prêmio nacional de 600 mil Cruzeiros, oferecido pela piedosa Sociedade do Bom Ladrão, sediada em São Paulo e ligada à Arquidiocese local. E foi para aquela cidade que eu tive de me deslocar como representante da Comunidade e como autor da idéia, aqui pra nós, mais do que genial.

Depois da festa, vestido formalmente de batina e com um mantô preto por causa do frio (emprestado, aliás, pelo Monsenhor), saí pela rua à procura de um táxi e com o dinheiro, em espécie, aninhado no bolso direito de minha batina. A noite estava muito escura e não havia nenhuma luz acesa nos postes. Saí vagueando, morto de medo de um assalto, quando, de repente, avistei no fim da rua um boteco iluminado, com alguns elementos tomando cerveja na calçada.

Graças a Deus! Exclamei. Perguntei se havia algum ponto de táxi por perto e um rapaz apontou para um tal de Ezequias que tinha um carro estacionado na esquina. Saímos do bar e o dono do táxi tirou um chicote da cintura e começou a chicotear a noite escura. O estridente ruído, parecido com tiros de pistola, me assustava e perguntei-lhe pra que tudo aquilo.

─ Ora, Reverendo! É pra assustar os bandidos. Tem muito por aqui. Piores que o tal do Dantas! ─ Respondeu.

De repente, começou a correr e me disse pra fazer o mesmo, pois uma gang estava por perto. Segui o barulho do chicote e Ezequias mandou que eu mergulhasse no carro pela porta de trás. Foi fácil porque não havia nenhuma porta para atrapalhar. Em compensação, não havia tampouco banco traseiro e me esborrachei no chão do veículo. O chofer saiu em desabalada carreira e perguntou para onde eu queria ir.

─ Pra Bel-O-Kan! ─ Respondi.

─ E onde fica esse troço, Reverendo? Sou do Pantanal e ainda não conheço bem a cidade. A corrida vai custar 600 paus, não importa se vamos pra longe ou pra perto. Preço único.

─ Pelo norte da cidade. ─ Respondi.

─ Engraçado, Reverendo! Moro por lá e não conheço nenhum bairro com esse nome.

─ Bel-O-Kan não fica nesta merda de cidade, Ezequias. Fica no Nordeste. ─ Respondi.

─ Tudo bem! Mas, aí, o preço é maior, 6 mil paus. É pegar ou largar.

E saímos na maior correria por São Paulo. O táxi não tinha faróis e Ezequias me confessou que sabia tudo de cor. Era só dobrar à direita e chegaríamos direitinho ao Nordeste. A 150 Km por hora, o táxi demorou três dias para chegar à Comunidade. Não parou para abastecer, pra descansar, comer, dormir ou fazer aquelas necessidades de que todo mamífero humano gosta. Fiz um travesseiro com o mantô do Monsenhor e me agarrei no sono.

De repente, o táxi deu uma violenta freada bem defronte da porteira da Comunidade.

─ Cheguemo! ─ Disse o taxista.

Saí do carro todo arrebentado, sangrando pelo nariz e morto de fome. Apalpei o bolso e, felizmente, o dinheiro continuava lá. Mandei Zé Malandro pagar o táxi. Dez minutos depois, voltou verde e amarelado, meio aterrorizado.

─ Que foi? Que foi? ─ Perguntei.

─ Não tem taxista nenhum. O carro tem placa daqui mesmo, é vermelho e preto e tá cheirando a enxofre. ─ Respondeu.

Pedi o dinheiro de volta, mas ele só me deu a metade. A outra seria pelos seus serviços. Estava tão cansado que nem liguei. Fomos ver o carro. Perto da porteira, vimos o táxi explodir numa imensa bola de fogo deixando o ar empestado com cheiro de enxofre e de metano.

─ É o Coisa Ruim! É o Coisa Ruim! ─ Exclamava amedrontado Zé Malandro.

─ Que nada, Zé! O carro deve pertencer à Coisa. Não viu as cores? Trata-se de uma armação daqueles infelizes. Nada mais!

Entreguei o dinheiro do prêmio ao Dr. Quim. Voltei pra minha palafita e, de consciência tranqüila, dormi o sono dos justos.

(…)

Mas, hoje, não posso nem devo continuar com estas Memórias. Triste demais com tudo isso que acontece em nosso futebol. Imaginem que compraram um juizinho da Fifa pra nos roubar uma vitória certa. Dois gols de impedimento, dois pênaltis claros não marcados contra a Coisa, um duvidoso (in dúbio pro Santinha!), duas expulsões injustas (o último expulso apenas trupicou no braço daquele jogador que tem nome de fábrica de aspirina) e nenhum cartão para os brucutus da Coisa. Campeonato feito para um time só, essa é que é a verdade. Ainda mais, inverteram a ordem das letras do alfabeto. Não se incomodem! Seremos campeões da série A invertida.

Depois de serem jogados da falésia, por indução de demônios no ouvido celestial, os porcos estão se vingando da Coisa. Os porcos não são demônios e sim redentores, além de servirem para transplantes, é claro.

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV

3 Comentários para “Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XV”

  1. André Tricolor Virtual:

    Pô Reverendo,

    Esse sapo parece com ‘edinho’ !!!

  2. ducaldo:

    Sensacional!
    É para rir até o “mainardi” fazer bico.

  3. Fique por dentro Cinzento-escura » Blog Archive » Blog dos Perrusi » Blog Archive » Memórias Falsas do Reverendo Tsé …:

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