Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XIV

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(Nobis peccatoribus?)

14º CAPÍTULO: A SANTÍSSIMA REVELAÇÃO

E como foi mesmo que tudo isso começou?

Durante a conversa com o Monsenhor Braguinha, sentia como se o espaço-tempo estivesse se curvando sobre mim, efeito não assinalado pelo criador da Relatividade. Era uma massa enorme de passados e de eventos que me atraía, esmagando-me com seu peso. E quanto mais o relato se prolongava, pior me sentia. Atropelado pelos acontecimentos, em órbita existencial e sem nenhuma referência de toda uma vida, embora jovem e não tão desprezível.

Ainda hoje, quando vejo minha pobre existência cada vez mais semelhante ao pôr do sol na última curva do rio, não sei e, talvez jamais venha a saber, se chorava de dor ou de alegria.

─ Foi numa bela tarde de primavera! ─ Começou Braguinha a falar. ─ Pela manhã, caíra uma chuvinha fina. Logo depois, uma brisa leve anunciou, enfim, a chegada do sol. Acabara de completar meus quarenta anos, quinze dos quais dedicados ao sacerdócio e ao ensino eclesiástico. Havia perdido a Fé e já me filiara a SBV. As crianças e os adolescentes recebiam minha atenção especial, pois, já naquela época, acreditava que o pior mal que lhes poderia acontecer derivava de uma educação religiosa. Contrariando o Código Canônico, ensinava meus alunos a ser gente com honestidade e destemor, amantes do conhecimento, da caridade e da verdade. Corajosos frente à mentira!

─ Não sei, Monsenhor, aonde o senhor quer chegar com essa suave retórica pra cima de mim. ─ Interrompi Braguinha.

─ Tsé! Peço-lhe, pelo menos agora, que me ouça em silêncio. Depois, você pode me dizer o que bem quiser e entender. ─ E continuou:

─ Ontem, tive uma reunião com Vó Dé e o Dr. Quim, como já lhe falei. Achamos que você deveria saber toda a verdade sobre o seu nascimento, antes de viajar para Roma. Pois bem! É o que me proponho a contar e não sei se para o bem ou para o mal.

─ Desculpe interrompê-lo mais uma vez, Monsenhor. Mas, pouco me importo como nasci e quem foram meus pais. Pra mim, tenho dois pais e uma mãe: o senhor, Dr. Quim e Vó Dé. Isso me basta e me deixa feliz. Não vejo quem teria tanta sorte em ser amado por vocês três nem ter sido educado por uma mente brilhante de livre pensador como o senhor mesmo.

─ Não, Tsé! A verdade, a verdade! Ela nos redime do sofrimento e alimenta nossa alegria. Deixe-me continuar, por favor.

Calei-me, pois notara a seriedade carregada de emoção que tomara conta do Monsenhor; duas ou três lágrimas escorregaram pelo seu rosto, já enrugado pelos anos.

─ Pois bem! Foi numa radiosa tarde de primavera que descobri a verdadeira emoção de amar e de ser amado. Depois das aulas de Ética Cristã, no Convento das Freiras, fui passear no vasto quintal cheio de belas fruteiras, serpenteadas pelo riacho que por ali corre. Você sabe bem disso, Tsé! De uma pequena elevação, avistei uma mulher, vestida modestamente com um robe cinza e com os cabelos soltos. Sentada num pequeno banco de pedra, certamente meditava abraçando no peito um crucifixo. Ainda longe, estranhei sua presença. Todas as freiras e noviças usavam hábitos rigorosos e aquela mulher, ainda jovem, não se parecia com nenhuma das empregadas laicas do Convento. Olhando fixamente para as águas que corriam tranqüilas, ela não notou minha presença. Aproximei-me. Era a mulher mais linda que já vira. Seu rosto resplandecia de glória, seus olhos mansos, azuis e doces permaneciam abertos. Apesar de minha incredulidade, pensei por momentos de que se tratasse de algum anjo que nos visitava. Não! Não, Tsé! Tratava-se de Izabel, a Madre Superiora do Convento. E como estava diferente em trajes quase civis! Não resisti, mesmo correndo o risco de interromper a sagrada meditação de uma freira tão dedicada ao sacerdócio.

─ Madre Izabel! ─ Exclamei. Ela tomou um susto, mas logo se recompôs.

─ Monsenhor! Por aqui? Costumo, às vezes, contemplar as obras do Senhor. Os pequenos pássaros, os frutos, a grama, os diminutos insetos. Tudo me lembra o sítio que possuo no Agreste, como o senhor sabe. Principalmente, as águas que passam sem parar, indiferentes ao nosso olhar. Enfim, o Senhor é o Bom Pastor que nos guia por águas tranqüilas, como dizia o salmista. Mas, sente-se, Monsenhor. Aprecie comigo as obras de Deus.

Sentei-me na grama, bem junto ao banco de pedra. Não pensava na obra do Todo Poderoso. Pensava, com calafrios na espinha, naquela súbita e bela aparição vestida de mulher. Ficamos em silêncio, no entanto. Já escurecia quando nos despedimos prometendo que nos encontraríamos novamente, junto do riacho sempre ao por do sol. Madre Izabel recolocou seu capuz e se foi.

Não dormi naquela noite, Tsé. A beleza e a mansidão de Izabel me contaminaram a tal ponto que eu passei a noite inteira lendo os Cânticos dos Cânticos, atribuídos falsamente a Salomão. Pouco importa! Um suave sabor erótico me perturbava.

Pouco a pouco, durante mais de três meses, eu e Izabel nos encontrávamos no pomar, além das confissões regulares que dela ouvia, na capela do Convento. Não tinha mais dúvidas: estava profundamente apaixonado por aquela mulher extraordinariamente culta e inteligente que deixara todos os seus bens para se dedicar à Igreja.

Não suportei a pressão de minha libido e dos meus sentimentos para com Izabel. Disse-lhe, no seu escritório, que estava demissionário como professor e não voltaria mais ao Convento.

─ Por que, Monsenhor? Por que vamos perder nosso melhor professor? ─ Perguntou-me espantada.

─ Madre! Madre! ─ Exclamei. ─ A senhora não percebe meus sentimentos? Não penso em outra coisa senão em nossos encontros. Apaixonei-me profundamente por uma mulher impossível. O dever me impõe um afastamento. Não quero desgraçar sua vida.

Madre Izabel ficou totalmente ruborizada com minha confissão e seus belos olhos se fecharam, como se ela estivesse ocultando seus próprios pensamentos. Pediu-me, com uma doçura incrível, que nos encontrássemos novamente no riacho, nem que fosse pela última vez.

Uma semana depois, conversávamos perto do riacho:

─ Monsenhor! Não acredito em Satanás, como o senhor já sabe. E duvido também da divindade na qual a Igreja nos fez acreditar. Mas, dediquei toda a minha vida às obras de caridade e à educação das meninas pobres do Convento. Sou rica, herdeira das terras que foram dos meus pais. Um primo é meu gerente e o senhor sabe que, todas as semanas, chega à Comunidade do Dr. Quim um carregamento de suprimentos. Não sei por que estou lhe dizendo isso. Já sabido pelo senhor há muito tempo.

─ É verdade, Madre Izabel. A senhora tem nos ajudado bastante na construção da República Telemista das Palafitas. ─ Interrompi seu discurso.

─ É! Mas, o senhor não sabe que tenho estado bastante confusa por causa de nossos encontros, aqui no riacho. Tenho perdido noites inteiras, meditando nesse sentimento quase súbito, como se fosse obra de Satanás, se nele acreditasse. Acho, Monsenhor, que também me apaixonei pelo senhor e não sei o que fazer desse amor intenso que sinto. Como fogo desesperado, crepitando de uma fogueira eterna que não quer se apagar. Na verdade, chamas que eu própria alimento sem cessar.

(Ah, Tsé! Ousei tocar nas delicadas mãos de Izabel. Em silêncio, como se estivesse praticando o ato mais santo de toda a minha vida. Ficamos de mãos dadas. Foi a primeira e única mulher de minha vida).

─ Monsenhor! Estou de licença por uma semana e irei visitar minha fazenda. Meu primo está no Sul, visitando uma feira agrícola. O senhor aceitaria me acompanhar até a minha propriedade? ─ Perguntou-me Izabel, quebrando o silêncio embaraçoso em que havíamos mergulhado.

Passamos uma semana, sem hábito e sem batina, gozando das delícias do campo. Mas, não resistimos. Pra mim, Izabel era a primeira mulher com quem fazia amor. Para ela, nem precisaria dizer, eu era o primeiro homem. Nem pensamos em nossos votos de castidade que, aliás, não levávamos mais a sério. Felizmente, estávamos longe das mentiras e da repressão da ICAR. O prazer era tão intenso e a felicidade de nos entregarmos um ao outro era tão mais valioso do que qualquer tabu inventado pelos padres de todas as religiões.

Continuei com minhas aulas. Mas, dois meses depois, Izabel procurou-me no Confessionário. Estava grávida! Falei da Sociedade Secreta de Médicos, mantida pela Igreja para esses casos.

─ Não! Quero ter minha criança. Ela me redime e me recoloca como mulher num mundo absurdo de privações. ─ Disse-me corajosamente Izabel.

─ E o que vai fazer? ─ Perguntei-lhe.

─ Antes que meu ventre cresça demais, acabo de pedir uma licença para tratamento de saúde. Irei pra minha fazenda e, lá, darei vida ao fruto de nosso amor. Não me arrependo de nada. Já decidi. ─ Respondeu Izabel.

─ Visitei minha amada inúmeras vezes. Nosso amor crescia à medida que a délivrance se aproximava. De vez em quando, Vó Dé e o Dr. Quim me acompanhavam. E foi Vó Dé que serviu de parteira e que tocou na criança pela primeira vez. Dela, também, surgiu a idéia de legitimar o nascimento do nosso filho. Ainda não sabíamos o quê fazer. Vó Dé nos disse que a Comunidade nos devia coisas eternas e eles iriam nos ajudar. Ela e Dr. Quim inventaram aquele negócio da pescaria de siri. Dr. Quim havia levado a criança por baixo das palafitas e amarrara o cesto de pão na linha de pesca. E foi assim que você, Tsé, nasceu e se criou. Mãe Dica aceitou você como filho adotivo, embora seu pai, aquele miserável, jamais o tenha feito. Daí, aquela história de Siribagre que me afligia bastante, além dos maus tratos. Felizmente, morreu cedo.

Monsenhor Braguinha terminou sua história ─ na verdade, minha história ─ aos prantos. Um choro surdo e incontrolável. Estava pasmo com tudo aquilo e não queria acreditar. Em silêncio, saí atarantado da casa paroquial e me tranquei por três dias no meu quarto. Não falava, não comia, não bebia. Chorava apenas! Vó Dé entrava no quarto de vez em quando e não dizia nada.

No terceiro dia, que nem JC, ressuscitei. E pensei! Quê diabo! Sou filho de um amor belíssimo entre um casal ilustre. Fui cuidado com todo o carinho por Vó Dé. Fui o companheiro predileto do chefe de minha Comunidade, mais até do que seu próprio filho, meu amigo Quinzinho. Fui educado por um dos homens mais cultos e bondosos que conheci. Em suma, que importa ter nascido dessa ou de outra forma. Importa o que eles fizeram de mim; um homem digno. Mas, e minha mãe Izabel, onde estará?

Levantei-me e pedi a Vó Dé que fizesse uma canja de galinha porque estava muito fraco do jejum. Chamei o Dr. Quim e disse que iria falar com meu pai. À tarde, cheguei à casa paroquial. O Monsenhor, como sempre, estava em sua cadeira de balanço. Como se estivesse me esperando. Lancei-me de joelhos, botei minha cabeça no seu colo e fiquei exclamando:

─ Pai! Pai! Meu pai! ─ O Monsenhor limitava-se a acariciar meus cabelos, vertendo lágrimas de felicidade.

Depois, me acalmei e perguntei por minha mãe, Madre Izabel.

─ Tsé, meu filho! Esse é o episódio mais triste da história. Todos os sábados, Vó Dé e o Dr. Quim traziam você até o Convento. Izabel, com lágrimas nos olhos, amamentava você com o maior carinho. Mas, o destino foi muito cruel conosco. Quando você completou seis meses, não agüentávamos mais a situação e resolvemos deixar a Igreja, casar e morar na fazenda de Izabel com você. Uma semana antes, porém, ocorreu uma epidemia de influenza na Torre. Todo o Convento pegou a doença, incurável na época. Quatro noviças morreram. Izabel tampouco resistiu, ainda frágil e se recuperando do parto. Morreu em meus braços, fazendo-me jurar que cuidaria de você até morrer. Sem Izabel, não poderia assumir você sozinho. Covardia? Não sei! O que eu sei é que você é meu filho amado e ao qual dediquei todo o restante de minha vida e o farei até meu último suspiro.

Visitei o túmulo da Madre Izabel, minha mãe. Depositei uma rosa e chorei com amargura.

Não! Meus pais não eram nobis peccatoribus! Ao contrário! Foram sempre, até a morte, nobilis personna!

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII

4 Comentários para “Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XIV”

  1. Flor de Liz:

    Bom dia Tsé!
    Mais um capítulo emocionante de suas memórias, hein reverendo? Devo confessar que entre todos foi o que mais gostei.
    E aí já está de volta a comunidade? Tô no aguardo das instruções para que tenha meu pedido de residência aí acolhido.

    Abs.

  2. Tsé-Tsé:

    Irmã Flor: De volta à Comunidade, recebo a boa notícia de que você foi admitida em nossa República Telemista. Porém, o Conselho Curador de Controle da Populção, exige os seguintes deveres, direitos e condições: 1) Não formar nenhuma Igreja, não importa a seita religiosa a que você pertença (embora possa acreditar no que quiser): 2) Não fazer catequeses dentro da Comunidade; 3) Ficar um mês em observação e, depois, se ligar a algum dos nossos clãs ou, então, fundar o seu próprio (temos mulheres chefes de clãs, incusive o meu, chefiado por uma de minhas esposas); 4) Abster-se de quaisquer briga ou confusão que prejudiquem a Comunidade; 5) Usar o direito de ir e de vir dentro da Comunidade e de sair dela quando quiser; 6) Mudar de clã quando bem lhe aprouver; 7) Deixar todos os seus bens fora da Comunidade, salvo livros, CDs, DVDs e objetos pessoais; 8) Trazer um biquíni para o “banho de iniciação” no Capibaribe que inclui a travessia à nado de uma margem a outra, com toda a Comunidade reunida; 9) Trabalhar voluntariamente por três horas semanais em prol da Comunidade; 10) Absoluto respeito à privacidade, dentro de sua casa e fora dela; 11) Participar de todas as eleiçoes nas Assembléias, podendo ser eleita ou destituída de cargos por maioria de votos; 12) Pensar e se exprimir livremente; 13) Ser feliz! Apresente-se em nosso endereço: em frente da Rua 33, logto depois da Matriz da Torre, que dá pro rio. Você entra por uma ruela, atravessa uma pinguela, passa por nosso portão e será recebida por uma Comissão Especial de Admissão de Novatos. Obrigado por ter gostado de minha história de nascimento. Minha bênção de retorno.

  3. Flor de Liz:

    A sua bênção reverendo. Que bom saber que o senhor está de volta e melhor ainda fora a notícia que trouxera consigo.
    Aceito todas as condições! Devo está chegando em Bel-O-Kan amanhã ao nascer do sol, estarei trajando um vestido de chita e portando a flor de liz nos cabelos (como o combinado na sangria que marcamos e que não aconteceu) para que tão logo a comissão me reconheça.

    Abs.

  4. Tsé-Tsé:

    Irmã Flor: (em tempo) Infelizmente, não estarei amanhã na Comunidade. Estarei discutindo com o Prefeito de uma cidade vizinha que, desviando as verbas do Parde Dona Lindu, que fazer secar o Capibaribe em prol das empreiteiras. Se a Comissão de Recepção não estiver lhe esperando, não se avexe não. Entre que a entrada é livre e procure uma palafita que tem na porta uma Flor de Liz desenhada, preparada para você. Descanse e depois vá conhecer o pessoal. Todos já sabem de sua chegada. Mande suas primeiras impressões da Comunidade. E seja benvinda! Minha bênção, um pouco cansada.

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