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Täglichganzung

9 comentários

torradeira

Maria Bonita olhava-me fixamente. Havia pena nos seus olhos. Meneava a cabeça de um jeito meio impotente. Pousou o olhar na torradeira desmontada e perguntou:

_Você conseguirá montá-la, novamente?

Essa pergunta era a mesma coisa do que um bofete na minha cara, pois sabíamos qual era a resposta. Pra que perguntar, se ela já sabia o que seria dito?

_Não, não…

Era a terceira torradeira que eu desmontava em dois meses. Antes tinha sido a máquina de purificação de água. Ficara completamente hipnotizado pela sua forma, pela sua cor, pelo que significava. Não descansei até desmontá-la e, claro, quebrá-la. Houve até um início de briga com Maria Bonita por causa de uma panificadora doméstica, comprada com muito zelo lá em Porto Alegre. Depois do terceiro pão, não agüentei e desmontei a máquina. Cheguei a montá-la novamente, mas cadê que conseguia fazer sequer um mísero pão francês?!

Sim, era duro viver comigo. Não tínhamos ar-condicionado, nem mesmo um ventilador, quanto mais uma televisão. Eu não resistia e desmontava tudo, compulsivamente. Até os vários computadores foram vítimas da minha compulsão. Toda vez, eu avariava a carta-mãe. Trabalhei isso na análise, pensando que era um matricida em potencial. O psicanalista fez hum-hum e me pareceu que dizia que não tinha nada a ver. Aceitei sua posição. De fato, meu problema era outro e não tinha relação alguma com meu inconsciente ou com o complexo de Édipo.

Eu era doente. Tenho uma doença muito esquisita. Por isso, entendia o desconforto de Maria Bonita, mais ainda de sua pena; afinal, sabia que eu sofria de Täglichganzung, uma doença descoberta pelo famoso médico J.B. Barnes, que significa “tropismo doentio por artefatos tecnológicos do cotidiano”. Barnes dissera, de forma enfática, que eu era o segundo caso registrado. O primeiro já tinha morrido na década de 50 e era americano.

_Ele morreu?! Mas isso mata?

Barnes ficou calado. Depois, disse que o cabra levou um choque quando tentava desmontar um secador de cabelos. Fiquei, claro, mais calmo, mas com pena do pobre coitado. Sentira empatia pelo desgraçado; afinal, sofrera do mal que me acometia. A dor gera comunhão, pensei, embora reconhecesse que sua morte fora ridícula. Morrer de forma patética é um destino cruel. Com um secador de cabelos…

Eu tinha Täglichganzung desde pequeno. Lembro-me da minha fascinação por copos de vidro. Achava o vidro um verdadeiro mistério, uma invenção cabalística da humanidade. Mas quebrava todo copo, com os dentes, que colocava na boca. Na minha casa, assim, só havia copo de plástico. Nos restaurantes, para não repetir a vergonha de quebrar quatro copos consecutivos, o que levou, nesse dia, o garçom ao desespero, meus pais antecipavam-se e pediam logo um copo de plástico para o doente aqui.

Pensei muito no meu problema. Acho que tenho algum desequilíbrio no processamento mental das experiências no cotidiano. Acho que as controlo de forma estranha, daí meus problemas na formação da minha personalidade. Ficar seduzido por uma torradeira significa uma dificuldade de adaptação à multiplicidade de mudanças que ocorrem na minha vida cotidiana. Minha mãe sofre muito com isso. Ela simplesmente não me entende. Meu pai, pelo menos, tenta contemporizar e já comprou até alguns fornos de microondas.  Confesso que tenho adoração por esse objeto absolutamente genial. Inclusive, do ponto de vista das relações de gênero, o microonda livrou-me da pressão feminina de me fazer crer que um homem só é sensível quando sabe cozinhar. Com essa máquina, abriu-se, diante de mim, o mundo infinito dos congelados. É a demonstração cabal  de que saber ou não cozinhar é uma questão tecnológica e não… ideológica!

Quebrei todos os microondas, é claro, mas foi divertido, embora a repetição da minha patologia sempre me deixe um pouco cabisbaixo. Afinal, a veneração por artefatos tecnológicos do cotidiano diz muito da minha incapacidade de mudar meu entorno. Seria como se ficasse prisioneiro do dia-a-dia da vida. Não consigo escapar da compulsão de ficar refletindo, detalhadamente, sobre as minúcias do ambiente, principalmente dos objetos que surgem rotineiramente na minha frente.

Pois é…

Mas, por uma incrível coincidência, nesse exato momento, acabo de ler uma passagem do romance The Mezzanine, de Nicholson Baker, no livro de Anthony Giddens (aqui)  “Em defesa da sociologia”. Fiquei pasmo, pois estava adiante de um autêntico Täglichganzung! O texto refere-se a uma fôrma de gelo… Faz uma análise minuciosa de uma fôrma de gelo! Uma pessoa que escreve assim, que produz uma narrativa tão detalhada de um objeto tecnológico do cotidiano; ah, essa pessoa compreende perfeitamente o que acontece nas minhas entranhas. Ele sabe quem eu sou…

forma_de_gelo Lá vai:

“a fôrma de fazer gelo merece uma nota histórica. No início eram fôrmas de alumínio com uma grade de lâminas ligadas a uma alavanca, como um freio de mão — uma solução ruim; a gente tinha que passar a grade sob a água morna para que o gelo conseguisse se desprender do metal. Recordo-me de vê-las sendo usadas, mas eu mesmo nunca as usei. Depois, de repente, eram “bandejas” de plástico e de borracha, realmente moldes, com vários formatos — alguns produzindo cubos bem pequenos, outros produzindo cubos grandes e cubos de diferentes formatos. havia sutilezas que  com o tempo a gente acabava compreendendo; por exemplo, as pequenas fendas entalhadas nas paredes internas que separavam uma célula da outra permitiam que o nível da água se igualasse: isto significa que poderíamos encher a bandeja passando as células rapidamente sob a torneira, como se estivéssemos tocando harmônica, ou poderíamos abri-la só um pouquinho, de forma que um filete de água silencioso caísse como uma linha da torneira e, segurando a bandeja em um determinado ângulo, permitindo que a água entrasse em uma única célula e daí fosse passando para as células vizinhas, uma a uma, pouco a pouco enchendo toda a bandeja. As fendas intercelulares também eram úteis depois que a bandeja estava congelada; quando a torcíamos para forçar os cubos, podíamos seletivamente puxar um cubo de cada vez, enfiando a unha sob a projeção congelada que havia se formado em uma fenda. Se não conseguíssemos pegar a beirada de um toco da fenda, porque a célula não havia se enchido até acima do nível da fenda, poderíamos cobrir com as mãos todos os cubos, menos um, e virar a bandeja, para que o único cubo de que precisávamos saísse da bandeja. Ou podíamos liberar todos os cubos ao mesmo tempo e, depois, como se a bandeja fosse uma frigideira e estivéssemos virando uma panqueca, lançá-los ao ar. Os cubos pulavam simultaneamente dos seus espaços individuais, elevando-se cerca  de meio centímetro, e a maioria voltava de novo para o seu lugar; mas alguns, aqueles que estivessem mais soltos, pulavam mais alto e freqüentemente caíam de maneira irregular, deixando alguma ponta saliente por onde podiam ser apanhados – estes nós usávamos na nossa bebida.

Escrevi uma carta a Baker, falando do meu mal. Espero que responda. Se sabe tão bem sobre o assunto, talvez tenha uma solução.

Bem… er… enquanto espero, vou procurar a fôrma de gelo. Meu reino por uma fôrma de gelo…

Cadê a fôrma de gelo!?

InscritosEmPedra
  1. No caso das formas de gelo até entendo, são invenções geniais: simples, funcionais. As coisas pioram quando a compulsão se volta para artefatos tecnológicos de maior complexidade , cmo computadores por exemplo. Aí não dá mesmo!!!! Pôxa que nome ótimo tem o seu mal: Tâchzugaklsjdlmnsjk….ou coisa parecida

  2. Esse blog é uma revista deliciosa e divertida, mas vou precisar de muito tempo para ler 1/3 dos textos escritos nele. Agradeço a visita no blog e segue um post novo para quem gostar de medicina e anatomia.

  3. Não eram copos de plástico. Eram de madeira duríssima que nem sucupira, fornecidos pelo avô marceneiro. E os aparelhos de som? E os radinhos de pilha. Uma fortuna desperdiçada por causa dessa doença, somente agora diagnosticada. Ah! Se tivéssemos sabido, ainda naqueles gloriosos tempos, em que até fraldas descartáveis eram desmontadas, incluindo as mamadeiras de aço. Tadinho dele! O que uma má formação genética não faz da gente!

  4. Meu Deus, quando eu era criança um mal parecido me acometia. Eu tinha verdadeira compulsão em cortar os cabelos das minhas bonecas, às vezes não satisfeita decapitava as coitadas e depois ia as esquartejando lentamente com requintes de crueldade. Minhas coleguinhas tinham medo de mim. rs
    Não sei, mas será que partem do mesmo princípio nossos males? Ou será que o meu mal é crueldade pura? Alguém poderia me ajudar a desvendar tal mistério?!?

    Abs!

  5. Artur, mai bróder, tenho uma grande amigo que tem o mesmo problema, com bons ou nem tanto resultados finais.

    Uma das boas é que desmontou certa vez a máquina de lavar, montou de volta e algumas peças ficaram fora. E funcionou!

    Entre as ruins está uma “camionete” que desmontou o motor e nunca mais funcionou, hoje está encostada com recomendações de um mecânico amigo para comprar outro motor. E não tentar montar!

    Sou avesso.

    Incapaz de ligar qualquer coisa, que dirá desmontar.

    Tenho outra doença, que desconheço o nome, que me leva a não saber fazer qualquer ligação de algum aparelho. Minhas filhas ligam meus computadores a anos, minha ex mulher teve que vir aqui na chácara “instalar” uma tv nova, enfim, sou completamente avesso a aprender a lidar com isso.

    E olha que sou (era, na verdade…) da área de informática!

    Quanto a Flor de Liz, não acho que seja maldade. Talvez uma tendência mal trabalhada em se tornar médica…

    Sou como alguém bem definido por Woody Allen, citado no Lance de hoje:

    Só existem três tipos de pessoas no mundo: as que sabem fazer contas e as que não sabem.

    Saudações!

  6. André Tricolor Virtual

    Eita,

    Uma vez desmontei um radinho de pinha com uns amigos e depois tentamos ligar de novo, apoiando sobre uma lata de ferro grande tipo ‘leite ninho’ … O resultado foi um ‘choque’ e a tomada de casa toda queimada … À partir daí perdi o interesse e a curiosidade de montar e desmontar às coisas!

    engraçado, que o que mais me chamava atenção lá em casa quando eu era ‘pequeno’, era a máquina de costurar de minha mãe, e ainda assim nunca aprendi a usá-la! Acredito que eu não seja nada ‘tecnológico’!

  7. André Tricolor Virtual

    * pilha

  8. Gil, realmente. Nunca havia pensado por esse ângulo.
    E não é, que é uma boa explicação?!?
    Quem sabe ainda não esteja em tempo de trabalhar isso, não é?
    Obrigada, por me fazer enxergar de forma positiva o que antes parecia algo abominável!

    Abs!

  9. Pra mim coisa boa é coisa desmontada.

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