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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XIII

5 comentários

Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

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(Insidia et mistificationibus)

13 º CAPÍTULO

Quo usquae tanden Perrusia abuttere patientia nostra?

Pergunta dirigida aos Perrusi, Pai e Filho (não sei se há também um Espírito. Se houver, fica de fora, pois nunca vi essas coisas na minha vida).

De fato, quando saí do coma crônico, causado por uma febre do mangue, minha memória se esfacelou; derreteu-se como a manteiga ruim do padeiro da esquina. Falava! Mas falava apenas algumas sílabas, como gá-gá, gú-gú, gô-gô e vai por aí. Contudo, sempre fui um sacerdote zeloso de meus compromissos. E não podia culpar o Blog pelos seus criadores. Afinal de contas, Deus criou o mundo, mas são os Arcebispos da vida que pretendem tomar conta dele.

Por isso, depois que as palavras voltaram, fui forçado a reler os primeiros capítulos destas chatas e irrelevantes memórias. Fiquei estarrecido com a insidiosa traição de Perrusi Pai. Do Filho, já não esperava nada de bom, depois de tantas pílulas roxo-amareladas de suas receitas. Segundo o Arcebispo Zé das Pedradas, o Filho vai direto pro Inferno, pois é lá que precisam de Psiquiatras. Aliás, segundo confissões do ilustre prelado, ele próprio acompanhará o Filho para assistir ao grande espetáculo de um rapaz tão atraente virar salsicha defumada.

Mas, o que dizer do Pai? Daquele sessentão charmoso, gentil e culto que sempre me visitava nas horas de dor e sofrimento? Hipocrisia pura! Pensando que eu iria dessa pra uma pior, deturpou o Primeiro Capítulo (a respeito do meu nascimento), acrescentando uma NOTA absolutamente nojenta, inclusive caluniando minha caligrafia (que chamou de “garranchos”), logo eu que fui professor de Caligrafia na Pontifícia Faculdade de Medicina do Vaticano. É por isso, aliás, que as letras dos médicos católicos são tão legais, hehehehehehe…

De fato, além da perfídia e da mentira, Perrusi Pai plagiou o grande italiano Roberto Calasso (V. “Cadmo e Harmonia”) e citou falsamente o não menos grande Darwin. Duvido que alguém de bom senso tenha acreditado naquela história de siris e bagres, transando obscenamente no mangue e tendo como resultado um mamífero humano macho. Eles são muito mais discretos do que a gente pensa.

Se fossem pelo menos bebês fêmeas, tudo bem! Afinal de contas, a gente nunca sabe do que as mulheres são feitas ou, melhor, de onde vêm e para onde vão. Sei apenas que são gostosas e, sem elas, eu preferia nunca ter vivido. Além do mais, convivo com três delas e sou um escravo submisso e abençoado de suas vontades.

Pois bem! Sou forçado a recomeçar tudo novamente pra retificar a história do meu nascimento. E, como vergonha para Perrusi Pai, vou imitá-lo e começar com a mesma frase plagiada: “E como foi mesmo que tudo isso começou?”.

Mas, antes, devo retomar o que vinha dizendo no último Capítulo para não confundir meus poucos e gentis leitores.

Vencida a comoção de minha família, comecei a me acostumar com a idéia de que passaria mesmo pelo menos dois anos em Roma, fazendo o tal de Doutoramento em Teologia Cristã, se isso existe mesmo.

Recebi a bula papal de inscrição no Curso, mas ainda faltava cerca de seis meses para minha viagem. O Arcebispo me desligou das funções de Arquivista e Bibliotecário da Arquidiocese, colocando-me à disposição da Paróquia da Torre, a pedido do Monsenhor Braguinha. Sem ônus para a Igreja, claro. Tempos de vadiagem sacerdotal que aproveitei para contemplar os inícios da primeira infância dos meus bebês, Quincas e Irlanda, que cresciam em graça, beleza e inteligência. Como pequenos e graciosos chimpanzés, já sabiam contar até três. Maravilha das maravilhas!

Mas nada de ficar remoendo a má sorte em fazer uma viagem tão longa e ter de remoer a literatura, chata e tediosa, produzida pelos teólogos da ICAR. Contudo, para me acostumar com o estilo medieval e renascentista, devorei todos os escritores satíricos, excomungados pela Igreja, especialmente os seguidores do antigo epicurista Luciano, ainda do Império Romano.

Foi assim que li Rabelais, o maior de todos eles, e compreendi e admirei o gênio do Dr. Quim em ter organizado nossa Comunidade numa “República Telemista”, onde todos pensavam, acreditavam e expressavam o que bem quisessem, sem pastores, padres, cultos e, muito menos, Igrejas, além de compartilhar todos seus bens, inclusive o padeiro da esquina. E o Amor? Livre, livrinho de preconceitos, ciúmes e de todas as taras que nossos pais, pastores, padres e literatura religiosa botaram em nossos corações. Amor Livre, repito. E saudável, acrescento. E, com isso, sempre fomos felizes sem precisar de terapias nem de brigas passionais.

Nosso lema era, imitando os pré-humanistas do Século XVI: “A Fé serve apenas para demonstrar as coisas invisíveis”. Certamente, um mote irônico e verdadeiro que levou alguns daqueles bravos escritores às fogueiras da Inquisição.

Na época, aliás, corria o boato de que o Bispo Zezé da Rui Barbosa teria sido o maior dedo duro espiritual do acanhado mundo cristão. Enfim, deixa isso pra lá…

Numa tarde ensolarada, estava brincando com meus pimpolhos na companhia de Socorrinho e de Madalena quando recebo uma mensagem urgente do Monsenhor. Queria falar comigo e não aceitava desculpas. Como faltava apenas quinze dias pra minha viagem, pensei que se tratava de instruções finais sobre o comportamento que eu deveria adotar, brevemente, na Suprema Cúria.

A preguiça me invadia. Teria preferido ficar rindo com a balbúrdia de meus filhos que já começavam a dizer algumas palavras em código infantil, como gá-gá, gú-gú e coisas que tais.

─ Boa tarde, Monsenhor! ─ Disse respeitosamente para o velhinho, sentado em sua cadeira gerdau, embaixo de uma mangueira no quintal de sua paróquia.

─ Boa tarde, Tsé! Chupe, primeiro, uma manga espada. Estão deliciosamente doces e não sei se sua boca vai ficar amarga depois de ouvir tudo o que eu tenho pra lhe dizer.

─ Puxa, Monsenhor! Pra que tudo isso? É só uma viagenzinha e nada mais. ─ Respondi preocupado.

─ Não se trata de sua viagem, Tsé. E eu nem sei como começar. Ontem, tive uma reunião secreta com o Dr. Quim e com sua Vó Dé. Foi muita discussão, que durou a noite inteira.

─ E eu com isso, Monsenhor? ─ Interrompi o santo velhinho.

─ Tem muito, tem muito! Foi sobre nós três e, principalmente, sobre você. Foi sobre este mundo cruel que não deixa a gente viver em paz. ─ Acrescentou Braguinha com um tom cheio de amargura na voz.

─ Desculpe, Monsenhor! Não quero lhe faltar com o respeito. Mas, se minha viagem está preocupando vocês, desisto agorinha de tudo. ─ Respondi.

─ Não! Não! Sua viagem é necessária, como já lhe falei. Dr. Quim, apesar de velho, ainda agüenta ser Líder da Comunidade até sua volta. Trata-se, na verdade, de uma longa história secreta, guardada por nós três, e que, ao longo desses anos todos, tem nos atormentado. Na verdade, éramos cinco a saber, incluindo seu maldito pai adotivo e sua Mãe Dica, que Dudulaidadá os tenha. Mas, como eles já se foram, é necessário contar a história secreta pra você também. Afinal de contas, ninguém sabe o que acontecerá no dia do amanhã e, como dizia Santo Ambrósio, antes ontem do que depois.

E o Monsenhor começou uma longa peroração sobre os males da vida e os insidiosos e tortos caminhos do destino. Com os olhos esbugalhados, eu ouvia tudo e não acreditava. Sei que o destino é traiçoeiro, mas nem tanto. Nem tão pouco, como cheguei à conclusão, quando Braguinha chegou ao fim do seu relato.

Ufa! É como se estivesse ouvindo uma risadinha safada e irônica do meu filho Quincas. E, depois do leitinho, um sonoro arroto e um peidinho fedorento.

Minhas pernas doem e estão ocas. Meu coração ainda está sangrando e jamais saberei se de tristeza ou de alegria. Estou infinitamente cansado ao recordar-me de tudo isso.

É melhor deixar pra depois!

Toda a Memória (Falsa?!):

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII

DimasLins
  1. Bom dia, Tsé! Antes de mais nada, gostaria de saber como anda vossa recuperação. Espero que esteja se dando dentro da normalidade e que em breve o reverendor possa se livrar do bendito gesso nas pernas

  2. Ops, eu de novo. Enviei o comentário antes de completá-lo de fato.Então, vamos lá, continuando… Devo lhe informar, que com bases em minhas pesquisas suas memórias ao contrário do que imaginas tem mais leitores do que os demais textos do blog (que os Perrusi Pai e Filho, não nos leia para que não se crie um mau estar), pena é que muitos dos tais leitores não sejam incovinientes como eu que vivo a enchê-los de comentários. Outra coisa, gostaria de saber se aí na comunidade há uma vaguinha para uma pobre moça cansada da dura realidade nas palafitas onde reinam uns tais Acerbispos?

    Bem, é isso.

    Abs

  3. Irmã Flor: Escrevo-lhe dretamente de Roma, para onde fui convocado por Bento, para esclarecer o caso do Arcebispo. Em princípio, gostamos de receber novos habitantes em Bel-O-Kan. Contudo, há requisitos para isso, estabelecidos pelo Conselho Curador para o Aumento ou Diminuição da População de nossa Comunidade. Antes de viajar, encaminhei o seu pedido de residência e, quando voltar, dir-lhe-ei o que fazer para que seu pedido seja examinado. Realmente, aqui, não há Arcebispos e você não corre o risco de ser excomungada. Com minha bênção italiana.

  4. Reverendo, bem que eu estava sentindo falta de vossas aparições por aqui!Agora sim, tá explicado o motivo da ausência. Desde já agradeço pela atenção. Aguardarei seu regresso e as recomendações para ter minha solicitação apreciada. Peço-lhe ainda que interceda junto a Dr Quim pela minha aceitação.Recomendo que aproveite sua estada em Roma para apreciar (com moderação, é claro) as belezas da culinária italiana e na volta traga consigo barris dos melhores vinhos de missa para que tão logo possamos sangrá-los.

    Abraços!

  5. Boa noite, reverendo. Vossa ausência tem feito muita falta, quando seremos brindados com mais um capítulo de suas memórias? Será que só teremos o prazer de revê-lo por aqui quando enfim regressares de Roma?Não faz isso com essa pobre florzinha não, por favor!

    Beijos!

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