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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XII
Em tempo: os textos novos estarão, por enquanto, abaixo das Memórias (falsas?) de Tsé-Tsé.

(Bambina mia)
12 ° CAPÍTULO
Logo depois da chegada de Quincas, meu primogênito, nasceu Irlanda, filha de Madalena. Era uma menina gorduchinha, morena e cabeluda, ao contrário do irmão que nasceu careca. Era tão bonitinha que Dr. Quin, por decreto, designou-a como a “Princesinha das Palafitas”.
Aos dois anos de idade, começou a desenhar como gente grande e não parou mais. Incentivada pelos pais e pela Comunidade, tornou-se uma grande artista. Suas aquarelas ainda estão penduradas nas paredes de nossa casa e Madalena ainda suspira de prazer pelo talento da filha. Cresceu, estudou e resolveu viajar, fazendo exposições em todo o mundo. Até que recebeu um convite da República de Palidroma para ser a Ministra-Chefe das Artes daquele país.
De vez em quando recebemos suas cartas, sempre bem humoradas e ilustradas com paisagens urbanas e rurais, não esquecendo de pintar nossas palafitas com as cores mais estranhas do mundo, embora belíssimas.
Foi a história de amor mais linda que já vivi em toda a minha vida (Atenção, tarados freudianos! Trata-se de uma história de amor filial).
O resto da filharada veio depois da minha volta de Roma, onde fiz meu Doutorado em Teologia Cristã. Contarei depois, pois, hoje, tô com muita pressa.
Contudo, senti a maior tristeza com Irene, a noviça rebelde do Convento. De repente, ela desapareceu da Comunidade. Procuramos a menina por todos os cantos, inclusive no próprio Convento de onde fugira. Chamamos os bombeiros, pois havia a hipótese de que poderia ter caído no rio e se afogado. Nada! Nadica de nada!
Um ano depois, recebi uma carta de Irene e chorei de alívio:
“Meu querido Tsé:
Logo depois do nascimento de Quincas, recebi a notícia de que meu tio Coronel Fragoso havia morrido de uma doença muito estranha pegada nas caatingas de sua fazenda. Três dos seus jagunços mais queridos o acompanharam e, a seu pedido, foram enterrados juntos. Ninguém sabe do que eles morreram embora o farmacêutico da localidade abra um largo sorriso meio irônico, dizendo que se tratava de “Praga da Caatinga”. Sei lá! Nem quero saber, aliás. Como tio e tutor, Fragoso sempre foi uma desgraça pra mim, internando-me num colégio de freiras e, depois, mandando-me para o Convento. Tudo contra minha vontade.
O fato é que herdei uma fazenda bastante produtiva de gado leiteiro e resolvi me mandar pro sertão. O fato também é que mantinha um segredo que me atormentava desde o tempo do Convento.
Tsézinho! Acho que você se lembra do seminarista Isaías que o substituiu por duas semanas quando de sua grande “febre do mangue”.
Pois bem, Tsé! Apaixonei-me por Isaías. E, além das pitangas, comecei também a chupar manga espada com Isaías. Como ele não quis assumir minha gravidez, o jeito foi botar a culpa em você. Sofri muito com a traição, minha e de Isaías e, por isso, resolvi fugir da Comunidade sem dizer nada a ninguém e cheia de vergonha.
Hoje, tenho um bebê lindo e saudável e não lhe peço nada, pois minha fazenda é mais do que suficiente para me sustentar. Mas, por ironia do destino, Isaías, que se tornou padre na mesma época que você, foi nomeado pároco de Imbuí-Mirim, uns vinte quilômetros da minha fazenda. Fui procurá-lo, mas ele não quis deixar a batina e assumir o filho José, casando-se comigo e se tornando fazendeiro. Preferiu ficar casado com a Igreja, administrando uma miserável Paróquia perdida no sertão. A Igreja, aliás e como sempre, não lhe deu nenhum filho.
Chorei bastante, mas me vinguei da covardia de Isaías. Todos os domingos, mando Jessé, um dos meus jagunços e bebedor de leite de vaca preta incurável, assistir à Santa Missa. Na feira de Quixeramubin, ele ganhou o concurso de emissão de gás metano mais fedorento do sertão nordestino. Fica peidando durante todo o decorrer da Missa do Padre Isaías. Fortes e altos, além de fedorento, empestando a vizinhança da Paróquia. Hoje, somente algumas beatas ainda se aventuram a comparecer à Capela, onde o covarde Isaías oficia. Bem feito!
Querido Tsé! Peço-lhe perdão pelo mau feito e gostaria de lhe convidar para ser padrinho de José. Diga quando pode vir ao Ceará e traga Socorro e Madá para festejarmos juntos.
Um beijo de Irene.”
Não fui ao Ceará porque o peçonhento do Arcebispo resolveu interferir novamente na minha vida. Terminados meus trabalhos no Arquivo da Arquidiocese, preparava-me para assumir o cargo de Pároco da Torre, quando, a título de “prêmio” por causa do meu livro revisionista sobre a História do Cristianismo, fui contemplado com uma bolsa para fazer um Doutorado em Teologia Cristã, na Universidade do Vaticano.
Foi um chororó danado lá em casa. Nem Socorrinho nem Madalena se conformavam com uma ausência de mais de dois anos embora o Dr. Quin e o Monsenhor aprovassem minha viagem. Segundo eles, voltaria mais respeitado para assumir a liderança da Comunidade.
O jeito foi, depois de quase um ano de preparação, viajar de navio para a Itália, onde vivi incríveis aventuras intelectuais e conheci os verdadeiros subterrâneos do Vaticano. Nada cheirosos, é verdade. Mas, é melhor conhecer uma verdade fedorenta do que uma mentira mal contada.
O Monsenhor Braguinha me deu uma carta de apresentação para o Curador Mor de nossa Sociedade Secreta de Proteção aos Sacerdotes Ateus (SBV), já referida. Disse-me que iria precisar muito dos conselhos do Padre Lippi, bibliotecário e arquivista do Vaticano e grande especialista da Inquisição. A carta era secreta, segundo o Monsenhor, e ninguém, ninguém mesmo, poderia ler o seu conteúdo.
Dessa forma, morto de saudade das meninas e do meu casal de filhos, despedi-me da Comunidade, viajando com uma porção de livros doados pelo Monsenhor e outros roubados da Arquidiocese.
Mas, hoje, apesar das grandes vitórias do Santa Cruz e de minha recente recuperação, estou morto de sono e deixo o relato de minha viagem a Roma pra depois.
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI

















A sua benção reverendo. Meu coraçãozinho encheu-se de alegria ao ler mais um capítulo de suas memórias e ao saber que o senhor encontra-se recuperado. Sinal de que já podemos pensar em marcar aquela nossa sangria que fora adiada por conta do ocorrido, né? Espero anciosa por uma posição sua e pelo próximo capítulo das memórias com os relatos de sua viagem por Roma.
Irmã Flor: Não! Ainda não estou recuperado. Imagine o que aconteceu. Quebrei a tíbia esquerda e o burraldo do cirurgião operou minha tíbia direita. Acordei com a mesma dor, mais intensa ainda. Aí, entrou um residente, formado por uma Faculdade particular e, logo, reconheceu o terrível erro médico. Tomei anestesia novamente e, finalmente, operaram a tíbia quebrada ou, melhor, estraçalhada. Resultado: estou com as duas pernas engessadas. Só há mesmo um jeito agora de nos conhecermos pessoalmente: você visitar nossa Comunidade que fica às margens do Capibaribe, logo depois de uma curva que fica logo depois da outra. Havia três capítulos prontos antes do Carnaval e, por isso, se os leitores não protestarem, logo sairão. Lamento! Minha bênção duplamente engessada.
Reverendo, tadinho do senhor. Por um momento meu pobre coração encheu-se de alegria, pensei ter lido que o senhor ja estava de fato recuperado, mas não faz mal, oportunidades para o encontro não faltarão. Então, como eu havia lhe dito em outra oportunidade, comentando ainda no cap XI das Memórias, estive na Comunidade e não pude vê-lo.Lá informaram-me que as visitas ao reverendo estariam suspensas (talvez tenha sido recomendação expressa de Marocas). De tão desolada que fiquei com a notícia sangrei um barril do mais puro vinho de missa sozinha e resultado: até hoje amargo uma ressaca daquelas. Mas, porém, contudo, todavia assim que estiveres recuperado tomaremos um vinhozinho pra comemorar, né? Quanto ao burraldo do cirurgião que lhe operou, pense pelo lado positivo as coisas poderiam ter sido piores. Hum…já quanto a ir novamente a comunidade, é um caso a se pensar! Será que dessa vez serei de fato recebida?
Forte abraço!
Os verdadeiros subterrâneos do Vaticano?
Vou providenciar o vinho de missa* e me refestelar.
* Meu cunhado é ex-padre, e, ainda por cima, italiano.
Irmã Flor: Lamento sua frustrada visita à Comunidade. Não foi Marocas! Ela voltou do Hospital de Intermares e foi viver com o padeiro da esquina. Pela terceira vez! Coitada! Vive cheirando à farinha de trigo mofada! Mas, liberdade é liberdade e nossa Comunidade respeita. Dr. Quin foi investigar e descobriu que foi Zé da Rui Barbosa. Elemento perigoso, mentiroso e cruel com as criancinhas de 9 anos. Foi expulso da Comunidade por seu arraigado ódio para com as liberdades civis e vive rondando nossa Comunidade, falando mal de todo mundo. Disse que viu uma moça muito bonita, vestida de chita e com uma flor nos cabelos e foi logo desviando-a do bom caminho. Perrusi Pai, por exemplo, também caiu nas malhas insidiosas do Zé Cardoso, digo, da Rui Barbosa. Foi parar noutras palafitas onde um tal de “Arcebispo” reina com sua voz blasé, estabelecendo uma verdadeira ditadura teológica de cunho medieval. Perrusi Pai voltou com escoriações generalizadas, felizmente curadas pelo chá milagroso de folha de mangue. Paciência! Depois da próxima cheia do Capibaribe, marcaremos novo encontro e, dessa vez, será pra valer. Minha bênção ainda engessada (ai, que coceira danada!)
Menos mal, assim sendo, já que Marocas resolveu deixar de lado a vida na comunidade para viver com o tal padeiro que assim seja. É uma pena, que ainda exista gente tão cruel como o tal do Zé da Rui Barbosa e outras tantas que ainda aceitem resignadas as imposições de tantos “Acerbispos” como se fossem desígnios divinos. Aqui na minha palafita as coisas são deveras diferentes. Fica aqui o convite, caso queiram a conhecer. rs
Viva as liberdades!!! Pronto, estamos combinados após a próxima cheia do Capibaribe a sangria sai.
Ficam aqui o meu beijo e o desejo de sua breve recuperação, reverendo!
Até breve!
“Voltei Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço (…)”
Hum…que delícia de feriado, hein?
E viva Recife e Olinda (Oh, linda!)
Beijos!
Irmão Ducaldo: Seu cunhado, padre italiano (uma vez padre pra sempre padre), não perde por esperar. Se o vinho de missa for da safra de Fevereiro de 2009, é bom trocar por outro. Conselho do Arcebispo Exterminador. Minha bênção e minha solidariedade ao cunhado. Ele fez bem em deixar essa porcaria de ICR e se dedicar a coisas mais proveitosas.