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A diferença entre o rebanho e os pastores

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Uma possível resposta  de carolas fundamentalistas, em relação ao aborto da menina de 09 anos, seria a seguinte:

“O bispo é da ICAR. Sua decisão só diz respeito aos católicos e mais ninguém. Fora do âmbito católico, a excomunhão não tem significado relevante. O bispo, assim, segue fielmente os preceitos da ICAR: contra o aborto em todas as circunstâncias. Como culpá-lo de seguir a sua doutrina religiosa? Os críticos à decisão do bispo mostam intolerância à ICAR”.

O problema é acreditar que o Vaticano, um estado teocrático, somente age no âmbito da vida privada, deixando o espaço público à laicidade. Repito o que já disse: a ICAR luta politicamente para hegemonizar seus valores. Raramente, essa luta respeita a laicidade, isto é, o pluralismo de valores numa sociedade democrática. Querem um exemplo? Leiam essa notícia sobre a “neutralidade católica” do bispo (aqui):

“A menina foi levada para o Instituto Materno Infantil de Pernambuco (Imip), na capital, onde seria submetida ao aborto. D. José interveio, falou com a direção e conseguiu que o instituto suspendesse o procedimento. A paciente foi então transferida para o Cisam.”

Como a lei de Deus é superior à lei dos homens (não há frase mais anti-laica do que essa; aliás, nesse ponto, estamos diante do protótipo do totalitarismo), o bispo pode impor suas categorias de valor a qualquer âmbito da sociedade democrática. O bispo, na prática, subverteu uma lei pública, desrespeitando a cidadania; em suma, privatizando o público.

O aborto foi autorizado pela diretora do Cisam e realizado pelo gerente médico do Cisam. Todos os dois são católicos.  O rebanho sempre será melhor do que seus pastores. É uma lei imutável da religião.

Em tempo: o blogueiro do esgoto já apela para a vitimização dos… católicos. Diz que estão se tornando os novos judeus do mundo (aqui).  Depois de muita ambiguidade, passou a defender, enfim, a decisão do bispo (talvez, respaldado pelo apoio do Vaticano  e  da CNBB — aqui).  Da janela de meu apê, vejo católicos sendo linchados e perseguidos por hordas de ímpios pelas ruas do Recife. São os novos judeus…

Em tempo II: para quem pensava que a afirmação do carola fundamentalista imaginário, ironizada acima, era uma invenção sectária da minha parte, enganou-se, pois acabei de ler um carola real, encontrado no lado direito da blogosfera, que escreveu a seguinte pérola (ele discutia justamente o aborto da menina, criticando a posição do ministro da saúde) — não coloco o link, porque não quero um troll solto aqui no blog; quem quiser que procure no google:

Alguém precisaria dizer a eles, logo em seguida, que a decisão do arcebispo de Olinda e Recife tem alcance exclusivamente religioso: é, no essencial, “apenas” espiritual e simbólica – e, para quem não pertence a nenhuma ordem religiosa, não traz nenhuma consequência para sua vida civil. (Numa palavra: só vale para quem acredita.)

Para o nobilíssimo e honradíssimo Temporão, parece que a Igreja (conservadora e reacionária) não tem o direito de exercer seu papel e emitir sua opinião nem mesmo entre seus fiéis – afinal, a excomunhão não traz nenhuma sequela civil, muito menos para não-católicos.

Já o Movimento dos Sem Terra (revolucionário e progressista) tem todo o direito de invadir e até assassinar, em casos de necessidade e arrojo…

Pois é, a entrada em cena do MST revela uma lógica impecável — diria até transcendental. Pode-se dizer, também, que a decisão do bispo foi tão espiritual que a Santíssima Trindade forçou o Imip a não atender a menina…

Torcedor

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