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O dia em que Francis teve sua virilidade posta à prova

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O sobrinho de Freud olhava o baú deixado por seu tio nos confins do sótão de sua casa. Procurava, inicialmente, a lendária cristaleira tcheca, onde Freud descobrira, quando se escondia de Orravan, o Id e a pulsão de morte. Não a encontrou; porém, em compensação, estava diante do baú de… Orravan! Sim, não era de Freud a gigantesca mala, e sim do seu intempestivo amigo. Vasculhou lá dentro e encontrou segredos e muita libertinagem. Orravan era  um devasso, se o julgarmos  pelos padrões conservadores e politicamente corretos do mundo atual.

E tinha um manuscrito. Parecia um conto…

O sobrinho leu e ficou vermelho feito um morango. Era a personificação da genialidade perversa de Orravan. O conto tratava de coisas inenarráveis. Seriam fatos reais? Aquilo tudo aconteceu? O sobrinho, mesmo morrendo de vergonha, decidiu publicá-lo, em prol da História, vale dizer, mas não se fez de rogado e mudou os nomes dos ditos personagens…

Lá vai o conto de Orravan. Tirem as crianças do computador! Recolham suas repressões! Marquem consultas com seus psicoterapeutas! Engulam em seco! Riam, se puderem, mas escondidos, na surdina, atrás de alguma cristaleira, pois pega mal — é um ato falho de consequências abomináveis para o equilíbrio de seu psiquismo.

(…)

Francis e Martins, por algum motivo, não se falam mais. Romperam? Ninguém soube dizer. Brigaram? Não há testemunhas. Mas então como é que foi? Ninguém viu. E o que é que eles dizem? Nada. Desconversam, negam qualquer coisa e ficam como se tudo estivesse do mesmo jeito, mas nisso não há quem acredite.

Aqueles dois viviam quase como um para o outro. Freqüentavam um grande número de amigos, mas uma cumplicidade acima de qualquer coisa os unia mais que ao resto do grupo. Se um estava, a gente já podia esperar o outro chegar. Uma mesa de bar com apenas um deles era de se estranhar. Esse era, aliás, o recanto humano que mais os realizava: a mesa do boteco, sempre juntos. Aí as horas vinham e saíam sem que se percebesse. Então o que foi que houve que coalhou uma amizade assim integral?

Uns especulam que deve ter rolado bate-boca por bobagem. Outros falam a respeito de uma possível disputa pela mesma mulher. “Botou mulher no meio embola o meio de campo”, diziam. Há os que acreditam que a amizade simplesmente esfriou. “Coisas da vida”. De todo modo, o tema intrigou de tal maneira os amigos e agregados que um grupo deles achou por bem sentar em volta de uma mesa (de bar) e pedir duas ou três rodadas para servir de estímulo aos debates. Quem sabe assim conseguiriam jogar luzes sobre aquele enigma?

“Desde quando?”, era a questão que podia tirar o mistério da escuridão. Tentaram então lembrar quando foram vistos juntos pela última vez, mas não era tarefa simples. Após algumas tentativas de curto alcance, uma derradeira lembrança improvisou o consenso: _ “Foi no desafio do Bob à virilidade do Francis”, cena memorável que o grupo jamais esquecerá, mas que o leitor provavelmente desconhece. Cabe aqui, portanto, uma explicação. Vamos a ela.

Era uma quinta à noite, dia de boteco, como todo mundo sabe, inclusive o leitor, assim espero. A maioria dos presentes já tinha bebido bastante, inclusive Francis e Martins, que na ocasião estavam acompanhados por um amigo, Bob, compartilhando com eles a conversa e a bebida. Lá pelas tantas, uma alteração no tom das vozes foi percebida na mesa dos três. Alguns teriam ouvido quando Francis, desinibido pelo nível etílico, falou para Bob:

_Isso é porque vocês aí ficam com essa história de achar que todo mundo gosta, que todo mundo é chegado!…

Seguiu-se um silêncio na mesa. Contrariado, Bob o fuzilou com os olhos.

_ “Vocês aí” quem? Quem são “vocês aí”?

Novo silêncio. Francis ficou intimidado.

_Vocês, ora, “vocês”. Você sabe do que estou falando.

E Bob:

_Não, não sei. Mas você vai me dizer.

Pronto. Estava comprometido o clima da mesa. Bob, muito vaidoso, detestava ser afrontado, particularmente nesse tema. Francis, já meio embriagado, descuidou-se e falou demais. Juntou tudo e deu confusão.

_ Bob, por favor, você sabe do que estou falando. Não precisa criar caso.

Mas o Bob estava resoluto.

_ Eu quero saber quem são “vocês aí”?

O Francis falou baixo.

_ Vocês que são da turma, os do seu grupo aí…

Foi interrompido.

_ Está com medo de dizer? Tão macho e de repente não consegue falar?

Acuado, Francis resolveu enfrentar.

_ Vocês gays. Pronto falei.

Silêncio. Apesar da situação desfavorável, Francis conseguiu impacto com sua resposta. Mas Bob voltou à carga.

_ Nós gays achamos que todo mundo gosta, é isso?

_ Sim, é isso.

_ E todo mundo gosta do que?

_ De ser gay.

_ E isso quer dizer o que?

_ Ora, isso quer dizer… que gostam de gente do mesmo sexo. Não é gay?

Francis tentava falar baixo e olhava de lado temeroso de que aquela conversa virasse o foco da atenção dos freqüentadores vizinhos. Tudo o que ele não queria era chamar a atenção das mesas ao lado. 

_ E você então não gosta de gente do mesmo sexo?

_ Não.

_ Nunca se excitou com “gente do mesmo sexo”?

Francis tinha a impressão de que alguns olhos e ouvidos se voltavam para ele. Se era normalmente inseguro, ali estava próximo do pânico. Olhou para o Martins ao seu lado, mas ele estava igualmente assustado. E mudo. Francis tentou manter a convicção.

_ Eu não.

_ Nunca?

_ Nunca.

_ Nunca mesmo, nem um pouquinho?

_ Nunca, eu não gosto de homem e pronto.

_ Mas eu acho que, dependendo do jeito de chegar, você gosta sim.

E Francis desabafou:

_ Pronto, lá vem você. Era justamente disso que eu estava falando.

De fato, o tema maior que norteava as conversas do Bob era a universalidade da condição homossexual. Todo mundo é, menos quem nunca experimentou. E foi quando ele chegou nesse ponto que Francis cometeu o deslize de contrariá-lo. Inaceitável. Mas o retorno ao ponto inicial da desavença deu novo alento a Francis, que tomou coragem.

_ Tem homem que é homem mesmo, seja aqui, seja em Pequim.

Mas Bob era um osso duro.

_ E tem homem que quando se vê sozinho em Pequim aproveita para soltar a franga.

Silêncio na mesa. Francis não sabia mais o que dizer. Pediu ajuda ao amigo.

_ Assim não é possível. Ô Martins, você não diz nada?

O Martins até tentou, mas não tinha a mínima idéia do que falar. Apenas repetiu,

_ É, isso mesmo, assim não é possível, assim não é possível…

Ou seja, Francis continuava sozinho, e se esforçando.

_ Nem todo homem gosta de ir para a cama com outro homem. Eu, por exemplo, não gosto.

Mas o Bob era senhor da situação.

_ Só pode afirmar que não gosta se já experimentou. Se você diz que não gosta é porque já experimentou.

_ Mas eu não experimentei, nem tenho vontade. Nunca senti atração por homem e não gosto de homem, mas que chatice!

Martins estava surpreso com a firmeza do Francis enfrentando aquela situação. Sempre tão reservado e de pouca exposição, estava agora ali no corpo a corpo com um adversário temido. No entanto, ele sabia que naquele assunto Bob não desistiria nunca e que iria para cima de Francis no primeiro vacilo.

_ Quem está falando de atração? Estou falando de reação. Ou de ereção, se você preferir. Ninguém é 100% ortodoxo. Você pode não gostar de homem a vida inteira, mas um dia chega um cara com jeito e aí a vaca vai pro brejo.

Mas Francis continuava seguro.

_ Papo de veado. Estão sempre achando que todo mundo é igual, que é só passar a mão que topamos qualquer negócio.

Foi como uma deixa para Bob.

_ Quer apostar?

Um silêncio pairou sobre a mesa, tão intenso que parecia haver tomado o bar inteiro. Dessa vez Francis recuou.

_ Apostar como…?

Bob sorriu.

_ Você acabou de dizer que não adianta passar a mão que você não topa. Aposto com você, se eu passar a mão no seu pau ele fica duro.

Francis soltou um riso nervoso.

_ O que é isso, o que é isso, que conversa é essa?…

_ Estou falando sério. Um desafio. Eu acaricio o seu pau durante um minuto, aí a gente vê quem tem razão.

Francis lançou um olhar assustado para as pessoas a sua volta em busca, quem sabe, de alguma manifestação de solidariedade. Mas o que ele viu foi assustador. Os olhos todos ao redor brilhavam fascinados. Logo imaginou que uma situação dessas viraria motivo de riso e de fofoca para os próximos meses. Ficou lívido. Só encontrava algum apoio no Martins, que estava tão atordoado quanto ele e também não sabia como reagir. Tentou argumentar.

_ Olha… acho que não estou a fim. Não curto isso de homem botando a mão no meu…

Bob interrompeu.

_ Não estou falando de gostar ou de desgostar. Eu te desafiei. Ou você é macho para topar a parada ou assume que não tem coragem e pronto.

Francis não sabia o que pensar. Pediu de novo ajuda ao Martins.

_ Martins, você não vai dizer nada?

E o Martins:

_ Essa conversa de aposta aí, acho muito esquisita.

E Bob não perdeu a deixa:

_ Mas que gracinha, que belezinha o casal. Olha Francis, se você quiser eu deixo ele te acariciar…

Mas Martins quase pulou da cadeira:

_ O que é isso?! De jeito nenhum!

Francis ainda tentava.

_ Mas você vai querer que eu tire ele para fora aqui? Num lugar público?

_ Você não precisa fazer nada disso. O pau pode ficar guardado. Eu acaricio você por cima da calça e ninguém vai ver seu precioso exposto.

_ Mas e aí…?

E Bob:

_ Se seu pau não ficar duro, sua reputação fica intocada. Mas se ficar…

Francis murchou completamente. Não via mais para onde recuar, mas ainda tentava escapar.

_ Olha, eu não estou a fim, eu…

Bob jamais desistiria:

_ Meu filho, agora não tem mais jeito. Ou você topa ou saio daqui gritando que você tremeu. Teve medo de ficar excitado com outro homem.

Arrasado, Francis era o retrato da derrota. Olhou para o Martins, depois para o Bob e perguntou baixinho:

_ Um minuto?…

Bob deu seu sorriso mais triunfante.

_ Nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Se em um minuto de carícias ele não crescer, a pátria está salva. Mas se crescer… aí depois eu te chamo para tomar um chopp só nós dois…

Atordoado, Francis tentava respirar.

_ Mas é um minuto mesmo?

_ Contado no relógio. E agora me dê um minuto você. Passo no banheiro e volto pronto pra você.

Bob saiu. As pessoas ao redor estavam excitadíssimas com a expectativa de vê-lo bolinar o pinto do Francis ali na frente de todo mundo.

Baixinho, quase sussurrando, Francis falou ao Martins.

_ Martins, e agora? O que é que eu faço?

_ Agora tem que encarar. Que jeito?

Francis suspira.

_ Você fica no relógio.

_ Certo.

_ Vê se faz esse minuto correr.

_ Deixa comigo.

Os dois ficam em silêncio. Nervosos, sem saber o que falar. Cochichando, o Martins lembra uma preocupação.

_ Melhor a gente fazer isso rápido, sem muito barulho.

_ Como assim?

_ Ninguém fora daqui precisa saber.

_ Mas e esse povo aqui do lado?

_ Se a gente fizer tudo sem dar muita bandeira, como se não estivesse acontecendo nada demais, eles se desinteressam e o assunto perde a graça.

_ Verdade, verdade. O mínimo de alarde agora é fundamental.

De repente, um barulho tremendo. Gritos, assovios e panelas batendo. Era o Bob, chegando com uma claque de freqüentadores e garçons, fazendo um baita Carnaval. Bob arregimentara o bar inteiro para assistir ao embate. Pessoas levantavam das mesas e chegavam junto, já disputando espaço. Francis ficou lívido.

Colherada, um garçom baixinho com voz de cantor de ópera, pediu a palavra batendo um garfo na bandeja. E falou:

_ Senhoras e senhores, estamos diante de um momento histórico. À minha direita, Francis, que topou o desafio e agora depende dele a salvação da masculinidade universal. À minha esquerda, o Bob, que quer mostrar com quantos paus se faz uma canoa. E eu, Colherada, com muita honra, aceitei o convite para servir de árbitro desta contenda que pode mudar a história do homem. Ou pelo menos a história de um homem.

Outro garçom trouxe um enorme relógio de cozinha que pôs sobre a mesa. Colherada continuou.

_ Quando o ponteiro chegar no 12, vai ser dada a largada. Atenção!

E começou a contar:

_ Quinze, quatorze, treze…

Logo todos o acompanhavam, em coro.

_ Dez, nove, oito, sete…

No meio do tumulto, Martins pegou no braço de Francis e tentou um último apoio:

_ Coragem.

_ Quatro, três, dois, um, VAAAIIII!!!…

Silêncio geral. Uma pequena multidão se aglomerava em torno da mesa. Sentados frente a frente, o desafiado e o desafiante. Bob veio na direção de Francis, mas não pôs logo a mão. Primeiro olhou bem nos olhos dele, o que o deixou ainda mais nervoso, e falou pausado:

_ Não tenha pressa, ele não cresce logo no início, só acontece nos últimos quinze segundos. Já fiz isso outras vezes.

Francis olhou para o Martins uma última vez. Olhos de pânico. Martins não falou, mas fez uma expressão de quem diz “vai em frente”.

Bob fez um pouco de suspense. Ficou alguns instantes imóvel, sem fazer nada, apenas olhando nos olhos de Francis.  Em seguida foi chegando junto. Primeiro fez uma leve carícia por cima, mas depois pegou o conjunto todo. Francis teve um sobressalto quando sentiu a mão abarcar sua genitália. Mas controlou-se. Não poderia deixar escapar qualquer som suspeito, mesmo que fosse de susto. Um suspiro ou um gemido naquela situação seria um erro grave. Numa hora dessas, pensou, um simples gemido pode comprometer a reputação de três ou quatro gerações. Conteve-se, pois.

Mas a mão de Bob estava em plena atividade. E o pior, era uma mão muito delicada, muito suave, sabia pegar o bicho com jeito. Francis teve medo de que, por algum motivo obscuro, seu pau resolvesse crescer. Sim, afinal, era pau, estava acostumado a crescer sempre que lhe faziam aquilo, vai saber o que se passa na cabeça de um pau. Resolveu que tentaria contornar a ignorância fálica com subterfúgios tais como pensar em alguma coisa que não fosse excitante de maneira nenhuma. Alguma coisa terrível, algo que sob hipótese alguma pudesse sugerir fantasias eróticas. Mas o que? Logo ele que qualquer pensamento naturalmente desandava em pornografias e perversões. Quem sabe pensar na sua própria situação, caso o pau ficasse duro? Isso sim seria uma coisa terrível. Mas não, era melhor não, pois a imagem do pau duro poderia ter um efeito nefasto. Procurou então fixar a lembrança na sua querida Hertha, vira-lata de rua, bem ordinária, mas um doce de cachorra. Sofreu muito para morrer quando foi atropelada. Um episódio realmente triste em sua vida. Importantíssimo o apoio de Maria Valéria, que conheceu ali mesmo, no veterinário. Sua cachorra morrendo e, de repente, uma alma que foi solidária. O problema eram os peitos de Maria Valéria. Dois belos peitos! Pronto, estava arruinada a lembrança. Precisava urgentemente esquecer Hertha e Maria Valéria antes que isso interferisse na aposta. A mão de Bob estava ali, na função, e aquele relógio demorando horrores para andar. Sensações apavorantes, uma pressão tremenda sobre ele e tudo isso correspondera a meros 5 segundos. O negócio ia ser duro, com o perdão do trocadilho infame. Infame e infeliz, afinal, se qualquer coisa ali ficasse dura era o fim para Francis. Seria a ruína de uma imagem pessoal construída laboriosamente ao longo de quase 30 anos. Era preciso começar a mentalizar alguma coisa que não o levasse a pensar em mulher de modo algum.

Pensou no Papa, isso, o Papa. Por princípio o Papa fica longe de mulher. Mas também não gosta de veado. Ô sujeito para não gostar de veado, pensou. Falou que é veado, não senta nem pra conversar. Padre veado, então, não aceita nem debaixo de pau. Mas também não quer saber de padre mulher, não confia em mulher, só em homem. Espera aí?,  refletia, mas então isso quer dizer o Papa também não gosta de mulher? Gosta de homem então? Será o Benedito?…

Chegou nesse ponto e especulou: engraçada essa fissura por algo religioso num momento assim tão pagão. Quem sabe tinha a ver com a sua formação religiosa, tão rigorosa. As freiras com aquela repressão toda. Chegou a ser advertido pela madre superiora porque havia se apaixonado por uma colega de classe, na primeira série do primário. Não encostou um dedo na menina, apenas se apaixonou, e ainda assim foi advertido daquela maneira. Poderia ter virado um maníaco sexual. Era isso. Sua obsessão por sexo vinha das freiras. Eram terríveis, completamente pervertidas. Inculcavam as mais inacreditáveis aberrações na cabeça das crianças. Pensou bem e concluiu que basta uma freira pegar um recém-nascido no colo que ele já começa a pensar em sacanagem. Então nada de freiras, pois freira acaba em sexo. Era preciso tirar as freiras da cabeça o mais rápido possível. Mas pensar em que? Esquecer as freiras e substituí-las, mas por quê?

Foi então para marshmallow. Aquela coisa branca que os primos trouxeram de Nova York dizendo que era uma maravilha, frenesi dos americanos. Mas era uma porcaria. Um tufinho branco que colocavam no fogo e virava uma gosma doce. Construíram um império para isso? De repente a mão do Bob improvisou uma variação que não fosse o Francis homem, macho de verdade, teria se arrepiado. Virgem Santa, pensou assustado, era só o que me faltava! Precisava mais que nunca levar a mente para um tema que fosse mais árido. Pensou então na luta de classes, boa idéia, a luta de classes como motor da história. Nada mais árido do que isso. Apegado à luta de classes dificilmente se veria vítima de algum estímulo erótico que pusesse tudo a perder. O motor da história. Existe história desde que existe a luta de classes. E quando seria isso? A partir de quando se pode dizer que começou a luta de classes? Nas antigas sociedades tribais? Ou apenas naquelas já com um estado constituído? Sumérios? Egito? Grécia? Sim, a Grécia. Cidadãos e escravos. Ali já víamos a luta de classes bem desenhada. Mas para os gregos a história começa mesmo com a Guerra de Tróia. Tróia foi o início de tudo, foi o mote que inspirou Homero a compor dois dos fundamentos da cultura ocidental: a Ilíada e a Odisséia. Na verdade tudo começa com um adultério. Menelau, rei de Esparta era casado com um mulheraço chamado Helena. Imaginava uma baita loira de 1,75 m ou 1,80 m (sempre gostou de mulheres grandes). Mas não! Que erro! Nem grandes, nem pequenas, não podia pensar em mulher agora. Helena se mandou com Páris, fugiram para Tróia. Menelau ficou uma arara. Queria esmagar, destruir, e conclamou os gregos todos a irem para o pau com os troianos. A turma do deixa-disso tentou acalmá-lo, mas não houve jeito. Todo mundo foi forçado a ir e deu no que deu. A Odisséia, a Ilíada e nascia assim a civilização ocidental. Nasceu de um chifre. Mas então é isso! O chifre é que era o verdadeiro motor da história e não a luta de classes. Não fosse o furor uterino da rainha de Esparta e não estaríamos aqui.

Francis ia muito bem nesse devaneio quando percebeu que estava suando. Começou a suar. Inicialmente de leve, nada muito perceptível. Mas suava. E Bob, usando as duas mãos com extrema habilidade (Francis já reconhecia), variava de pau para saco e de saco para pau, tocando de leve nas coxas. Aquilo era o fim. Arrependia-se de ter aceitado uma coisa dessas. Foi quando, de repente, sentiu que Bob era excessivamente ousado.  Deu um pulo e protestou:

_ Epa! O que é isso? Aí não!!!

_ Calma, calma.

_ Calma nada. Você passou a mão no meu… na minha bunda!

_ E qual é o problema, ficou com medo?

_ Não senhor.  A gente combinou que era mão no pau. Isso de bunda está fora!

Nesse momento, o público abandonou de vez qualquer compostura e partiu para a ignorância:

_ DEIXA! DEIXA! DEIXA!…

Mas Francis não queria topar.

_ Não deixo não, nunca! Fala alguma coisa, Martins.

O amigo tomou suas dores. Também levantou a voz e decretou:

_ É isso aí. Pau, pau. Cu, cu. Não pode misturar as coisas. Se for rolar cu, acaba o jogo agora mesmo!

Apesar da apatia, Martins estava nervoso pelo amigo. Não gostava de vê-lo naquela situação e também se preocupava com a hipótese de algum acidente de percurso que fizesse o maldito pau crescer. Era uma perspectiva medonha.

Bob recuou e recolocou placidamente a mão de volta no pau de Francis. E comentou malicioso:

_ Ok, ok, não tem importância. Era só pra colocar um pouco mais de tempero na nossa relação… Se você prefere que eu pegue no seu pau, pra mim está ótimo.

Francis se sentou. Bob recomeçou.

Francis pensou na miséria da condição humana, em especial da dele. Sentado numa mesa de bar com seu pau sendo acariciado por aquele sujeito que nem era seu amigo, cercado por uma platéia desconhecida, vendo todos vibrando com a cena, e com a certeza de que sairiam contando aquilo ao mundo, no minuto seguinte ao desfecho. Mas o maior problema estava na incerteza sobre qual seria este desfecho. Era o pau crescer e ele ver sua imagem pública descer pelo ralo e ser tragada pelos esgotos da ignomínia. “Esgotos da ignomínia”, pensou Francis, “bonito isso!”.

Mas o maldito relógio era pior que caramujo. Não saia do lugar. Todo esse turbilhão na sua cabeça não representava mais que dez segundos. Dez míseros segundos! E Bob iniciava ali umas variações perigosas na região escrotal de Francis. Uma temeridade, pois ele era especialmente sensível ali. Era preciso novamente jogar sua concentração para longe de qualquer possibilidade erótica. Talvez voltar para religião, estava dando certo com o Papa, quando Bob teve a idéia infame de tentar aquelas carícias indecentes em sua bunda. Jogo sujo, aquilo.

Tentou pensar no Mito da Caverna, de Platão, mas logo arrependeu-se. Caverna não! Qualquer coisa que fosse escura e úmida deveria ser evitada.

De repente teve uma sensação de distanciamento daquilo tudo, olhou ao redor e se viu naquela situação. Sentiu-se estranho, com a impressão de ter entrado num universo bizarro, de estar vivendo uma aberração. O que é que ele estava fazendo ali? Num instante, era como se tivesse adentrado um outro mundo, desconhecido, outras referências, outros códigos, onde ele era um estrangeiro, talvez um alienígena. Como se ele, humano, bípede e com córtex cerebral, fosse colocado num mundo de répteis, criaturas de outras eras, movidas exclusivamente por pulsões primevas. Ou seria o contrário e o réptil era ele? Não, não podia se deixar mover apenas por pulsões. Estaria perdido. Aqui o componente cultural se fazia essencial. Se se deixasse conduzir só pelos instintos, o que impediria seu pau de crescer? Estava confuso. A única certeza que conseguiu foi a de que o ponteiro do relógio havia percorrido apenas 15 segundos. 15 segundos! Pareciam 15 minutos, 15 horas, quem sabe 15 dias. Como é que ele ia conseguir sair de dentro daquela enrascada? O cara estava ali, passando a mão no seu pau, e um monte de gente olhando! O que era aquilo, pelo amor de Deus? Isso, Deus. Era em Deus que ele deveria se apegar. A figura de Deus poderia ajudá-lo a sair desse meio de trevas onde havia se metido. Mas tinha que ser aquele Deus do Antigo Testamento, pragmático, iracundo, que afogava um exército no Mar Vermelho por causa de divergências políticas, ou que fazia chover enxofre e fogo sobre uma população inteira por conta de comportamentos desregrados. Seu ideal de vida era ter um Deus para quem ele poderia dirigir uma súplica fervorosa que o faria mandar um raio devastador naquela criatura que estava lhe fazendo carícias. Mas como um ateu como ele poderia pensar semelhante hipótese? Ateu não, agnóstico. Era o que ele sempre dizia. Fazia questão de se autoproclamar agnóstico. Ficava mais distinto, mais elegante. Ainda que nunca tivesse entendido claramente a diferença. Mas agora, ali, uma idéia lhe ocorria. A de que o agnóstico, por sua postura mais relativizadora, seria um ateu efeminado. Ou não, pensou melhor. A agnóstico é o cara para quem a existência ou não de Deus não faz diferença. E está se lixando para a idéia de Deus. Já o ateu, ao contrário, é aquele que olha nos olhos de Deus e, de dedo em riste, chama ele de filho da puta. Essa reflexão foi reveladora. Enfim ele se descobria Ateu, com “A” maiúsculo. E era justamente essa homenagem raivosa que ele, naquele momento, gostaria de prestar ao Criador. Mas quando via o ponteiro do relógio rastejando na casa dos 20 segundos, queria ajoelhar e implorar o perdão divino. Estava aí a definitiva revelação de seu ateísmo. Uma espécie de relação de amor e ódio com o Todo Poderoso.

Mas pelo menos a idéia de Deus era uma maneira de fazê-lo afastar-se de sua condição primitiva. Sim, bem ou mal, gostando ou não, a construção de Deus era uma exclusividade da condição humana, então agarrar-se a ela seria uma maneira de manter-se distante de uma perspectiva irracional, animal e, por isso mesmo, mais suscetível às carícias de Bob. Logo ele, sempre um defensor de argumentos que insistiam na condição animal do ser humano. Sim, somos racionais, mas não podemos jamais perder de vista nossa condição animal. Animal, mamífero, bípede e primata. Uma espécie de macaco sem pêlos, cuja capacidade de raciocínio o fez destacar-se dos outros bichos e que, por sua sexualidade vigorosa reproduziu-se mais que coelho (a conselho do próprio Criador, diga-se). Mas não! Sexualidade vigorosa não, que erro pensar numa coisa assim! A simples abordagem desse assunto em suas especulações produziu uma vibração perigosa dentro dele. Tinha conseguido controlar a mente e o corpo com reflexões assépticas, mas agora… Jesus Cristo!, percebeu que começava a suar de novo. Na verdade, constatou que estava suando muito. No rosto, no pescoço e mesmo nas mãos. Cada vez mais. E se acontecesse o pior? Com que cara ele sairia daquela situação? O que ele ia dizer? O que ia dizer em casa? Como é que ia explicar aquilo para seu amigo Martins? Amigo de tantos anos, cúmplice em tantas circunstâncias desfavoráveis, como ele poderia entender uma coisa dessas?

Continuava precisando de Deus, o Deus antigo, do judaísmo antigo que punia com rigor. Que era também o Deus cristão. Eis aí dois povos chegados a uma punição, pensou Francis, judeus e cristãos. No começo era tudo a mesma coisa. Aí veio Jesus. Para uns o Messias, para outros não era messias coisa nenhuma. Não acreditaram na história da Virgem Maria. Era isso, pensou, era essa a verdadeira diferença que separava judeus de cristãos, a crença na confiabilidade das mulheres. O mesmo tronco de origem, rituais bem semelhantes, representações e conceitos comuns, mas para os cristãos houve um messias, Jesus. Os judeus não aceitaram. Desde então os cristãos passaram a ser uma dissidência, uma espécie de PC do B do judaísmo. Mas não era essa a distinção fundamental entre os dois. Do mesmo modo, ela tampouco residiria no fato de cada um ter suas referências em livros diferentes. Nem também na prática de cortar um naco do pau de seus filhos quando ainda pequenininhos. A verdadeira diferença era a opinião que uns e outros têm sobre a palavra das mulheres. Para os judeus ela não vale nada. A palavra das mulheres é tão confiável quanto aparelho eletrônico de camelô. Vejamos, por exemplo, para uma criança ser judia, refletia Francis, o pai não importa, só a mãe. E por quê?  Ora, pela constatação de que a única certeza que uma criança tem é a sua maternidade. O pai pode ser qualquer um. Então os judeus resolveram o problema decretando que, como todo homem é um corno em potencial, para ser judeu, só com mãe judia. E de nada adianta o seu Jacó argumentar:

_ Mas esposa Jacó fiel, muito fiel…

Que vai ouvir a seguinte resposta:

_ Eu sei, Seu Jacó, eu sei, até acredito no senhor. Mas a chefia lá em cima não abre exceção. Se eu aceito o seu caso, perco meu emprego e amanhã a fila aqui vai rodar quarteirão.

E fica o Seu Jacó inconformado com a falta de sensibilidade do preceito.

Já o cristão tem um procedimento oposto. Acredita em tudo o que as mulheres falam. A moça ficou grávida e aí ia ser um alvoroço. Mas ela nem piscou, encarou a família, assumiu a gravidez, mas alegou que continuava virgem e que não tinha sido comida por ninguém. Fora um espírito, sim, um Espírito Santo que a engravidara.

Não apenas todo mundo acreditou, como criaram uma seita em torno dessa mulher. Seita que é o maior sucesso de público dos últimos dois mil anos.

Francis começava a se achar genial com essas conclusões todas, quando bateu com o olho no relógio.

A passagem do ponteiro pela marca já mítica dos 30 segundos não lhe trouxe alívio, mas uma sensação de horror. Horror pela descoberta de que vivera apenas metade da agonia. Sentiu-se só. Entendeu que o homem é só. Era ele sentado naquela cadeira de bar, uma mão no seu pau e um relógio. A mão, o pau e o relógio: uma trindade que o mantinha conectado com o mundo. Não fossem aquelas coisas e ele cairia nalgum vazio desconhecido. Se desprenderia de vez da realidade para recantos inimagináveis. Mas uma frase dita ao seu lado o fez refletir:

_ Força aí Francis…

Frase quase sussurrada por seu amigo Martins. Mas por que Martins falara aquilo? Teria visto alguma coisa? Teria ficado preocupado com algo? Será que ele, Francis, estava em vias de desmaiar? Notou que estava ouvindo mal, suando, ficando mole, talvez estivesse mesmo para desmaiar. Quem sabe não seria uma solução? Desmaiar poderia ser um jeito de escapar daquilo. Por outro lado, ia ficar feio desmaiar ali. Seria uma maneira vexaminosa de fugir da raia. Não poderia fugir da raia. Pensou no avô, quanto era próximo do avô. Precisava reagir. Em nome da memória do avô, decidiu que ia até o fim com aquilo. Precisava defender o nome da família. Aquele raciocínio o fez resgatar os brios que havia perdido. Sentiu uma convicção inédita que quase o fez levantar da cadeira. Mas não, precisava ficar ali imóvel. Sem piscar. E principalmente manter a concentração no pau para deixá-lo quieto.
Mas justo nesse momento de reconstrução de suas energias, Bob começou a fazer uns carinhos com a lateral da mão que o deixaram alarmado. Muito parecidos com os de Vânia. Incrível, lembrou de Vânia naquele instante! Se fechasse os olhos poderia jurar que era a mão de Vânia. Chacoalhou a cabeça imediatamente na tentativa de afastar essa memória inadequada. Vânia tinha a mão mais macia, suave e jeitosa que ele conheceu. Pensar naquilo seria desastroso. Chacoalhou-se e tentou buscar qualquer outro motivo para concentrar a cabeça. Foi quando Bob olhou nos olhos dele, dentro dos olhos dele, e com uma carícia de baixo pra cima, anunciou:

_ É agora…

Francis gelou. Foi como se tivesse levado uma rasteira e perdesse o resto de equilíbrio que ainda tinha. Se deu conta de que entrava nos últimos 15 segundos. Os últimos quinze segundos, justamente o momento em que Bob avisara que seu pau ia crescer. E ele começou a friccionar seu pau, de leve. Puxa vida, fazer aquilo nos últimos quinze segundos era sacanagem, pensou indignado. Pensou e tremeu. E o pior: sentiu o golpe. Seu pau dera sinais concretos de empolgação. Pânico. Considerou a hipótese de ter um ataque histérico. Claro que seria estupidez, mas àquela altura já não controlava o raciocínio. Sentiu raiva do pau. Que merda era essa? Que descaramento. Ficar assim animadinho só porque um cara vinha esfregar a mão nele? Custava se comportar? Todo aquele esforço, todo o sacrifício pessoal que empenhou naquele quase um minuto e agora corria o risco de morrer na praia. Naquele momento viu suas esperanças desaparecerem, uma a uma, como um bando de gatos que levou um balde de água fria.

Tentou voltar à luta de classes, tinha dado certo, a luta de classes, os gregos, os sumérios, os egípcios, mas achou melhor não. Pela luta de classes ele havia chegado a Helena de Tróia, que era um perigo. Quem sabe o Papa de novo? Mas também não. Esse negócio de Papa não gostar de mulher podia fazê-lo pensar em sexo outra vez. As freiras, os gregos, as antigas sociedades tribais, o Deus do Antigo Testamento, o marshmallow, Meu Deus!, ele não conseguia se fixar em nada, os pensamentos aceleravam de um jeito que ele não sabia controlar. O ponteiro do relógio, toda aquela gente em volta, o Martins ali do lado, tão impotente quanto ele, os garçons, as pessoas olhando, sorrindo, se cutucando, fazendo comentários e se divertindo como se ele fosse uma espécie de urso de circo no meio do picadeiro, e aquela criatura odiosa manuseando o seu pau daquele jeito descarado. Queria sentir ódio de Bob, mas nem isso conseguia, não tinha forças.

A sensação de solidão ficou especialmente opressiva. E começou a afetá-lo fisicamente. Já não distinguia bem o que estava a sua volta. As coisas começaram a escurecer e as vozes ao redor se embaralharam. Mergulhou numa espécie de transe desconhecido e do qual não sabia se conseguiria voltar ou não. Sua consciência foi apagando, ouvia um zumbido distante e viu luzes brilhando ao seu redor. Ao longe começou a ouvir vozes isoladas contando números: “12, 11, 10…” Entendeu que tinha chegado ao momento crucial, e como seu pau já dava sinais claros de empolgação seria o momento que ia coroar a sua derrota. Foi quando ouviu uma voz inesperada vindo do público que o cercava.

_Vai Francis, mostra que tu macho, rapaz!

Poderia pensar que era algo irônico, mas não, o tom foi inconfundível. Alguém ali torcia por ele. Ao contrário do que parecia inicialmente, um monte de gente querendo ver o circo pegar fogo, existia alguém que estava do seu lado, torcendo por ele. Aquilo lhe deu a sensação de que não estava sozinho. Reanimou-se. Vamos em frente. Dez segundos! Não era tanto. O pau continuava empolgado, mas o tempo era curto. Talvez desse pra evitar o vexame.

Respirou, olhou ao redor e decidiu ir em frente. Deus, o Antigo Testamento, fogo e enxofre, milhares de soldados egípcios boiando no mar Vermelho, a guerra de Tróia, uma carnificina extraordinária, seu pau ameaçando crescer, e a contagem regressiva começando a empolgar os presentes “nove!… oito!…”, a cachorra morta na mesa do veterinário e incrível decote de Maria Valéria, a expectativa frustrada em torno de tufo de marshmallow no fogo, a insignificância da condição humana, “sete!… seis!…” e a sensação terrível de que o pau tinha decidido crescer. Agora era um fato, uma questão de segundos, uma corrida, pau x relógio, seja o que Deus quiser. As luzes a sua volta, o burburinho, a excitação crescente do público com a reta final, as vozes, as pessoas, as bocas se movendo em comentários e sorrisos, dedos apontando, o pau subindo, “cinco!… quatro!…”, o mundo começava naquele maldito pau, o olhar irônico de Bob, os garçons, a mão de Vânia, o silêncio… O resto é silêncio. Gostava dessa frase “o resto é silêncio”. Tem uma elegância transcendental. Nem sabia de onde vinha, mas sonhava um dia ter um motivo para dizer essa frase em público, especialmente se estivesse diante de algumas mulheres bonitas. O resto é silêncio, na verdade parecia que tudo a sua volta havia mergulhado num silêncio. Um silêncio tão gritante que ele pôde ouvir claramente três sons redentores: “dois!… um!… ZERO!!!…”, e os gritos que se seguiram, uma explosão de gritos. Aquele público fora tomado por uma tensão crescente ao longo do último minuto e agora explodia numa catarse histérica. Francis não entendia nada. Aquela comemoração era para quem? O pau subiu ou não subiu? Quando se deu conta de que não via mais o rosto de Bob pensou que talvez tivesse conseguido. Atordoado, não entendia direito o que acontecia a sua volta. Começou a perceber que as pessoas o cumprimentavam, sentiu que dúzias de braços e mãos o pegavam e o ergueram da cadeira, que era seguidamente abraçado e apalpado. Aos poucos ele voltava ao normal e saia do transe onde se enfiara. Foi quando percebeu que o Martins o abraçava emocionado e balançava seu corpo. Viu um copo estendido na sua direção por uma mão anônima. Num reflexo, pegou e bebeu sem questionar o que tinha ali dentro. Bebeu inteiro e bateu com o copo na mesa. Só então sorriu, gritou, entrou nos abraços e sentiu que estava de volta. De volta e nos braços do povo, vivendo um momento glorioso. Aqueles gritos eram para ele que sentia-se um cavaleiro andante regressando da batalha trazendo a cabeça do dragão na ponta da sua lança.  O povo da cidade libertada o ovacionava. Ao transpor o limite daquele minuto dramático, de volta ao seu mundo normal, ele sentia-se uma criatura renovada, como se tivesse renascido, enxergando a humanidade com outros olhos. Um amor profundo por toda a humanidade se agigantava dentro dele. Queria abraçar a todos. E de fato, abraçou e foi abraçado, entre gritos de comemoração, de vibração pela conquista. A masculinidade estava salva. Francis teve sua virilidade posta à prova e não decepcionou. Não foram poucos os amigos que, entre vivas e goles de cerveja, davam-lhe suados abraços. Ele mais suado que todos. Mas quem se importava com isso? O momento tinha uma força maior que quaisquer pruridos dessa ordem. Era a glória. Ele vencera Bob. E vencera diante de todos, diante do mundo. Uma pequena parte da civilização ocidental presenciara seu triunfo. As luzes e os gritos de euforia se misturavam e serviam de iluminação e sonoplastia para aquela cena apoteótica. Copos de cerveja que se batiam e derramavam para os lados, abraços apartados e até beijos entre aqueles homens tocados pela magia do momento.

***

Sentado na mesa do bar, fazendo essa regressão para entender o motivo do fim da amizade entre Francis e Martins, o grupo de amigos lembrava aqueles momentos. Mas a dúvida permanecia. O que então teria provocado esse afastamento?

Um deles soube de uma conversa que teria se seguido ao episódio do desafio. Ninguém ali havia testemunhado essa conversa, mas um ou outro conhecia quem tinha ouvido de quem. Apesar das imprecisões, o grupo deu como fato certo a existência desse diálogo. Teria acontecido na saída do bar, na mesma noite do desafio.

Extenuados pela tensão e pelo excesso de adrenalina, os dois amigos caminhavam juntos. Era já tarde da noite. Uma espécie de alegria cansada unia ainda mais fortemente os dois, mesmo nos momentos de silêncio. Lá pelas tantas, já nem tinham mais o que dizer, Francis fez o seguinte comentário:

_ Martins…

_ Fala.

_ Sabe que não é tão ruim assim?

Ter-se-ia seguido um longo silêncio entre os dois. Aliás, o que rolava é que não se disseram mais nada depois desse breve diálogo. Separaram-se mudos e permaneceram mudos um para o outro. A partir desse ponto ninguém soube acrescentar nenhuma informação sobre a convivência dos dois. Sabe-se apenas que eles afastaram-se e nunca mais foram os mesmos um com o outro. Diante dessa constatação, o grupo desistiu de ir adiante nas investigações e deu o caso por encerrado. Os grandes amigos já não eram assim tão amigos. O porque disso ninguém sabe. E o mistério permanecia na escuridão. Pediram mais uma rodada e mudaram de assunto.

FIM

InscritosEmPedra
  1. André Tricolor Virtual

    … Eita, amanhã termino de lê o texto do nosso amigo ” Orravan ” … ainda não fiz curso de ‘leitura dinâmica’ e meu miserável tempo está acabando aqui na lan (força Francis) !!!!

  2. Talvez, estejamos diante de um dos maiores contos de terror da Contemporaneidade. Confesso que ri. Dei até gargalhadas. Mas foi estranho, muito estranho…

  3. Palavras sábias Freud. “Talvez, estejamos diante de um dos maiores contos de terror da Contemporaneidade” .rsrs

    Francis, Francis, meu caro Francis..

  4. Isso sim é o que chamaria de leitura apenas para iniciados. É preciso realmente emancipar-se de todo e qualquer preconceito e de toda a repressão sexual, antes de de fato ler. Confesso que em alguns momentos senti vontade de rir, até mesmo gargalhar…Concordo também com Freud, realmente foi estranho, muitissimo estranho!Mas prefiro não tecer nenhum comentário além do que já escrevera para que não pareça mais confusa do que encontro-me no momento.

  5. Caro Orravan:
    Francis, na verdade, perdeu a aposta. Para que tanto sofrimento, tanto esforço, tanta sublimação para se revelar, no final, com a frase “sabe que não é tão ruim assim?”
    Conclusão do conto: Para gostar é só experimentar ou, se experimentar, vai gostar. Mas fica a dúvida: será que se pode generalizar?
    O conto é muito bom, sobretudo porque consegue passar para o leitor toda a aflição e angústia de Francis.
    PS – Orravan: Como v. envereda pela psicanálise, assunto de minha predileção, poderíamos conversar um pouco sobre tudo, em torno de um almoço frugal. Que tal? Beijos, Erínia.

  6. Caro Orravan,

    Que beleza de conto! A angústia de Francis e a civilização posta a prova em seus pensamentos são fantásticas! Quanto a aposta, de fato não sei se houve um vencedor, afinal o texto diz muito bem que pau não pensa. Mas houve um derrotado: Bob, que não soube da fala de Francis na saída do bar.

    Lendo o seu conto, lembrei de um caso em que um cara teve relações com uma mulher e, no meio de um 69, ela perguntou se poderia “trancar”. Ele, que não tinha a menor idéia do que isso significava, autorizou. Foi aí que sentiu, como nunca houvera sentido antes, um arrepio na nuca, quando ela enfiou o dedo na parte defensiva do rapaz. O resultado disso é que ele pediu férias e passou um mês sem sair de casa com medo de dar a bunda ao primeiro que passasse na rua.

    Pelo visto, bunda também não pensa!

    Abraços,

    Dimas

  7. Caríssima Erínia

    Sim, Francis perdeu a aposta. Para que tanto sofrimento? Sem sofrimento não sairíamos do lugar com esse conto. Foi preciso muito sofrimento para ele chegar à conclusão fatídica e trágica de que “não é tão ruim assim”.

    Mas jamais sugeriria isso como uma generalização, apenas como uma possibilidade dentro das infinitas possibilidades humanas. Afinal, o homem é o único animal que ri quando se vê apalpado por um estranho em um lugar público.

    Quanto ao convite, será uma honra e um prazer partilhar um almoço frugal para falar de qualquer tema com você. Até de psicanálise (fazendo apenas a ressalva de que eu não enveredo por essas esquisitices de Freud não, o que tem no conto é uma narrativa dentro da cabeça do personagem).

    Um beijo
    Orravan

  8. rapaxxx, essa rapaziada perrusiana pensa que a gente não tem o que fazer pra ler esse negócio desse tamanho… já não tinha conseguido ler todas as memórias, agora…

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