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A vejanização da Folha

11 comentários

Sendo leitor da Folha de São Paulo, já convivo, com alguma irritação, com o martelar constante do seu slogan diário: “Faça Serra nosso presidente”. Tudo bem, todo jornaleco, nas várias capitais desse país, tem sua tendenciosidade habitual, sempre bajulando localmente o dinheiro e o poder. Contudo, seu editorial do último 17/02 (aqui) apelou para a nojeira ideológica ao elogiar a ditadura militar, chamando-a de “ditabranda”.

Eu até que leio sobre o assunto e nunca li, na bibliografia, a conceituação da ditadura brasileira como “ditabranda” (o blog Biscoito Fino e a Massa esclarece a possível origem do termo – aqui). A FSP passa por um processo acelerado de vejanização, abandonando o jornalismo profissional pelo de esgoto. O elogio lembra seu tempo de colaboracionismo com a ditadura. Chamá-la de “ditabranda” é, sim, uma forma de aprovação; aliás, nem um pouco sutil — o próximo passo lógico é alegar a sua necessidade, utilizando uma argumentação do tipo “a-ditadura-foi-a-única-forma-de-salvar-o-país-do perigo-vermelho”. O editorial podia ser honesto e assumir seu passado: “chamamo-la de ditabranda, até porque colaboramos com a dita-cuja e, pelo fato mesmo da nossa colaboração, ela era, convenhamos, uma ditabranda”.

Curiosamente, a vejanização da FSP coincide com a direitização de Serra. O candidato à presidência repete a mania política de FHC: organizar a direita. O conservadorismo está desorganizado politicamente? Só existem imbecis na margem direita? Ora, chamem os tucanos! Eles têm o toque de Midas da reabilitação reacionária. Assim, enquanto os petistas desorganizam a esquerda, os tucanos reorganizam e salvam do limbo a direita. É o famoso pacto histórico tupiniquim para evitar rebordosas e manter o status quo.

A vejanização da FSP diz muito o que será 2010…

Mas a FSP não ficou por aí. A redação do jornal deu uma de ditabranda e respondeu violentamente aos protestos de dois intelectuais do calibre de Fábio Konder Comparato e Maria Victoria de Mesquita Benevides. Novamente, apelou-se para a nojeira ideológica:

Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua “indignação” é obviamente cínica e mentirosa.

A agressividade é inédita, até canina, parecendo raiva. E o raciocínio é curioso: como os professores não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, logo, nós podemos chamar uma ditadura de direita de ditabranda. Parece briga de menino. A FSP parece ser formada por jovens jornalistas que gostam de pirraça.

Muitos meninos precisam levar uns tabefes. Deixa-os piano, piano. É uma pedagogia conservadora, mas eficaz, assegurou-me um coronel.

(…)

Uma vítima da ditabranda e um escrevinhador colaboracionista:

 

torturado_joaquim-seixas-e-frias
Joaquim Seixas, torturado e morto, e  o velho Frias, impressionado com a candura da ditadura

 

Outra vítima da ternura da ditabranda:

 

herzog
Herzog não aguentou o tratamento carinhoso e se enforcou, segundo a versão oficial da ditabranda

 

DimasLins
  1. Eu ainda não sei ao certo o que desejava tal repórter ao redigir essa reportagem. Arrisco dizer que ele não saiu de casa desejoso de noticiar coisas boas. Também não pude perceber compromisso com a verdade. Exemplo disso foi dar a nossa ditadura o título de “ditabranda”.Adjetivo irônico ao meu ver, atingido por um ranso que pertence ao grupo social que se diz inteligente, crítico mas que usa de artíficios vis para tentar cobrir o sol com a peneira ou para justificar seu descompromisso com a verdade. Lamento muito que o jornalista tenha classificado de maneira tão desonesta a ditadura em nosso país, ao ler a reportagem senti vontade de “vomitar” todo meu repúdio em cima do responsável por tal asneira. Ufa, acho que acabei falando abobrinhas demais, caso o tenha feito perdoe-me, mas foi uma maneira de pôr pra fora tamanha indignação que me tomara.

  2. Flor, o problema é mais embaixo ainda: não foi um reporter ou um colunista de opinião que escreveu tudo aquilo — a noção esdrúxula de “ditabranda” apareceu num editorial! É a posição política dos donos do jornal. É grave. E “nota da redação” representa a redação da FSP. Resposta política e coletiva.

  3. É lamentável. Tô enojada! Não consigo dizer nada além disso. rs

  4. Rapai, a vontade é dar uma branda porrada nesses cabras.

  5. Essas coisas só tem um jeito: não ler. A revista Veja, por exemplo, há muitos anos não leio, não folheio e igonoro o que ela publica. Aí quando alguém me pergunta, “você viu a matéria da Veja?”, eu simplesmente digo que não, que não leio Veja.

    Mas o melhor é se o cidadão em questão resolve explorar esse minha surpreendente vocação para a alienação e questiona como é esse negócio de não ler a Veja. Com um prazer quase sexual eu digo: “Não leio porque acho uma porcaria aquela revista. Não me acrescenta lhufas.” O que, aliás, é a mais funda verdade.

    Mas atenção: não há aqui qualquer defesa de não ler a imprensa como um todo. Sou leitor contumaz. Apenas passei a escolher melhor. E isso faz um bem… Meu cérebro agradece, meu fígado também. E os debates políticos melhoram um pouquinho de nível. Experimentem e em pouco tempo verão que não perdem nada.

  6. Não sabia ainda do ocorrido. Lamentável! E o artigo ficou muito bom, especialmente antevendo 2010

  7. O termo utilizado foi completamente infeliz, já que não há brandura nesses regimes de exceção, qualquer que seja seu viés ideológico (embora a resposta tenha sido agressiva, aqui discordo visceralmente dos professores e de boa parte _não toda_ da esquerda, que só enxerga violência em execuções sumárias dos próprios esquerdistas. Quando o executor de prisioneiros dominados e desarmados é um regime de esquerda, surgem mil desculpas e relativizações. Para mim isso é assassinato, aqui, em Cuba, em Guantanamo, na antiga URSS e em qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo).

    Entretanto, na minha opinião o editorial não defendeu a ditadura, apenas comparou-a com suas similares sul-americanas que, de fato, foram muito mais virulentas. Isso é fato, não é opinião.

    Quanto à VEJA, tenho o orgulho de ter cancelado aquela porcaria há mais de 15 anos. Não dá para engolir mesmo.

  8. Fico pensando sobre qual foi a motivação do editorial. Pra mim, a resposta é evidente: foi uma motivação ideológica. Por isso, os fatos ficaram enviesados. A nossa ditadura matou menos. E daí? Boa parte da esquerda contemporiza com o totalitarismo. E daí? O que léu tem a ver com créu? Tais fatos (concordo contigo Edmar — são fatos, sim) ficaram deslocados na argumentação do editorial. A resposta da redação aos professores mostra bem esse “deslocamento” da argumentação. Qual era a relação de Cuba com o protesto dos professores? A redação foi direto nos mensageiros, não discutindo a mensagem.

    Na verdade, o editorial queria “provar” que Chavez é um ditador (por mais que eu tenha receio, a Venezuela não é uma ditadura). Como a “prova” precisava de recursos retóricos, já que é uma posição ideológica, fez-se comparações capciosas entre fatos.

    O argumento:

    Venezuela = ditadura
    Ditadura brasileira = ditabranda
    Venezuela = ditabranda

    Uma ditabranda sem ruptura institucional? Nunca vi e pago pra ver. Uma ditabranda com oposição, com partidos, sem presos políticos, com mídia privada oposicionista (algumas, até golpistas), liberdade de imprensa, com eleições limpas, com representação política? Nunca vi. Isso é bonapartismo? Caudilhismo? Autoritarismo sul-americano? Populismo de manual? Os termos utilizados pelo editorial refletem uma posição apriorizada sobre o que está se passando na Venezuela.

    Minha opinião: Venezuela é Chile de Allende. É uma nova tentativa de se fazer uma transição a uma forma de socialismo (qual?) utilizando o processo democrático representativo, logo, prescindindo da via bolchevique. Dará certo? Acho que não. Não haverá uma ruptura institucional? Não sei. Haverá respeito pela alternância de poder? Eis a questão. O processo todo está se condensando na figura carismática de Chavez, e isso é perigoso.

  9. A meu ver houve dois erros.

    O primeiro foi do Editorial, ao usar o termo “branda” e uma argumentação de cujo mérito discordo. É evidente que houve ruptura institucional. Censura, fechamento de congresso, etc. É evidente que o editorial foi, sim, ideológico. Não gosto de Chavez e sou contra reeleições ilimitadas, mas você está certo nesse ponto.

    O segundo erro veio da interpretação dos acadêmicos de que o editorial estaria amenizando as violências e desrespeito aos direitos humanos praticadas pelo regime. O “deslocamento” da discussão começou ali. Não consigo enxergar nenhum trecho do editorial que autorize essa interpretação, salvo o trocadilho idiota. O texto passa ao largo da questão, se centrando, como você bem percebeu, na questão das instituições. Daí a razão da resposta da redação, acho eu.

  10. Edmar, meu velho, vc é afiado na argumentação. Vc deveria ter um blog! Bem, do meu modo, e aceito tua crítica, eu fiz o que vc criticou na interpretação dos dois professores.

  11. É compreensível, já que é um tema dos mais sensíveis na história recente do país, e a tendência são reações mais apaixonadas. Fora do tema futebol (aí sou Galo sempre), sou mais frio e gosto de ler da ponta esquerda à ponta direita, para depois tentar juntar as pontas a meu modo. Às vezes concordo com um, às vezes com outro, e vamos levando.

    Mas o pior é que, falando dos debates em geral e não do nosso em particular, há um verdadeiro clima da Fla X Flu no país. Se você critica Cuba, dizem que você está defendendo Guantânamo ou Bush (ou vice-versa). Se critica os militares, dizem que está defendendo terroristas, ou Castro (ou vice-versa de novo). A cada frase você tem que fazer oito ressalvas para não ferir suscetibilidades. Isso para não falar dos excessos do politicamente correto.

    Não sei se eu teria saco para isso, prefiro ler os blogs que acho legais, como o teu.

    Abraços.

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