O gato pardo de Mônica

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O nome “Mônica” é curioso, soa meio tecnológico (nomes que terminam em “ônica” causam tal efeito, como mecatrônica, por exemplo) e dizem que sua origem é grega; porém, seu sentido está aquém da tecnologia, sendo existencial e bem humano, pois significa  “sozinha”, “solitária”. Já os cristãos têm sua Santa Mônica, a personificação da mãe cristã, talvez porque ela tenha sido a protagonista do Complexo de Édipo de Santo Agostinho. As mônicas atuais não são santas, longe disso, embora valorizem inconscientemente alguns valores cristãos; na verdade, são bem  gregas, possuindo um penchant pela solitude. E seus resquícios maternos foram reservados menos para os seres humanos do que para os… gatos. Sim, de fato, há uma afinidade eletiva entre gato e misantropia. Algumas pesquisas da UFPB, inclusive, utilizando sofisticadas metodologias quantitativas, mostraram uma correlação positiva entre mônicas e felinos.

E, realmente, a Mônica real era solitária e adorava gatos. Tinha desistido dos humanos desde o final de seu doutorado sobre antropologia do Tempo, quando se tornou uma intelectual de renome. Foi comparada a uma Margaret Mead e, por isso, seus discípulos (aliás, odiados pela suprema mestra) chamavam-na de Mônica Mead — alguns, os mais afoitos, recorriam a todo o panteão antropológico, chamando-a de Mônica Lévi-Strauss, Mônica Geertz, Mônica Mauss, Mônica Godelier, Mônica Sahlins, e por aí vai.

Aos 40 anos, já era uma pop star da antropologia tupiniquim e vivia isolada no Rio de Janeiro, cercada de gatos de nomes impronunciáveis, e só saindo para um canto: o Museu Nacional, aonde chegava, ministrava aula e corria de lá sempre assustada, após a constatação sempiterna de que os antropólogos são demasiadamente humanos. O que era uma inferência errada, convenhamos, pois os antropólogos não são humanos; na verdade, são… bem… er… deixa pra lá.

Rompera até com seu melhor amigo, porque o mesmo comera, sem querer, uma carne de gato num jogo do Santinha.

_Na hora, você sabia, você sabia! E você gostou! Vociferava a antropóloga
_Como poderia adivinhar que era carne de gato?! Carne não mia! E o molho era coloral puro! Uma delícia…

Não adiantou a lógica e a coerência. A amizade acabara ali. Além do mais, seu amigo não conseguia decorar os nomes de seus felídeos, o que era uma falta imperdoável, segundo as diretrizes da ABA (associação brasileira de astrolo…, ops!, quero dizer, antropologia).

Um dia, aconteceu uma desgraça, e teve que viajar à Cidade do Recife. Bem, a viagem, eu conto como a viagem foi.

(…)

O comissário de bordo estava nervosíssimo. Diante dele, estava a famosa Mônica dos Gatos do Museu Nacional. Ele sabia dos boatos sobre o gênio terrível da famosa passageira. Irascível era um eufemismo, diziam. Mas, até aquele momento, a antropóloga do Tempo comportava-se bem e parecia simpática. Talvez, pensou o comissário, por causa da garrafa de vinho Santa Carolina que a dita-cuja tinha derrubado com imenso prazer. Afinal, além dos gatos, amava os vinhos – até dos mais baratos, diziam as más-línguas.

O comissário sabia que Mônica Eliade, para a viagem de avião, despachara um gato numa gaiola. O rapaz tinha pavor a gatos –  sofria de elurofobia, uma doença grave inventada pelos egípcios antigos. Mas, não querendo correr riscos, foi ao lugar da aeronave onde estava o bichano. Queria saber como estava o animal. Quando olhou a gaiola, ficou branco feito a neve da Serra das Russas e quase desmaia. Ainda refletiu sobre o nome da serra. Não seria “ruço”, de nevoeiro? O que os russos, afinal, tinham com isso? Será que enviaram conselheiras russas às Ligas Camponesas, e  seu quartel-general ficava naqueles montes de muitos picos?  O comissário apresentava, de vez em quando, esses devaneios, o que incomodava muita gente, principalmente suas namoradas, que acabavam o namoro por puro tédio; mas, dessa vez, voltou rápido à realidade. E a realidade era trágica. Para o seu supremo horror, o gato estava morto. Mortinho da silva, pelo que pôde reparar, ao cutucá-lo várias vezes com uma vara. Começou a suar de medo, já antecipando a ira da antropóloga diante da calamidade. Era seu quinto vôo pela companhia aérea. Era ainda um estreante na sua profissão. Era muito azar. Por que aquele maldito gato pardo morrera assim, sem motivo? Podia perder seu emprego. Mônica Dumont poderia até acusá-lo de assassino de gatos, demonstrando que os elurofóbicos são capazes desse tipo de atrocidade.

Não pensou duas vezes: decidiu encontrar um igualzinho ao gato pardo. Enganaria uma antropóloga, é certo, mas pagava pra ver. Não queria arriscar o emprego. Além do mais, todo mundo dizia que era fácil enganar antropólogos; afinal, eles acreditavam piamente no que diziam seus entrevistados. Tinha lido, inclusive, que Margaret Mead tomara como reais as fantasias sexuais de polinésios reprimidos. Por que Mônica Becker não cairia no conto do gato trocado?

Assim que o avião aterrissou, telefonou a Deus e o Mundo, pedindo um gato pardo. E não é que encontraram um gato da mesma idade e do mesmo tamanho do falecido? Até o pêlo reluzente era o mesmo. A cor dos olhos… tudo! O comissário levou Mônica Boas a uma sala no aeroporto. Tinha que distraí-la algum tempo, pois o gato substituto demoraria ainda a chegar. Ofereceu vinho. Pegou uns tomates maduros e esfregou no pão, colocando muito azeite. Sabia que Mônica Benedict adorava essa iguaria de pobre lascado da Catalunha (inclusive, o comissário tinha lido seu famoso livro sobre dieta catalã); afinal, a antropóloga fora uma operária em Barcelona quando era jovenzinha. Mesmo assim, Mônica Bateson estava inquieta. Queria sair dali e encontrar seu gato.

_Cadê meu gato? Perguntava, indócil.

E tome vinho e pão com tomate. O comissário até entabulou uma conversa sobre os bororos para desviar o assunto.

_É verdade que eles pensavam que eram araras? O comissário desconfiava que os bororos tivessem enganado Lévi-Strauss.
_Lévi-Strauss jamais foi enganado. Ele que enganou todo mundo! Disse, corporativamente, Mônica Girard.
_O resultado não é o mesmo? Insistia o comissário. Mas sabia que não sustentaria, durante muito tempo, essa conversa. Arriscou, assim, uma última polêmica.
_É verdade que Levi-Strauss achava a Baía da Guanabara uma boca banguela?

Antes que levasse uma bronca pela besteira, enfim chegou a gaiola e o gato.

Mônica Leiris deu um grito e caiu no chão de joelhos, rezando um cântico zulu — e bradou:

_O que aconteceu com meu gato?!

O comissário começou a gaguejar:

_Mas o gato é lin-do… adorou a via-gem… não para-va de miar de felici-dade… nunca vi um ga-to assim…e ele está vi-vo, né, vivinho da sil-va!

Mônica Shapiro começou a chorar. Seus olhos estavam arregalados. Parecia possuída por um fervor místico. Começou a recitar em esquimó: _inuit dogon kabylla! O comissário não agüentava de tensão. Sua malandragem fora descoberta. Perderia o emprego. Estava lascado.

Foi aí que Mônica Lourdes exclamou, deixando o queixo do comissário caído até a sola do sapato:

_É um milagre! Meu gato estava morto. Tinha sido eletrocutado na banheira, quando eu utilizava o secador de cabelo. Eu estava tão culpada… Queria enterrá-lo em Recife, onde o encontrei. Não acredito — ele está vivo!

(…)

Mônica Little, para sorte do comissário, não sabia distinguir a diferença entre um gato pardo e um outro da mesma cor — era antropóloga e não filósofa, já que somente os filósofos sabem distinguir as diferenças entre gatos pardos, principalmente à noite. Se olhasse mais atentamente o focinho, teria descoberto a farsa. Depois desse acontecimento, tornou-se mística. Assim, toda vez que morre um gato na sua casa, viaja de avião com o morto, esperando um milagre aéreo. Nunca mais aconteceu o evento miraculoso, é verdade, mas sua crença continua inabalável, e isso, cá entre nós, é o que verdadeiramente importa.

Já o comissário foi pego pela Vigilância Sanitária, tempos depois, vendendo carne de gato nos jogos da Coisa. Descobriram que torturava os bichanos, antes de assá-los vivos na panela. Quando as pessoas são incorrigíveis, não mudam nunca, exceto para pior.

Obs: o texto foi baseado numa crônica de Cony (“o poder que tudo pode” – FSP, 10 de junho de 2000)

7 Comentários para “O gato pardo de Mônica”

  1. Flor de Liz:

    Que horror, mesmo tendo aversão aos felinos, fiquei com peninhas dos pobrezinhos que são torturados diariamente por aí! rs
    Ah, e quanto as pessoas incorrigíveis não mudarem nunca, exceto para pior, concordo em número, gênero e grau.Eu mesma sou prova viva dessa constatação!

  2. a fúria catalã:

    Como Lévi-Strauss, Mónica Mead sabe, de fato, enganar um comissário. Aliás, faz anos que usa o mesmo truque para trocar carne de churrasco por gatos de pelo lustroso. Já viajou de avião, de ônibus, de trem, de carona em bicicleta e assim conseguiu manter sempre sua tríade: Inuit I, II e III; Dogon I e II (o do avião), Kabila I. Pois como se diz na terra dos tomates esfregados no pão: a rey muerto, rey puesto.

  3. Fernando:

    Existem Mônicas que acham que lugar de gato é na chapa. Ou no espetinho mesmo. E jamais embarcariam levando um deles junto.

  4. Flor de Liz:

    Creio eu ser uma dessas ‘Monicas’ que preferem o bichano na chapa ou no espetinho…bem passados, diga-se de passagem! rs

  5. ducaldo:

    Tô com a Flor de Liz.

    Eu não suporto gatos, mas nunca fiz espetinho de nenhum- embora, vez em quando, me bata uma vontade danada.

    A moça do texto está mais pra Mônica Mad.

  6. Flor de Liz:

    Só pra constar: Eu também nunca fiz espetinho de nenhum! Eu hein, já pensou se alguma entidade protetora dos felinos encasqueta comigo e resolve promover ações de represália contra minha humilde pessoa.

  7. VanVan (gato sianês):

    Eeeeeeeiiiiii!!!! Vocês leram direito o letreiro?! Diz: “Churrasquinho do Ceará”, sou euzinho na fita, flagrado me virando pra completar o salário da particular em que dava em Fortaleza em plena esquina da 24 de Maio com São Paulo… ôôôôôô saudade… gente de verdade, conversas construtivas comida gostosa só fié miau de gato “sianês”. Tempos bons, ai veio o concurso pra UEPB, Intermares e a vida perdeu o encanto… tartarugas são pobres em proteinas!

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