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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – XI

(Exultate, Jubilate)
CAPÍTULO 11°
Puxa! Com três meses de trabalho, já estava cheio de manusear tanto papel velho dos Arquivos da Diocese. Meu livro alternativo sobre a História do Cristianismo avançava e eu já havia provado cientificamente que Jesus havia morrido com mais de quarenta e cinco anos, baseado no Evangelho de São João.
Numa dessas tardes, aparece Quinzinho me chamando com urgência na Comunidade, pois Socorrinho estava com as dores do parto. Meu Deus! Há quanto tempo festejara as carambolas e quase me esquecia dos caroços que jogávamos no quintal do Convento das Noviças! E como o tempo passa tão rápido! Mas, qual o quê? Pelas minhas contas, faltava ainda um mês. Não acreditei, mas Quinzinho insistiu dizendo-me que o Monsenhor já estava por lá. A coisa é séria, pensei. Não se tratava de nenhuma dorzinha de barriga como Socorrinho costumava ter.
Nada de pescaria nem de siri nem de bagre. Levamos Socorro para a maternidade no carro da Paróquia, emprestado por Braguinha.
Duas horas da madrugada de um dia 15. Diagnóstico imediato! Começo da délivrance! Mas, foi mesmo num dia 15? Sei lá!
Lembro-me apenas de que, no dia seguinte, era o pagamento dos sacerdotes, sempre no dia 16. Uma fila enorme de padres se formava na calçada do Palácio do Bispo, que nem as do SUS, para receber uma merreca. Por isso mesmo, havia muitos processos canônicos contra padres que afanavam boa parte dos óbolos dominicais. Eu mesmo presidi alguns e absolvi todos eles. Ora, os pastores evangélicos não ficam ricos explorando os fiéis? Por que, então, os padres não podiam também fazer uma fezinha na carteira das beatas?
As roupas do bebê ainda não estavam prontas. Aliás, ninguém as havia providenciado e o bebê nasceu e foi enrolado numa toalha do Hospital, mais parecida com uma estopa velha de limpar banheiro. E assim ficou por uma semana até que Vó Dé fez umas fraldas de crochê e o Monsenhor comprou um enxoval meio sem graça.
Aliás, ainda não sabia por que Braguinha era o mais entusiasmado com o nascimento do bebê.
E daí? Joaquim Braga Neto nasceu como se fora um doce pluff, isto é, sem nenhum problema de parto. Um menino gorducho, mas pequenininho. Quase prematuro, do tamanho de um dedo mindinho! Careca ainda mais. Não houvera tempo para os cabelos crescerem. E não parecia nada com um siri, diga-se de passagem. Nem com carambolas, hehehehe…
Joaquim chegou, portanto, sob as bênçãos de uma belíssima carambolada e de uma histórica e bem sucedida fuga do Convento. E num feriado nacional! Ou estadual, municipal ou, quem sabe, universal. Por isso mesmo, talvez, o bebê era calmo e preguiçoso! Como qualquer feriado, aliás! Aparência apenas! Veio mais cedo porque já estava cheio de viver à custa dos outros, na barriga da mãe, e pleno de curiosidade pelo mundo lá de fora, sua marca registrada em todo o seu posterior crescimento.
Para mim, foi como uma explosão de prazer instintivo, animal, natural, primitivo, atávico, sensual, sexual, intelectual, existencial! E não sei mais o quê!
Fiquei olhando, olhando e olhando. Contando, inúmeras vezes, os dedinhos encolhidos pra ver se faltava algum. Não! Tratava-se, segundo a enfermeira, de um mamífero humano macho saudável, embora apressado.
Socorrinho perguntou quantos dedos o menino possuía. Contei de novo. Na emoção, falei que havia apenas oito.
─ Com quatro patinhas de siri? ─ Perguntou chorosa.
─ Não! Na verdade, são doze. Sei lá, Socorrinho! Quando chegar em casa, a gente conta novamente. ─ Respondi confuso.
A mãe, então, botou pra chorar até que o Monsenhor Braguinha contou devagar, um por um, e deu a cifra definitiva: dez dedos nas mãos e dez outros nos pés. Tudo pequenininho!
O bebê era legal, mas só vivia com dor de barriga. Não tinha leite que desse certo. Todos os dias, saindo da Arquidiocese, eu passava na vacaria de Seu Alcides, na Torre, pra buscar leite ainda fresquinho, num engradado de madeira, especialmente feito para isso pelo marceneiro da Comunidade.
Nos primeiros meses, Joaquim tomou mais chá de folha de mangue, anti-espasmódico muito bom, segundo o Dr. Quin, do que leite e suco de frutas. E lá ficava eu com ele colado na minha barriga tentando amainar suas cólicas habituais.
Depois, virou a casaca e começou a ter prisão de ventre. Uma fábrica de cocô, sem dúvida! Artista consumado, certamente!
Mas, foi crescendo. Quando queria dormir, fazia um ar choroso e eu o levava para o berço improvisado. O choro passava imediatamente e ficávamos brincando de arigarê-garê (cantiga inventada por ele mesmo), até dormir.
Quando voltava do trabalho, à tardinha, o Brucutu, como eu o chamava, gostava de exibir sua arte de engatinhar. Para me chamar a atenção, queria enfiar o dedo na pata de um siri que eu estava engordando perto de nossa cama de lona. Seria um presente pra Monsenhor Braguinha por tudo o que ele fizera por nós. Havia inúmeros lugares em nossa palafita pra se botar o dedinho, mas o bebê escolhera justamente aquele e somente na minha presença. Impedia-o, é claro, de terminar seu gesto.
De tanto me levantar pra não deixar que o siri o mordesse, resolvi aplicar as teorias de Pavlov.
Esperei, fingindo que estava lendo, que o bicho viesse se exibir na minha frente. Então, quando ensaiou o gesto temerário, dei-lhe uma palmadinha na mão. Nas primeiras vezes, ele saía do quarto aos prantos. Fui em frente. Até que, uma vez, sem olhar pra mim, lá vem aquela aranha branca e lourinha, quase careca e, descaradamente, estende o dedo para a pata aberta do siri. Mais do que depressa, levanto-me da cadeira de balanço para lhe aplicar mais uma palmada.
Nem me deu tempo o sem-vergonha. Pressentindo o golpe, recolhe a mão, vira-se pra mim, dá um riso dos mais safados e volta para a sala engatinhando. Ufa! Pensei. Pelo menos aprendeu. De mordida de siri, ele não poderia se queixar quando crescesse.
Na cama, Joaquim gostava de brincar de “guerra de aranha”, a única expressão que me vem à cabeça para explicar o jogo que ele mesmo inventara. Suas mãos, com os dedos bem abertos, ficavam avançando e recuando em direção das minhas, e vice-versa até cansar. Eu mais do que ele.
No entanto, o bebê não queria andar, mesmo depois de completado um ano de vida. Preferia ficar no quadrado, quietinho, dormindo ou ouvindo o concerto de Mozart para harpa e flauta, um dos poucos discos de que dispúnhamos, emprestado pelo Monsenhor Braguinha.
Num domingo, Dia das Crianças, houve um farto almoço de siri com farinha de mandioca na palafita de Dr. Quin. Todos os meninos reunidos na maior algazarra. De repente, Socorrinho grita e lá vou eu pensando em alguma coisa terrível. Um mergulho no Capibaribe! Uma queda do guarda roupa! Uma mordida de cobra coral, trazida pela última cheia!
Nonada! Simplesmente, Joaquim resolvera andar sozinho, de uma palafita a outra, cerca de vinte metros de distância. Parecia um bonequinho que tivesse tomado um pileque ou ligado alguma chave. E lá estava, enfim, o bebê andando. Lembro-me de que ele dava as maiores gargalhadas, mesmo sem muitos dentes ainda para mostrar.
Safado, como sempre!
Do “arigarê-garê” à palavra articulada. Antes da alfabetização, ocorrida na Escola da Paróquia da Torre, ganhou o prêmio anual de Bom Camarada, isto é, o melhor e mais amável colega de classe.
Contudo, parece que Joaquim só conhecia o ponto de interrogação.
Meu Deus! E como perguntava! Fazia mais perguntas do que todos os quinhentos e tantos moradores da Comunidade. No princípio, somente besteira. De onde vem o homem? O que é o céu? Por que o Santa Cruz perdeu novamente? (Ele acompanhava pelo rádio, junto comigo, os jogos do Santa).
Às vezes, chegava a pedir desculpas por tantas perguntas. E lá vinham outras de novo. Respondia quase sempre com uma boa dose de bom senso, outras de non-sense e, na maioria, usando meu próprio imaginário. Daí em diante, tornou-se meu companheiro e amigo predileto.
Contudo, certa vez, a família me ajudando no término do meu terceiro livro, Joaquim se atrasou da saída da escola. Ficamos preocupados. Ele acabara de completar oitos anos de idade. Meia hora depois do habitual, ele chega muito sério. Senta-se na mesa e começa a falar:
- Quero pedir uma coisa, mas, desde logo, aceito o que vocês resolverem.
Curiosos, eu e Socorrinho esperamos que sua hesitação passasse, até que nos disse:
- Atrasei-me porque fiquei olhando a vitrine da livraria. Tem um livro muito legal, mas não sei se vocês têm dinheiro pra comprar.
- Que livro? – Perguntamos.
- É sobre os dinossauros, cheio de desenhos. Muito caro. Custa dezoito cruzeiros e meio.
Difícil pra gente alocar tanto dinheiro em nosso parco orçamento de sacerdote. Sua mãe, sempre a mais ativa e pragmática da família, imediatamente pegou a máquina de calcular do vizinho e concluiu:
- Se a gente economizar um cruzeiro diariamente, cortando o cinema, o sorvete ou qualquer supérfluo, acho que dá pra comprar o livro. Num mês, a gente se refaz.
Bobagem! Ninguém ia pra cinema nem tomava sorvete por absoluta falta de grana.
Joaquim comprou o livro e o decorou inteiro. Pedia-nos que dissesse qualquer período geológico e ele completaria todo o quadro da pré-história. Da frente pra trás, de trás pra frente, inclusive os difíceis nomes científicos das diversas espécies de dinossauros.
Daí em diante, exceto o Santa Cruz, a leitura constituiu-se no seu maior prazer. Até hoje! Primeiro, ainda na infância, foram as revistas de quadrinhos, que ele comprava ou roubava do jornaleiro da esquina, e lia com avidez. Até hoje é viciado nelas.
Depois, em troca das perguntas, que continuavam na adolescência, eu mandava que fosse ler. Estava tudinho naqueles livros das bibliotecas do Dr. Quin e do Monsenhor. E ele que se virasse.
Mas, chegou o tempo de coisas sérias. Daí por diante, comecei a ser mais cauteloso. Na Comunidade, a educação religiosa era proibida para as crianças. Segundo Dr. Quin, quando crescessem, poderiam acreditar no que quisessem e nós respeitaríamos suas crenças. De preferência em Dudulaidadá! Na verdade, uma excelente filosofia pedagógica, aprovada por toda a Comunidade.
Estávamos no meio do almoço, quando o Joaquim de doze anos, aluno do Ginásio da Torre, me faz a pergunta mais embaraçosa, embora já esperada, de todo o nosso projeto educacional:
- Papai! Deus existe mesmo?
Respondi-lhe com toda a franqueza e clareza de que era capaz.
- Quincas! A maioria das pessoas acredita, embora não haja indícios convincentes da sua existência. No entanto, ao contrário da maioria, eu não acredito, embora tampouco possa provar que Deus não exista. Mas, uma coisa é certa. Jamais tenha medo de discordar da maioria. Além disso, você mesmo poderá decidir, quando crescer, se deve ou não acreditar na existência de um Deus, seja ele qual for.
E Joaquim cresceu! Tornou-se catedrático da disciplina “Assuntos Diversos”, vencendo, em concurso público, o então jovem e confuso Unger Mangabeira. Numa dessas Universidades da vida! Hoje, tornou-se Reitor da Interseas University, no Estado de Andaíba, ali bem pertinho do equador.
Tudo decidido por ele mesmo.
E é só! Não tenho talento para fazer biografias. Além disso, ainda há muita coisa pra contar. Coisas importantes enquanto meus filhos cresciam.
Toda a Memória (Falsa?!):
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X

















Minhas preces foram atendidas ou terá sido apenas mais uma das coincidências dessa vida? Pouco importa, a verdade é que muito me alegrou vir mais uma vez aqui e me deparar com mais um capítulo de vossas memórias reverendo.
Abraços.
Ma petite Fleur: Foi bom você não ter ido me encontrar no Galo. Imagine que levava o barril de vinho equilibrado na minha cabeça quando cruzei com Perrusi Filho fantasiado de Siri Mole. Ou foi o contrário? Não sei! Estava bêbedo e dei-lhe o maior sermão. Prometeu publicar o XI Capítulo mas deu-me o maior empurrão. E lá se foi o barril pro chão. Foi vinho de Missa pra todo o lado. Depois, deparei-me com dois pitbull que estraçalharam minha tanga de couro de gato. Esqueci que cachoros não gostam de gatos. Felizmente, deixaram o resto. Mas, fiquei fantasiado de Adão em plena Avenida. Foi quando passou a Banda Eva que, providencialmente, me acolheu no seu trio elétrico. Eva me deu uma nova tanga e, assim, pude voltar para a Comunidade. Contei tudo ao Dr. Quin Jr. –Hum,hum,hum, resmungou. Convide a moça para nos visitar que ainda restam algumas costeletas de gato. Diga-lhe que traga uns trocados que nossa Ong de Proteção aos Sapos não recebe mais verba do PAC que, agora, financia apenas D. Dilma. Mas, imãzinha, você não achou meu filho Quincas uma gracinha? Mnha bênção felina.
Nossa, realmente foi bom eu não ter ido ao seu encontro. Perrusi Filho acabou com nossos planos de tormamos aquela sangria juntos durante o desfile do Galo, né? Maldade total a dele…realmente ontem não era o seu dia reverendo.Agradeço o convite, prometo-lhe fazer uma visita em breve e levarei comigo donativos para a Ong.Quanto a Quincas, realmente é um belo rebento, muy hermoso!Podemos num futuro próximo promover o encontro do seu Quincas, com Florzinha de Liz ( a filha que espero ter um dia) rs
Bem, vou indo… preciso me apressar para curtir os festejos carnavalescos subindo e descendo as ladeiras da belíssima Olinda (Oh Linda) rs
Forte abraço!
Quincas tem as pernas cangalhas, é meio surdo e se operou de adenóides. Não se pode confiar num sujeito assim. Além disso, há suspeitas que seja produto de um acasalamento entre uma lagartixa radiativa e uma tartaruga de Intermares.
Pelo relato do Reverendo, Quincas me parece ligeiramente familiar. Se não for efeito da ressaca…..
Se o Mangabeira Unger já falava com o sotaque de Dr. Strangelove deve ter sido moleza vencê-lo num concurso.
O sapo barbudo cortou a verba para a ONG de proteção aos sapos? Que falta de consideração para com os seus congêneres.
Aposto que foi tudo desviado para a plástica que D. Dilma veio exibir no carnaval do Recife.
Minha nossa, acho que o reverendo tá sendo vítima de uma conspiração…
Nem Quincas fora perdoado, tadinho!!!
Credo Artur, como você é mal!
Ainda assim reverendo pode contar com minha visita a Comunidade, em breve darei o ar da minha graças por aí.E não esqueça de separar o melhor vinho de missa que tiver para sangrarmos.
Aquele abraço!
Irmã Flor de Liz: Obrigado pelo apoio. Esse tal de Artur não passa de um vil caluniador. Provarei nos tribunais que meu Quincas tomava vermifugos que expleliram todas as adenóides. Pelo lugar adequado! Esse Artur também confunde “pernas tortas” com “pernas tortuosas”, uma vantagem evolutiva. Foi com elas que Quincas percorreu todas as veredas do Senhor, craneadas em meandros suaves para deleite dos mamíferos humanos que detestam linhas retas, exceto os arquitetos. Como sacerdote ateu e excomungado, sei do que falo. Apesar de inimigos, pedirei ao Psiquiatra de Intermares que lhe faça uma visitinha bacana e lhe administre pílulas roxas e amarelas, cianureto com enxofre. E lhe ponha pela guela milhares de adenóides. E que ele deixe meu Quincas em paz. Minha bênção revoltada.
Reverendo, não precisa agradecer pelo apoio. Perdoe esse tal Artur, ele não sabe o que diz! rs
E por favor, nada de revolta… Percebo que o Sr tem um bom coração, mesmo com as intrigas da oposição consegue pensar no bem do difamador, né?
Aproveite os restinho do carnaval e não esqueça de que em breve tomaremos aquele vinho de missa juntos, viu?
Beijos
Imãzinha: Obrigado novamente. Pensei, num momento de revolta, que, se esse talzinho de Artur não se retratasse, não haveria mais Memória nenhuma. Esquecí-me de tudo. Ele se esquece também que Nosso Senhor sempre escreve em “linhas tortas”. Talvez pra ninguém entender, salvo Nosso Líder e Dona Dilma. Mas, com a promessa de tomar vinho com a Irmã, meu coração já se abrandou. Minha bênção resignada.
Eu sabia que isso amoleceria seu coração, não que precisasse… Então é só marcar o dia e o local que lá estarei a vossa espera!Quem sabe a gente até convide esse tal Artur pra um brinde, né? E Marocas ainda encontra-se em Intermares aos cuidados do Psiquiatra?
Irmã Flor: Marocas insitiu em levar quatro netinhos para a consulta em Intermares. Um bebê chorão de 6 meses, filho de Zé Amansa-Gato; outro menino de quatro anos, que anda e corre o tempo todo, filho de Jacó Goiaba; uma menina de oito anos que vive fazendo perguntas sem deixar ninguém dormir, filha de Janjão Calado; e, finalmente, outra menina de 12 anos, a mais sensata que fica quietinha o tempo todo, filha de Pedro da Jangada. Ocorre que o Psiquiatra de Intermares é um misógino que detesta crianças. O resultado da consulta foi um desastre da mais pura loucura. Minha neta de 12 anos teve, então, a idéia de chamar os bombeiros e todos foram parar no Hospício de cinco estrelas de Intermares. O Diretor, que tem uma séria disputa sobre Freud com o Psiquiatra de Intermares, resolveu internar os dois. Sob meus conselhos, Marocas ficará quinze dias no bem-bom do Hospício –pra se curar de sua recente paixonite pelo padeiro da esquina–enquanto o diabólico Psiquiatra de Intermares ficou internado por tempo indeterminado. As crianças voltaram de jangada e estão bem. Mas, porém, contudo, todavia…Sou um sacerdote velhinho e muito tímido. Por isso mesmo, gostaria que você mesma, Formosa Flor, marcasse o local, o dia e a hora de nossa sangria. Acabo de receber um novo barrilde Vinho de Missa diretamente do padre Lebonne, pároco de Bordeaux. Envelhecido desde os dias da Inquisição. Aguardo suas notícias, com minha bênção precoupada (pelo estado de Marocas).
A sua benção reverendo. Sinto muito pelo ocorrido, não por Marocas e pelo dito cujo do Psiquiatra de Intermares mas sim pelas crianças. Ainda bem que elas estão bem!Hum…então fica a meu critério a marcação da melhor ocasião para a nossa sangria, né? Pois bem, se não tiver nenhuma objeção de vossa parte, te espero amanhã ao cair do sol na Praça do Marco Zero. Estarei trajando um vestido de chita e portando uma flor de liz nos cabelos para que me reconheça. E pensando bem, a internação de Marocas fora providencial, confesso que só de pensar que ela poderia aparecer de surpresa no local do nosso encontrar me tremiam as pernas. Nunca se sabe o que se passa na cabeça de uma mulher, não é mesmo? rs
Espero uma resposta sua para confirmação do nosso encontro.
Beijos
Irmã Flor de Liz: Veja o que me aconteceu. Apesar dos conselhos contrários do Dr. Quin, pois sofro de osteoporose crônica, resolvi aproveitar a última noite de folia, em Olinda. Fantasiei-me de sapo boi, em homenagem à nossa Ong, e lá me meti na multidão. Na primeira tentativa, deram-me um safanão daqueles e fui parar numa grade ferro na calçada. Fiquei lá estirado gritando de dor. Felizmente, passava o Bloco das Pererecas do Bebebribe, filial de nossa Ong. Reconheceram-me e me levaram para um Hospital. Diagnóstico: torção violenta no tornoselo e fratura exposta na tíbia esquerda. Operam-me de madrugada e, agora, acordo da anestesia com a perna toda engessada até o dedão do pé, sem previsão de alta, devido à minha pressão alta. Pelo dito, infelizmente não poderei encontrá-la no Marco Zero ao por do Sol, mesmo porque está chovendo pra dedéu e não tem sol nenhum pra se por. Mas, a esperança fica:de sua prometida visita à nossa Comunidade. Guardei o barril de Vinho de Missa de Bordeaux e a receberemos em uma sessão solene de nossa Ong. Os nossos sapos vão delirar com tão ilustre visita. Com minha bênção engessada.
É uma pena Reverendo, sinto muito pelo ocorrido e estimo vossa breve recuperação.Sinto ainda mais por não termos nos esbarrado lá nas ladeiras de Olinda.Acredite o senhor que eu estava por lá também curtindo a última noite da folia e creio ter visto de longe o senhor caído lá na calçada, mesmo sem saber de quem se tratava ainda tentei ir ajudá-lo mas quando ia me aproximando uma multidão ensandecida passou por mim e me fez perdê-lo de vista.Veja só, como as coisas são!Mas não se preocupe, a promessa da visita está de pé.Estarei apenas esperando notícias de seu completo re-estabelicimento para que tão logo possamos remarcar a data da sangria, ok?
Não esqueça de ir me dando notícias suas por aqui!
O meu beijo preocupado (pelo seu estado) rs
Bom dia reverendo! A sua bênção. Estou aqui para saber notícias de seu estado de saúde.Espero que esteja bem dentro do possível!Me diga uma coisa, estás sendo bem tratado? Creio que haja visto o ocorrido com o senhor, o melhor a ser feito é pedir que antecipem a alta de Marocas do Hospício 5 estrelas de Intermares, né?Numa situação como essa releva-se até a paixonite dela pelo tal padeiro da esquina.Bem, é isso.
Meus mais sinceros votos de melhoras!
Abraços.
Reverendo, estou preocupadissima com seu estado de saúde.Estive agora a pouco na comunidade para fazer-lhe a prometida visita e aí chegando me informaram que o sr não estaria podendo receber visitas. É um pena, mas creio ter sido orientação de Marocas, que tomada por um acesso de ciúmes fizera isso. Meus planos eram de traze-lo juntamente com Marocas para almoçarem aqui comigo. Acredita que já havia preparado um belíssimo spaghetti ao funghi? Hum… ele está com uma cara ótima e modéstia a parte deve está uma delícia também!Acho que deveria ter avisado antes que iria aí vê-lo e busca-los para o almoço, né? Fica para uma próxima oportunidade.Estarei esperando anciosa notícias de sua recuperação para que tão logo possamos tomar aquela sangria que mais parece está virando lenda.