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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – X

9 comentários

 schubert

(Dominus tecum)
(Schubert?! Não, Tsé-Tsé de pince-nez!)

10° CAPÍTULO

Já me tornara famoso no Seminário e vivia assobiando o tempo todo por causa do meu deleite quando encontrava minhas noviças engorduchando na Comunidade.

Faltava apenas uma semana para me ordenar e passei uma tarde inteira sendo instruído pelo Monsenhor Braguinha pra não fazer besteira na cerimônia. Ganhara uma cruz de prata, com um brilhante no meio, de presente da Arquidiocese como prêmio de melhor aluno em todas as sagradas disciplinas, especialmente a de Ética Cristã.

─ E, agora, Tsé, chegou a hora da onça beber água. Em linhas gerais, você já foi instruído pelo Reitor juntamente com seus colegas. Mas, tem um ponto essencial que escapou à burrice daquele padre salafrário e ignorante. Não sei se você sabia, Tsé, mas eu estava na bica pra ser nomeado Reitor, quando o sacripanta se intrometeu como afilhado de um Deputado. ─ Começou a falar Braguinha.

─ É! Parece fácil. Mas acho humilhante aquele negócio de ficar deitado aos pés do Arcebispo. ─ Disse bem rápido pra não ouvir novamente a história da substituição no reitorado, de última hora e por influência profana como, quase sempre, ocorre na Igreja. Tráfico de influências, na verdade.

─ Também acho! Mas são os ossos do ofício e você vai ter que agüentar. Depois, com a bula de sagração e nomeação no bolso, a gente faz o que quiser e bem entender. Veja bem, Tsé! Os gestos serão os mesmo dos outros. Mas, tem um detalhe. Como você já sabe, a Igreja tem três línguas oficiais: o latim, o antigo grego e o aramáico, a única que Jesus falava. Sei lá! Talvez até tenha escrito alguma coisa, mas ninguém sabe. Já se levantou a hipótese de haver um “Evangelho Segundo Jesus”, escrito pelo próprio. Pura especulação escolástica. Nada mais!

─ Tudo bem, Monsenhor! Mas, não podia abreviar um pouco? Irene está com fortes cólicas e fica com medo de perder o filho. ─ Argumentei.

─ Não é o primogênito? Pelo amor de Deus! ─ Emocionou-se Braguinha.

─ Não! Pelos nossos cálculos, o primeiro vai ser de Socorrinho. Aliás, está ficando chata me acusando de traição. Dr. Quim já disse mil vezes a todas as três que na Comunidade tudo era diferente e a transa era livre tanto para os homens como para as mulheres. Mas, ela ainda não se conforma.

─ Pois bem! Voltando ao nosso assunto ─ como dizia meu Professor de Geografia ─ você pode escolher em qual das três línguas quer fazer os juramentos. O de castidade já era, mas vai ter de repetir. E esse é o principal problema. Ou você mente ou não se torna sacerdote.

─ Bobagem, Monsenhor! Mentir, a gente faz todo dia na missa. Além disso, esse dogma precisa ser revisto. As noviças, por exemplo, só pensam naquilo. Qual o problema?

─ Mas o dogma ainda não foi revisto! E se depender desse Papa que está aí!

─ Ele é gemista, Monsenhor? ─ Perguntei surpreso.

─ Acho que não. Deus tomara! Mas, o problema é que tem de ser uma mentira muito honesta e sincera. E para esse ponto, aconselho você a fazer o juramento em aramáico porque ninguém, exceto você mesmo, entende essa língua que, segundo dizem, ainda é falada pelas tribos perdidas de Israel. A outra opção é resmungar e engrolar a língua. Não dizer nada como fazem os crentes da Assembléia. Em suma, falar línguas estranhas. Isso também é aceito. Mas, seria a maior glória para nós, ateus convictos, que você apenas respondesse a todos os juramentos pronunciando nomes da divindade do Dr. Quim. Quando ele me contou, fiquei morrendo de rir. Em suma, Dudulaidadá pra todos eles. Decida! Você é que vai ser a vítima e tem o direito de escolher.

─ Não vejo nenhum problema, Monsenhor. Mas, depois, vou precisar de alguma proteção. ─Disse a Braguinha.

─ Tampouco vejo problema. Você estará protegido por nossa sociedade secreta.

─ Que sociedade, Monsenhor? ─ Exclamei temeroso.

─ Tsé! Quantas sociedades secretas você conhece?

─ Uma apenas, composta por nós dois, a respeito das meninas. ─ Respondi.

─ Deixe de ser besta, Tsé! Não se trata disso. É coisa séria. Ocorre que, para nos defender de Torquemada, fundamos, dentro da própria Igreja, a “Sociedade para o Bem da Verdade” (SBV), uma espécie de Ong daqueles tempos, dedicada a proteger todos os sacerdotes ateus. Dela, aliás, já saíram cinco beatos e um santo, Allegino Fariggi, originário de Bari, hoje, um pouco esquecido. Atualmente, aceitamos também pastores evangélicos, mas são minoria. Se fossem descobertos perderiam a grana que roubam dos crentes. Temos um Conselho Curador e uma sede secreta que depois eu lhe digo onde fica. Pois bem! Um dos nossos estará presente pra qualquer emergência, inclusive eu mesmo. Fique frio, portanto.

─ Uma merda, né, Monsenhor! E desculpe o palavrão.

Cheguei muito apreensivo na cerimônia. Na minha vez, fiquei revoltado com o Arcebispo. Além da humilhação de ficar deitado de barriga pro chão, beijando os pés do oficiante, o sacana ficou pisando nos meus dedos o tempo todo. Uma dor desgraçada! Mas, jurei, em nome de Dudulaidadá, que me vingaria daquele Arcebispo psicopata. Segui rigorosamente as instruções do meu padrinho. Foi ele, aliás, que, em nome do Sumo Pontífice, me entregou o Diploma de Pater Romanus.

Minha alegria era tanta que, quando cheguei na Comunidade, chamei as meninas e fizemos o maior festival de cama, regado a um bom vinho de missa que o Monsenhor me emprestara.

Prometeram-me na Cúria que eu seria nomeado pároco de uma diocese da capital. Não ficaria muito afastado de minhas esposas, especialmente agora que os meninos queriam nascer. Não desejava repetir o que ocorrera comigo, que nasci daquela maneira estranha a que já me referi. Precisava ver os bichinhos saindo da barriga de suas respectivas mães pra ninguém ficar falando mal da gente. Nada de siri, de bagre nem de mangue. E para isso, contratei uma parteira especialmente para o evento.

Contudo, o safado do Arcebispo queria ver minha caveira, invejoso de minhas medalhas sacras que conquistara com tanto esforço. A título de prêmio, emitiu um Decreto nomeando-me como Chefe do Arquivo e da Biblioteca da Arquidiocese, o que me impedia de progredir na carreira, cujo objetivo máximo para mim era o de suceder o querido Monsenhor Braguinha na Paróquia da Torre.

Passei uma semana chorando. Mas, até que foi bom porque não precisava rezar missa, fazer enterro nem bajular empresário jogando aquela aguinha benta fajuta nas inaugurações de mercearias e farmácias. Como diziam ─ “diziam”, disse-o bem? ─ que nosso Chefe era um gemista convicto, além de gostar de pisar nas mãos dos mais inteligentes sacerdotes locais, impus a nomeação de Padre Melo, um alegrista dos mais fervorosos do Seminário, como meu auxiliar.

Na verdade, o Vigário Melo, além de preguiçoso e vagabundo, apesar de sua grande erudição em Latim, só teria uma função: alegrar a vida do Arcebispo, deixando-me em paz no meu trabalho.

E, com isso, ficava também perto das meninas, pois dormia em casa.

Por outro lado, sempre tive uma vocação intelectual e, a conselho do Monsenhor, dediquei-me nos dois anos seguintes a pesquisar e escrever um livro em dois tomos, intitulado “Uma História Do Cristianismo Revisada E Não Autorizada Pra Quem Quiser Se Informar Melhor Sobre As Besteiras Do Mundo”, no qual colocava todos os pontos nos iis nessa história mal contada.

Dediquei alguns capítulos à história do fundador da Santa Madre Igreja Romana, o grande assassino, uxoricida, filiicida e corrupto Imperador Constantino.

Basta dizer, aliás, que Helena, sua mãe, se transformou em santa da Igreja apenas pelo imenso trabalho de converter o filho ao Cristianismo. E vejam bem, meus queridos leitores, que o cara só se batizou quando não tinha mais jeito, com um câncer de próstata da pior espécie e em fase terminal.

Minha tese era, portanto, que nossa sagrada Igreja romana e católica havia sido fundada pelo Concílio de Nicéia, em 325, sob o patrocínio e vigilância daquele ilustre assassino. Vide, por exemplo, o Credo!

Escrevi o livro em aramáico, pois, naquela época, a Santa Inquisição ainda existia e eu não era besta pra entregar meu pescoço a tanto sadismo religioso. O avarento Arcebispo, que vivia saltitante na companhia do alegrista Padre Melo, não entendeu nada do meu aramáico, embora, com os elogios e conselhos do Monsenhor Braguinha, tenha dado o Imprimmatur.

Dessa forma, foram impressos cinco exemplares. Um foi mandado para a Biblioteca do Vaticano por via marítima, mas o navio boi bombardeado pelos nazistas; o outro me deram de presente, mas uma cheia do Capibaribe o levou; o terceiro, deram pro Monsenhor que o esqueceu num bonde; o quarto e o quinto desapareceram, provavelmente comido por ratos, baratas e traças, naquele tempo, abundantes no Palácio do Arcebispo.

Terminada minha tarefa na Arquidiocese, preparei-me para continuar minha carreira de Sacerdote, reivindicando a Paróquia da Torre desde que o Monsenhor Braguinha estava velho e cansado e já não se lembrava mais do latim, nem de ir à missa, nem nada. Especializara-se nas confissões e ficava o tempo todo conversando com as menininhas da Torre.

Mas, eis que, como escreveu o Apóstolo São Paulo na Primeira Epístola a Timóteo (aliás, falsa!), “a vida é muito dura e a morte ainda pior”. Sofri uma sagrada reviravolta existencial. Mas, deixa pra lá que hoje já estou cansado demais pra continuar. Vou dormir, como o safado do rei David: aninhando minha cabeça nos sagrados seios de Marocas.

Sementeiras
  1. Reverendo, deixe os peitos de Marocas em paz e arrume um tempinho para o capítulo XI.

    Afinal, S.S Bento é gemista, alegrista, ou tem a mão cabeluda?

  2. Concordo com o companheiro acima, arrume um tempinho pro cap. XI, tipo entre uma cervejinha e outra durante os festejos carnavalescos seria uma boa, né? rs
    Venho várias vezes por dia aqui ver se já tem postagem nova (creio está eu desenvolvendo TOC ou algum outro tipo de transtorno parecido), é automático, basta acessar a internet e é de lei vir aqui. Será que isso é normal? rs

    Abraços

  3. Irmão Ducaldo: Obrigado por desejar que o novo capítulo de minhas Falsas Memórias apareça. Aliás, elas não têm nada de falsas. São totalmente verdadeiras. Isso de falsidade foi invenção de Perrusi Pai, macomunado com o cruel Psiquiatra de Intermares. Meu pai adotivo sempre dizia que ninguém deve ficar na frente de louco, de bêbedo e de anjo. Coitada da Virgem que não saiu da frente do anjo dela. E nosso querido José, veja só!, aceitou o tal gol de placa. Mas, não posso desmentir Perrusi Pai porque ele desapareceu logo depois daquele empate vergonhoso do Santinha com o Vitória. As interpolações são todas mentirosas e se não fosse minha cirrose eu botaria pra quebrar. Não sei, pelo que você escreve, se está gostando ou não de minha história. Paciência! Eu mesmo acho-a muito chata. Quanto ao nosso querido Bentinho, não sei. Mas, contudo, todavia, aquele retrato colhendo uvas no quintal do Vaticano é bem esquisito mesmo. Deus me livre de levantar falso a alguém. No entanto, colher uvas roxas e ficar rindo com isso não passa de uma certa ambiguidade. Marocas manda-lhe dizer que tudo nela é divino e, na verdade, duas coisas são melhores do que uma. Enfim, pergunte a Perrusi Filho sobre o XI Capítulo. Parece que ele está escondendo pra finalizar meu texto roubado pelo Pai quando eu próprio estava em coma. Minha bênção alegrista.

  4. Querida irmâzinha Flor de Liz:
    Minha palafita ficou totalmente perfumosa pelo seu comentário. Sou francófilo e adoro a Flor de Liz, símbolo da monarquia gauleza, que Dudulaidadá a tenha. Não sei o que é TOC. Mas, se você o tem, deve ser algo de bom. Quem me dera receber um Toc de sua parte, nessa minha vida tão sofrida. Acima, explico as razões porque o XI Capítulo ainda não saíu. Perrusi Pai o escondeu, querendo terminar com o que ele chamou de lenga-lenga das minhas Memórias. Não tomo cerveja. Só vinho de Missa que só faz agravar minha cirrose. Mas, no Carnaval, estarei no baTOC dos Tambores nada silenciosos, aliás. Ficarei em silêncio, portanto, em homenagem aos meus ancestrais. Mas, como sou vaidoso e nasrcisista, pelo menos na opinião do tal Psiquiatra, gostaria de saber se não estou enchendo demais a paciência de vocês com o relato dessa minha porcaria de vida. E olhe que vou viver bastante ainda. Obrigado, deliciosa e linda flor que desabrochará todas as manhãs na minha vida daqui por diante. Marocas que se cuide. Minha bênçao, cheia de esperanças.

  5. Reverendo, sinto- me lisonjeada com suas palavras. Elevaram ao máximo meu ego que andava pra lá de baixo. Tá explicado!Realmente, tinha esquecido que o senhor só toma vinho de missa, portanto podemos tomar uma sangria juntos qualquer dia desses, né? Em absoluto, não estás enchendo a nossa paciência. Muito pelo contrário é muitissimo agradável vir aqui e se deparar com seus relatos!Quanto ao TOC e os meus possíveis outros transtornos, acho que o ‘nosso’ Dr, o Psiquiatra poderia dá seu parecer profissional… rs
    Ah, e coitadinha da minha pessoa! Já pensou se Marocas cogita a possibilidade de ter uma reles florzinha em seu caminho?!?

    Abraços!

  6. Reverendo, embora não tenha me manifestado antes, sou leitor assíduo das suas memórias.

    Vai ser difícil encontrar Perrusi Filho depois da lapada que o Santinha tomou do sanduiche carioca. Mas, espero que consiga recuperar os manuscritos e nos brindar com mais um capítulo.

  7. Marocas, Flor de Liz, vinho…….. Rapaz!

  8. Irmãzinha Flor de Liz: Se você topar, estarei lhe esperando na frente do Trianon para brincarmos no Galo da Madrugada. Estarei fantasiado de Tarzan Depois da Gripe, com um barril de vinho de Missa para sangrarmos durante o desfile. Vestirei uma tanga de couro de uns gatos sarnentos que andaram aqui pela Comunidade. Não se incomode! Mandei Marocas para Intermares se consultar com o maluco do Psiquiatra de lá. Venha com uma flor de Liz nos cabelos para que eu lhe reconheça. E Viva o Zé Pereira!
    Minha bênção carnavalesca.

  9. Oh, reverendo adoraria curtir o Galo da Madrugada em sua companhia porém acho que já seja tarde demais…só agora vi sua proposta, mas certamente oportunidades não faltarão para tomarmos aquele vinhozinho de missa juntos.
    Não acredito, despachaste Marocas para Intermares? Por essa eu não esperava! Porém continuo a temer que Marocas tome consciência de minha existência…mulheres quando sentem-se ameaçadas costumam ser um perigo! rs
    Ameaça eu? Jamais! Pobre de mim…rs
    Bem, então só me resta desejar que suas comemorações carnavalescas sejam regadas a muito vinho!Enquanto isso, ficarei aqui reclusa em oração, rogando ao Ser supremo ou a qualquer outra divindade, na esperança de que eles possam fazer com que Perrusi Pai devolva seus manuscritos, pois a falta deles está provocando uma imensa depressão em minha pessoa. Caso continue assim, precisarei me submeter aos cuidados do Psiquiatra de Intermares…

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