Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – IX

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(Aurea mediocritas)

9° CAPÍTULO

As veredas do Senhor são inescrutáveis, já dizia o Salmista. Aristóteles, que não conhecia Jeová, sempre falou que os bons valores estão no meio e jamais nas extremidades. Pois foram as veredas de três noviças que me tornaram adulto e pai de família respeitado. Seguindo as tais veredas, encontrei o açude da felicidade de que tanto ouvia falar.

No confessionário, estava muito abalado, nervoso e, pela primeira vez, gaguejante que nem meu famigerado pai adotivo, que Dudulaidadá o tenha.

Monsenhor Braguinha olhou pra mim, viu e não gostou.

─ Que foi Tsé? Além de amarelado, parece mesmo um siribagre, desculpe a brincadeira.

Fui logo começando a confissão, dizendo as palavras cabalísticas:

─ Confiteor, pecatoribus…

─ Deixe de frescura, Tsé! E desembuche logo que coisa boa não pode ser. ─ Interrompeu o Monsenhor.

Sentei-me num banco de couro defronte da cadeira gerdau de Braguinha e, suando em bicas, comecei a minha terrificante história:

─ Sabe, Monsenhor, aquela primeira noviça assanhada de quem o senhor falou, a tal de Maria do Perpétuo Socorro? Pois bem… ─ E contei toda a história da mania da menina de gostar de comer carambola na minha companhia.

─ Até aí, tudo bem! Nem a Bíblia nem o Catecismo proíbem comer carambola. ─ Resmungou Monsenhor Braguinha, soltando fumaça do seu cachimbo novo que eu lhe dera de presente no Natal.

Tapando meu nariz por causa do forte cheiro das folhas de mangue, continuei minha história.

─ Mas ocorreram algumas coisas que não sei explicar e que não me deixam dormir em paz. ─ Acrescentei, com prudência. Estava morto de medo com a reação do meu confessor.

─ Hum, hum! Comer carambolas! E daí? Eu mesmo adoro carambolas. ─ Disse Braguinha sem querer facilitar minha sagrada confissão.

─ Tudo bem! Vou contar logo tudinho e pedir seu perdão.

─ Confio na Santa Virgem Imaculada, Tsé, que você não tenha tocado nas meninas. Foi a coisa que mais lhe recomendei.

─ Tocar, não toquei. Mas caí em cima de Perpétuo Socorro. Foi sem querer…

─ Em cima? Ou dentro da menina? Seu sem vergonha! ─ Disse Braguinha, levantando-se com a sua bengala em riste apontada para meu coração inocente.

─ Deixe-me contar. Deixe-me contar, em nome da mesma Virgem que o senhor acaba de invocar. ─ Respondi assustado. E continuei:

─ Ocorre que, no caminho das carambolas, havia uma descidinha cheia de pedrinhas soltas. Aí, Socorrinho, me desculpe, a irmã Maria do Perpétuo Socorro trupicou e caiu lá em baixo, felizmente de barriga pra cima. Preparava-me para ajudá-la a se levantar, quando, atrás de mim, um anjo ─ acho que foi o anjo Raphael ─ soprou de leve no meu pescoço e eu também trupiquei, caindo em cima da irmãzinha. Uma situação embaraçosa, Monsenhor. Não sabia que ela era tão macia e doce como uma carambola.

─ Ah, bom! O anjo Raphael ainda está por aí. Muito bem, Tsé! E depois, e depois? ─ Perguntou Braguinha interessado demais pra meu gosto.

─ Não sei! Não sei! Pelo menos, da primeira vez, não houve nada. Apenas o riso de Socorro, lambendo meu rosto. Mas, depois…

─ Quantas vezes, meu filho? Quantas vezes? ─ Perguntou Braguinha, mais sério e compenetrado, querendo ir direto ao assunto.

─ Quando voltava das aulas, vinha pensando o tempo todo em Socorro. Daí em diante, todas as semanas, o Anjo nos empurrava para perto das carambolas. E foi aí que a citada noviça me falou que estava enjoando muito, vomitando, sem querer comer ou dormir direito. Mas, de repente, me confessou:

─ Professor Tsé! Acho que estou grávida do senhor e não sei o que fazer com isso.

─ Ai Jesus! Minha Nossa Senhora da Torre Malakof que me ajude! ─ Gritou o padre Braguinha. ─ Avisei, avisei, avisei! E não adiantou de nada. Parece que a história vai se repetir de novo. Por que, meu Deus, por que sou obrigado novamente a beber do mesmo cálice, embora com vinho diferente? ─ Terminou enigmaticamente.

─ Qual história, Monsenhor? ─ Perguntei.

─ Deixa pra lá! Um dia lhe conto. E só foi as carambolas, Tsé? O pomar das freiras tem outras iguarias, tão doces quanto as carambolas. ─ Disse o Monsenhor com mais calma.

─ Não! Infelizmente, não! Comi pitangas com a irmã Irene do Martírio de Jesus, aquela que vive sonhando com o demo. Depois, uns cajus irresistíveis com a terceira irmã, Madalena do Amor Divino. E bote divino nisso tudo. ─ Disse pra acabar logo de vez com minha angústia.

─ É! Tudo na vida tem solução, menos a morte. E, assim mesmo, ainda tem o Paraíso. E pra você, Tsé, o Inferno! Mas, o que tá feito, tá feito. Não sei se você sabia que, do mesmo jeito que sua Comunidade tem um Curandeiro de respeito, a nossa possui uma rede secreta de ilustres médicos, irmãos piedosos da Irmandade Quebra Nozes ─ que não passa de um nome de fantasia, é claro ─ para nos ajudar em casos semelhantes. Não queremos escândalos em nossos Conventos e Seminários. Só não podemos controlar esses padres pedófilos, bando de safados que a Igreja gasta um dinheirão para proteger. Diga às suas noviças assanhadas que, na próxima semana, faremos uma visita ao Dr. Nicácio Cara de Minhoca, nome igualmente de fantasia.

─ Não pode! Pelo menos com Perpétuo, não pode. Ela teima em querer ter sua criança. Já planejou, inclusive, fugir do Convento e se esconder nas palafitas até o nascimento do bebê. Falei com Doutor Quim e ele concordou. Com Madalena, talvez! Mas, ela mesma já me disse que quer amamentar o fruto de nosso ventre, Jesus! Desculpe a blasfêmia, Monsenhor! ─ Emendei rapidamente. ─ O problema é com a segunda que vai deixar a barriga crescer pra matar a Madre Superiora de susto.

─ Tudo bem! Vou ajudar vocês nessa primeira fuga. Como vai ser?

─ No próximo sábado, Socorro pula o muro de detrás do convento com o auxílio de uma escada. Estarei no lado de fora para ajudar e levá-la para a Comunidade. Com as outras, ainda não sei, principalmente com Irene. ─ Terminei mais animado.

─ Com a primeira está resolvido. Com a terceira, tenho um plano certeiro. Com a segunda, preciso pensar. Conheço o tio dela, tutor e seu responsável depois do assassinato dos pais. Trata-se do Coronel Fragoso de Imbuí, no sertão do Ceará. Se ele souber de tal desventura, manda seus jagunços incendiarem tudo, Convento e Seminário juntos. E as Palafitas, também, se souber o autor do delito. Mas, ele tem também suas fraquezas. Como disse, preciso pensar. Ainda tem tempo! Mas, o segredo é a alma do negócio, Tsé. Ninguém pode saber por enquanto. Falta um mês para sua ordenação. E, na Igreja Romana, tudo é eterno. Ao contrário dos torcedores daquela Coisa que dizem o mesmo de mentirinha. Na Santa Madre, não! Uma vez padre, pra sempre padre! Depois, não podemos estragar seu futuro de líder da Comunidade.

A fuga de Socorrinho não deu nenhum problema. Dr. Quim e Vó Dé ficaram encantados e botaram a menina num barraco totalmente novo. Com Madalena, o troço foi mais complicado.

De quinze em quinze dias, Vó Dé e o Doutor Quim levavam uma moqueca de siri mole para a Madre Superiora que suspirava com o regalo. Para aproveitar o passeio, Quimzinho sempre os acompanhava com a namorada a tira colo. Pois bem! A moça entrou no Convento e, logo em seguida, passou agachada de volta pela portaria sem que ninguém a visse. Vó Dé levara um vestido de chita, escondido na sacola, igualzinho ao da namorada de Quimzinho. Foi só Madalena vesti-lo e lá saíram os mesmos quatros que haviam entrado. Foi duro convencer Socorrinho e Madá a morarem juntas no mesmo barraco. Precisou Dr Quim usar de toda a sua autoridade de líder da Comunidade pra que elas se acalmassem.

Enquanto isso, Monsenhor Braguinha mandou um telegrama para o Coronel Fragoso, dizendo que, como Confessor Oficial do Convento, precisava falar com ele com urgência sobre sua afilhada. Na verdade, segundo me contou mais tarde, três ou quatro jagunços do Coronel aproveitaram a estadia na cidade para se confessar ali mesmo, enquanto o tio visitava a sobrinha noviça.

E eis toda a verdade e nada mais do que a verdade. O Coronel Fragoso era um gemista viciado e dava escondido pros jagunços. Ah, Santa Madre! Quantas infâmias são cometidas em Vosso nome, Amém!

Monsenhor Braguinha nem sequer hesitou. Foi logo dizendo ao sertanejo que era uma coisa ou outra. Ou deixava a sobrinha ter sua criança, mesmo escondida e com os cuidados necessários ─ isso ele garantia ─ ou a outra coisa que era muito pior. Mandava, com sua autoridade clerical, o padre da paróquia de Imbuí fazer uma homilia denunciando o crime de sodomia do Coronel.

Fragoso baixou a cabeça e pensou. Por que abandonar seus prazeres da caatinga por causa daquela sobrinha desenxabida e doidivana? Aparentando contrariedade, concordou. Embrenhou-se na caatinga com seus jagunços e nunca mais voltou.

E eis como, antes mesmo de me ordenar sacerdote romano, ia ser pai de três crianças. Apesar de apavorado, ficava feliz em passar os fins de semana com as três ex-noviças. Cada uma na sua hora certa, que ninguém é de ferro.

Monsenhor Braguinha, depois do susto, fizera apenas uma exigência. Se um dos bebês fosse menino, eu teria que botar o nome de Joaquim Neto, sabia lá por que, muito embora ele próprio se chamasse Joaquim Braga. Nem liguei de tão aliviado que estava. Coisa de velho, pensei. Além disso, seria mesmo uma honra pra mim colocar o nome do meu velho e bom conselheiro num dos meus filhos.

Mas, isso é uma outra história e, agora, preciso dormir porque a pílula do Psiquiatra, metade roxa metade amarela, já começa a fazer efeito.

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