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O dia em que a Terra parou
Parabéns Santinha!!!
O sangue dos Perrusi é tricolor. Fugimos das plantações de macarrão à procura de uma Terra Prometida. Não a encontramos, é claro, mas demos de cara com o Clube do Santo Nome — o Clube Prometido! Lá, nos lugares mais redondos de nosso DNA, numa curva da hélice, brilha o gene tricolorum aeternum: foi o Avô, é o Pai, está sendo o Filho e até a… Mãe. Amém.
Como explicar essa paixão? Será que é mesmo genética? Confesso que procurei por muito tempo um esclarecimento. Um dia, encontrei um psicanalista que fazia análise transacional, utilizando técnicas de regressão. Queria fazer um recorte temporal e, quem sabe, descobrir uma longa cadeia evolutiva tricolor que ultrapassasse, inclusive, a dinastia perrusiana. Não falarei sobre as tecnicalidades do processo transacional (espécie de ritual à base de chá de cidreira e hortelã), sei apenas que fui parar no Cretáceo (aqui), 70 milhões de anos atrás. Eu era um velociraptor e… tricolor! Incrível, a paixão pelo Santinha ultrapassava o seu próprio nascimento e, até mesmo, a espécie humana. Diante do gene tricolorum aeternum, milhões de anos determinavam-me.
Olhando o resultado da sessão, o analista transacional disse:
_Você tem um baita complexo reptiliano tricolor.
_Mas o velociraptor não é um dinossauro?
O terapeuta franziu a testa e coçou a cabeça, como se fizesse um esforço enorme de concentração. Deve ser uma profissão difícil, pensei, deve dar dor de cabeça.
_Os dinossauros vieram dos répteis. Além do mais, nosso cérebro não tem complexo dinossáurico.
_Ah, bom?!
Não insisti, pois queria entender o alcance da descoberta. O complexo reptiliano (CR) é uma herança evolucionária dos répteis. Os mamíferos herdaram tal aparato. É uma das partes mais antiga da nossa organização cerebral, abarcando o tronco cerebral. É responsável por comportamentos involuntários, inclusive pelos batimentos cardíacos e o funcionamento pulmonar.
Fiquei meditando sobre o assunto e exclamei palavras em baixo aramaico:
_Tá com a porra!
O analista interrompeu minha dissertação semita e falou, seriamente:
_O fato de você ter um CR tricolor significa que a paixão está inscrita no seu coração, no âmago dos batimentos cardíacos, e no ar que você respira, além de ser completamente involuntária, é claro – e deu uma risadinha meio misteriosa.
_Cacetada!
Descobria assim a condição necessária a uma paixão: a genética transacional e regressiva. Do velociraptor ao Homo sapiens, a cadeia evolutiva era preta, branca e encarnada. Mas qual era a condição suficiente? Perrusi Pai sabia da resposta. Era o aprendizado, pois sem a repetição e a interiorização do sentimento a genética ia pras cucuias. Assim, entendo sua insistência de me levar, ainda menino, ao Arruda para assistir ao Santinha numa partida de futebol.
Além do mais, são raras as lições de vida que prescindem da Mãe, e uma delas, cá entre nós, é a iniciação camusiana no campo de futebol. Homem ou Mulher, não importa, precisam ser levados, ainda pequenos, pelo Pai a um campo de futebol. Lá, aprende-se o que é justo e injusto, o certo e o errado. Ali, depara-se com o que tem de mais misterioso na vida. Por isso, digo que a preocupação de Perrusi Pai era transcendental. Sabia que eu estava do lado do Bem, pois eu era fruto de um determinismo genético e, ainda mais, transacional e regressivo. Mas havia o Mal, a Coisa, e a Maldita sempre ronda, sempre gatuna, querendo enlamear a alma pura de um menino. Levar-me ao jogo fazia parte de uma cruzada, de uma grande luta entre o Bem e a Coisa.
E o pior é que tinha ainda um agravante: minha mãe, naquela época, era da Barbie, herdeira sentimental do meu avô, seu pai, sendo uma orgulhosa torcedora do “hexa é luxo” e freqüentadora assídua, quando adolescente, da Bonequeira, lá nos Aflitos. Imagino, dessa forma, a fantasia abominável que devia assolar o espírito de Perrusi Pai: um dia, pegar-me em flagrante brincando com bonecas! Desse jeito, levar-me ao jogo do Santinha era uma luta contra o Mal e a… Perversão (hehe).
Contudo, o aprendizado precisava ser completo. Amar o Santinha devia significar, também, amar o futebol. Perrusi Pai foi de uma rara habilidade: minha primeira partida, na imensidão do Arruda, foi um embate celestial do Santinha contra o Santos de Pelé, em 1972! Naquela época, fazia pouco tempo que chegara do exterior. Fiquei maravilhado com o estádio e, principalmente, com o tamanho da torcida. Ganhamos epicamente de 3×2, com Pelé comandando uma reação sensacional do Santos, depois de estar perdendo de 3×0. Porém, Perrusi Pai não ficou satisfeito. As lições precisavam continuar. Queria mostrar que o único time pernambucano que podia bater Pelé era o Santinha. Assim, fomos a um baile do Santos contra a Barbie: 3×0, com direito a gol de falta do Rei!
(até que adquiri autonomia e passei a ir aos jogos com os amigos. A pedagogia paterna tinha seus limites, evidentemente)
E não teve jogo com a Coisa?! Nada do Troço?! Pergunta um incauto. Bem… er… vamos ser francos: a Coisa não existia naquela época. Ela é produto da década de 90, ou seja, é um produto do neoliberalismo e do governo dos tucanos. O Mal só existia como referência espiritual para o Bem. Hoje, o Mal anda na Terra, sujando o mundo de cazacazá (lama nojenta lá da Ilha do Chié) e saqueando o futebol pernambucano. É isso.
(…)
Lá vai um texto de Paulo Aguiar, publicado no Torcedor Coral (aqui):
Para quem já viveu 95 anos, a vida pode parecer estar se despedindo. Mas para quem acabou de renascer, o momento é apenas o começo de um ciclo que nunca irá se encerrar.
Durante todos esses anos, várias são as lembranças que ficaram guardadas na memória. Impossível esquecer as dificuldades, as conquistas e as confraternizações históricas que dividimos juntos. Embora o palco preferido fosse a nossa casa, sempre fomos respeitados e temidos onde quer que estivéssemos, tamanha a nossa força conjunta. Todos que conhecem a nossa história são cúmplices do nosso amor, da nossa dependência emocional e do nosso poder de superação nas adversidades.
Foi assim, desde o início da sua vida, quando você já dava sinais de que seria diferente dos demais, de que a sua trajetória seria marcada pelo desconhecimento do limite. Bastava-lhe, apenas, alguém ao seu lado. E, logo, você conquistou uma legião de aficionados, de todas as classes e de todas as raças, que passou a defender o seu pavilhão, tornando-o O Mais Querido.
Lembro-me de 1915, quando você virou um jogo em que perdia por 5 x 1, em apenas quinze minutos. Lembro-me de 1934, quando ousou vencer a seleção brasileira. Eu estava lá, jogando ao teu lado. De 1973, ano em que você alcançava, até então, o mais alto degrau; foram os meus pés que te seguraram e fizeram silenciar metade de uma Ilha. De 1983, quando o teu corpo dava sinais de fraqueza; foram as minhas mãos que defenderam um pênalti, em cima da linha. De 1993, quando você já não conseguia mais enxergar a vitória; foram os meus olhos que guiaram teu último chute para o fundo das redes.
Nos últimos anos, porém, a minha presença ao teu lado serviu apenas para te amparar. Você estava perdendo forças e eu parecia não mais te complementar. Ao te apoiar irrestritamente, não consegui evitar que alguns se utilizassem do seu nome, do seu prestígio, para fins, muitas vezes, particulares. Você não imagina o quanto eu me culpei por não ter evitado tua queda. Tive saudades das tardes de domingo, da festa que fazia quando você entrava em campo; das invasões que promovia nas casas dos adversários, das provas de amor gratuitas que te dava.
Nunca aceitei a tua distância por tão longo período. Logo você, que sempre foi O Mais Querido, não poderia se afastar por tanto tempo. Queria mudar logo esta página da nossa vida.
E, finalmente, neste dia 03 de fevereiro de 2009, estamos nos reencontrado e tendo a oportunidade de continuar a nossa história, escrevendo-a com novas conquistas e superações. Podendo demonstrar, mais uma vez, e para todos, que o nosso amor é incondicional. É geneticamente imperceptível às lentes humanas e incompreensível à vida terrena. Afinal, nós não precisamos mais ter medo da vida, pois sabemos que nunca iremos nos afastar.
Hoje, eu tenho a certeza de que você precisa de mim tanto quanto eu de você. Hoje, o meu maior orgulho é ver-te renascer e fazer parte da tua caminhada, desde o início. Hoje eu sei que, se um dia eu não consegui te segurar é porque eu preferi estar ao teu lado. Porque, enquanto muitos duvidam da tua volta, esquecem que, contigo, estão as minhas mãos, os meus pés e os meus olhos que te ajudarão a levantar, a manter-te firme e a guiar-te, para que continues sendo o mais popular, O Mais Querido de Pernambuco. Estamos nos reencontrando, porque a história não muda, mas se reescreve a cada dia.
Feliz Aniversário, Santa Cruz Futebol Clube. Você nasceu para viver eternamente.

















Saudações alvinegras ao valoroso Santinha !!
Que 2009 o reconduza à trilha das vitórias.
Abraços.
Hehehehe…Antecipei-me a todos. Desde a semana passada, a Comunidade, sob minha inspiração, desfraldou a gloriosa bandeira tricolor. Convidei Perrusi Pai e ele, geneticamente tricolor, hasteou as três cores. Depois, servimos chá de folhas de mangue para 5.000 pessoas. Estavam lá o glorioso Siduca, o maior ponta esquerda que o Brasil já vira, Palito, o maior zagueiro central da América do Sul, o gênio Amauri, de passes precisos e macios que sempre colocavam o atacante na frente do gol. Tará não pôde ir porque já se foi. Guaberinha, idem. Dos modernos, beberam de nosso chá, o glorioso Nunes. Givanildo foi convidado mas não foi. Serviu, por muito tempo, à Coisa e isso é imper doável. Mas, permanece, apesar dos pesares, um tricolor. Quem quiser ver, é só nos visitar nas Palafitas. VIVA O SANTA CRUZ!