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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – VIII
Nota de PERRUSI, Pai:
“O Reverendo Tsé-Tsé chamou-me novamente. Encontrei-o lépido e fagueiro. Com uma batina novinha em folha, ajudava a construir a creche da Comunidade. Convidou-me para a cerimônia de hasteamento da novíssima bandeira tricolor, símbolo eterno dos palafiteiros. Tive a honra de fazer subir a gloriosa bandeira num mastro feito artesanalmente de varas de mangue, embora mais imponente e mais bonito do aquele que o vento derrubou numa certa ilha. O Reverendo atribuiu sua melhora de saúde às grandes vitórias do Novo Santa Cruz, apesar de ainda tomar as pílulas roxo-amareladas do tal Psiquiatra. Aqui, fica, portanto, o registro do amor do povo de Bel-O-Kan à eterna equipe do Arruda“.

(As veredas da felicidade)
8° CAPÍTULO
No segundo ano, como primeiro aluno de classe, Monsenhor Braguinha me chamou com urgência no seu gabinete. Parecia cansado, cheio de olheiras e, como sempre, pitando seu inseparável cachimbo de folhas de mangue, selecionadas e preparadas pelo Dr. Quim. Havia comprado uma bengala para se apoiar e eu lhe pedia para tomar um auxiliar no seu trabalho.
─ Tsézinho, meu filho! Num güento mais subir e descer ladeira pra dar aula no Convento das freiras. Falei com a megera da Madre Superiora que aceitou você como meu Assistente na cadeira de Ética Cristã. Como primeiro aluno do Seminário e com sua reputação de santo, não tenho dúvidas de que você será bem sucedido.
─ Mas, padre! Fora das aulas, o senhor mesmo me ensinou que Ética Cristã não existe. ─ Respondi, assustado com a nova tarefa.
─ E é verdade! Mas basta repetir o catecismo. Só há duas ou três noviças que são mais espertas. O resto só pensa em noivar com Jesus Cristo quando se formarem. ─ Ponderou Braguinha.
─ Veja bem, Monsenhor! Como aprendi aqui no seu gabinete e nos livros de sua biblioteca, somente há três sistemas éticos, filosoficamente válidos. O de Aristóteles, copiado por Santo Tomás de Aquino, e que é o oficial da Igreja Romana, embora superado há muito tempo. O de Kant que a gente aplica segundo a situação prática que aparece e, portanto, não se precisa ficar preocupado. E o terceiro, o de Hegel, que embaralhou tudo com aquela mania de briga dos contrários; em suma, nada vezes nada, pois dá um estresse danado ver os contrários brigando o tempo todo.
─ É! Tsé! Mas Jesus falou muito sobre Ética e, por isso, a Igreja criou minha Cátedra. ─ Observou o padre Braguinha.
─ Tudo bem! Concordo! Mas não se sabe ao certo se Jesus falou tudo aquilo que está nos Evangelhos. Além disso, as lições éticas da Bíblia não passam de coletâneas do senso comum da Antiguidade. De Confúcio, com o tal “do amai-vos uns aos outros”, das tribos do deserto que formaram o povo de Israel e mais alguma coisinha dos gregos, especialmente dos sofistas. Acho mesmo que, se não fosse a mania apocalíptica de Jesus, pregando fim do mundo sem parar, dava pra aproveitar alguma coisa. Afinal de contas, pra que Ética se o mundo vai acabar logo? O resto não passa mesmo de lições de auto-ajuda como, por exemplo, o Sermão da Montanha.
─ Mas aí é que está a beleza da coisa, Tsé. A gente passa a vida toda pregando uma coisa e, na prática, como diria Kant, fazendo o que a gente ia fazer mesmo. E, com isso, chegamos a Hegel, para quem a Ética é o produto, ou a síntese, como ele gostava de dizer, entre o nome e a ação. Você sabe muito bem que nessa porcaria de Igreja ninguém ama ninguém e só tem traíra. Até que desculpo os alegristas e gemistas do dormitório. Pra que insistir em filosofias inalcançáveis, falaciosas e que não pertencem ao nosso mundo? E a felicidade, onde está? ─ Insistiu o Monsenhor.
─ É! Concordo! Sou epicurista de coração. Mas, por falar nisso, Monsenhor, onde está mesmo a felicidade?
─ Ora, ora Tsé! No prazer! No prazer de viver, e que se dane toda a hierarquia romana. Cada um que se vire como puder e ninguém tem nada a ver com isso. Mas, pelo amor de Nossa Senhora, não toque nas meninas! ─ Filosofava o velho sacripanta.
E foi assim que me tornei professor de Ética Cristã no Convento das Bordadeiras de Nossa Senhora de Fátima. Duas vezes por semana, no horário da tarde, subia e descia ladeira pensando na ética do prazer. Eram umas trinta noviças e mais uma dúzia de freiras ignorantes, vindas do interior. Mas, logo na primeira aula, experimentei o amargo prazer de ser interrompido pelas sandices das três noviças, aquelas referidas pelo padre Braguinha.
Comecei minha primeira aula afirmando que a Ética Cristã era um sistema divino que buscava a paz e a concórdia entre os homens, como redenção do pecado original de Adão e Eva. A primeira noviça, Maria do Perpétuo Socorro, interrompeu-me e questionou sobre as guerras religiosas e os conflitos doutrinais da Igreja. Expliquei que isso era um mistério e que só os mortos, quando ascendessem à Glória do Senhor, iriam saber da boca do próprio Jesus.
Na segunda aula, colocava em confronto o Cristianismo com os sonhos e as utopias das outras religiões, quando a segunda noviça, Irene do Martírio de Jesus, me interrompeu:
─ Professor! Todas as noites, eu sonho e falo com o Demônio que me diz exatamente o contrário de suas aulas.
Felizmente, a terceira noviça, Madalena do Amor Divino, interferiu, embora de uma maneira desastrada, provocando risadas escandalosas na turma.
─ É! Se o Demônio aparecesse por aqui, esse Convento já tinha se transformado num berçário.
Interrompi imediatamente a aula e mandei todo mundo para o recreio. Fiquei na biblioteca pensando se valia a pena continuar. Afinal de contas, as três noviças tinham razão, e eu não possuía argumentos para responder. Mas continuei no meu curso. Todas as três noviças “rebeldes” me recebiam com um sorriso malicioso, especialmente a primeira, uma freirinha bonita pra dedéu, que era objeto de meus sonhos toda noite.
Num dos intervalos de recreio, ela mesma me esperou na porta de entrada e me perguntou:
─ Professor! O senhor conhece nosso pomar, lá atrás do prédio principal?
─ Não! Falta de tempo. Qualquer dia, vou passear por lá. ─ Respondi sem muito interesse.
─ Por que não agora? Temos tempo de sobra. Quero mostrar as lindas carambolas maduras, tão maduras que já estão caindo do pé. ─ Insistiu a menina.
Não pude resistir a tal convite e lá fomos, eu e Maria do Perpétuo Socorro, ver as carambolas do pomar sagrado do Convento.
─ Boas e doces! ─ Exclamei, depois de experimentar algumas.
Nas semanas seguintes, sempre dávamos um jeito de visitar o pomar e carambolar no quintal do Convento, o que estava me provocando um estresse de medo, prazer e ansiedade. Em suma: em vez de Ética Cristã, carambolas! O que me levou a uma longa e angustiada confissão com o Monsenhor Braguinha.
Mas fica pra depois, como tudo isso começou e terminou. Acabo de tomar uma pílula, metade roxa, metade amarela, restos ainda da receita vinda diretamente de Intermares. Segundo o Doutor Quim Júnior, parecia uma mistura de cianureto com enxofre. Aconselhou a jogar fora. Preferi dormir de vez com minhas lembranças do Convento.
E, se acordar, continuo com a confissão angustiada lá de cima.
















