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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – VII

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magia

(Reverendus nascentis)

7º CAPÍTULO

Saí danado da conferência com o velho Quim. Até gostava dos crentes e admirava as línguas de fogo que eles soltavam quando baixava o Espírito Santo. Não havia nenhum perigo de incêndio porque tudo era de mentirinha e, mesmo que não fosse, nada consta nos escritos sagrados que o Espírito Santo seja um piromaníaco. Ele baixa e possui, mas não queima. O pastor pendurava umas tirinhas de papel vermelho e um ventilador se encarregava do resto. Brincadeira boba, mas divertida.

Fui procurar Vó Dé que estava pitando seu cachimbo. Esperei um pouco e perguntei:

─ E aí, Vó Dé! Quais são as novidades?

─ Nenhuma! Apenas estou achando você muito magrinho.

─ Pudera! Comendo siri com farinha de mandioca todo o dia, não dá pra engordar.

─ Por isso mesmo! Você sabia que o Doutor Quim elegeu nosso futuro líder pra quando ele morrer? Vai demorar ainda um pouco, mas é bom prevenir porque o novo prefeito já começou com uma conversa mole pra cima da gente.

─ Até agora, nenhuma novidade, Vó Dé. ─ Respondi.

─ É! Mas tive falando com o Monsenhor Braguinha, lá da paróquia da Torre, que é meu amigo de longa data. Ele é professor de Ética do Seminário dos padres, confessor do Arcebispo e homem de muita cultura. E gosta muito de você. Sempre fica elogiando.

─ Verdade, Vó Dé! A gente conversa muito quando vou buscar os livros pra ler. Mas, não acredito em nada do que ele diz.

─ Bobagem, Tsé! Ele também não acredita. Nem o arcebispo, segundo lhe disse em confissão. Aliás, para Braguinha, de Monsenhor pra cima, ninguém acredita.

─ E qualé a novidade em tudo isso? ─ Perguntei, preparando meu prato de farinha com siri.

Olhando pra minha comida diária, Vó Dé me falou de repente:

─ Olha, Tsézinho! Com essa comida, tu vai morrer tuberculoso ou de fome e jamais chegará ao cargo de Bispo da Igreja. Nem de novo líder de nossa Comunidade, segundo a escolha do Doutor Quim, que agora já posso dizer. Na escola de padres, você vai ter café da manhã, almoço e jantar e fica fazendo o que já gosta, ler e vadiar.

─ Meu deus! Vou ficar preso o tempo todo! ─ Gritei, caindo no choro e derrubando meu prato de comida ruim.

─ Que nada, Tsézinho! Você vai passar os fins de semana na Comunidade. Mas, não se esqueça de trazer alguma sobra de comida pra gente. ─ Respondeu Vó Dé, tentando me animar.

E foi aí que meu destino de Reverendo foi traçado. A pulso, Vó Dé me levou pra conversar com o padre Braguinha. Já estava tudo arranjado com o Bispo e com o Reitor do Seminário. Na semana seguinte, entrei como aluno-noviço, extra numerário, e adotei o pseudônimo de Josué. Na época, já falava grego e aramaico e sabia que Josué era o nome original de Jesus. Foi só pra encher o saco dos padres. Nada mais!

Braguinha era meu professor de Ética Cristã e confessor designado. Foi logo sabendo, se já não sabia, que eu não acreditava na Bíblia nem tampouco nos ensinamentos da Igreja. Disse-lhe com franqueza que aquilo tudo me parecia um verdadeiro xarope para enganar o povo.

─ Nem tanto, nem tanto,Tsé! Eu tampouco acredito, mas acho que o povo tem de acreditar em alguma coisa. E é melhor que acredite em coisas misteriosas, que ninguém pode provar, do que ficar por aí ouvindo esses políticos corruptos. De qualquer maneira, você há de convir que, apesar de mal contada, como você mesmo gosta de dizer, a história do nascimento de Cristo é um maravilhoso conto de fadas. E não faz mal a ninguém.

Ainda tímido, logo depois da reza da primeira noite, dirigi-me ao dormitório, enorme e vasto recinto com umas boas dezenas de camas acolchoadas e bem forradas com lençóis de linho, fato inédito na minha vida.

Mas, aí, o inferno desabou. Foi o maior troca-troca que já assisti na minha vida. Quando a luz apagou, era todo mundo em cima de todo mundo. Assustado, escondi-me debaixo da cama. De lá, ouvia risadas, dos que estavam em cima, e gemidos, dos que estavam em baixo. O que estaria provocando esses sentimentos aparentemente contraditórios?

Pela manhã, no refeitório, percebi alguns olhares insistentes de alguns noviços para outros que ficavam suspirando. Daí por diante, comecei a catalogar meus colegas como “alegristas” e “gemistas”. Mas, ainda não sabia do que se tratava.

Na primeira confissão com o Monsenhor Braguinha, narrei o acontecido.

─ Então, quer dizer que nada mudou! Fiz de tudo pra acabar com essa brincadeira, quando era o Censor do Dormitório. E você, Tsé? É alegrista ou gemista? ─ Perguntou meu confessor com ar preocupado.

─ Tá me desconhecendo, Monsenhor? Sou alegrista fanático, embora de outra forma.

─ Ainda bem, ainda bem! Vá ao atual Censor e conte tudo. ─ Disse o Monsenhor.

─ Não adianta, Padre! O Censor é um gemista convicto.

Fui aconselhado, então, a ficar calado e, para não ficar doente, Braguinha providenciou um colchão que eu botava debaixo da cama. Isso foi nos primeiros tempos porque, depois, começaram a me respeitar e jamais fiz troca-troca com noviço nenhum. Só depois de muito tempo é que descobri o que era a tal brincadeira.

O Seminário tinha um vasto quintal, um riacho que o atravessava e, lá longe, um matagal perto de um muro bem alto pros noviços não fugirem, segundo acreditava. Passeando por perto, ouvi uns gritinhos e gemidos. Aproximei-me e lá estavam dois noviços na maior safadeza, um em cima do outro. Claro, um alegrista e um gemista meus conhecidos. O gemista, por sinal, era craque em latim. Calado estava, calado fiquei como pregava o Profeta Zacarias. Fazendo o sinal da cruz invertido, jurei que seria pra sempre um alegrista herético.

Mas, Vó Dé tinha razão. A comida era boa: três vezes ao dia, com um lanche no intervalo das aulas. Peguei peso e Braguinha ficava contente em me ver. Li quase a biblioteca inteira do Seminário e, nas aulas, os professores não diziam nenhuma novidade. Igualzinho aos crentes da Assembléia que decoravam a Bíblia e não saíam dali.

Foi muito fácil fazer as provas e sempre era o primeiro aluno de classe. Mas, logo no segundo ano, as coisas se complicaram. Hoje, contudo, estou com preguiça e ainda tenho de ouvir uma dúzia de confissões.

Que saco! Amanhã, quem sabe, continuo.

Sementeiras

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