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Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – VI

(Palafitaria Revolutionibus)
6º CAPÍTULO
Terminou tudo na praia de Piedade. Tudo mesmo, de uma maneira súbita e inesperada.
Meu pai adotivo acordava de ressaca por volta do meio dia, enquanto os pescadores da Colônia, cansados de chamá-lo, já estavam no mar desde o amanhecer. Vó Dé passara a sustentar a casa com sua pensão, Vô Dica pegara malária, Mãe Teca cuidava dos filhos, que pegaram bicho de pé.
Eu, Tsé-Tsé, ficava em cima de um cajueiro lendo e meditando sobre minha pobre vida.
Até que um dia, Vó Dé me chamou e disse:
─ Tsé! Tô cansada de tudo isso. Arrume suas coisas que vamos voltar, hoje mesmo, prá Comunidade. Quem num quiser, fica com o bêbedo do teu pai.
Acordou o bêbedo aos solavancos e mandou que ele fosse procurar o Sargento Adelino. Meu pai foi, mas só voltou no outro dia. Não passara do portão do quartel. O Sargento estava preso por causa do Dodge atolado. Não pelo uso do caminhão, mas por que os americanos não se conformavam com o atoleiro. O caminhão, de fato, projetado para andar nas areias do deserto do Saara, falhara no seu primeiro teste.
─ Esse país é tão ruim que até areia de praia não presta. ─ Disseram, cheios de despeito.
Vó Dé, então, alugou uma carroça, botou os trecos dentro e saímos, eu e ela, conversando com o carroceiro até a Comunidade. O restante do pessoal foi a pé e chegou à noitinha.
Dr. Quinzão nos recebeu com muita alegria. Estava exoticamente vestido, com um manto de feiticeiro africano daqueles de filmes de Hollywood. Nosso barraco continuava desocupado e não houve problema para arrumar as coisas.
Curioso, perguntei a Quinzinho o que havia de novidade nas Palafitas.
─ Uma revolução, Tsé! ─ Respondeu.
No outro dia, fui pegar uns livros na cabana de nosso curandeiro chefe. Sentei-me diante dele, esperando que terminasse seu cachimbo de folha do mangue. Depois, começou a falar.
─ Sabe, meu filho! Estava cheio de tanto “Aleluia” e “Glória a Deus”. Mandei chamar o pastor e lhe disse que tinha 24 horas pra ir embora sob pena de ser jogado amarrado no mangue pra servir de isca pros siris.
─ Mas, Doutor! Ninguém acreditava mesmo naquilo. Pra que mexer com os crentes da Assembléia? Era até engraçado ouvir aquelas línguas estranhas e olhar aleijado desentortado, cego vidente e banguelo cheio de dentes.
─ Muito engraçado, Tsézinho! Mas era tudo gente de fora contratada pelo pastor. Daqui mesmo não tinha ninguém. Mas, nem foi por isso. Além da cobrança de um tal de dízimo, foi mais pelo barulho e pelo assanhamento do pastor em cima das meninas da Comunidade. Felizmente, não engravidou ninguém e nosso povo continua limpo de sangue estrangeiro. Além disso, as tais línguas de fogo podiam incendiar as palafitas, né?
─ E como foi isso? ─ Perguntei.
─ Simples! Reuni a comunidade e perguntei se estavam gostando. Dois ou três gostavam. O restante balançou a cabeça, indicando a saída das palafitas. Aproveitei, então, pra dar uma lição aos “dois ou três” concordantes que, segundo diziam, haviam recebido o Espírito Santo, em forma de línguas de fogo. Tudo bem! Acompanhem o pastor, mas, quando a barriga das meninas começar a crescer, nada de voltar. Ficaram apavorados e mudaram de voto. Portanto, foi unânime. Democracia completa! Mais do que isso, aliás. Democracia sem chefe, sem igreja, sem nada. E voltamos a dançar, beber e pescar siri em paz.
─ Foi tão fácil assim? ─ Insisti.
─ Foi! Mas, o pior ocorreu depois da saída da Assembléia. Apareceram uns rapazes bem vestidos, de camisa branca, calça preta e somente com gravata. E com uma Bíblia na mão. Fiquei danado, mas eles até que se comportavam direitinho. Não pediram nada, nem casa própria, nem comida, nem davam em cima das meninas. Não curavam ninguém. Apenas diziam que eram testemunhas de um tal de Jeová. Como você ─ que sabe de tudo ─ não estava por aqui, passei uma semana inteirinha a matutar até que um ex-crente me explicou que Jeová era aquele mesmo da Assembléia. Só que mais chique e diretamente financiado por um país lá do norte, por causa da guerra.
─ E quantos eram? ─ Perguntei pra ver se o Doutor Quinzão terminava logo com a história.
─ Uns setenta! Segundo eles, o número dos batalhões de Judá no tempo do rei Salomão, veja só. Pois bem, respondi. Segundo Tsé, que lê os jornais do Padre Braguinha, da Paróquia da Torre, vocês ficam matando todo mundo que, por sua vez, matam todo mundo também. E não vai sobrar ninguém.
─ Mentira! Mentira! ─ Gritaram. ─ Queremos falar com esse tal de Tsé.
─ Num vão falar com ninguém. Aqui mando eu, falo eu e faço tudo o que a Comunidade resolve.
─ Jeová é o Todo Poderoso, criador dos céus e da terra, dos animais e plantas e, também, de todos os homens. Somente as mulheres escaparam. Foram criadas pelo Demônio, nosso grande adversário pra nos tentar e fazer o mal.
─ Tá bem! ─ Respondi. ─ Agora me digam: quantos anos tem o Jeová de vocês? Claro, né Tsézinho, você havia me dito que tinha lido no Tesouro da Juventude que Jeová era um deus tribal dos antigos judeus e que morava numa montanha. Esperei, esperei, até que o chefe deles me disse:
─ Jeová é eterno e, portanto, não tem idade. Está escrito numa taboa de ouro enterrada no quintal do fundador de nossa religião. Ninguém pode ler, mas todo mundo sabe disso. Ele nos mandou avisar a vocês que se libertem de todos os pecados pra entrarem no Paraíso, vestidos de branco. É proibido usar calça jeans e mulher não entra.
─ Pelo que eu sei, através de Tsé, vocês não passam de um bando de mentirosos, financiados por Wall Street, seja lá o que isso queira dizer.
─ Outra mentira. Ao contrário, somos perseguidos o tempo todo. ─ Responderam.
─ Claro! Não trabalham no sábado porque Jeová descansou. De quê, não sei. Pra fazer essa porcaria de mundo, não precisava trabalhar tanto. Não trabalham no domingo porque os outros também não querem trabalhar. Na segunda…
─ Calma, Doutor Quim! Da segunda até a sexta, tem culto de oração. Dias sagrados que dedicamos a Jeová!
─ Pode até ser! E mulher não entra no paraíso de vocês?
─ Não! Jeová é misógino e não gosta das mulheres. ─ Responderam.
─ Pois bem! Vou contar uma coisa pra vocês. Segundo o Tesouro da Juventude, já citado, nós aparecemos há três milhões de anos na África. Assim que olhamos pro céu, inventamos logo o deus Dudulaidadá, que não criou ninguém. Ele só gosta de futebol, mulher e cachaça. Igualzinho à gente daqui. E muito mais antigo do que seu Jeová. Como gostava de mulher, vai ver que Jeová não passa de um filhote dos muitos que ele fez por aí. É isso aí, gente! Como somos uma democracia, ninguém vai fazer nada com vocês. Queria avisar apenas que as taboas da beira do rio escorregam muito.
─ Está nos ameaçando, Doutor Quim?
─ De jeito maneira! Somos de paz e o neto do Delegado da Torre é muito nosso amigo. É ele que empurra todo mundo. De brincadeira, é claro! Mas, aviso logo que uns cinco não voltaram, inclusive o pai de Tsézinho.
─ E daí? ─ Perguntei ao velho curandeiro. ─ Ficamos sem a Assembléia, sem as Testemunhas e sem nada. Onde está a tal da revolução?
─ Tsé! Até pensei que você era mais inteligente. Não vê que, agora, a gente tá livre de todos esses vigaristas? Todo mundo pode crer no que quiser. Sem igrejas, pastor, padres e mocinhos bem vestidos. E ainda temos Dudulaidadá que já aprovou nossa filosofia: futebol, mulher e cachaça. Quer mais?
─ Que o senhor inventou! E esse filho de delegado que também não existe?
─ Ora, Tsé! Isso se chama susto sem violência. Se eles podem, por que a gente também não pode inventar. E sabe o que significa Dudulaidadá, na língua dos nossos ancestrais?
─ Não! É claro que não! Não sou ancestral de ninguém. ─ Respondi.
─ Pois bem! Inventei na hora. Significa “Foda-se”! Dudulaidadá pra você também, Tsé! E vamos deixar de lero-lero. Agora, vá falar com Vó Dé que ela tem novidades pra você. Conversou comigo e aprovei tudinho.
















