Memórias Falsas do Reverendo Tsé-Tsé – V

(Mare nostrum)
5° CAPÍTULO
Falava de tormentos?! Sim, falava. Pois bem! Talvez, o pior deles ocorria, como seria natural, na Assembléia de Deus. Tratava-se da presença constante de missionários americanos a ensinar tudo e a todos, como se Jeová fosse americano, embora nem sequer soubessem os nomes das Três Pirâmides do Egito, que aprendi no Tesouro da Juventude. Jamais pude conviver com eles, exceto com uma missionária, Miss Carolyn Smith ─ todas as solteiras eram chamadas de Miss ─ com a qual fiz a minha primeira viagem ao sertão. Muito mais por ser ela bonita e ter lindas pernas e, menos, pelo que falava. Tudo igual, repetição do que lia na Bíblia.
Foram, no entanto, contatos muito breves, embora tenham representado meus primeiros desejos físicos em relação a uma mulher. Sonhava constantemente com a minha missionária; acordava todo molhado sem saber o porquê. Quantas vezes me aproximei para declarar-lhe minha paixão de adolescente, nem sequer sabendo o que, de fato, passava-se comigo aos doze anos de idade.
Nossos contatos terminaram logo após a volta do sertão, onde passamos uma semana a pregar o evangelho aos camponeses, munidos de slides, cinema, gravadores etc. Eu pregava, cantava, ensinava e, no intervalo, flertava com as meninas do local. Milhares de demônios sertanejos foram expulsos por nossa equipe da Assembléia. Eu mesmo, sozinho, expulsei uns cinqüenta, acorrentei-os e mandei tudo pra Brasília, onde ainda devem estar vadiando pelo Congresso.
Para comemorar o nosso sucesso, a missionária convidou-me para passar uma tarde na casa de férias, mantida pela Missão americana, na praia de Piedade, bem longe de onde eu morava. Ora, o convite parecia confirmar tudo o que eu sentia por Miss Smith, indicando, é claro, que minha paixão era plenamente correspondida. Passei noites em claro saboreando não sabia bem o que até o dia da visita.
Certo de que, na volta a Bel-O-Kan, viria no carro de Miss Smith, e como meu dinheiro era magérrimo, além do que não confessara a ninguém para onde me dirigia ─ era nosso segredo, pensava ─ somente tinha dinheiro para a passagem de ida. Naquela época, Piedade era muito distante e de difícil acesso, pegando-se o trem até Prazeres, o resto da viagem se fazendo de jardineira, mais caro do que o próprio trem.
Entardecia! Perguntei-lhe quando voltaríamos, mesmo que nosso romance não tivesse passado de caminhadas pela praia, ela com um lindíssimo short branco que lhe realçava as pernas e as coxas, acendendo mais ainda os meus desejos que ansiavam pelo seu Paraíso, um pouco mais acima. Sem se dar conta do que se passava comigo, Miss Smith respondeu-me que ficaria ainda uma semana na praia e que tinha gostado bastante de minha companhia, com o que nossa comemoração se terminava. Apesar do meu desespero, não comentei minha penúria financeira e o jeito foi voltar a pé, trajeto que me consumiu cerca de três horas de frustração peripatética.
─ Ó Jeová! Todo Poderoso! Por que colocais o Paraíso mais acima do que posso alcançar? ─ Ruminava pelo caminho de volta, como verdadeiro mantra.
Segundo me lembro, data desse episódio a consolidação de minhas dúvidas em relação a tudo que fosse religião. Era como se dissesse:
─ Miss Smith não está apaixonada por mim! Logo, Deus não existe.
Contei tudinho a Vó Dé, quando cheguei em casa.
─ E era bonita mesmo? ─ Perguntou-me.
─ Mais do que uma artista de cinema. ─ Respondi, fazendo justiça à Missionária.
─ E estava mesmo de shortinho, Tsé?
─ Tava! E com quase tudo de fora. Menos o Paraíso! ─ Respondi.
─ E a praia estava deserta?
─ Num havia viva alma, Vó! ─ Acrescentei.
─ É! Num custava nada! N’era Tsézinho? Isso é pra você num confiar mais nesses americanos! ─ Terminou Vó Dé.
Contudo, jamais saberemos como as coisas começam, inclusive o Paraíso da Missionária. E como uma senhora de uns trinta anos poderia se apaixonar por um garoto de 12 anos? Bobagem! Pensava. Com um pequeno esforço, conseguiria atingir os “alvos imortais” da missionária. Minha devoção à causa da Assembléia, portanto, ligava-se aos sonhos e desejos pelas pernas, coxas e o Paraíso de Miss Smith.
Jeová que me perdoasse, mas, nesse caso, ele não passava de mero coadjuvante.
No entanto, muito antes do meu “namoro” com a missionária, meu pai resolvera trocar o rio pelo mar e nos forçou a morar por uns tempos num mocambo perto da praia de Piedade.
Perto das palafitas, morava um afortunado crente que se dizia da esquerda nacionalista e uma das poucas amizades do meu pai adotivo. Seu Adelino era sargento do Exército e membro de carteirinha da Igreja Batista da Torre, nossa concorrente. Para a mudança, meu pai contou com a ajuda do militar amigo, transportando nossos móveis de quinta categoria num caminhão militar, um Doge novo recém-chegado da América para o esforço de guerra brasileiro.
Em suma, em vez de transportar nossas tropas para a Itália, o Doge o fazia com os irmãos e amigos do sargento, acrescentando um toque de ironia ao grande conflito.
Na época, sei lá que ano foi, a praia de Piedade abrigava uma gigantesca mata de cajus, com pequenas aldeias de pescadores, ribeirinhas ao mar, que se estendiam até a foz do rio Jaboatão no que, hoje, chama-se de Barra de Jangada.
As areias brancas avançavam até Prazeres, perto da formação barreiras, conjunto de pequenos morros argilosos que circundam a planície recifense. Os areais esbranquiçados eram vestígios de antigo leito marinho, o que nos proporcionava estranhos achados de conchas de mariscos a quilômetros do mar.
A floresta era típica da zona da mata litorânea do Nordeste, com uma orla de coqueiros, beirando a praia, e uma vegetação tropical composta de cajueiros, mangabeiras, pitangueiras, goiabeiras, pitombeiras, macaibeiras, maçarandubeiras e arbustos menos densos que, em geral, margeavam os pequenos riachos que cortavam a região.
Na mudança, como não havia ainda caminhos de barro, o caminhão atolou-se na areia fina e pouco firme, a cem metros da praia, o que não deixou de representar um grande espetáculo para as crianças. Foram mobilizados os moradores da área, mas o caminhão somente foi desenterrado quando, no outro dia, chegou um guincho do próprio Exército.
Não sei se o sargento Adelino foi punido pela expedição praieira, quase desastrosa, para a qual se utilizara de um bem público. O resultado, porém, além do desespero dos soldados, foi nossa família ter sido recebida com grande consideração pelos moradores locais, pensando que éramos pessoas importantes, ao ponto de o Exército, que se preparava para entrar em guerra, preocupar-se em transportar nossos cacarecos.
Outro resultado mais interessante, porém, foi a estadia de um mês do casal de filhos do sargento Adelino: Aidê, com 8 anos e Albérico, com 12. O menino vivia em companhia do meu irmão mais velho enquanto Aidê transitava em todas as faixas etárias, ora brincando de boneca com minhas irmãs mais velhas, ora fazendo companhia aos mais jovens em excursões pela praia e pela mata.
Possivelmente, aos 8 anos de idade (acho que era isso!), eu devo ter sido objeto dos carinhos maternais da pré-adolescente, embora um episódio houvesse marcado sua passagem na minha vida.
Aidê tinha o estranho hábito de me chamar para a casinha, que ficava no quintal, quando precisava se servir do vaso sanitário, na verdade, um penico de ágata que trouxemos na mudança. Ali, fechados, ela se exibia sem a calcinha, levantando a saia e me falando sobre suas diferenças com os meninos. De minha parte, não entendia coisa alguma, mas ficou-me na lembrança uma visão aguda de que Aidê terminava o seu tronco como as bonecas de minhas irmãs, isto é, um final liso, encurvado e sem nenhum penduricalho entre as pernas.
Curiosamente, Aidê, ou o seu fantasma, ainda aparece nos meus sonhos, em geral se levantando bruscamente de algum lugar e levantando a saia, mostrando-me algo indefinido, como se quisesse afirmar a continuidade do seu corpo.
Talvez, por mera coincidência, Marocas, a preferida de todas as minhas esposas, parece igualzinha!
Nosso mocambo na praia ficava no centro de um grande terreiro, com um enorme cajueiro na frente, de cajus vermelhos e doces, feito maçãs, enquanto atrás crescia outro, menor e de cajus amarelos, de forma cônica e não menos doces.
Havíamos alugado a moradia a D.Dulcinha, crente e amiga do Pastor, que precisava do dinheiro para fazer o enxoval da filha Carminha, cujo casamento ocorreria dali a meses com o pescador Henrique.
Tratava-se de uma casa de duas águas, coberta de palha de coqueiro, paredes de taipa com reboco pintado de branco e o chão de cimento, o que aliviava os temores de minha mãe sobre os barbeiros, então abundantes na área. Uma sala, três quartos, uma cozinha e o sanitário separado no quintal, parecido com uma pequena palhoça sem teto.
Além dos barbeiros e dos bichos-de-pé, havia outros perigos que precisavam ser evitados. Quando chegamos, a primeira coisa que Mãe Teca e Vó Dé fizeram foi estender lençóis logo abaixo do teto de palha e fixados às paredes pelas quatro extremidades, à semelhança de um forro de pano. Segundo elas, para que os escorpiões, também abundantes no local, não caíssem à noite sobre a gente.
Na primeira manhã, acordei assustado com movimentos de sombras escuras nos lençóis. Logo depois, Vô Dica, cuidadosamente, recolheu uma meia dúzia de escorpiões que caíram na armadilha, durante à noite. Pela manhã, Vó Dé os torrava no forno à lenha pra servir de entrada para nosso almoço.
Até hoje, adoro escorpião torrado na manteiga! Uma delícia!
Nossos tempos em Piedade foram ótimos. Pra passar o tempo e escapar dos beliscões de meu pai adotivo, perdia-me na floresta de propósito, saboreando cajus e mangabas. Às vezes, tinha que subir num pé de árvore para retomar o caminho até o riacho de águas cristalinas, onde pescávamos. Hoje o nosso riachinho se transformou no infecto “canal do Setúbal”.
Mas, o Paraíso praieiro durou pouco!